RIBEIRO.—É pena que o seu sobrinho não cultive (_parando nas palavras_)

alguma arte... Olhe, se eu fosse moço ensaiava o piano ou então a harpa

(_com gesto de quem dedilha_). É tão gracioso!

FONSECA (_meio admirado_).—Pois quer mais arte do que a que elle tem?

Quer um teclado mais difficil de conhecer do que seja a opinião dos

agiotas... do que o capricho dos homens da praça? Oh! se houver no

mundo outro noivo como elle, certamente não ha tres... Não, isto lhe

asseguro!... Muito brevemente elle terá de seu cento e cincoenta contos

de réis... vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... nem

gastador; sempre no meio termo...

RIBEIRO.—Creio que elle agrada tambem á minha mulher...

FONSECA.—Tenho toda a certeza. Não ha coração que lhe resista.

RIBEIRO.—E minha filha? Que pensará d’elle?

FONSECA (_com segurança_).—Não póde deixar de sympathisar muito com o meu

sobrinho...

RIBEIRO.—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe um album...

FONSECA.—Qual album!...

RIBEIRO.—Na sua posição não lhe ficava mal... Um moço, quasi um noivo,

entra em toda a parte com um album debaixo do braço e com versos de sua

lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás mulheres...

FONSECA.—Não duvido; mas um homem como o Miguel, falle com franqueza,

póde estar a namorar? Confessemos que é um periodo difficil esse em que a

gente sente necessidade de casar, procura uma noiva e tem que lhe fazer a

côrte. Quem tem algum tacto vai logo simplificando tudo... Não vê como o

Miguel sahe-se d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua dignidade?..

Estou certissimo que elle ama a sua filha como um louco, mas quanta

calma!... Hen? mal se percebe...

RIBEIRO.—Na verdade. Acho-o até frio de mais... Eu não quizéra levar o

casamento de minha filha, como se fôra um negocio commercial...

FONSECA.—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! Nada. É preciso que falle

o sentimento... E quer que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho

disse-me com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, hei de ter que

fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... Meça, Sr. Ribeiro, (_com

tom grave_) o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem e não é a

Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (_com ar funebre_) É á Europa!...

RIBEIRO.—Com effeito, se elle disse isso...

FONSECA (_com imposição_).—Disse e fal-o. É rapaz de resolução... Tambem

posso lhe afiançar: sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é capaz

de garatujar n’um instante resmas de papel, enchendo-as de versos...

RIBEIRO (_com ar de superioridade compassiva_).—Ah! isto fia-se mais

fino! E a inspiração?

FONSECA (_com resolução_).—Queira elle e veremos... Oh! que marido eu lhe

dou, Sr. Ribeiro...

RIBEIRO.—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, condição

indispensavel.

FONSECA.—É do que ninguem duvída... Elle entra n’esta casa com o pé

direito... Fará a felicidade de todos; a sua, a de sua mulher...

RIBEIRO.—Basta que faça a de Isabel... É tudo quanto lhe pediremos.

FONSECA.—Então, ao chegar sua senhora á sala, annuncia-se-lhe logo o

acontecimento, não é?

RIBEIRO (_com alguma pausa_).—Sim... sim... mas confesso a você que nunca

vi casamento com menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma

cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a gritarem... filhas a

chorar... noivos audazes...

FONSECA.—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... São cousas de outro

tempo... Ahi chega D. Rita...

SCENA II

RIBEIRO, FONSECA, D. RITA.

FONSECA (_dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe a

mão_).—Permitta, comadre, que eu a cumprimente...

D. RITA (_estende-lhe a mão_).—Oh! Sr. Fonseca...

FONSECA (_continuando no que ia dizendo_).—que a cumprimente n’este

momento e de um modo especial... com mais effusão do que nunca...

D. RITA.—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto a razão d’esta

effusão...

FONSECA.—O seo marido que lh’o diga...

D. RITA.—Meu marido?... Em todo o caso a noticia é boa, não é?

FONSECA.—Para mim, excellente...

D. RITA.—E hade agradar-me?

FONSECA.—Estou que sim...

D. RITA (_meio risonha_).—Então adivinho...

FONSECA.—É...

