—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e es

HISTORIAS BRASILEIRAS

OBRAS DE J. DE ALENCAR

O ERMITÃO DA GLORIA.—A ALMA DO LAZARO, 1 v. enc. 3$, br. 2$000

O GARATUJA, chronicas dos tempos coloniaes, 1 v. in-8º enc.

3$, br. 2$000

TIL, romance brasileiro. 4 v. enc. 6$, br. 4$000

IRACEMA, lenda do Ceará, 2ª edição, 2 v. br. 2$, enc. 3$000

VIUVINHA E OS CINCO MINUTOS, 2ª edição, 1 v. br. 2$, enc. 3$000

O GUARANY, 3ª edição, 2 v. in-4º encadernados 10$000

AS MINAS DE PRATA, rom. historico, complemento do precedente,

6 v. in-8º br. 12$, enc. 16$000

O DEMONIO FAMILIAR, comedia em 4 actos, 2ª edição, 1 v. 1$500

A MÃI, drama em 4 actos, 2ª edição, 1 v. 2$000

VERSO E REVERSO, comedia em 2 actos, 2ª edição, 1 v. 1$000

AS AZAS DE UM ANJO, comedia em 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo,

2ª edição, 1 v. 2$000

O GAUCHO, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, enc. 6$000

PATA DA GAZELLA, romance brazileiro, 1 v. in-8º br. 2$000

encadernado. 3$000

O TRONCO DO IPÊ, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000,

encadernado. 6$000

SONHOS D’OIRO, romance brasileiro, 2 v. in-8º enc. 6$, br. 4$000

DIVA, _perfil de mulher_, 2ª edição, 4 v. enc. 3$000

LUCIOLA, _perfil de mulher_, 3ª edição 1 v. enc. 3$000

BERNARDO GUIMARÃES

O SEMINARISTA, romance brasileiro, 1 v., enc. 3$, br. 2$000

LENDAS E ROMANCES. Uma Historia de Quilombólas, a Garganta do

Inferno, a Dansa dos Ossos, 1 v. enc. 3$, br. 2$000

O GARIMPEIRO, romance, 1 v. enc. 3$, br. 2$000

HISTORIAS E TRADIÇÕES da Provincia de Minas-Geraes: A Cabeça

do Tira-Dentes: A Filha do Fazendeiro, Jupira, 1 v. enc. 3$,

br. 2$000

HISTORIAS BRAZILEIRAS

POR

SYLVIO DINARTE

(Autor da Mocidade de Trajano, Lagrimas do

Coração, Innocencia, etc.)

[Illustration]

RIO DE JANEIRO

Editor—B. L. GARNIER—rua do Ouvidor n. 69.

1874

AO CAMARADA E AMIGO

CAPITÃO ANTONIO FLORENCIO PEREIRA DO LAGO.

OFFERECE

O Autor.

IERECÊ A GUANÁ

EPISODIO

Pourquoi quitter notre île? En ton île étrangère,

Les cieux sont-ils plus beaux? A-t’on moins de douleur?

...

Reste, ó jeune étranger! Reste, et je serai belle...

Mais tu n’aimes qu’un temps, comme notre hirondelle.

Moi, je t’aime, comme je vis.

VICTOR HUGO—_A Taitiana_ (Ballada).

Savais-je s’il était des malheureux au monde?

Ah! Combien je le sens, quand tu ne m’aimes plus!

CHAMFORT.

IERECÊ A GUANÁ

CAPITULO I

Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho _Alpha_, sahindo da capital

da provincia de Matto-Grosso, desceu para Corumbá, e, por ordem do

presidente de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou a

fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando aguas acima

para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação secca

até a villa de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40

legoas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande

Paraguay. Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o fumegante

barco atracar junto á barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de

alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural socego

d’aquella distante localidade.

Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, sob a denominação

de districto de Miranda, se estende ao sul da provincia desde o rio

Piquiry até o Apa e o Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de

importancia que nem as febres endemicas em determinados periodos do anno,

nem o desenvolvimento rapido de Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul,

havião podido lhe tirar.

Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por um sentimento de

exageração, não vião razões para lhe negar o pomposo titulo de _cidade_,

justificado senão pelo estado de prosperidade que tinha então, ao menos

em vista do engrandecimento que lhe podião garantir, em futuro não muito

remoto, as suas relações, já de annos iniciadas, com as provincias de S.

Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, Brilhante e Nioac de um lado,

e Miranda do outro.

A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que erão repetidas com

desvanecimento.

Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre os destroços do

forte Xeres, levantado em passadas éras pelos hespanhóes como paradeiro

á influencia portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões, em

Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido por outro em que

fluctuavão as quinas do dominio legal.

Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre e das promessas

do futuro, varios e influentes partidarios contava a idéa, aliás justa

e sensata, da necessidade de se mudar a séde da cabeça do districto

para outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria das febres

intermittentes que as enchentes e transbordamentos do rio annualmente

trazião e que atacavão não só os recem-chegados e visitantes de

passagem, como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás vezes

até, alguns dos mais antigos moradores.

Os lugares indigitados para essa mudança erão Pedra Branca, poucas legoas

acima, e a Forquilha, ainda além e na confluencia dos rios Miranda e

Nioac.

Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do Paraguay, baixa e sujeita

ás inundações e, conservando a regalia de desimpedida navegação, se

procurassem as terras altas proximas á serra de Maracajú e que se ligão

aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo progresso era já uma realidade,

mais largos horizontes se abririão para a villa, libertando-a dos

inconvenientes que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade.

N’esse caso, nenhuma indicação reunia com fundado motivo mais adhesões do

que a da Forquilha, bella e elevada planicie assente no entroncamento de

duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas era facil e já

aproveitado.

Como que para difficultar, porém, a realisação de tão conveniente

deslocamento e desanimar os mais ardentes propugnadores da medida, não

fazia muitos mezes antes da chegada do _Alpha_, havião sido lançadas no

lugar da antiga palissada a que devia a villa o appellido de _forte_,

as bases de um grande quartel, edificação que, concluida, tornou-se sem

contestação uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi em 1866

vandalicamente incendiada pelos paraguayos por occasião de se retirarem

do districto para operar a sua concentração na fronteira.

Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo, o apparecimento de um

vapor causava immenso contentamento no seio da população de Miranda pelas

consequencias que necessariamente havia de produzir aquella viagem de

ensaio, prova cabal de que o rio, ainda na vazante, prestava-se á franca

navegação muito além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até onde

havião subido os presidentes Delamare e Alencastro, este ultimo em 1860

no _Jaurú_, que é de calado não pequeno.

Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos o espirito muito

inclinado para as transacções commerciaes e n’ellas desenvolvem o seu

genio naturalmente activo, e tão atilado quão desconfiado.

Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos de negocio a Cuyabá

e na previsão de lucros proveitosos entregavão-se á mais expansiva

alegria.

Por toda a parte a agitação era grande.

Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes; o sino da matriz com

festivos repiques parecia querer rachar de contente e o povo, depois de

se ter agglomerado nas duas ruas convergentes á praça da igreja, havia

se encaminhado todo para a margem do rio, tomando a estrada que, com

extensão de quasi meia legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o

porto—e que não passa de uma rampa mal cavada na barranca.

No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta do Miranda desapparece,

invadida pelas agoas que vêm então lamber o limiar das primeiras casas

da villa, mas n’aquella occasião era uma larga avenida de chão um tanto

lodoso e ensombrada por magnifico arvoredo.

Entre os grupos dos que conversavão animadamente a caminharem para

o _porto_, circulava tambem a noticia da vinda de dous officiaes de

engenheiros, incumbidos, pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao

Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que já n’esse tempo

tinha soffrido senão insultos directos da parte dos nossos vizinhos

paraguayos, pelo menos os effeitos de sua cada vez mais decidida

altaneria.

Estava ainda recente a desagradavel impressão do modo insolente por

que um commandante do forte Bella Vista, no Apa, tratára o piquete

brazileiro que fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe, e,

na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem taes scenas e

outras peiores, como em 1850—em que uma força estrangeira, sem respeito

á linha divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia do

mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir o sobr’olho a vizinhos tão

carrancudos e desagradaveis.

N’essa época, já proxima da invasão que o dictador do Paraguay Lopez

ideava, raros erão, comtudo, aquelles que, nos mais chegados lugares

da fronteira, suppuzessem possivel uma guerra provocada pela republica

confinante.

Sabia-se que o regimen d’aquelle paiz singular era despotico e que se

achava militarisado com grande rigor de disciplina, mas ignoravão-se

os innumeros recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis que

accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo crença geral de que o

seu affastamento systematico da communhão das nações era produzido pela

politica tacanha e mal concebida dos directores de um povo, que, por

habitos arreigados de obediencia e tranquillidade, era feliz a seu modo,

e queria viver em paz.

Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito publico com essas

supposições quasi erigidas em certeza e com a convicção de que bastarião

providencias de ordem secundaria para manter o Paraguay na orbita do

respeito que nos era devido, intelligentes emissarios do dictador havião

já percorrido de norte a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado

com especialidade o territorio que mais de prompto teria de experimentar

os effeitos do humor bellicoso e conquistador de Solano Lopez.

