Estava elle dizendo missa com a severidade habitual e até n’aquelle dia

não fôra assaltado das criminosas distracções. Ao voltar-se, porém, no

altar para abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido por dous

olhos cravados n’elle, olhos tão grandes, languidos e cheios de fervor

que a vista se lhe turvou. Desde aquelle momento não soube mais o que

fazia.

Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração e tropego desceu os

degráos do altar. Nem sequer se ajoelhou como despedida ao lugar em

que havia sacrificado; nem sequer podia orar para affastar do espirito

vacillante aquella fascinadora visão.

Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao adro da igreja.

Levantava-se então a possuidora daquelles olhos perigosos.

Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas de sua belleza ao

sopro gélido da prostituição.

O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror. Pedio logo

confissão a um velho sacerdote e aos pés d’elle abrio o coração macerado.

Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou os padecimentos de sua

alma timorata; as duvidas que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que

travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, de fé viva, de

convicção, e desfeito em lagrimas revelou a sua ultima e grave macula,

que parecia aos seus olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o,

tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia fugir.

A querer dar consolo áquelle espirito malferido e podel-o fortificar,

fôra necessario se identificar com elle para então de sangue frio arcar

com cada um de seus terrores e em cada angustia levar com delicadeza o

balsamo do bom conselho.

O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse tacto, a intuição

do argumento amoroso que se insinua e não se impõe. A sua pratica foi

dialectica e não convincente; demais elle pareceo não dar a devida

importancia a todos aquelles factos intimos, e tratou-os senão como

abusões, pelo menos como trerores de uma consciencia exageradamente

meticulosa.

O padre Monte levantou-se do confessionario ainda mais afflicto. Passou

uma noite horrivel, ora entregue aos remorsos cruentos que a sua

imaginação alimentára, ora possuido do influxo demoniaco que lhe soprava

ao ouvido o peccado com todos os seus gozos. Então via distinctamente a

bella Samaritana cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião com

poder sobrenatural.

O seu passado de pureza levantava-se todo para protestar contra essa

tentação, mas não havia resistir: todos os musculos de seu corpo

estremecião e a mente em fogo parecia um volcão.

Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a noute estava sombria.

O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo em febre.

No momento porém de pôr a mão sobre a chave e empurrar a porta, que para

elle ia abrir-se no caminho do crime, sentio as pernas lhe faltarem e

cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.

Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu anjo da guarda, que já não

podia vencer o espirito das trevas.

No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução heroica.

O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a parochia das Dôres do Rio

Verde, sertão pouco povoado e ao sul daquella provincia tão bem dotada

pela natureza, quão mal aproveitada pelos homens.

Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade a conseguio.

—No deserto, pensava o padre, heide domar esses movimentos revoltos.

Ficarei como a rocha que se não vive, pelo menos não sente.

Justamente estava a partir uma tropa carregada de sal com destino

á capital de Goyaz. Monte sahio de S. Paulo por uma tarde amena e

disse-lhe o adeos ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro de

Nossa Senhora do Ó.

Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica a 2 leguas da cidade

e assenta n’uma cumiada d’onde se descortinão vastos horisontes. Para o

sul avistão-se as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da

antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos accidentados, incultos

e que parecem o portico do deserto.

O padre Monte olhou largo tempo para as bandas da cidade, e os seus olhos

se arrazarão de lagrimas que ainda cahião como que inconscientes, quando

elle ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que leva a Campinas.

A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto occidental de Minas e

por parte de Goyaz, servio-lhe de agradavel diversão e pouco e pouco foi

incutindo em seu espirito uma tranquillidade que desde muitos annos já

não conhecia.

As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma variedade extraordinaria.

Ora é o cerrote de Matto-Grosso d’onde a vista goza uma das mais lindas

paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar de pousada. Aqui

é o campo das Cruzes, logo ao sahir de Mogiguassú, como que destinado

pela natureza para uma gigantesca cidade, tão plano e vasto é elle; alli

são as aguas puras e borbulhantes dos ribeirões; mais diante fica a

villa da Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama miuda e sempre

verde; durante leguas inteiras é a vista de cerrados ennegrecidos pelo

fogo, ou então de campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos

encachoeirados e crystallinos.

Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se a cidade da Franca

do Imperador, tão celebre outr’or pelos seus crimes e disturbios. O

seu aspecto de longe é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada

perfeitamente nivelada de uma elevada collina, cujas fraldas vem morrer

em campo limpo. A sopé corre um ribeirão, e as casas parecem encravadas

em densa matta de laranjaes e bananeiras.

Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo, riscado pelo rio Grande

que já ahi vai tomando apparencia do imponente Paraná.

Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão sertão da Farinha

Podre e que hoje constitue as comarcas do Prata e Paraná: um angulo

agudo, cujos lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi na linha

bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de altos e baixos, regada,

em todos os seus pontos, de agua nunca turvada, a qual brota de um chão

ferreo e poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua Direita,

levantão-se então nuvens de pó amarello que se agarra a todos os objectos

e dá uma côr nova á camisa já matizada e barrenta do tropeiro.

Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos: a vegetação é outra.

Amiudão-se os grupos de magestosos boritys, essas bellas e melancolicas

palmeiras que desde então acompanhão o viajante até o fundo de Matto

Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay, palmeiras que, uma

vez vistas, não podem ser confundidas com alguma outra e que deixão, no

espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma verdadeira saudade.

A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que justifica o seu

nome indigena—largo e claro.—É largo e claro no estado normal; aguas

espraiadas e limpidas; aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas:

é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba as margens que se

erguem a muitas braças acima do nivel.

Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas arterias collossaes, o

Araguaya e o Tocantins, como se fôra o coração do Brasil; mas coração

pelo amor e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza de

aspirações, pela cordura e sinceridade, não pela força que não tem, nem

póde dar ao corpo todo.

A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão, diamantes, pedras

preciosas, capazes de offuscar os thesouros da Persia e da India; possue

mineraes riquissimos que alimentarião industrias possantes, campos para

toda a especie de actividade humana, e entretanto é pobre, é pauperrima,

não como o avaro que morre de fome acocorado sobre os seus milhões, mas

como essas intelligencias ricas que nada produzem porque para ellas nunca

chegou a cultura.

Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é só no futuro, e ninguem

poderá ainda dizer quando hade raiar o dia em que um começo de realidade

possa vir dar mais alento á esperança.

Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados porque os seus

esforços, quando nada consigão, serão um legado precioso que, augmentado

pelos annos, rasgará, por entre todas as difficuldades das distancias, da

solidão, da má vontade, do torpor e da descrença, caminho á prosperidade

daquellas opulentissimas e incultas zonas!

A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa princeza da fabula que

devia dormir seculos inteiros até que do fatidico somno a viessem acordar

os emissarios de um genio bondadoso e amigo.

Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O sybilar da locomotiva

e a letra telegraphica sacudirão a bella adormecida que poderá de prompto

recompensar a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis.

Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado.

As suas posses são pequenas; nem sequer tira de si com que cobrir as mais

urgentes despezas, mas em compensação guarda no intimo esses thesouros

de hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já vão se tornando

raros.

Depois de viagem sempre agradavel mas demorada, o padre Monte chegou á

capital da provincia e fez, um mez depois, a sua entrada na villa das

Dôres do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia.

Nos primeiros dias de installação, passou o tempo em inspecções e

passeios. O processo de occupação era breve e limitados os pontos de

recreio.

A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro em cujo alto está a

igreja, consta de uma rua unica e tortuosa, larga aqui, estreita adiante

e com casinholas cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de

telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta se não cahisse de

velha, annunciando ser ahi a camara municipal, mas está tão esburacada e

suja que ninguem lhe daria outra denominação que não a de pardieiro.

Estrada para passeio só ha a geral; fita larga barreada ou areenta que

vai se desdobrando por sobre campos quasi uniformes em seus accidentes.

Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir desde então de morada,

e acalmada aquella agitação que acompanha todo o estabelecimento novo,

sentio-se o padre Monte tomado de uma immensa melancolia.

Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha pouco agradaveis. Não era

a lembrança daquella mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma

a uma as paginas do innocente segredo que não lhe sahíra do peito senão

para cahir no ouvido do confessor.

Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o peso da vida, de uma vida

que lhe parecia sem mira e por demais longa.

Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os mais restrictos

possivel: dizer missa aos domingos, baptisar raras vezes, casar ainda

menos, tudo n’uma igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em

ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro.

Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se pela amenidade

de costumes e uniformidade de habitos; mas, uma vez ouvida a missa do

domingo, não se occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô,

havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem lá ião, tanto mais

que era um ponto de reunião para trocarem algumas palavras uns com os

outros e assim romper-se a monotonia das semanas.

Um outro sacerdote mais dominador do que o padre Monte, ou mais

ambicioso, teria procurado reagir contra essa apathia espiritual,

incutindo nos seus freguezes algum fervor, reconstruindo o templo como

podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no seio das familias,

chamando promptamente as crianças ao baptismo, fazendo viagens em torno

para prégar e avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando

o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua exigencia e energia. Se

alguma cousa, porém, faltava ao novo vigario era justamente a energia.

Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem o interior do

Brasil: é pela violencia com que sacodem as naturezas apathicas do sertão

e actuão sobre as imaginações.

Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma cousa naquelle

piedoso sentido, mas desanimou logo. Era preciso travar lucta, e elle

não tinha bastante firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi

indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás superstições que

abafavão-lhe a religião como a má herva tira o alento e vida á planta

benefica, mas descurada.