D. RITA.—O pedido em casamento de minha filha...

RIBEIRO (_intervindo_).—É verdade. O nosso amigo e compadre, o Sr.

Fonseca veio cá, e sem gravata nem luvas brancas, sem ceremonias, nem

concertar a garganta, ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de Isabel...

D. RITA (_interrompendo-o_).—E você lhe respondeo...

RIBEIRO.—O que você responderia.

FONSECA (_voltando-se para D. Rita_).—Então?

D. RITA (_sem hesitação e com simplicidade_).—Eu diria que sim! A que

devemos attender senão á felicidade de nossa Isabel?...

FONSECA.—Não soffre duvida...

D. RITA.—E quem poderá tornal-a feliz?

FONSECA (_para Ribeiro_).—Sim, quem?

RIBEIRO.—Quem?

OS TRES (_a um tempo_).—Miguel Faria!...

D. RITA.—Tão amavel moço...

RIBEIRO.—Boa figura...

FONSECA (_com ar de importancia_).—E apatacado...

D. RITA.—Um cavalheiro perfeito...

RIBEIRO.—Previdente...

FONSECA.—Em cafés não ha outro igual...

RIBEIRO.—Então ha uma só voz a seu respeito, não é?... Tudo são rosas...

D. RITA.—Accordo perfeito...

RIBEIRO.—Embora. Eu desejára algum motivo (_hesitando_) de

contrariedade... Estes casamentos assim...

FONSECA (_com alguma impaciencia_).—Ora, Sr. Ribeiro, sempre aquellas

idéas?... (_voltando-se para D. Rita_).—Não entendo bem... O compadre

pretende que... casamentos em que haja opposições... são... não sei como

diga... mais poeticos... Paes a negarem, mães a gritarem!...

D. RITA (_offendida_).—Oh! Sr. Ribeiro!...

RIBEIRO (_com alguma vivacidade_).—Não: o meu pensamento não é este...

eu...

FONSECA (_interrompendo-o_).—Ora, venha cá... O senhor não foi tão

feliz com a sua mulher?... E para esse enlace não concorrerão todos as

circumstancias desejaveis?

RIBEIRO.—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, se...

D. RITA (_com indignação_).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!...

RIBEIRO (_com ar conciliador e fallando com volubilidade_).—Não

é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas,

essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria

eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando

voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (_com fogo_)

Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras,

fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me lembro, responde a mulher.»

«O signal para appareceres na janella era assim (_assovia baixinho e

prolongadamente_) Teu pae estava dormindo»...

D. RITA (_procurando interrompel-o_).—Que historias, Sr. Ribeiro!

RIBEIRO (_continuando_).—«Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma

escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu

pucho; elle rasga-se»...

D. RITA.—Mas isto é até indecente...

FONSECA.—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...

D. RITA (_rindo-se_).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de

reis!...

RIBEIRO (_pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si_).—Não

o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse

estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não;

mas quanto á alma posso exclamar como Nero (_batem palmas na porta do

fundo.—Ribeiro muda de tom e alto_).—Quem é?... É sempre assim! Estava

com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (_Novas

palmas e fortes_) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre

(_caminhando para a porta_) entre pelo amor de Deos!

(_Alfredo Rocha entra_)

SCENA III

D. RITA, FONSECA, RIBEIRO E ROCHA.

RIBEIRO (_olha admirado para Rocha que mostra-se espantado_).—Com a

bréca... era você? Que diabo fazia a bater palmas na porta da sala de

visitas?... Porque não entrava?...

ROCHA (_cumprimentando a Fonseca e D. Rita com algum acanhamento_).—Sr.

Fonseca... minha tia...

D. RITA.—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...

ROCHA (_com sentimentalismo como que comprimido a custo_).—Oh! essas

palmas tem uma significação... sim, ellas têm...

RIBEIRO.—O certo é que vierão muito fóra de tempo... Cortarão-me o fio

de uma comparação (_voltando-se para Fonseca_) Que dizia eu, compadre?...

FONSECA.—Você dizia... espere...

RIBEIRO (_instando_).—Procure... procure...

FONSECA (_deitando os olhos de um lado e d’outro como quem procura no

chão alguma cousa_).—Nada acho...

