—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito deve estar de volta!...

Como é que não appareceo por cá?

—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac para Miranda pelo

Lalima. Fazia V. S. na _cidade_ e foi para lá em rumo certo.

—Então de Nioac ha outro caminho que não este?

—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas mais _arriba_. Ahi ha uma

estrada que vai de parelha com o rio Miranda.

—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar á minha espera. É

preciso que eu chegue até a villa. Amanhã.... talvez....

No dia seguinte o projecto de partida não se realisou.

—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. Você é quem seguirá

para Miranda montado no meu animal. Entenda-se com o Sr. capitão,

diga-lhe que estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada até cá.

Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos.

O camarada, á noutinha, preparou uma passóca para a viagem.

—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê vendo-o occupado n’aquelle

mister.

—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo até a _cidade_.

A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a mesma pergunta e ouvio a

mesma resposta.

Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava de tristeza e um

presentimento doloroso agitava-lhe a alma.

Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita agitação, debalde foi por

vezes pedir ás agoas do corrego refrigerio para o calor e o mal estar que

não lhe permittião quietação.

Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o apparecimento matutino de

Julio Freitas a cavallo, acompanhado de um morador da villa.

Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.

—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido n’este lindo retiro e os

outros com cuidados de sua pessoinha!

Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.

—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi uma semana, fiquei pasmo

de não encontrar a você. Pedi noticias suas, não m’as souberão dar....

Então suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos kinikináos e vim

em pessoa arrancal-o, morto ou vivo, de seus estudos anthropologicos.....

E as febres?

—Ha muito que já se forão....

—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado com expansão. Que

soberbos boritys! Você é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos

batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, sua senhoria, deitado

á sombra dos taquarussús, deixava o tempo correr mansamente como as aguas

d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que diz, Sr. João Faustino?

Ah! deixe lhe dar o conhecimento d’este amigo de Miranda. É um morador

da villa, pessoa que estimo muito e que conheço desde Cuyabá.

Alberto apertou a mão do apresentado, homem de meia idade, rosto moreno,

physionomia amena e franca.

—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me até cá, porque vem

contractar uns indios para irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um

optimo companheiro para a folia e para o perigo, homem com quem se póde

contar.

Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu amigo e a João

Faustino, estes não poderão occultar a admiração que lhes causava a

venustade da india.

—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia voz. Palavra de honra, Alberto

teve faro.

—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê em lingua chané que elle

fallava com perfeição.

—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde que estou aqui, os

_paratudos_[13] já derão flôr cinco vezes.

Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, homenagem inequivoca

á sua formosura, por seu turno recebeo um choque immenso. De momento

percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar o ente a quem ella prezava

n’este mundo só, acima de tudo.

Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida ainda possivel,

qualquer esperança que podesse affagar, fugio-lhe para logo do espirito.

—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida tem sido um paraiso....

—Passei bem...

—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. N’estes dias devemos

todos partir de Miranda. Não sei se você quer ficar.... Ah! a proposito,

trago-lhe uma carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... Não;

está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso chegou de Cuyabá, de modo

que a data não póde ser muito antiga.

Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e uma nuvem correo-lhe

pelo rosto.

—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios na Côrte. O banqueiro

em que tenho algum dinheiro está, pelo que me escrevem, um tanto

abalado...

—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é de brinquedo! A sua

presença é indispensavel e quanto antes...

—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso partir.

Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro d’alma parecia-lhe

que a sua hora de morrer vinha chegando.

Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, confessou a Julio

Freitas e a João Faustino que sentia bastante desgosto, quasi remorsos,

em deixar Ierecê. Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem

abandonal-a de chofre...

—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, você não póde ficar aqui

anniquilado!... Fôra quasi um crime!...

—De certo, porém...

—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar a resolução é que é

máo...

—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se que os indios esquecem

depressa. Ierecê poderá ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois

consolar-se-ha... é...

—É a lei universal, concluio philosophicamente Julio Freitas.

Alberto nada replicou.

—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem que olhasse para

esta pobre creatura, lhe désse de vez em quando alguma cousa para a sua

subsistencia...

—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. Ninguem melhor do que

elle se incumbirá de tudo...

—E com a maior satisfação, confirmou o outro. Estou completamente ao seu

dispor para tudo quanto fôr do seu serviço....

—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito os seus offerecimentos

sinceros... Sobre o mais, conversaremos com vagar em Miranda.

—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto amanhã para a villa.

No fim de poucos dias parte de lá o vapor, e não podemos perder uma

occasião d’essas...

—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu ficarei mais uns dias, e

no domingo estarei em Miranda.

—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.

—Infallivelmente...

—Veja se vai perder o vapor... depois não teria outro remedio senão

descer em _igarité_ para Corumbá... viagem vagarosa e massante....

—Não... eu partirei no _Alpha_, afiançou Alberto.

