(1900)
_Domingo, 12 de junho de 1898._--No fim da tarde trovoada forte, e
chuva grossa; d’estes chuveiros que no campo fazem bulha batendo nas
folhagens do arvoredo; um rufar grave que se ouve a centos de metros.
Em Carnide não cahiu granizo; nas Laranjeiras bastante, mais forte na
Palhavã; no Matadouro a saraiva foi tão valente que partiu vidraças; e
em Sacavem e Cabo Ruivo ficaram algumas propriedades arrazadas.
Não ha memoria por estes sitios de tempestade tão violenta.
_Vespera de Santo Antonio._--Á noite fizeram-se sortes; quatro
papelinhos, nome de senhora, nome de homem, sitio, e o que estavam
fazendo. Permittem-se cousas... que fazem rir. Queimam-se alcachofras,
ha a historia da moeda de cinco réis, os foguinhos de vistas, valverdes
e bichas de rabiar. Uns rapazotes da visinhança estiveram n’um pateo,
durante duas horas talvez, atirando bombas. A philarmonica tocou o seu
reportorio no coreto armado no Alto do Poço. Junto do coreto raparigas
e alguns rapazes dançavam e cantavam. Cantigas _triviaes geraes_; não
ouvi nenhum cantar especial de Santo Antonio, nem na letra nem na
musica. O mesmo succedeu pelo S. João; não encontrei nada particular
nas celebrações populares. Brinca-se, riem, dançam, conversam sem
mostrar feição local. Creio que ouvi mesmo a valsa dos _Quadros
dissolventes_. Nada que recorde as cantigas do Alemtejo nem as da
Beira, as fogueiras do valle do Mondego, que teem cunho especial, typos
admiraveis, musicas que tão bem enquadram umas nas vastas campinas
alemtejanas, outras na paisagem mimosa, nos frescos valles da Beira.
É digno de reparo que estas cantigas populares de uma região não se
vulgarisem fóra d’ella.
Teem suas espheras. Ao mesmo tempo ha cantigas de origem não popular
que se generalisam rapidamente. A fogueira de Coimbra, arranjada no
_Burro do sr. Alcaide_, a _Noite serena lindo luar_, tambem de Coimbra,
que não são de origem popular, espalharam-se por todo o paiz. A valsa
dos _Quadros dissolventes_ foi uma explosão; os garotos assobiavam-n’a
nos bairros de Lisboa, ouvia-se em pianos nas mansardas da baixa, aos
operarios de Sacavem, e a vendedores torrejanos, isto dentro de um mez.
Duram mezes, ás vezes annos, certas cantigas; esvaem-se pouco a pouco,
ou desapparecem de chofre como a _Rosa tyranna_. São modas que passam,
como as reformas administrativas e as leis eleitoraes. Assim passou a
epidemia do _chocalhinho_, o caso da _salva brava_, o _pão de Kuhne_.
Não se recordam do _Estás lá ou és de gêsso_, do _Lindos olhos tem o
môcho_, do _Debaixo do sophá_, do _Vae-te embora Antonio?_
As musicas de Offenbach foram muito populares, mas para estas
concorreram certamente os theatros de feiras. No Alemtejo cantigas de
mondadeiras, de vindimeiras, e as de S. João, que se cantam tambem
pelo Santo Antonio e pelo S. Pedro, pertencem a fundo antigo popular.
Só ha tempos ouvi em Carnide uma trova que me fez lembrar o Alemtejo,
a cantilena muito comprida, melancholica, de um homem que lavrava com
a sua junta de bois; conversámos, perguntei-lhe de onde era; de Villa
Franca. É que o Ribatejo já tem muito de alemtejano.
* * * * *
_Dia de Santo Antonio, de 1898._--Fez-se a eira no casal do Falcão;
ante a grande frontaria do nascente, limpou-se da erva o amplo
terreiro. Com a chuva da trovoada da tarde de hontem, e da noite, o
terreno estava encharcado; depois de limpo entrou um rebanho de ovelhas
para calcar, com o seu moroso voltear.
Foi no dia de Santo Antonio, 13 de junho de 1898, que obtive licença
para vêr algumas salas do convento. Acompanhou-nos o reverendo
capellão padre Louro, protector carinhoso das velhinhas recolhidas,
tão modestas e tão religiosas.