O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão e que logo

presentio lhe damnificassem o proprio espirito, já por si inerte.

Nas primeiras missas que celebrou procurou na linguagem a mais singela

explicar o Evangelho, mas notou no seu auditorio, desacostumado ás

praticas, certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção. Ninguem

sahio de seu lugar: todos tinhão os olhos postos no pregador, mas não

precisava ser observador fino para reconhecer que, se alli estavão

corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias ao que lhes era

ensinado.

A palavra do vigario não echoava; não ameaçava; não suscitava remorsos;

não penetrava no intimo das consciencias como o ferro do cirurgião na

carne viva do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e torpezas;

não profligava; não mostrava o Creador como um Deos carrancudo e

vingador; por isso ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se...

Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem virulenta e

estropeada estivesse fallando!... Todos ficarião aterrados, cabisbaixos,

possuidos de suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!...

Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado, saberia de

todos os mexericos para, armado do poder da bisbilhotice, rasgar, como

se diz vulgarmente, o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir

os peccadores com allusões tão directas a uma determinada pessoa que

equivaleria á sua exposição em pelourinho.

Para isso não servia de certo o padre Monte. Além da natural altivez de

sentimento que o arredava de intrometter-se no jogo calunioso de aldêa,

não poderia nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas, para assim

grangear a attenção dos que o ouvião e dominar o seu rebanho por meio do

terror.

Tambem as suas praticas não erão seguidas senão por consideração á

cathegoria official de quem as fazia.

Esta certeza tinha elle.

D’ahi um desanimo immenso e, alguns domingos depois da sua chegada, a

cessação completa de explicação do Evangelho no meio da missa. Para

desencargo de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar, e

notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão ouvir, acocoradas em

cantos e com ar de estupida contemplação. O resto dos freguezes calculára

pouco mais ou menos o momento em que entrava a missa para então ir ter á

igreja.

—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se aos seus proprios

olhos, fazer milagres, tocar-se esta gente insensivel pelo sobrenatural

e, traspassando a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo divino

até os seus corações.

Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao desacoroçoado

sacerdote; era a força de vontade, essa alavanca inquebrantavel que

produz milagres espantosos.

Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava nem podia perturbar a

monotonia da vida que se vivia na villa das Aboboras.

O vigario cada vez mais se desapegára das suas ovelhas que, respeitando-o

sinceramente, nunca o procuravão comtudo, nem mostravão ter grande

necessidade de sua presença.

—O nosso padre é um santo homem, dizião na villa, mas é um exquisitão.

Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos vastos em torno.

Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente para aquellas

extensões, e sem presentir, era sorprehendido pela escuridão! Havia dias

em que, á tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se pela

campina alongada, se esbatião umas nas outras até se fundirem todas na

luz crepuscular.

E sempre a mesma cousa!

Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça das queimadas, então subia

de ponto a tristeza do painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar

incinerado uniformava todos os aspectos, até que de repente cahia a noite.

Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel voltava o vigario para a

modesta vivenda e á luz de uma vela de sebo lia o seu breviario.

Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com um coachar sonóro

formavam monotona orchestra.

—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude não é a atonia. A

virtude é a resistencia ao mal que solicita. Aqui nada me instiga, e não

sei desempenhar o meu dever. Sou bom sem merecimento e inutilmente.

Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja permitisse ao padre o

casamento, não teria elle uma familia regular, em cujo seio se cultivasse

o respeito á religião e que serviria de norma para as outras menos bem

dotadas de intelligencia e sentimento?

Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente naquelles

logares, em que o isolamento faz medrar com tanta força o egoismo, maior

seria o abandono dos interesses de todos em prol da commodidade da

familia. Elle não seria mais do que um funccionario publico que teria um

subsidio mensal para cumprir um determinado exercicio.

Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas o padre

desappareceria. O pastor teria que obedecer á imposição da natureza,

olhando mais para umas ovelhas do que para todo o resto do rebanho.

Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma agitação, esse desgosto

intimo servião-lhe de castigo moral pelo pouco que conseguia.

Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de caracter do padre

Monte, muito livre de culpa andava elle.

O deserto como que lhe pesava nos hombros, e, sem molestia physica,

podia-se o considerar gravemente doente.

Uma nostalgia _sui generis_ o ralava noite e dia.

Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os sabia de

cór e salteado e nos sermões do padre Antonio Vieira, alguns volumes

desirmanados, contára até as letras de cada lauda, o que anotára

cuidadosamente no alto das paginas.

Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio Verde—teve a velleidade de

tratar da sua remoção para outra parochia.

Esta intenção o animou por algumas horas, mas logo depois veio a reacção.

Para que?

Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de torpôr que impedira

o choque da duvida, obstára á invasão talvez da descrença? Não havia

conseguido o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que tanto o

assustára outr’ora?