De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão.

Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas novidades, mas, quando

vio os visitantes partidos, olhou para Alberto com tamanha angustia,

tanta expressão que este ficou todo perturbado.

—Que tem você? perguntou elle.

—Nada, respondeu a india...

—Você está doente?

—O corpo não está, mas isto está ficando...

E apontou para o coração, accrescentando.

—E para sempre.

Depois tornou-se silenciosa.

Á hora da refeição recusou comer e com a approximação da tarde tornou-se

muito agitada. Ia e vinha do corrego para a choupana a passo lento e com

o ar de completa distracção. Debalde Alberto procurou gracejar com ella:

nem se quer um sorriso melancolico desdobrou-lhe os labios contrahidos.

Tinha os olhos seccos e brilhantes.

A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais augmentou-lhe o

desassocego: por vezes sahio para fóra da palhoça e respirou sofrega o ar

frio da madrugada.

Havia um luar tristonho de mingoante: o valle estava frôxamente

illuminado e ao longe ouvião-se os _quero-queros_ que gritavão nas matas

do Aquidauána.

O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A certeza de que uma grande

desgraça estava imminente sobre a sua cabeça a acabrunhava.

Voltou para a choupana e parou perto da rede em que dormia Alberto.

Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou levemente no hombro do

moço e acordou-o.

—Então, disse ella, _unái_[14] vai-se embóra?

Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio da noute, e entretanto

quanto esforço assim mesmo lhe custára essa pergunta!

—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto sentando-se na rede.

—Forão aquelles homens máos que vierão buscar _unái_.

—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio.

—E que será de Ierecê?

Alberto não poude de prompto acudir á interrogação.

Estava vacillante.

—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se lembrar de mim. Deixo

ordem a João Faustino para que o seu avô tenha dinheiro e roupa....

—E _unái_, perguntou ella, parando em cada palavra, nunca mais hade

voltar?

—Volto....

Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente.

De manhã a sua physionomia estava toda alterada. A mão pesada da dôr

havia pousado sobre o seu rosto e, tirando-lhe o colorido das faces,

traçára circulos rôxeados ao redor dos olhos.

Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e até ordens imperiosas

de Alberto, ella nada comeu. Acocorada em um canto estava sombria.

Parecia doente; teve um pouco de febre.

Como tal situação tornava-se penosa para Alberto, decidio elle partir

antes do dia em que pretendêra sahir do Hetagati.

Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte fazia-se de viagem.

O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto: pelo contrario

desejou-lhe toda a sorte de felicidades pelo regresso e cobrio-o de

bençãos quando soube que tudo quanto continha o rancho ao lado viria a

pertencer-lhe desde logo. Com a posse de duas redes, alguns cobertores,

espingardas, polvora e chumbo, pelles, facões, um par de tamancos e

varias notas de papel-moeda, julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de

riquezas inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente o maior

reconhecimento a quem se despedia por modo tão generoso.

Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto, que Morevi deixou-o

montar a cavallo.

Ierecê tinha se ausentado.

O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo, disse com os olhos um

adeos eterno áquelle recanto e fazendo um gesto amigavel ao velho, partio

á hora em que o sol ia quasi chegando ao pino.

Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral, quando n’uma das

voltas vio Ierecê mais adiante sentada n’um tronco de arvore cahida e á

sua espera.

Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr, mas não poude e

deixou que o cavalleiro se approximasse mais. Então chegou-se tremula

e, encostando a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel

apertando de encontro aos labios a mão do seu amado, ao passo que

lentamente lhe descia pelas faces uma lagrima, uma unica, mas de fogo que

devorava para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente de vulcão

a abrir sulco fundo e devastador.

—_Biónne_[15], disse-lhe o moço sinceramente commovido.

—_Pehehêvo_[16], respondeo ella, _pehehêvo_!

Levantou então os olhos e contemplou ainda uma vez aquelle que ia deixar

para nunca mais vêr; depois voltou as costas e com passo vagaroso tomou

rumo de sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora deserta....

deserta....

Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como india que era, o balsamo

das lagrimas, esse orvalho das almas malferidas.

Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous dias chegou á villa de

Miranda.

CAPITULO III

Julio Freitas se occupára activamente do regresso, e, como o vapor

_Alpha_ estivesse prompto para seguir viagem, veio a presença de Alberto

dispensar outra qualquer demora.

—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois de dar a João Faustino

as instrucções relativas ao valle do Hetagati.

A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, como se houvera praticado

uma acção má. Não era propriamente paixão o que sentia por aquella india,

mas uma immensa commiseração acompanhada de verdadeira amizade.

Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados da partida. Na

manhã seguinte o vapor levantava ferro.

Á tarde estava Alberto conversando com João Faustino á porta da casa

d’este, uma das raras cobertas de telha, na rua da Matriz, quando avistou

um velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se pelo caminho,

prostrados de fadiga.

Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de cansaço e de fraqueza.

Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e leval-a para o

interior da casa em que se achava foi o que fez Alberto com a maior

espontaneidade, sem hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores

que podessem o censurar.

O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se cahir pesadamente no

chão ao pé da porta.

Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão mudada, que não teve

animo. Ella tinha as faces encovadas e tremia de frio e emoção.

—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço querendo tomar sério conselho

n’aquella contingencia.

—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha mostra dedicar-lhe

uma affeição verdadeira, mas por isso ficará o Sr. retido n’estes

sertões? E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha passado por

transes d’esses, mulheres da mais alta sociedade e fortuna, quanto mais

estas infelizes que se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a

para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo e de continuo

vexame. Além d’isso os encantos de Ierecê que agora podem parecer

irresistiveis, perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados

que sejão com as bellezas que a arte e a civilisação fazem realçar. As

suas relações que aqui erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em

qualquer outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. Parta!

Escrever-lhe-hei de vez em quando, mostrando-lhe que cumpri exactamente

com todas as suas ordens.

Á noutinha a india comeo um pouco, depois de muito instada. O avô porém

precipitou-se sobre a comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos

aquelles dias passados.

A final chegou a hora da partida.

Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um olhar de cólera

concentrada para o navio que lhe roubava o amante.

Parecia, comtudo, calma.

Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção da gente que acudira a

vêr o embarque, occupava-se activamente de suas cargas; antes porém de

saltar na canoinha que o ia levar ao _Alpha_ já sobre rodas no meio do

rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito rapidamente mas com força e,

retendo a custo as lagrimas, depositou-a nos braços de Morevi.

Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha das selvas e da

inculta natureza desmaia, é que a dôr a esmagou com mão de ferro n’um

paroxismo horrivel; é que o seu coração estalou n’uma contracção de

agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou não chegada a hora de

sahir d’aquelle corpo para ir buscar outro mundo, outros destinos.

* * * * *

Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, Alberto Monteiro

recebeo da mala de Cuyabá uma carta extensa que, datada da villa de

Miranda, logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.

Era de João Faustino.

«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão infelizmente erroneas.

Ierecê, a bella virgem do Agaxi, já não existe.

«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade de chegar ao

Lauiad e como o desvio da estrada era insignificante, fiz uma visita ao

valle de Hetagati.

«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte d’aquella bella creatura.

Quando assomei á porta do seu _rancho_[17], ella deo um grito de jubilo

e, reconhecendo-me logo, fez gesto de querer levantar-se da rêde em que

estava deitada.

«Sua magreza era extrema.

«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella se mostrára, á sahida da

villa, tranquilla e resignada.

«—_Unái_ volta? perguntou-me ella com anciedade que me cortou o coração.

«Julgei de caridade mentir.

«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do Rio de Janeiro.

«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados labios, e os

seus olhos empanados ainda podérão fulgir.

«Depois não disse mais palavra.

«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê áquelle estado em tão

curto prazo. Contou-me então que desde a volta ao Hetagati, a sua neta

não quizéra ou não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. Uma

tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda mas continua lhe minava

as fontes da vida. Debalde, como feiticeiro, conferenciára elle com o

acauán; debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; debalde, como

medico, chupára o lugar em que batia o coração para ir cuspir n’uma cova

distante o terrivel mal—a nada cedêra a molestia mortal.

«—O _portuguez_, disse-me em voz baixa Morevi, levou a alma d’ella.

«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.

«Estava como que adormecida, arfando um pouco. De vez em quando parecia

querer sorrir.

«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, pedio agoa e expirou,

pronunciando em voz, mais e mais baixa, um nome que o senhor hade

conhecer.

«—Alber...to... Al...ber...to!

«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse ás expansões de dôr

tumultuosa como usa a gente de sua nação, de modo que aquelles uivos e

gritos selvaticos com que os chanés pranteão a morte dos parentes, não

perturbarão o socego do valle em que tanto havia soffrido um coração.

«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella bella mulher na rede

e enterrei-o no chão do rancho, conforme ella desejára e poucos dias

antes pedira ao seu avô.

«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.

«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo symbolo da religião

do Deos, cujos labios sagrados perdoarão a aquelles que havião durante a

vida amado muito.»

* * * * *

Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje a recordação do amor de

Ierecê ennuvia-lhe o espirito e constringe dolorosamente o seu coração.

FIM DE IERECÊ A GUANÁ

DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA

PROVERBIO EM 1 ACTO

PERSONAGENS

Manoel Ribeiro, capitalista.

D. Rita, mãe de

Isabel.

Antonio da Fonseca, tio de

Miguel Faria.

João de Siqueira.

Alfredo Rocha, primo de Isabel.