A superiora chama-se D. Maria Guilhermina de S. José. As suas
companheiras são Maria de Jesus, Maria Philomena, Maria Augusta,
Josephina, Olympia, Maria do Carmo e Isabel. Vivem em perfeita
communidade estas santas senhoras, na virtude, na oração e nos humildes
trabalhos, como se Santa Thereza em pessoa ali estivesse fazendo
cumprir a sua regra.
No claustro a arcada muito clara e limpa, a cantaria lavada e as
paredes caiadas, tudo muito nitido, e cheio de reflexos de sol. No
meio da quadra o jardim, ainda o jardim antigo, o tanque central, e os
alegretes altos azulejados. E ainda as lindas flôres antigas, as rosas
e os cravos, o novelleiro, a baunilha, o jasmineiro, a alfazema e a
manjerona, a malva de cheiro, e a lucialima de fina folhagem.
A capella do Senhor dos Perdões está bem conservada na sua elegante
architectura. Na quadra, junto do jardim, ha duas capellas; o lado de
dentro das portas d’estas capellas é pintado a oleo, com folhagens em
volutas e espiraes, bom exemplar de pintura decorativa do seculo XVII.
N’um altar do claustro vi azulejos iguaes aos dos altares do cruzeiro
da egreja, e da capella do Senhor dos Passos; bellos exemplares do
seculo XVII.
No tanque da cêrca está um quadro em azulejo representando a
_Samaritana_.
As senhoras recolhidas comem no seu refeitorio, uma casa grande mui
limpa, as paredes ornadas de pequenos quadros de devoção.
Sobre a toalha branca sem uma nodoa os pratos e canecas de faiança
ordinaria, com sua marca; provavelmente louça especial feita para o
mosteiro em tempos antigos.
Creio que os conventos de Lisboa tinham todos louça especial com
marcas proprias, insignia ou divisa, ou inicial; e ainda mesmo algumas
confrarias possuiram tambem as suas louças com monogrammas ou emblemas
particulares.
* * * * *
_O presépe._--A casa da recreação é uma sala grande muito illuminada
por janellas rasgadas em duas paredes, com lindas vistas para os
accidentados arredores de Carnide.
N’outra parede fica a porta de entrada e uma capella onde estão muitas
imagens; na quarta parede fica o presépe.
As portas do presépe merecem attenção; teem o lado interior com
ornamentos dourados sobre fundo preto, imitando charão antigo, pintura
feita por uma freira, segundo a tradicção conventual.
As figuras do presépe são de barro cosido, colorido e tambem dourado,
finas esculpturas em grupos e scenas bem combinadas. N’estes grandes
presépes conservou-se a tradicção dos primeiros mestres flamengos
que n’um só quadro accumulavam muitas scenas, a _paixão_ toda, por
exemplo, como succede n’essa maravilhosa pintura de um mestre
desconhecido do começo do seculo XV, joia de alto preço, que se
conserva no côro de cima da egreja da Madre de Deus (Xabregas). A
scena principal é a do presépe, o Menino Jesus sobre as palhinhas
entre a Virgem e S. José. Proximo o grupo vistoso, opulento, dos
reis Magos. Ali a noticia, a grande nova aos pastores, além a fuga
para o Egypto. Entre estes grandes grupos, outras scenas, as da vida
popular tão interessante n’estes presépes antigos que sabiam combinar
engenhosamente a vida humana com o sublime ensinamento religioso;
de modo que hoje estes presépes além de todos os valores antigos da
significação religiosa, e de merecimento artistico, teem para nós a
importancia de documentos da vida popular; quantas vezes mesmo se
encontram aqui notas, figurinos, por exemplo, que em nenhuma outra
parte se topam.
N’este de Carnide entre os grupos ao divino das scenas da infancia do
Menino ha alguns episodios profanos extraordinariamente executados:
um grupo de populares sapateia a um lado com toda a bizarria; n’uma
especie de gruta, a fugir da luz, dois homens jogam absorvidos;
perto passa um cégo tocando sanfona; e camponezes alegres, com ovos,
gallinhas, perdizes, coelhos...