RIBEIRO (_com um dedo na testa_).—Eu comparava-me... Qual!... Está

perdida... Adeos, idéa!... Malditas, malditas palmas!

FONSECA.—Console-se... fica para outra vez... ajudado pelo seu

sobrinho... Este, sim, é poeta!...

D. RITA.—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos versos...

ROCHA (_com alguma enfatuação_).—Oh! isto é bondade!...

RIBEIRO (_com tom dogmatico_).—Não, eu lhe digo com verdade, aquelle

seu livro tem cousas recommendaveis... aquella ode sobre o Amazonas...

aquella...

FONSECA (_interrompendo-o_).—Tambem foi acolhido com estrondo

(_voltando-se para Rocha_) O senhor deve ter ganho muito, não é?

ROCHA (_ironico e superior_).—Com a minha obra?... Qual! no Brazil não ha

quem compre livros... As letras vegetão...

RIBEIRO.—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser seu tio, julguei dever

comprar um exemplar... Não o quiz gratis, não só para animar a venda,

como para não dever favores...

FONSECA.—Fez muito bem... No seu caso assim procedia...

RIBEIRO (_com enfatuação_).—Fui ao livreiro e paguei logo tres

mil reis... Sinceramente achei caro... um livrinho fininho muito

entrelinhado, emfim era o preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu

dinheiro... E não me arrependo... Ha trechos que applaudi... Eu faria

talvez outra cousa... mais vasta, menos cortada... mas emfim cada qual

faz como póde e entende... Entretanto...

D. RITA (_interrompendo_).—Entretanto os senhores permittirão que eu vá

vêr porque não apparece Isabel... (_voltando-se para Fonseca_).—O senhor

janta comnosco...

FONSECA.—Já que é ordem...

D. RITA (_para Rocha_).—De certo você tambem...

ROCHA.—Com muito gosto...

D. RITA.—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... Talvez lá encontremos

a menina... Mostrar-lhes-hei umas lindas dhalias que me chegarão de

Petropolis... (_para Rocha_). Quer vir, Alfredo?

ROCHA.—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com o seu marido...

D. RITA.—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.

(_D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem pela porta da

esquerda_).

SCENA IV

RIBEIRO E ROCHA.

RIBEIRO.—Então que novidades ha? Olhe que tenho ainda que fazer

_toilette_ antes de ir para a mesa do jantar.

ROCHA (_um pouco sombrio_).—Preciso lhe fallar... e agora mesmo!...

RIBEIRO.—Cousa urgente?...

ROCHA.—Urgentissima!

RIBEIRO.—Em todo o caso abrevie quanto puder... Tenho que apparecer hoje

com algum esmero mais... Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?

ROCHA.—Gravissima...

RIBEIRO.—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou todo ouvidos...

(_Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e indica outra ao lado_).

RIBEIRO.—Comece pois...

ROCHA (_meio acanhado_).—Meu tio... convem recorrer... á sua

benevolencia... antes de encetar esta conversa...

RIBEIRO (_olhando para Rocha com alguma admiração_).—Você está

perturbado... Que tem?

ROCHA (_no mesmo tom_).—Tambem o favor que lhe venho... pedir... é tão

grande... tão grande...

RIBEIRO (_irresoluto_).—Di...nheiro?

ROCHA (_com movimento energico de denegação_).—Não, Snr.!

RIBEIRO (_mais expansivo_).—Então que é?

ROCHA (_hesitando_).—É...

RIBEIRO (_com curiosidade e chegando a cadeira_).—É?...

ROCHA (_tomando subita resolução e ás pressas_).—É a mão de sua filha

Isabel, a quem amo desde muitos annos como um louco, a quem adoro,

idolatro em segredo, dia e noute, a quem...

RIBEIRO (_affastando um pouco a cadeira e tossindo_).—Hum! hum!

ROCHA (_com anciedade_).—Então?... que diz?

RIBEIRO (_encolhendo de vagar os hombros_).—Homem, eu não digo nada.

ROCHA (_apressadamente_).—Então consente?... Oh! meu Deus!

RIBEIRO.—Eu não disse isso...

ROCHA (_abatido_).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de...

RIBEIRO.—Tambem não disse isso...

ROCHA.—Então que foi que disse?...