Em todo o caso, apezar do socego de que gozava o districto, é certo

que a chegada de dous profissionaes com aquella commissão de caracter

militar indicava que o governo central, fiando-se nas boas relações que

entre as duas nações parecia não deverem de tão cedo soffrer québra,

cuidava comtudo de attender para as suas fronteiras, cuja tranquillidade

e segurança influião directamente no desenvolvimento agricola de toda

aquella zona.

No _Alpha_ viéra com effeito, não dous, mas um official de engenheiros,

esse mesmo com incumbencia puramente civil, visto como só devia ir

observar os progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho que liga

aquella nascente colonia ao porto de Santa Rosalinda, no rio Brilhante,

até onde já tinha subido um vapor partido de Itapúra, na provincia de S.

Paulo. Quanto ao companheiro com que esse official viéra de Cuyabá, não

tinha posição alguma militar, nem trouxera encargo que desempenhar.

Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por méra distracção. Homem no

pleno vigor dos annos, e bastante rico para satisfazer os seus caprichos,

emprehendera extensas viagens por simples distracção e pelo prazer do

movimento, percorrendo paizes uns após outros como _turista_ e á maneira

de Victor Jacquemont, que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez

tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior da Asia.

O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda não era dos mais

naturaes.

Achando-se n’um bello dia aborrecido do Rio de Janeiro, comprou passagem

para Montevidéo, passou lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres,

onde se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade pelo que dizião

do Paraguay, subio até Assumpção, que, no fim de poucas horas, ficou

peremptoriamente julgada e qualificada sem appellação de acanhada,

monotona e estupida.

—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me a ir até Cuyabá.

E, firmando n’este argumento contestavel a necessidade de continuar a

viagem fluvial, sulcou rio acima o Paraguay e, n’uma tarde de calor

intenso, foi desembarcar na capital de Matto-Grosso.

Arrepender-se logo do que acabava de executar era sempre o primeiro

movimento do nosso viajante; por isso a elle mesmo não causou espanto o

desgosto que experimentou ao pôr pé em terra.

—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito, vir ter a uma terra,

onde nem sequer ha hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem ao

Sr. capitão de engenheiros Freitas....

E procurando nos bolsos uma carta de recommendação de que se munira em

Assumpção, sacou-a para lêr o sobrescripto e poder se orientar.

—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo da Mandioca n. 10.

Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta foi-lhe aberta por um

sympathico moço, a propria pessoa a quem o recommendavão.

—Poucas relações tenho, disse o official correndo os olhos pela carta,

com quem me escreve, mas sinceramente acolho quem me traz a apresentação

com a maior satisfação e cordialidade.

—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo no rosto de Freitas a

confirmação de suas palavras, me agrada sobremodo.

—Pois então entre, e trate-me desde já senão como amigo, pelo menos como

camarada.... Onde estão as suas cargas?

—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem sou....

—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um cavalheiro....

—Pelo menos o meu nome é indispensavel....

—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais que a carta de

recommendação nem sequer lembrou-se d’isso. É um cheque ao portador.... O

senhor chama-se meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome.

Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel era que Alberto não

sentisse desvanecerem-se as primeiras impressões de máo humor. Tambem

d’ahi a pouco conversavão os dous como se o conhecimento datasse dos dias

de infancia.

Para o homem acostumado a viajar nada custa menos do que a immediata

familiarisação. Qualquer com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre

algum agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo companheiro muito

estimado: outro com quem passe um dia inteiro é quasi um intimo, e se

houver então uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se

em amigo de data mui remota.

Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se inseparavel de

Julio Freitas, o qual por seu lado fazia todos os esforços para tornar a

estada do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel.

—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações sobre

Matto-Grosso, não é aborrecida, muito pelo contrario; mas é sempre uma

cidade de provincia. O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem o

espirito de quem chega e não conta deparar com povoação tão importante

e, pode-se assim dizer sem exageração, tão civilisada no meio de

immensos desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil, vive-se

por demais debaixo da influencia da côrte. Ha bonitas mulheres, bem

conversadas; dão-se brilhantes bailes; ha tal ou qual sociabilidade;

o commercio tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia,

nem de espirito, mas só se sente verdadeira vida quando chega a mala do

Rio de Janeiro. É o sol benefico que mandou um raiosinho de luz e de

calor para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento de abandono e

de desterro é que me fez sempre desejar ardentemente sahir d’aqui, mas

afianço-lhe que o meu contentamento pela volta, que está muito proxima,

não é de todo isento de certo aperto de coração.... e entretanto nada me

prende particularmente a Cuyabá....

—De modo que se houvesse algum liame, você não deixaria mais esta terra?

—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa por ser perigosa, e, como

fallo a pessoa novata, recommendo-lhe que fuja das causas que o podem

reter para sempre n’este canto do mundo.

—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se.