Superior a tudo isto, em posição muito bem calculada para a
perspectiva, um grande grupo de anjos cantando e tocando orgão,
violas, e violão, e superior ainda a este grupo brilhante um anjo
gentilissimo com a fita onde se lê _gloria in excelsis_, entre frescos
e risonhos rostos alados de cherubins. N’essas figuras de impeccavel
esculptura ha mais porém, ha em algumas grande expressão e movimento;
o espanto dos pastores, a magestade bondosa dos reis, o enlevo musical
do cégo, a furia nervosa dos jogadores, o enthusiasmo dos populares
no seu fandango rijo, são d’um encanto irresistivel, qualquer d’esses
grupos é de per si uma obra d’arte. Como isto chegou até nós, Santo
Deus, atravessando estes tempos de progresso, de luzes, de leilões!
bemditas as santas senhoras, tão singelas e honestas, que teem sabido
conservar essa preciosidade. Cuidado com os amadores! com os poderosos,
espirituosos e curiosos; é preciso conservar esse lindo presépe.
Na mesma casa da recreação ha outro presépe, pequenino, interessante,
com o Menino dormente. E na capella ha uma adoravel imagem do Menino,
em pé, de especial devoção antiga no convento, que tem o nome de _o
menino da compaixão_. E é bem singular que a escultura do rosto dá a
impressão de doce condolencia. Mas vejam como está bem afinada esta
casa de recreação para as senhoras religiosas; a linda sala cheia de
luz, os retratos das sublimidades da Ordem, dos modelos de virtudes
e abnegação, o artistico presépe, vibrante de suggestões, a imagem
consoladora do Menino, e pelas janellas largos trechos claros de
paizagem variada, a paizagem campestre clemente e serena.
* * * * *
No convento de Santa Thereza de Carnide vi alguns retratos valiosos,
não pela arte mas como documentos historicos, especialmente aquelles
que teem em seus letreiros dados biographicos dos retratados.
Por exemplo, o retrato de==_D. Fr. Luiz de Santa Thereza, carmelita
descalço, lente de theologia, bispo de Pernambuco em 1738, falleceu a
17 de novembro de 1757, jaz na capella mor do convento de S. João da
Cruz de Carnide._==
Pela extinção dos conventos de frades recolheram algumas pinturas e
imagens nos das freiras e assim se salvaram naquelle cataclismo.
Outros: _Retrato da infanta D. Maria filha de D. João IV_.
_Retrato da Madre Micaella Margarida de Santa Anna._
_Retrato de... bispo de Penafiel confessor da princeza._
_Retrato de D. Fr. João da Cruz, carmelita, lente de filosofia e
theologia, prior do collegio de Braga, e Santa Cruz do Bussaco, bispo
do Rio de Janeiro em 1739 transferido para o bispado de Miranda em
1750. Falleceu a 20 de outubro de 1756._
_La hermana Leonor Rodrigues_ (d’Evora).
_S. Cassiano._--No côro de baixo ha um pequeno quadro com retrato a
oleo, pintura antiga, que me tornou attento; representa um santo bispo
com uma cartilha na mão; é S. Cassiano, que era mestre de meninos e
todo dedicado á educação da infancia, que morreu martyrisado pelos
discipulos. Exemplo raro sem duvida! No meu tempo, e desde quando viria
o systema! era o mestre que martyrisava os rapazes com palmatoadas,
varadas e sopapos, castigos deprimentes das pobres alminhas das
creanças; e ás vezes os paes assomavam á porta da escola, e animavam
de lá: «não m’o poupe, sr. mestre, não m’o poupe; ensine-me bem o
rapazelho!»
Que differença tem havido nos ultimos tempos, em materia de educação,
nos pontos de vista, nos processos, e meios intelligentes; mas é
preciso educar as almas, para que sejam boas, fortes, livres e
religiosas na grande accepção do termo.
* * * * *
_Pinturas._--Os quadros da capella-mór das freiras de Carnide são de
Ignacio d’Oliveira Bernardes, segundo affirma C. Volkmar Machado, na
sua _Collecção de Memorias_ (pag. 94). Oliveira Bernardes (1695-1781),
era tambem architecto, e n’esta qualidade trabalhou no palacio de
Queluz, e na casa e quinta de Gerardo Devisme (a S. Domingos de
Bemfica, onde actualmente está o collegio de meninas).
A grande tela magistral do _Transito de Santa Thereza_, é do pincel de
José da Costa Negreiros, que foi discipulo do celebre André Gonçalves.
Negreiros falleceu em 1759, com 45 annos. Esta familia Negreiros
produziu varios artistas.