RIBEIRO.—Nada! (_tomando attitude de quem vai orar_) Alfredo, conversemos

um pouco... Você é meu sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração

devida não só a meu parente, como a um homem de intelligencia e

conceituado...

ROCHA (_interrompendo-o_).—Mas...

RIBEIRO (_gravemente_).—Deixe-me fallar... As palavras que vou lhe

dirigir são conselhos de quem, prezando-o como parente, preza tambem a

gloria de sua familia. Você pede a mão de minha filha, não é?

ROCHA.—É verdade... aspiro...

RIBEIRO (_com gesto de imposição_).—Pois faz uma furiosa asneira...

ROCHA (_levantando-se admirado_).—Como assim?...

RIBEIRO (_levantando-se tambem_).—Em duas palavras lhe explico tudo. Você

(_pausado e com voz muito grave_) não deve casar! A sua vocação não lhe

permitte senão o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! Que

quer dizer um poeta casado, em riscos de ter duzia e meia de filhos, ao

lado de uma mulher que vai envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada,

descabellada?! Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá inspiração que

resista a causas tão deleterias?...

ROCHA.—Meu tio...

RIBEIRO (_com volubilidade_).—Não me interrompa... Sei que hei de levar

a convicção á sua alma... Supponha os grandes poetas presos pelas cadêas

do matrimonio. Que teriamos em poesia?... Nada... nada... mil milhões de

vezes nada!...

ROCHA (_enfiado_).—O senhor quer caçoar...

RIBEIRO (_enthusiasmando-se_).—Não consinto que me interrompa... Que fôra

de Dante, de Petrarca, de Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem

prosaicamente desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem tido que

cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, que leval-os a passeio,

á escola!... Meus santos do paraiso, que pensões e que trabalhos!...

Puramente a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão? Carpirão

só os males da alma, d’essa alma que encheu os espaços com clarões

inextinguiveis!...

ROCHA.—Mas... eu amo...

RIBEIRO (_levantando a voz_).—Perfeitamente! É o que todos nós queremos.

Contrariamos o seu sentimento, machucamos o seu amor proprio, e d’ahi

resultaráõ versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos

arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, como os faz quem é

poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, soffrerá muito, não ha duvida;

as insomnias o perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite; terá

talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de todo esse padecer

atroz!...

ROCHA (_um tanto sombrio_).—Não posso crêr que o senhor queira se

divertir á minha custa...

RIBEIRO (_muito serio_).—Juro que lhe fallo com toda a sinceridade.

Fallo, como fallaria a um filho. Estas são as minhas idéas. Você tem

muito talento, todos o reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem

produzido senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... Simplesmente

porque é um moço serio, empregado publico, moderado nos seus gastos,

cauteloso e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde o fogo

sagrado da poesia alimentar-se em quem vive como o commum dos mortaes?!

Não, não de certo! O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de

anormal... direi quasi de infernal!...

ROCHA.—Ora, meu tio...

RIBEIRO.—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... deixe tudo, emprego,

bailes e theatros; caia na mais abjecta crapula (_Mudando repentinamente

de tom_) Não lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma simples

hypothese... (_Voltando ao primeiro tom_) frequente a taverna, desça á

mais completa miseria; seja, emfim, para resumir tudo em uma palavra,

seja um miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá

transfigurado... O máo vinho com que você se embriagar, a mulher perdida

que abraçar em publico, as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome

que lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo extranho, e,

no momento da maior degradação, o seu coração vibrará com uma energia

desconhecida... A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ...

eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o ha de vingar!...

ROCHA.—Não posso ouvil-o...

RIBEIRO.—Que póde fazer uma intelligencia volcanica comprimida por um

chapéo Chastel, sentindo os pés apertados em botins envernizados e os

dedos entalados em luvas de Jouvin, como você está agora?... Que martyrio

para a sua alma! E por cima quer casar?...

ROCHA.—Mas sua filha?...

RIBEIRO.—Minha filha? (_Com simplicidade_) Que tem? Você a accusará

perante os seculos... a levará ao tribunal da posteridade. Que thema,

hen? Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até eu sou capaz de

exploral-a com vantagem... porque tambem nasci com aspirações... mas

casárão-me cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, mas o estado

nunca me inspirou a menor idéa! Ora, eu mesmo, irei consentir que você

tambem se perca?