Ignacio Lemos, pae de

Alberto Lemos.

Um criado.

A scena passa-se no Rio de Janeiro.

Época—1871.

DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA

PROVERBIO

ACTO UNICO

SCENA I

Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, uma mesa com

tapete de gosto. Nos consolos jarras com flôres. Portas lateraes e ao

fundo.

MANOEL RIBEIRO, FONSECA.

RIBEIRO (_passeia de um lado para outro, ao passo que Fonseca está

sentado junto á mesa_).—É como lhe digo, meu amigo; tudo póde se

arranjar...

FONSECA.—Então não lhe desagrada a minha proposta?

RIBEIRO.—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a esperava... Combinei

certas cousas... vi em você uns ares. É que não sou nenhum palerma:

previ que breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, minha

mulher...

FONSECA.—Nós todos o conhecemos como homem sagaz.

RIBEIRO (_com simplicidade affectada_).—Sagacidade, não: alguma

penetração... e quer que lhe diga uma cousa? (_parando diante de Fonseca

que se levanta_) essa penetração não se desenvolveu como devêra por causa

da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia nascido para alguma

cousa de grande n’este mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim

de contas?

FONSECA (_com calor_).—Oh! meu amigo, capitalista e muito forte!... Que

se póde desejar mais?

RIBEIRO (_levantando os hombros_).—Qual!... E a gloria, Snr. Fonseca? A

gloria?

FONSECA (_com sorpreza_).—Que quer você com a gloria?

RIBEIRO (_apressadamente_).—Sim... ter um nome celebre, conhecido...

ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas...

vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado...

Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora,

n’este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que

tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro

cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em

cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha

solemne para oitocentos e cincoenta professores (_com muito fogo_)

hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é

viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse

simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu

nascera:... entretanto...

FONSECA.—Entretanto?

RIBEIRO.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação...

Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de

meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi

extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o

desgosto terião feito medrar como chamma devoradora...

FONSECA.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...

RIBEIRO (_com ar desabusado e puchando o beiço_).—Eu poeta?... Aos

cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já

com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o

poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das

estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima

das fogueiras da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, choramigador de

desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado

(_parando de repente e com satisfação_). Sinceramente agrada-me esta

descripção... fui feliz devéras. (_Mudando de tom_) Se o poeta fôr velho

então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha

inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as

delicias da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará da

salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente

o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No

juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não

troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo...

FONSECA.—De um Ribeiro... maganão!

RIBEIRO (_sorrindo-se meio resignado_).—Que quer você? Não tenho outro

meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não

estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez

nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos

do que muitos versos na cachola. (_Rindo-se, approxima-se de Fonseca a

piscar um olho_) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não

é? Diga com franqueza...

FONSECA.—De certo os encargos de familia...

RIBEIRO (_abanando a cabeça com ar fino_).—Não é só por isso!.. É tambem

por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz!

FONSECA (_com repentino enthusiasmo_).—Que actividade!

RIBEIRO.—Boa presença... bons cabellos...

FONSECA (_encarecendo_).—Dentes excellentes!

RIBEIRO.—É um moço que tem futuro...

FONSECA.—Calculista, meu amigo! Não dá um passo sem pensar; não

diz uma palavra (_faz com as mãos gesto de quem pesa_) sem pesal-a

cuidadosamente...

RIBEIRO (_com certa hesitação_).—Mas elle... me parece...

FONSECA (_com algum receio_).—O que?

RIBEIRO.—Prosaico de mais...

FONSECA (_arrebatado_).—Como prosaico! Diga realista... Um bom senso

pratico que espanta... não vê as cousas senão como ellas são. Nada ás

avéssas... nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da minha

escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum a gerencia de meus

bens, e tudo corre ás mil maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais

poupada... o genero começou a baixar e eu tinha os armazens abarrotados.

Assustei-me... Então... (_interrompe para assuar-se com estrondo_).

RIBEIRO (_com interesse_).—Então?

FONSECA.—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a comprar mais...

RIBEIRO.—Ó homem, era arriscado.

FONSECA (_com vivacidade e orgulho_).—Não era? Pois bem, dous dias

depois subia o café e ahi vendemos com furia... Graças ao menino ganhei

bastante. (_Com alguma ternura_) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um

casamentão... Palavra de honra é um casamento de mão cheia...

RIBEIRO.—Estou certo que minha filha ha de ser feliz...

FONSECA (_influindo-se pouco a pouco_).—Que duvida! Um noivo d’aquella

força no movimento da praça!... Um olho tão firme nas subidas e descidas

do café!... Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas, e

afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! Depois... poucos

filhos... Comprehende?... Não ha tempo.

RIBEIRO.—E isso é mais conforme á poesia...

FONSECA.—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões de fortuna...

Historias Brazileiras · 第 2 / 11 段