Percorrendo agora a _Collecção de Memorias_ de Cyrillo Volkmar Machado,
tomei algumas notas a respeito de quadros pintados que se podem ver em
egrejas dos arredores de Lisboa.
_Jeronymo de Barros Ferreira_ nasceu em 1750, em Guimarães, morreu em
Lisboa em 1803; pintou o tecto da capella de Santa Brigida na egreja
parochial de S. João Baptista do Lumiar.
_Vanegas_, castelhano, imitador do Parmezão; o painel do retabulo na
capella-mór de N. S.ᵃ da Luz é d’este pintor (V. Machado, pag. 60).
_Diogo Teixeira_, pintor do tempo de D. Sebastião. Na Luz, ao pé dos
quadros de Vanegas estão pinturas d’este Teixeira (pag. 68).
_André Gonçalves_ (pag. 88). Este pintor que trabalhou immenso,
falleceu em 1736; são d’elle alguns quadros da capella de Queluz, os
quadros da vida de S. João Baptista, no Lumiar, e os do côro de S.
Domingos de Bemfica. Lendo estas _Memorias_ de Volkmar Machado, fica-se
com impressão dolorosa; como se trabalhou em Portugal no seculo passado
e ainda no primeiro quartel d’este seculo! em pintura, architectura,
esculptura, ourivesaria, em tecidos, em fundições. A enorme e
violentissima crise das invasões francezas, não parou essa torrente de
trabalho artistico; era o rei que encommendava estatuas e quadros,
era Mafra e Ajuda que foram formidaveis escolas, e as casas fidalgas
que mandavam fazer retratos, capellas, decorações dos seus palacios
e jardins, eram os frades a querer azulejos e telas, e entalhados, e
embrexados, eram os prelados, os cabidos, e até a humilde irmandade
que ao menos queria ter o seu _compromisso_ ou estatuto em bonita
encadernação de velludo ou marroquim, com seus ornatos a ouro, e cantos
e fecharia de prata.
Era uma corrente, uma orientação bem diversa da actual.
* * * * *
_15 de junho, manhã, cedinho._--Da janella do meu quarto vejo no casal
os homens de trabalho juntando mólhos em fascaes. Junto da terra do
Lopes estão carregando fêno; muito está emmólhado na terra, não se
póde emmédar porque está humido da chuva. Já se ceifa trigo; na terra
do Castello anda um grande grupo de trabalhadores; para o lado de
Falagueiras tambem. O trigo do Alto da Tonta está prompto a ceifar,
está lindo, de um louro claro; á passagem do vento faz brandas ondas
douradas. O da terra do Lopes tem um verde intenso. Agora distinguem-se
bem os trigos de inverno e os da primavera, uns muito louros, outros em
verde carregado.
* * * * *
_Domingo, 19 de junho._--Festa das ervas para remedios em Alfornel,
hoje em decadencia completa; vae mudando tudo. Antigamente era muito
concorrida, vinha muita gente de Lisboa, que se espalhava pela serra
procurando plantas medicinaes. Agora é rara a pessoa que conheça bem as
ervas e saiba aproveital-as: e os ervanarios teem dado em droga.
--Nas boticas ha tanto remedio...
--Eu lhe digo, o boticario, eu ainda aqui conheci botica e boticario,
comprava ervas para remedios, agora o pharmaceutico nem nada. Está tudo
mudado!
O que não mudou foi a vegetação da serra, onde se encontra uma
variedade singular de plantas.
Segundo o celebre Sande Elago, as plantas medicinaes dividem-se em
classes correspondentes aos sete planetas: saturninas, joviaes,
marciaes, solares, venereas, mercuriaes e lunares.
A versão portugueza de Elago (_Compendio de Alveitaria_ tirado de
varios auctores, composto na lingua hespanhola por Fernando de Sande
Elago. Lisboa, Impressão Regia, 1832, in-4.ᵒ) merece attenção por,
entre outras cousas, trazer uma grande relação de plantas com os seus
nomes em vulgar.
Tambem na obra classica de Felix do Avellar Brotero, a _Flora
Lusitanica_ (Parte 2.ᵃ--Lisboa, 1804), a pag. 522, vem um indice de
nomes vulgares das plantas.
_Montalegre, 19 e 20 de junho._--Concurso de machinas agricolas na
quinta de Montalegre, bella propriedade do snr. Carlos Anjos. Foi
muito concorrido, appareceram muitas charruas de varios systemas que
trabalharam puxadas a juntas de bois. A machina e o adubo serão a
salvação da agricultura; é preciso aperfeiçoar e augmentar o trabalho,
é necessario reforçar a terra, tornal-a propria para produzir bem.