ROCHA.—Tudo quanto o senhor me disse não significa cousa alguma...

RIBEIRO.—Como assim?

ROCHA.—Não vejo uma razão...

RIBEIRO.—Uma razão?

ROCHA.—Sim... um motivo plausivel...

RIBEIRO (_pondo as mãos para traz e abanando de vagar a cabeça_).—Pois

elle existe e muito, muitissimo valioso...

ROCHA (_com anciedade_).—Qual é?

RIBEIRO.—A mão de Isabel já está dada...

ROCHA (_com explosão_).—Mas a quem?... A quem?

(_Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel Faria e Siqueira_).

RIBEIRO (_approximando-se de Rocha; á meia voz_).—O noivo é o Faria.

(_Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados_).

ROCHA (_chegando-se para a boca da scena; com muito abatimento_).—Meu

Deus, quanto verso perdido, quanta rima n’agoa!... E eu que tinha para

hoje um dythirambo! Lá se vai o dóte.

SCENA V

ROCHA, RIBEIRO, FARIA E SIQUEIRA.

RIBEIRO (_adiantando-se para Faria_).—Meu caro Sr. Faria, seja muito bem

vindo (_aperta-lhe as mãos_).

FARIA.—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que eu lhe apresente o meu

particular amigo Alves de Siqueira.

RIBEIRO (_apertando-lhe a mão_).—Conheço-o já de vista. Tenho muito

prazer em vêl-o em minha casa.

SIQUEIRA (_inclinando-se_).—A honra é para mim.

RIBEIRO.—Basta ser-me apresentado por quem é...

SIQUEIRA.—Isto me penhora muito; sei que a amizade de Faria me é

summamente lisongeira...

(_Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a frente_).

RIBEIRO.—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo Rocha?

FARIA (_com frieza e alguma sobranceria_).—Ainda não senhor; de nome...

vagamente... Creio que o senhor escreveu um livrinho...

RIBEIRO.—Justamente, um livro de poesias...

ROCHA. (_com ironia_).—Sim... um livrinho pequenino de versinhos...

RIBEIRO (_para Siqueira_).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; Sr. Siqueira, meu

sobrinho (_Os dous cumprimentão-se seccamente_).—A proposito já sei que

os senhores dous jantão commigo...

SIQUEIRA.—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me com demasiada bondade...

Eu pedi ser apresentado para... como devia... tratar de um negocio

importante...

RIBEIRO.—Ficará para depois do jantar... entre o café e o curaçáo...

Com amigos do Sr. Faria, não cuido de negocios (_com intenção_)

principalmente hoje... senão depois de nos termos assentado juntos a uma

lauta refeição....

SIQUEIRA.—Pois bem, resigno-me...

RIBEIRO (_com expansão_).—Ah! muito bem! e verá como recompenso a sua

resignação!... Com um peixe! (_Dando um muchôcho_) Que peixe!... O primor

dos mares!...

FARIA (_com ar grave_).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe que o negocio

a que allude o meu amigo e que interessa tambem a mim, não póde soffrer

demóra...

RIBEIRO (_pressuroso_).—N’este caso, ouvil-o hei já e já...

ROCHA.—Então eu me retiro...

RIBEIRO.—Vá lá dentro conversar com a sua prima...

FARIA (_com vivacidade_).—Este senhor é primo de D. Isabel?

(_Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia_.)

RIBEIRO.—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...

(_Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de Faria: desapparece e

volta logo para trocar novos olhares_.)

SCENA VI

RIBEIRO, SIQUEIRA, FARIA.

RIBEIRO.—Sentemo-nos...

(_Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e sentão-se os tres,

depois de se cumprimentarem com ar de gravidade e importancia._)

SIQUEIRA (_como que annunciando_).—O meu amigo o Sr. Faria vai fallar...

FARIA (_após breve pausa_).—Sr. Ribeiro, venho fallar a V. Ex. a respeito

de dous negocios da mais alta importancia... O primeiro, sobretudo, vai

entender com o meu futuro (_parondo um pouco_). Meu tio sem duvida já lhe

ha de ter vindo fallar...

