O logar de Carnide, que faz parte agora da capital, é muito antigo;
existia já povoado e cultivado no meiado do seculo XIII.
O mosteiro de S. Vicente possuia aqui uma vinha e uma herdade, como se
lê nas inquirições do reinado de D. Affonso III. Por esse documento,
importante para a historia de Lisboa e seus termos, se vê que em
tão remota época já nestes logares de Carnide, Charneca, Queluz,
Falagueira, Odivellas, Palma e Telheiras havia culturas, vinhas e
povoados que contribuiam para o rei, para as ordens militares, e para
os grandes mosteiros.
Em 1342, o bispo de Lisboa, D. João, mandou edificar a egreja á honra
de S. Lourenço, por Pedro Sanches, chantre da sua sé, e a deu a seu
capellão João Dor. Era já egreja parochial no seculo XIV.
Em meio de amplo terreiro, murado, orlado de oliveiras, com larga vista
de campos e collinas ergue-se a egreja com o seu campanario, em linhas
de singela construcção. A orientação e disposição da egreja é antiga,
todavia pouco se vê do seu estado primitivo.
Está bem reparada, de ha poucos annos.
É um templo alegre, com as suas obras de talha dourada, as paredes
forradas com azulejos, de azul sobre branco, em grandes quadros,
allusivos á vida de S. Lourenço.
Tem cinco altares, o maior, o da Senhora do Rosario, do Crucificado, de
S. Miguel, e o de Jesus-Maria-José.
No altar-mór ha um quadro bom, o _lavapedes_, mal restaurado,
infelizmente; algumas campas com lettreiros no chão da capella-mór;
duas pias d’agua benta que são dois capiteis do seculo XIV, escavados;
na sacristia um arcaz de boa madeira, com metaes bem cinzelados.
O terreiro ao redor da egreja era d’antes o cemiterio; campas e ossadas
foram removidas para o cemiterio dos Arneiros (Bemfica). Ficou apenas
uma grande pedra, com inscripção latina, que era o tumulo de José João
de Pinna de Soveral e Barbuda, fallecido em 1710.
Para o novo cemiterio de Bemfica foi removida a campa de D. Anna Maria
Guido, marqueza de Ravara, fallecida em 1752.
No alto de um cunhal, do lado do sul, está uma pedra com lettreiro em
caracteres gothicos (seculo XV, talvez) que diz:--Esta sepultura he de
Luis d’Abreu e de todos seus herdeiros.
Na capella-mór ha bastantes campas.
--Esta sepultura é de Joam da Costa de Mendonça e de quem nela se
quizer enterrar.
--Sepultura de Francisco Jorze e de sua molher e de seus herdeiros... de
1569.
--Sepultura de George Pires e de sua molher e herdeiros. 1616.
--Sepultura de Jozeph da Costa e de sua mulher Catharina da Costa a
coal faleceo a 28 doutubro de 1712 e pera todos os seus herdeiros.
--Sepultura de Guilherme Street Arriaga Brum da Silveira e Cunha e
familia. 28 de outubro de 1826. P. N. A. M.
--Esta sepultura mandou fazer João Correa pera se enterrar nella e seus
herdeiros.
--Sepultura de Antonio de Almeida e seus herdeiros faleceu a 14 de mayo
de 1601 anos.
--Sepultura de Luiz Ramalho Pre... e de sua mulher Francisca de Almada
Tiba e de seus herdeiros faleceu a X d. de junho de 1637.
--Sepultura de Bastião criado de S. M. e de seu herdeiro. Faleceo a 5
doutubro de 1796.
--Sepultura do P.ᵉ H.ᵐᵒ Machado cura que foi nesta igreja muitos annos
e de seu herdeiro.
--Sepultura perpetua de Simão Moreira e sua molher Domingas Francisca e
de seus herdeiros a qual lhe mandou pôr seu filho o P.ᵒ Luiz Moreira.
1678.
--Sepultura de Lianor Jorze molher que foi de Luiz Glz d’Oliveira
provedor dos contos do reino faleceo a 21 doutubro de 1567, e de seus
herdeiros.
Transcrevi estes lettreiros porque são ineditos.
Na frontaria da egreja está uma inscripção referente á fundação; e uma
pedra com escudo d’armas que não sei explicar; não me parece portuguez,
nem hespanhol esse curioso brazão em que se vê uma perna com bota, por
baixo de uma estrella.
É bem interessante a modesta egreja, agora parochia da capital.