Estuques

O uso do estuque é muito antigo; ha exemplos no velho Egypto, na

remota Assyria; os romanos o empregaram vulgarmente; em Pompeia ha

tectos, frisos, cornijas de gesso. Bysantinos e arabes usaram do

estuque, principalmente os arabes de Hespanha; os estuques pintados

da Alhambra são admirados no engenho da decoração geometrica, no

effeito da combinação de tons. Durante largo tempo esqueceu o estuque,

para reviver no meiado do seculo XVI. Mas então renasceu e logo se

desenvolveu em processo e applicação; fizeram-se frescos sobre estuque

de gesso, modificaram-se as pastas, formaram-se grandes composições em

alto relevo.

Em Portugal ha noticia de estuques no seculo XVII, de pouca importancia.

Poucos annos antes do grande terremoto de 1755 appareceu em Lisboa um

artista italiano de grandes aptidões, João Grossi, que iniciou grandes

trabalhos neste genero. Outro estucador, primeiramente simples ajudante

de Grossi, Gommassa, se tornou notavel.

O marquez de Pombal empregou-os nas suas propriedades. O terremoto

tornou necessarios trabalhos rapidos e os estucadores prosperaram; e

vieram mais estucadores italianos, Chantoforo, Agostinho de Quadri, que

introduziram novos processos. Nas Janellas Verdes, no palacio pombalino

da rua Formosa, na egreja dos Paulistas, etc., ha trabalhos d’estes

italianos.

O marquez de Pombal chegou mesmo a fundar uma escola de estucadores, de

que foi mestre o Grossi (1766).

Trabalhou-se immenso em estuque, bem e mal, com arte ou sem ella; João

Paulo da Silva trabalhou no palacio na quinta das Laranjeiras (por

1798), assim como Felix Salla, outro italiano discipulo do celebre

milanez Albertoli, que fez reviver a grande ornamentação dos gregos e

do imperador Augusto.

É certo que por este tempo estucadores portuguezes foram trabalhar a

Hespanha, tanto se tinha aqui progredido neste ramo.

Por 1805 entrou em Lisboa um estucador suisso de grande habilidade,

Vicente Tacquet que trabalhou com Francisco Espaventa e outros.

Vieram os desastres da guerra, e alguns dos melhores artistas

refugiaram-se no norte do paiz, no Porto, e em Vianna do Castello,

Caminha, Affife que nos tempos modernos, nos ultimos 40 annos, tem

produzido bons artistas estucadores.

De Rodrigues Pitta são os tectos do palacio do marquez de Vianna (1846)

ao Rato, hoje propriedade do sr. Marquez da Praia.

Em 1855 e 1856 ornamentou o salão de baile do palacio da Junqueira

(actual palacio Burnay) e dois salões do palacio Costa Lobo, no campo

de Sant’Anna.

Deixou trabalhos de grande folego nos palacios de José Maria Eugenio

d’Almeida, a S. Sebastião da Pedreira, Gandarinha que tem magnificas

escaiolas na galeria, e no do Marquez de Penafiel.

A esplendida sala do conselho de Ministros, no Ministerio do Reino, tem

o tecto muito trabalhado, não de grande effeito.

Cinatti introduziu em Lisboa um artista, seu parente, Joanni, notavel

imitador de marmores, e bom artista em estuque _lucido_.

Nos ultimos vinte annos a mania pelo estuque, especialmente pelas

imitações de marmores, tem sido, a meu vêr, exaggerada.

E, o que é grave, na maioria esses trabalhos são mal dirigidos e

executados. Tem sido um desastre.

Ha estuques carregados de relevos que em tres ou quatro annos estão

fendidos e estragados.

Imitações de marmores, quasi tão caras como os modelos, estaladas em

poucos mezes. Mas a mania pelos estuques não é só na capital; ao norte

do paiz ainda foi, e é, mais intensa.

No Porto ha estuques antigos, dos melhores, no palacio dos Carrancas, e

modernos na Bolsa.

No Minho citam-se como notaveis os do palacio da Brejoeira, obra dos

Alves, de Fafe, por 1850.

Em Evora temos os mais recentes no theatro Garcia de Resende, fino

trabalho do Meira.

Será rara a egreja da Provincia, onde tenha havido reparos nos ultimos

annos, que não possua amostras de estuque moderno, de facil execução e

de mau effeito passado o lustro dos primeiros mezes.

Nas salas do Correio-Mór ha tectos estucados a baixo relevo muito

distinctos e paredes ornamentadas a esgrafito de algum effeito.

Volkmar Machado deixou-nos algumas noticias sobre estucadores, que

Liberato Telles utilisou no seu trabalho publicado no _Boletim da

Associação dos Conductores de Obras Publicas_. Vol. IV. 1900.

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 36 / 72 题