A meu vêr a machina e o adubo teem ainda outra vantagem, põem o
machinista, o chimico, o agronomo em contacto com o agricultor; levam
a sciencia ao campo; afinam mais facilmente com a experiencia, que o
veterinario, que difficilmente se tem aproximado do lavrador.
_Na obra Exposição da alfaia agricola na Real Tapada da Ajuda, em 1898_
(Lisboa, Imp. Nacional. Publ. comm. do 4.ᵒ centenario do descobrimento
do caminho maritimo da India) ha uma parte referente ao concurso de
charruas na quinta de Montalegre, á Luz, com photographias de charruas,
grades, semeadores, ceifeiras, enfardadoras, escolhedor, tararas, etc.
* * * * *
_29 de junho, S. Pedro._--Fui a Lisboa no carro de Carnide. Este carro
nos ultimos tempos tem seguido varios caminhos de Carnide á rua da
Assumpção, por causa dos trabalhos das Avenidas, e do ascensor Rocio-S.
Sebastião da Pedreira. Hoje é o ultimo dia do caminho pelo campo de
Sant’Anna; Carnide, largo da Luz, estradas da Luz e Larangeiras,
Sete Rios, Palhavã, S. Sebastião da Pedreira, Matadouro, Instituto
Agricola, Cruz do Taboado, Campo de Sant’Anna, R. Arantes Pedroso, R.
da Inveja, Principe Real, Mouraria, Praça da Figueira, Rocio e Travessa
da Assumpção. Agora passa o itinerario á Estephania, porque as obras da
Avenida que vai ao Matadouro estão muito adiantadas e cortam o caminho.
Ha tempo que estão a desmanchar uma parte do aqueducto que vai de S.
Sebastião da Pedreira ao Matadouro. Que bella construcção antiga, de
magnificos silhares bem faciados, e de alvenaria firme, solidissima,
com enormes pedregulhos; aproveitam agora este material nas novas
construcções da Avenida, mas teem de trabalhar devéras para o arrancar.
Estas variantes do caminho seguido pelo carro de Carnide menciono eu
para marcar o desenvolvimento dos novos bairros da capital.
* * * * *
_Fogueiras de S. Marçal._--29 de junho: dia de S. Pedro. Á noite muitas
fogueiras pelos campos. Estas são dedicadas a celebrar S. Marçal,
advogado contra os fogos.
* * * * *
_3 de julho, domingo._--Pelas 9 horas da noite, eclipse parcial da lua
que durou, muito nitido, até depois das 10 horas.
_Domingo, 17 de julho._--Festa a Nossa Senhora do Monte do Carmo, no
convento de Santa Thereza, com os padres inglezinhos; foi ás 10 horas
da manhã. Cantou a missa o rev.ᵒ P. Louro, capellão das freiras, e
professor do Collegio Militar.
O côro dos inglezinhos era acompanhado a orgão. Executaram muito bem o
seu solemne cantochão.
* * * * *
Na chan da quinta ha um recanto isolado, silencioso; junto do alto muro
velho da cêrca das freiras está um poço d’onde se tira agua por uma
picota; dois robustos cyprestes, figueiras de negros troncos tortuosos
espalham fechadas sombras; além do recanto a terra do trigo, a vinha,
as oliveiras; parece uma paizagem grega; o olhar de Homero não a
estranharia.
Estive hoje a ler ali um trecho de Ruy de Pina (o silencio do logar e
a sombra do arvoredo ainda m’o tornaram mais frisante) que me falla de
Carnide.
Trata-se do amargo desastre de Tanger, de como ficou preso dos mouros o
infante santo, pobre D. Fernando, filho de D. João I.