RIBEIRO.—Pois não... e...

FARIA (_apressadamente_).—Devo contar com a sua benevolencia?

RIBEIRO (_com ar fino_).—O senhor é um maganão feliz... Só lhe digo

isto... muito feliz!

FARIA (_com fingida effusão_).—Agora, sim, reconheço-me como tal... A

minha estrella...

SIQUEIRA (_interrompendo_).—Mas o seu merecimento, meu amigo? Tem-o em

pouca conta?... Além d’isto tudo estava calculado...

RIBEIRO.—É certo que o senhor soube ganhar todos os corações... Tanta

circumspecção...

FARIA (_com ar modesto_).—Oh! Sr. commendador!...

RIBEIRO.—Tão bom senso...

FARIA.—Sr. commendador!...

RIBEIRO.—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... A minha casa o estima

muito...

FARIA.—E ella?... sua filha?...

RIBEIRO.—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... Ainda não lhe

fallei... mas é natural... nada mais natural...

FARIA.—Perfeitamente... Agora que tenho certeza do sentimento que lhe

inspiro, acho-me capaz de tudo. (_Com tom frio_) Liquidado este primeiro

negocio (_emendando com rapidez a phrase_), decidido este primeiro

assumpto, passaremos ao segundo, que traz particularmente o meu amigo

Siqueira á sua presença...

SIQUEIRA (_tomando a palavra, com volubilidade_).—É cousa infallivel, Sr.

commendador; questão simplesmente de confiança. V. Ex. é capitalista;

Faria já póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle, homem que a

ambos deve merecer credito... não é?

FARIA E RIBEIRO (_inclinando-se_).—De certo!...

SIQUEIRA.—Assim, pois, procurei por intermedio de Faria vir fallar a V.

Ex., que, podendo mover de prompto com grandes capitaes, encaminhará

uma operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, nós tres

presentes, quarenta por cento...

RIBEIRO.—Quarenta por cento... da noute para o dia?...

FARIA.—Todos os calculos estão feitos... Concorra V. Ex. com setenta

contos e...

RIBEIRO.—Mas a somma... a somma é grande...

FARIA.—Setenta contos?...

RIBEIRO.—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... setenta!...

FARIA.—Na operação empato cincoenta contos... tal é a minha confiança...

digo até, certeza!...

RIBEIRO.—Mas... afinal... de que se trata?

SIQUEIRA.—Trata-se do algodão...

RIBEIRO.—Do algodão?...

SIQUEIRA.—Eu me explico... V. Ex. sabe que este genero teve uma baixa

consideravel, quando acabou a guerra dos Estados-Unidos, e que o café

subio...

RIBEIRO.—Sei perfeitamente...

SIQUEIRA.—A ultima guerra franco-prussiana trouxe a procura do algodão...

RIBEIRO.—Sei d’isto.

SIQUEIRA.—E desde então vai alteando... Agora participão-me de Santos por

um telegramma reservado balas de algodão, no valor de cento e cincoenta

contos, a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York, que

é esperado a todo o momento, dér o augmento de poucos _pences_, tem se

feito uma bella operação... A colheita de lá foi má, e o algodão que me

offerecem é de qualidade superior...

RIBEIRO (_duvidoso_).—Era bom... reflectir... Assim...

SIQUEIRA.—E o palpite?... Ha occasiões em que é necessario atirar-se...

E demais que são setenta contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que

entro, esses, sim, representão arrojo e segurança...

RIBEIRO (_com enfatuação_).—De facto não é somma fabulosa... mas, emfim,

não é meia pataca...

SIQUEIRA (_com voz insinuante_).—Se fecharmos o negocio, d’aqui mesmo

expeço o telegramma de compra...

RIBEIRO (_voltando-se para Faria_).—Que diz, Sr. Faria?...

FARIA.—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a operação é excellente...

Senão, reflexionemos um pouco...

RIBEIRO (_approximando a sua cadeira da de Faria_).—Sim... sim,

reflexionemos um pouco...

FARIA.—Tudo n’este mundo está subordinado a causas, de maneira que para

estudar bem os effeitos nas suas menores consequencias é preciso remontar

á origem...

Historias Brazileiras · 第 3 / 11 段