—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente na meiguice das

mulheres, nas cabeças de pacús e caudas de pirapitangas. Trate, pois, se

não quer encalhar em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e de não

provar das extremidades d’aquelles dous peixes senão com muita reserva e

cautela.

Se houve e ha com effeito esse risco para quem se demora na capital de

Matto-Grosso, Alberto soube tão bem resguardar-se, que quando, mez e

meio depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque no vapor _Alpha_

com destino á villa de Miranda e a sua digressão pelo districto, antes

de seguir definitivamente para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para

partir e muito satisfeito com tão breve retirada.

—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu passeio ás terras de Miranda

e Nioac....

—Mas é cousa muito rapida e incommoda....

—Não importa....

—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa Rosalinda no Brilhante e

voltar a Corumbá.

—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os indios e estar com elles.

Vir a Matto-Grosso e não conviver algumas semanas com os seus amaveis

aborigenes, é falta imperdoavel em viajante de meu quilate....

—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás?

—Estes não me servem. Estão já modificados pelo nosso modo de viver;

demais _aportuguezados_, já que não posso dizer _abrazileirados_. Em

Miranda encontrarei o que desejo e, mettido em alguma aldêa, pilharei _la

nature chez elle_.

—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar á anthropologia, não

é? São estudos que agradão á muita gente, sem que por isso a sciencia

adiante um passo....

Eis explicada a razão por que se achava Alberto Monteiro na villa de

Miranda e fazia tambem seus preparativos para uma viagem ás terras altas.

Partirão os dous moços por uma fria madrugada, montados em bons animaes

e acompanhados de tres soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso

que devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos em bruacas

ás costas de um valente burro de carga, redes, uma barraca de campanha,

pequenas malas contendo alguma roupa, erão condições para com muita

commodidade alcançar o povoado de Nioac, aliás pouco distante aos olhos

de quem está acostumado a viajar por terra.

Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados, cobertos, não

raras vezes em vasta extensão, de _piripiris_, juncos que mergulhão

as raizes n’agoa ou no lodo e morrem na época dos grandes calores.

Entretanto, logo ás primeiras legoas, verifica o viajante, já pela

natureza da vegetação, já pelos córtes e margens elevadas em que correm

os regatos, que o sólo vai gradualmente se levantando.

Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da povoação, a estrada

alarga e parece um caminho macadamisado, tamanha é a quantidade de

seixinhos rolados que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda

estende-se vistoso o cerrado: ha muito _umbú_ que embalsama os ares com a

fragrancia de suas flôres, grande cópia de _jatahys_, de _piquís_, cujos

fructos amarello-avermelhados são tão bonitos, e de _mangabeiras_ que nos

mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos saborosos e rubicundos

pomos.

O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende como a lomba de uma

serrania, cuja vertente d’esse lado é muito suave e estendida.

Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do _cerrado_ e deixa que

a vista ganhe espaço para a esquerda. Então dilata-se o horizonte,

e vêem-se campos ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco

amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe, uma linha

tortuosa e escura de matta indica um grande rio, e no fundo, emmoldurando

aquella bella paisagem, ergue-se altanada serra, corôada de pincaros

escalvados e talhados de um modo tão sorprendedor, quão grandioso.

O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que serpêa a procurar o

Mondego; a serra, a de Maracajú que em alguns pontos parece lavrada pela

mão de caprichoso genio empenhado em imitar com proporções colossaes

castellos, baluartes e outras construcções que tambem com pedra levantão

os fracos mortaes.

Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda, abatem-se as

terras. Então, de um lado, para o Norte, melhor se accentuão os

accidentes que esboçámos, e do outro, ao Sul, abrem-se campinas

extensissimas sem outro córte mais na sua uniforme expansão do que um

ou outro capão de matto em encontro pronunciado de declives, onde se

mantenha com persistencia a humidade precisa para o desenvolvimento de

vegetação mais vigorosa.

A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de continuo na pedra

solta e roliça que forra o chão.

—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo as redeas ao animal

para comtemplar com mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a

pena vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!... admiravel!

Depois do corrego de Eponadigo[1], o _cerrado_ fica mais fechado, de modo

que o viajante caminha em aléa encoberta dos raios de sol por grandes

arvores, algumas das quaes até são madeiras de lei, como o _jatahy_ e o

_vinhatico_.

O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente, escandescida que

foi pela reverberação dos campos desabrigados de Camapuan.

Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se incommodado e no

pouso teve febre bastante violenta.

—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o accesso, para quem, ha

muitos annos, não tem tido molestia. O que porém me acontece agora é uma

homenagem devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos, pois.

Na manhã seguinte, depois de uma noute calma, estava elle bem disposto de

espirito, mas com o corpo alquebrado. Tomára uma beberagem de _quina do

campo_ que um dos soldados lhe havia preparado e transpirára muito.

Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo, com muito mais intensidade

d’essa vez.

Estavão então os dous viajantes no _Agaxi_[2], corrego que atravessa o

aldeamento dos kinikináos, a meia legoa para lá da estrada, e procurarão

a sombra de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem.

Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar a rede que lhe

havião promptamente armado. Á tarde, cahio em grande prostração e só se

reanimou quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador que

fizera durante todo o dia.

—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente continuar a viajar

sem incorrer na pécha de imprudente, tanto menos justificavel quanto não

ha dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa de indios para mais

tarde e volte amanhã mesmo para a villa. Com duas dóses de sulfato de

quinina desapparecerão com certeza estes accessos, e eu, dentro em poucas

semanas, estou de volta a Miranda.

—Mas não ha, a pequena distancia d’aqui, um aldeamento?

—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica. Se você estivesse de

saude, eu lhe proporia uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha,

é de prudencia regressar quanto antes.

Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou Alberto, que

de manhã acompanhou Julio Freitas por um quarto de legoa na estrada de

Nioac, e, lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso onde esperou

tranquillo pela hora do accesso que, se foi pontual como um inglez, pelo

menos não veio com a costumada violencia.

Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar, uma robustez toda

especial que lhe parecerão prenuncio certo de total restabelecimento.

—Não se fie n’isso, lhe disse Florindo, o soldado que Julio deixára ao

amigo para camarada, _ansim_ é que são as maleitas. Mas _vossuncê_ não

_percisa_ para sarar ir até a _cidade_; fique uns pares de dias na aldêa

e os ares de lá sacodem a _maldade_ do seu corpo.

—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até me entregue aos cuidados

de algum velho kinikináo formado em medicina na escola da natureza e da

experiencia.

Com essa nova intenção montou o moço a cavallo e, em vez de tomar a

estrada de Miranda e dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á

direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, levava com

pouca distancia ao aldeamento dos indios.

O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio em clareiras quasi

regulares, formando o que se chama _potreiros_, denominação muito

popularisada pela guerra do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em

dimensões, era cortada a meio por um corrego encachoeirado, cujas agoas

crystallinas acompanhava densa e dupla orla de buritys e taquarussús.

Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazivel e

socegada.

—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e esquecida,

exclamou Alberto.

E, voltando-se para o camarada:

—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são já da aldêa?

—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o velho Morevi, kinikináo muito

meu conhecido e que é _mandingueiro_.

As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava o moço, assentavão

n’uma elevação de terreno e dominavão todo aquelle restricto valle.

Feitas de pouco e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, de

frente muito baixa e com uma fenda estreita no meio que lhes servia de

porta. Diante da mais espaçosa d’ellas, um bambú, ornado de comprido

trapo vermelho a ondular no tope, indicava a morada de algum indio de

importancia, capitão sem duvida ou então _padre_, que exerce as funcções

de sacerdote cumulativamente com as de medico e de prestigiador.

Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos com a maior

benevolencia por um idoso kinikináo que sentado á porta levantou-se com a

presteza que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura para cima,

tinha uma especie de saia que lhe descia aos calcanhares, toda ornada de

vidrilhos e contas de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados

de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas feitas com o succo

do urucú e do genipapo, mas aquelles signaes, destinados principalmente

a incutir terror nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de

tijolo queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão natural

de timidez e bondade que caracterisa em geral a physionomia dos indios

guanás e kinikináos.

Nem sequer parecia possuido da importancia que a sua posição de

feiticeiro devêra lhe angariar, pois sem a menor hesitação estendeo a mão

a Florindo e saudou-o com provas até de respeito.

—_Unatiti?_[3] perguntou rindo-se e mostrando uns dentes alvissimos e

ponteagudos, ao passo que duas linhas de urucú e genipapo, acompanhando o

enrugamento da pelle, formavão dous circulos ao redor da boca.

O soldado respondeo tambem em lingua chané[4] e explicou-lhe que aquelle

companheiro era _capitão_[5] e pretendia ir até a aldêa para curar-se de

sezões.

—_Quixauó!_ exclamou Morevi, _carineti tchikiiti_.[6]

Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto pousar ao menos uma noute

n’aquelle bello lugar, pelo que encarregou Florindo de obter a posse de

uma das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, tanto mais

quanto na occasião não tinha ella occupante. Na outra morava uma india de

meia idade, cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as vistas

de um homem branco e artista de coração.

A installação fez-se com presteza. Depois de bem varrido o chão de barro

batido, forão as ligeiras cargas do viajante depositadas a um canto e a

sua rede suspensa ás traves mais grossas que servião de mourões á palhoça.

Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade um punhado de sal, que

elle embrulhou cautelosamente como preciosidade inestimavel.

Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um vistoso collar de

vidrilho e contas de ouro que devia lhe ornar o encarquilhado pescoço,

então a sua gratidão não conheceo limites e despegou-lhe, depois de muito

gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras quasi sem nexo, umas em

seu idioma, outras em portuguez estropeado.

—Este _lavrado_[7] não é para mim, disse elle afinal mais calmo a

Florindo, é para a minha neta. Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um

_nadinha_ estará batendo de volta.

Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada da clareira, para

lá do corrego.

—É Ierecê[8], exclamou Morevi apontando para aquelle lado, é a minha neta!

E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice brilharão de

orgulho.

Vinha se approximando uma mulher de altura regular e pórte elegante.

Ao chegar á corrente abaixou-se e encheo vagarosamente uma vazilha de

carregar agoa que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. Depois

adiantou-se sem acanhamento, acostumada como estava a vêr gente de

Miranda na aldêa dos indios seus patricios.

Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo, a que chamão

_julata_ e que, preso por volta muito apertada logo abaixo dos seios,

desce até os calcanhares, e mostrava ter quando muito quinze annos

idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas localidades em que

o desenvolvimento da puberdade, já de per si precoce, é quasi sempre

apressado.

Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer parte do mundo

prendido as vistas. Se a fronte era estreita, os olhos um tanto obliquos

e as sobrancelhas pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos

e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz tinha uma

rectidão caucasica; os labios parecião tintos de carmim e a cabelleira

negrejante, bem que aspera, espargia-se por um collo e seios admiraveis

de contorno e de pureza. Para completar o typo de uma bella moça nem

sequer lhe faltavão pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de

cuidadosa attenção.

A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do chocolate desmaiado

em leite, tão desmaiado que quando qualquer impressão mais viva ia

entender-lhe com o coração, as suas faces se accendião vivas de rubor.

O que, porém, mais prompto e doce sobresalto causava em que para ella

deitasse os olhos, era, em vez da apathia estampada geralmente no rosto

das mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza que lhe

pairava na physionomia.

A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, não passou

despercebida do velho avô que com isso pareceo sentir viva satisfação,

partilhada de resto pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar

que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida para aquelle

estrangeiro e sorrio-se para elle, deixando vêr no encrespar dos mimosos

labios uns dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.

—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.

—_Acó_, respondeo Morevi, _pae tchoronó-unó_, filha tambem: mãe só

_koinukunó_.[9]

—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.

O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e

tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que

deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções.

—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e

gravidade. Hade lhe dar comida e roupa.

Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na

dextra e, abrindo-a, n’ella collocou a delicada mão da neta, ao passo

que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.

Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a

ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido

por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se

completamente indifferente.

Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito

os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que

a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade.

CAPITULO II

A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de

todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro

em que vivia.

De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto

e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns

notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem.

A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de

fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos

como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia,

que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar.

Apenas chegada a caça, a india a depennava com ésmero antes de entregal-a

aos cuidados de Florindo que tomára a si o preparo da comida, no que

mostrava algum talento bem que usasse, para os misteres da cozinha, da

gordura geralmente empregada em Matto-Grosso: a graxa de boi.

Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto ia conversar com

Morevi e tomar lições de lingoa chané, com cujas palavras mais notaveis

procurava coordenar um ligeiro vocabulario.

Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, erão todos

elles devidos ás indicações de Ierecê que se admirava muito dos esforços

que aquelle branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.

Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.

Na choupana ao lado, o avô continuava em suas praticas de devoção e vivia

completamente estranho ao casal.

No fim da primeira semana de estada no Hetagati[10]—assim se chamava o

lugar—foi o soldado Florindo despachado para a villa de Miranda, afim de,

com a necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, fructos

seccos, conservas, diversos córtes de fazendas e tudo quanto podesse ser

de mais immediata necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle

local.

Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas duas garrafas

de agoardente de canna e varias braças de bom fumo goyano que erão

destinadas ao complacente Morevi.

Com a chegada de uma peça de chita franceza, Ierecê deixou o trajo

nacional e primitivo e cobrio o esbelto corpo de um vestidinho que

Alberto deo-se ao trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho

da costureira, tão desageitada em seus movimentos, quão impaciente por

terminar e poder envergar aquella roupagem nova.

Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, mais alta e vistosa

parecia com a saia escorrida e a camisinha alva que lhe cahia dos

hombros, repellida pela rebeldia dos seios.

Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo a physionomia: muita

brandura, tristeza e alguma curiosidade.

A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior,

a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo;

depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o

tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou

agradar ao seu espirito.

Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria,

quando aquelle _portuguez_[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava

com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e

sempre novos penteados?!

Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha

entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas

que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva

diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute

subir da terra para os céos?!

N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza

parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de

Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó

acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse

aos ares as plangentes notas da aspera garganta.

A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida

e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e

braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou

de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida

e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono

prompto d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o modo de viver

civilisado.

Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os

seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas

pontas e atado pelas outras ao pescoço.

O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente

entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e

todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa

que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante

pennacho.

Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a

bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané,

logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não

poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que

ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom

Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario

frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de

Sylvana.

Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe

ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo

que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar.

Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto,

nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista.

Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes,

ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas,

ora contava historias de sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e

custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de

variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim

mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso

nunca visto de momices e caricias.

Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de suas excursões pela

matta, occultava-se Ierecê por traz de alguma arvore possante e cahia de

chofre sobre elle com o fim de assultal-o.

Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, como solta um peito

que não sente cuidados.

Em começo, a india mal deixava os arredores da choupana, chegando quando

muito até o ribeirão. Depois alongou os passeios, só com o fim de ir

apanhar passaros que tivessem pennas mais formosas e brilhantes do que

os que trazia o caçador. Com visgo natural que tirava da mangabeira para

armar arapucas e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os

vivos, e voltava, então, pulando de contente deposital-os nas mãos de

Alberto depois de ligar-lhes as azas ao corpo por meio de uma embira

larga.

Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um arsinho seductor,

irresistivel.

Se havia prazer em prender os mimosos volateis, maior, sem comparação

possivel, experimentava ella quando Alberto lhe pedia a liberdade para os

prisioneiros.

Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre á tarde, com luz

bastante para que os passarinhos podessem ir buscar os seus pousos de

querencia. Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um por um a

Alberto, que era quem desatava o cordel que lhes impedia o vôo.

O animalsinho disparava palpitante de medo com direcção á matta, e Ierecê

seguia-o quanto podia com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os

olhos carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso para com todos

os filhos da natureza.

Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse a achar a vida

que levava um tanto monotona, não podia eximir-se da satisfação suave

que em todos produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar os

progressos da paixão que accendêra no peito da indigena, sem querer

entristecia-se e procurava arredar da lembrança a necessidade de em breve

dar fim áquella ligação passageira.

O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse sorrir ao espirito do

moço, tratava ella, na medida de suas forças, de conseguir logo: plantas

raras e curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, conchas

do rio e insectos, objectos emfim mais ou menos approximados pela côr e

fórma a qualquer outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção e

que immediatamente a ella servia de typo para as amorosas pesquizas.

Então como se pagava de um olhar de agradecimento, de um sorriso, um

gesto?! Seos olhos inquietos estudavão a impressão que a physionomia do

mancebo lhe havia de denunciar.

As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores do Rio de

Janeiro excitavão-lhe vivamente a imaginação. A descripção do trajo das

mulheres e da mudança continua das modas sobretudo a encantava de um modo

singular.

—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma vez com fundo suspiro.

—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.

—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das _portuguezas_ tão alvas e

bonitas. Eu nasci para o matto. Depois na cidade minha gente morre toda

de bexigas.

Florindo dava-se muito bem com a india: ella o ajudava no preparo da

comida; ia buscar fogo; corria a encher no ribeirão a bilha d’agua;

respigava para a cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha

espontaneidade que o soldado, apezar da fleugma natural, deixava-se levar

a lhe querer muito bem, o que manifestava a Alberto, respeitando na

mulher a posição do seu camarada.

—Ó vossa senhoria,[12] dizia elle, esta _dona_ parece mesmo, com sua

licença, filha de feiticeiro. Nunca vi uma creatura, com perdão da

palavra, de melhores modos. Prende deveras o coração da gente.

Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, pelo menos tão

calmo. Nada lhe perturbava a paz do espirito, e como a saúde voltára

completa, vivia sem consciencia exacta do tempo que passava.

A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. Densa cintura de matta

virgem limitava logo o horizonte; em compensação, porém, os olhos erão

obrigados a parar demoradamente nos grupos de buritys e taquarussús que

acompanhavão o percurso do corrego e que mais se condensavão em torno de

uma bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão sobre um fundo de

areias prateadas.

Ahi era o banho de Ierecê.

Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio do valle com

um canto lugubre, cortado de notas agúdas e desafinadas. Para essas

barulhentas vigilias é que se trajava do modo em que o encontrára Alberto

no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda enfeitada de lentejoulas,

presa á cintura por um talim bordado a contas de côr e corpo riscado de

urucú e genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal erão um

espanador grande de pennas de ema, ornado de desenhos caprichosos e um

chocalho que sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar e

recuar, um couro sem pello estendido diante da porta.