--E o infante D. Pedro, como sentiu o coração d’el-rei em algum mais
socego, lhe pediu licença para trigosamente, e o melhor que pudesse, de
Lisboa socorrer a seus irmãos, e a el-rei aprouve, e se veio logo apóz
elle á aldêa de _Carnide_ junto com Santa Maria da Luz, porque a cidade
estava perigosa de pestilencia. Mas porque ordenou que o socorro fosse
com muita gente e grande poder, em se aviando para isso as cousas
necessarias, chegaram em tanto a Lisboa dos que vinham de Tanger,
muitos navios que certificaram o caso como finalmente passara, de que
el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui aspero de ouvir, que o
infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas por saber que a mais
da sua gente era em salvo, deu por isso muitas graças a Deus, e como
rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se naquella aldêa, para vêr
e agasalhar os que vinham do cerco, dos quaes muitos, ao tempo que iam
fazer-lhe reverencia, em disformes semelhanças e tristes vestidos, que
para isso de industria vestiam, e com palavras á desaventura conformes,
se lhe mostravam, e delles fingiam ser muito mais damnificados do que
na verdade o foram, com fundamento de carregarem mais na obrigação
para o feito de seus requerimentos, que alguns logo faziam e outros
esperavam fazer, de que el-rei recebia publica dôr e tristeza.
Mas a estes foi mui contrario o nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz
d’Almada, capitão-mór do Mar que como quer que no cêrco de Tanger de
sua fazenda perdesse muita, e da honra por merecimentos d’armas não
ganhasse pouca como chegou a Lisboa, antes de ir fallar a el-rei, logo
de finos pannos e alegres côres se vestiu, a si e a todos os seus, e
com sua barba feita e o rosto cheio de alegria, chegou a Carnide, onde
o rei andava passeiando fóra das casas, e com elle o infante D. Pedro,
e depois de lhe beijar as mãos e lhe dizer palavras de grande conforto,
el-rei o recebeu mui graciosamente, e louvou muito sua ida naquella
maneira, que não sómente lhe apontou cousas e razões, para não dever
por aquelle caso ter nojo nem tristeza, mas ainda que por elle devia
ser mui alegre e contente, estimando em nada o captiveiro do Infante
seu irmão, que era um homem só e mortal, em que havia muitos remedios,
em respeito da grande fama que naquelle feito em seu nome se ganhára
aconselhando-lhe mais o repique e alvoroço dos sinos, para honra e
prazer dos vivos, que o dobrar d’elles, que ouvia, por tristeza e pelas
almas dos mortos; pelo que el-rei começou a mostrar que aquelle era o
primeiro descanço que seu coração recebia...
(Cap. 36 da _Chronica de D. Duarte_, de Ruy de Pina.--_Ineditos da
Acad._ Tomo 1.ᵒ, pag. 172 e 173).
Onde seria o paço de D. Duarte?... não sei. Na rua do Machado ha
ainda cunhaes de grossa silharia velha, restos seguros de mui antiga
construcção. Por aquelles quintaes ainda se encontram vestigios
antigos, não são sufficientes porém para se affirmar a existencia ali
de solar ou castello. O velho paço de Carnide desappareceu. Ficou a
narrativa de Ruy de Pina. Resalta ahi a figura de Alvaro Vaz d’Almada,
n’uma luz e n’um ensinamento incomparavel. Coragem, para encarar
perigos e reparar desastres; um homem não se prostra perante a dôr,
soffre; o coração abafa de soluços, mas lucta-se sempre, engole-se a
amargura, soffre-se a ferida, suga-se a esponja de fel, mas o espirito
não se perturba, o animo esforça-se por não perder a sua energia.
Deixar ao lado os esmorecidos, ao longe, bem longe, os vis
especuladores, e trabalhemos, sem fraquejar, ainda que as lagrimas
salgadas nos queimem as faces, e a angustia nos aperte o coração;
o espirito justo vence; Deus manda que se trabalhe, e que não nos
deixemos vencer pela tristeza.
Antigamente no dia 17 de julho havia mercado de trigo em Mafra; era
importante, servia para se saber do trigo existente, se havia mingua ou
fartura, ver as qualidades, e tratar de preços. Reunia-se muita gente,
importantes _quadrilhas_ de carros de bois, dos lavradores, e muitas
récuas de machos dos padeiros de Lisboa.
_Agua de Santo Alberto._--Domingo, 7 de agosto de 1898. Logo que
cheguei, bebi agua de Santo Alberto, que mandaram as freirinhas, em sua
bilhinha de barro vermelho, com um ramo de murta florida preso na aza.
É boa contra as febres. Na rua, raparigas apregoavam fogaças.
Esta agua de Santo Alberto tem fama muito antiga.--Em 7 de agosto,
na capella dos Terceiros do Carmo se benze a agua com uma reliquia de
Santo Alberto (_Summario de varia historia,_ de Ribeiro Guimarães. IV.
pag. 240).