Em lugar de pedir transferencia, escreveu para Goyaz, remettendo a

relação de uns livros que o seu correspondente deveria mandar comprar no

Rio de Janeiro.

Nunca lh’os enviarão; entretanto esperar por elles tornou-se para o bom

do vigario uma causa de distracção.

Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia dever-lhe trazer

a noticia da proxima chegada de sua encommenda, mas se é difficil levar

livros á Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde!

O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente possivel, a satisfação de

seu innocente desejo.

Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo.

—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a meio o chapéo e coçando a

gaforina, saberá Vossa Senhoria que tenho na minha carga uns dous pacótes

que deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá. Não achei na cidade

o cujo e não tendo onde deixa-los, vim os trazendo _até acá_. Mas o trem

peza e fiz tenção de pincha-los na _beiradinha_ da estrada, se alguem não

quizer ficar com eles...

—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o senhor que devia receber

essa carga?

—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio de Janeiro, nhor-sim,

outros que morreu.

—E o que contem as taes caixas?

—Parece que são livros da gente ler... eu cá não sei com segurança.

O vigário corou de emoção e com alguma pressa disse:

—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei... E depois, como que

fazendo um esforço penoso:

—Mas não será melhor que você faça a entrega a quem enviou a encommenda?

—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi a carga que vinha de Uberaba

trazida por um tropeiro; _ansim_ ninguem poderá acertar d’onde sahiu da

_primeira vez_.

—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, eu acommodarei

aqueles caixotes e escreverei para Goyaz, afim que se annuncie no

_Correio Official_ o que acontece.

—Isto fica a seu cuidado.

Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que faziam a carga de um

animal. Por cima delles estava escripto a palavra livros, com endereço a

um senhor Estulano da Silva, em Cuyabá.

—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes no chão, que Vossa

Senhoria mande abrir este _trem_. O cupim póde ter dado nelle: dizem que

é muito _caroavel_ do papel escrevinhado na machina. Eu não entendo disso.

O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. Praticando assim,

suppunha mais desculpaveis os projectos que intimamente affagava.

Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto a contemplar

aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem poderia pensar. Abri-los ou

não, tal era o problema que se agitava em sua mente, ponto controverso

discutido no fôro da consciencia com mais minucia e argumentos pró e

contra, do que qualquer questão theologica nas luctas da escolástica.

Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos caixotes enigmaticos

com o queixo apoiado em uma das mãos, quando viu de dentro de um delles

sahir... um cupim!

Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um tèrmes causou tanto abalo.

O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação que pouco e pouco

foi se transmudando em quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o

argumento Achilles, uma razão irrespondivel para quanto antes levantar os

sellos que guardavam o deposito e salval-o de perda infallivel.

No momento do vigario dar a primeira martellada para despregar o tampo

do caixote, um pensamento sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins

houvessem já tudo devorado!

Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos maravilhados do padre

uma boa porção de livros, uns grossos, outros finos, uns encadernados,

outros em brochura.

Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente e, com

verdadeiros affagos, levando-os para cima de uma mesa, onde os collocou

verticalmente.

Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem duvida alguma,

proceder a um simples reconhecimento e providencialmente servira para

acabar com as dolorosas vacillações do vigario.

Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite do que nunca, que

o padre Monte passou revista ás obras. Havia dous volumes grossos: D.

Quixote de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de Alexandre Dumas

em portuguez; varios folhetos, uma historia das Missões na India e China,

e Os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles.

Apezar de alguma difficuldade em comprehender a principio correntemente o

francez, naquella mesma noite ficou encetada a obra prima de Cervantes.

O padre Monte nunca havia lido romances; por isso semelhante livro lhe

pareceu extraordinario. Aquelles episodios multiplos e tão variados

quão curiosos, aquelle estylo simples mas valente, aquelles typos de D.

Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas tão philosophicos e

profundos na essencia, tudo o encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava

de um modo desconhecido.

Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca mais bellos thesouros

lhe terião deslumbrado as vistas.

E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas sonoras que echoavão

no seu quarto, deshabituado de semelhantes expansões!

O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava o conceito de Philippe

IV.

Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! Pela magia de sua

penna, quantos ainda poderão sorrir, quantos por momentos esquecérão as

preocupações e os desgostos que os assaltavão!

O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra por letra, para assim

dizer. Fez como o gastronomo que beberrica um saboroso liquor e na

lentidão com que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre.

D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro inseparavel durante

os passeios; o consolador daquellas afflicções d’outr’ora quando por

acaso querião voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia da solidão.

Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do destemido Mosqueteiro.

Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado pela imaginação

cambiante de Dumas e devorou paginas com tanta precipitação que era ás

vezes obrigado a tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.

Historias Brazileiras · 第 7 / 11 段