Erão as conferencias do feiticeiro com o _acauan_, especie de gavião

pequeno que solta guinchos finos, accentuando as syllabas que lhe derão o

nome—a-ca-uán—passaro agoureiro no dizer dos indios e com cujas consultas

podem os padres descortinar o futuro.

De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada longa: de repente

ouvia-se muito ao longe o grito do milhafre a que o velho respondia

com voz de supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim parecia

acontecer. Os pios vinhão se tornando cada vez mais distinctos e afinal

os ares estrugião com um estridente hymno de triumpho em que o rouquejar

do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.

Ahi começavão as revelações.

Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e pela perfeição com

que era imitado o gritar do acauan, foi observar o velho e ouvir-lhe as

descompassadas cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por ser

interrompido no melhor do somno.

Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos empregou, apoiados em

dadivas e promessas, que nunca mais aquella grita dissonante perturbou a

tranquillidade das noutes. Se continuarão as consultas ao acauan, forão

sem duvida feitas com toda a modestia em voz muito baixinha, para não

incommodar o _portuguez_.

Em compensação, se, para socego dos ouvidos, calava-se Morevi, a netinha

cantava melodias de sua nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas,

mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava um somno doce e

enervador. Ella cantava como cantão os passarinhos que para unica musica

tem só duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta para o seu

passatempo... mas assim mesmo não agrada tanto ouvil-os?!

Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê cheia de alegria, mas

tolhida de vexame, principiava toda a corar e a empallidecer, balbuciando

e murmurando: depois, firmava a voz e desprendia do peito notas

repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão como partidas das

cordas do coração.

Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e alçava preces de amor

a quem o captivára.

* * * * *

Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia de luz branda e

azulada.

A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o ribeirão parecia

desdobrar-se em laminas de prata. Pontos scintillantes corôavão a

folhagem compacta das palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando

vivamente, estendia pelo chão compridas sombras que semelhavão columnas

derrubadas por terra.

Ierecê preparára uma sorpresa.

Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas indias kinikináos para

virem passar a noute no Hetagati.

Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, vestidas com

a tradicional _julata_ que lhes deixava descobertos os seios pequenos

e empinados. O typo era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das

companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. Tinha pórte mais

altivo, physionomia mais expressiva e intelligente.

Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se ao seu encontro.

A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela mão a visitante que lhe

pareceo mais bella, caminhou para o mancebo: então, entre risonha e

medrosa, disse-lhe que d’ora avante se considerava vencida em formosura e

cedia o seu lugar a quem mais o merecia.

A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo e mais exaltou a

alegria de Ierecê.

Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem os seus individuos

sempre dispostos para comer. Foi por isso que, havendo Florindo sido

avisado de antemão e preparado lauta refeição de porco do matto,

palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas sem demora

satisfazer a sofreguidão do appetite.

Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se com grande e festivo

ruido.

Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana uma ramagem fresca

e odorifera, sobre a qual estendeu um panno alvo, afim que Alberto se

deitasse, e mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella e as

companheiras ião executar.

Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle de anta e entoou uma

canção de andamento vivo.

Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se puzerão em linha e n’essa

disposição avançárão e recuárão diversas vezes com passo fingidamente

tropego: depois, soltando as mãos, compozerão varias figuras ou em

grupos de tres, ou correndo em circulo umas atraz das outras, antes de

reformarem a linha primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e unia

a sua voz á do rouquenho cantor para animar o dansado que se accelerava

e mais calor e vivacidade tomava com os gestos elegantes e posições

voluptuosas, quasi lubricas, das bailarinas.

Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que peccava, não pelo

afinado das vozes, mas pela falta absoluta de variedade, razão pela qual

Florindo observou com graça que aquella musica havia de agradar muito

quando a gente estivesse a dormir.

Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, Ierecê deo por finda a

funcção.

Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou caso de polidez e justa

condescendencia mostrar-se plenamente satisfeito e divertido.

Quem não cabia em si de contente era a guaná. Sem contestação dansára com

mais graça do que as outras, provocando sempre os applausos do branco,

cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender e a partilhar,

tanto assim que não deixou ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar

as visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute ao velho Morevi.

Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens kinikináos e, puxando

para fóra o couro que lhe servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao

relento.

De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se as indias, levando os

presentes que mais podião lhes agradar: sal, chitas, espelhos, contas,

agulhas, e os restos do banquete da vespera.

Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, mas não quiz chegar

até a aldêa.

No entretanto os dias e as semanas havião passado, e Alberto não dava

mostras de perceber isso.

—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, quanto tempo faz que estamos

aqui?

—Talvez um mez, não é?

—Já lá vão dous, rectificou o soldado.

Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou ser exacta a conta.

Historias Brazileiras · 第 1 / 11 段