Fr. Estevão de Santo Angelo, fez um romance heroico dedicado á
virtude d’esta agua, no seu Jardim Carmelitano. Agora ha muitas aguas
virtuosas, mas os reclamos não chegam a epopeias.
_Carnide, 15 de agosto de 1898._--Ás 6 horas da manhã, estouros de
morteiros, estalos altos de foguetes, e rompeu sonorosa musicata. É a
festa do anniversario da _Sociedade Philarmonica 15 d’agosto de 1880_.
Os bellos rapazes preparados por ensaios repetidos apresentaram-se em
publico com o seu melhor reportorio.
15 d’agosto, o dia de Nossa Senhora, tão celebrado na minha terra, e
em todas as que teem vida agricola. É o dia em que os lavradores de
cereaes, sabem com certeza o que passou pela eira, e se vencem fóros e
rendas de trigo, centeio e cevada.
Houve missa nas freiras ás 8¹⁄₂ da manhã. Estava em exposição o _Senhor
Formozo_, muito fallado na chronica convental. É o _Ecce homo_, mãos
atadas, o manto d’irrisão lançado para as costas; a imagem do Divino
Justo, quando foi insultado pela gente ignara, pela sociedade culta e
inculta de Jerusalem. Porque então, como hoje o cultismo não implica
espirito de Justiça; não vemos nós nações das mais cultas, que se dizem
christãs, arvorando a força sobre o direito?
Pobre _Senhor Formozo!_ Se me não engano era uma regular pintura
hespanhola, maneira energica, aspecto tragico, por isso talvez
impressionava tanto as pobres antigas freiras. Era o rosto austero,
o corpo já com livores de cadaver e gottejando sangue; a expressão
do grande soffrimento sobrepujada todavia pelo incondicional perdão.
Assustava as nervosas santas mulheres, e chamaram um grande pintor
então afamado, para emendar a tela; vê-se bem que foi muito alterado no
rosto; o pintor sabia do mundo, e fez um Christo precioso, de boquinha
affectada, de expressão inoffensiva, incapaz de qualquer suggestão
incommoda a espiritos assustadiços.
_28 de agosto de 1898. Bolinhos de Santa Quiteria._--Hoje trouxeram-me
bolinhos de Santa Quiteria, muito bons para evitar a hydrophobia em
pessoas, cães e vaccas.
São uns pequenos cubos de massa de trigo, passada no forno.
Depois vieram homens vestidos de opas pedir esmola para a Irmandade de
Santa Quiteria, do Senhor Roubado, perto de Odivellas.
_1899. Dia de Anno Bom._--Assistiram á missa alguns alumnos do Collegio
Militar, que não foram a ferias. Teem as familias muito longe... no
ultramar. Depois da missa o capellão rev. Padre Louro, apresentou
a imagem do Menino Jesus, em pé; as pessoas presentes foram beijar
a imagem. Durante a missa o orgão executou musica solemne, e na
apresentação do Menino tocou um motete alegre, com imitações de musica
pastoril, de sanfona e gaita de folles. Pairava em todos um sorriso
bom; só eu pensava n’um menino, n’um adoravel menino... luz que se
apagou.
* * * * *
Estive hoje a lêr um livro que me deu noticias da egreja da Luz, d’este
logar de Carnide: _Historia do insigne apparecimento de Nossa Senhora
da Luz e suas obras maravilhosas_: Composta pelo Padre Fr. Roque do
Soveral, religioso da Ordem de Christo. Lisboa, Pedro Crasbeeck, 1610.
É um volume in. 4.ᵒ de 213 pag.
O rosto do volume, gravado por Antonio Pinto, é muito interessante.
A meio está o medalhão com a imagem de Nossa Senhora com o Menino no
collo; e aos lados estão gravados feixes de muletas, navios pendurados,
pelouros, e umas cousas que representam talvez mortalhas ou samarras de
que se falla nos muitos milagres da veneravel imagem.
Tem muitas noticias este volume a respeito de pessoas e casos em
diversas epochas, significantes para o estudo social e local.
Por exemplo, a pag. 52 v. a proposito da antiga romagem á Senhora da
Luz, diz que este sitio de Carnide era dantes mui deserto, e depois
de começarem as romagens os caminhos se tornaram mais seguros:--sendo
dantes, segundo o que sabemos por tradição antiga tão espessos bosques,
que para o logar de Carnide não havia mais caminho que um atalho, que
se tomava no caminho de Bemfica para o tal logar, e nos mesmos bosques
se recolhiam salteadores, da maneira que em Portugal na charneca de
Monteargil, etc.: e cita varios bosques notaveis na Europa por serem
asylo de ladrões: assim, antigamente eram tão temidas as brenhas e
mattos de Carnide, que ninguem caminhava para elle sem muita junta de
receios.
Feita a egreja e estabelecidas as romagens o sitio e os caminhos se
tornaram mui frequentados; encontrava-se gente de todas as qualidades
e nações, o hespanhol, o bretão, e o flamengo; os de pé, de cavallo e
de coche, cantando e dançando, tocando violas e adufes:==disse por isso
mui bem o outro, que os que vinham de Nossa Senhora da Luz, parecia
virem de colher as lampas de S. João, que ou seja com canas verdes nas
mãos, ou com capellas nas cabeças, sempre tornam para suas casas, como
se vieram das hortas de colher cheirosas ervas.
Tanto assim que havia cinco mulheres==que só vivem e se sustentam de
venderem candeias de offerecer, achando-se para isto de continuo em a
egreja da Senhora. E diz depois (pag. 54 v.) das mais celebres romagens
do seu tempo, em Portugal, a começar pela Senhora do Monte. O cap. II,
(pag. 76 v.) é intitulado:==_Particularidades da fonte de Nossa Senhora
de Luz_==, e tem muitas paginas consagradas á virtude dessa agua. E até
o certificado de um medico (pag. 77 v.); mas eu não me posso demorar, e
peço ao leitor curioso que veja o livro. Eu tenho que resumir. A pag.
190 conta==de algumas náos que a Senhora da Luz livrou da tormenta em
que se viram perdidas, e logo abre o cap. XII:==_Como Nossa Senhora da
Luz é avogada dos mariantes._
É inutil dizer que todas essas paginas teem interessante lição e
importancia historica.==Escreve ácerca da náo _Luz_, em 1497, e a este
respeito se cita o templo de Nossa Senhora da Luz, em Goa, fundado
sem duvida em lembrança da Luz, de Lisboa. E affirma que era costume
os mariantes dessa longa viagem da India virem antes de embarcar em
romagem á Luz de Carnide, depois de lá chegados á Luz de Goa. Que esta
romagem da Luz está ligada ás primeiras navegações não offerece duvida.
Conta (cap. XIII) o caso horrivel da náo _Chagas_ (1560); e em memoria
deste milagre,==hoje 7 de junho de 1570 vieram a esta casa da Luz com
procissão todos os marinheiros da mesma náo.==E vem a historia da urca
_Fortuna_, e da caravella de Pero Marques, a da náo hespanhola _S.ᵗᵃ
Ana_, a da náo _Betancor_, e a do _Salvador_; e a de uma escotilha em
que se salvou Pero Gonçalves, estando tres dias sobre ella no alto mar!
Na egreja havia quadros de milagres, imagens de cera, muletas de
aleijados, grilhões de captivos, mortalhas de salvos na agonia, velas
de naufragos escapos ao vendaval, pedaços de amarras de náos, pares
de algemas, pelouros de artilheria grossa, (pag. 104 v.) e náos,
pequeninas náos; «do côro ficam pendendo sobre a egreja quatro náos,
que em fórma pequena contrafazem bem toda a fabrica das que navegam; e
ha pouco tempo (note-se isto) que estavam oito que se tiraram assim por
pôrem outras que vinham de novo, e não tinham lugar, como por se darem
a algumas pessoas que as pediram».
E antes mais cousas havia:==na ermida antiga de todas estas cousas
havia mór numero, de que tiraram algumas menos gastadas do tempo, para
as mudarem aonde agora dizemos estão (pag. 204 v.)==As _samarras_,
segundo a tradição, eram de uns homens que, na volta da India,
naufragaram na costa da Cafraria, e andaram muito tempo perdidos pelo
matto, fugindo das féras e dos pretos, até que, invocada a Senhora da
Luz, lhes appareceram uns cafres misericordiosos que lhes deram suas
proprias vestimentas.
Havia tambem cobras, isto é, pelles de cobras, uma de 4 varas de
comprimento, provenientes do Brazil; mortas por milagres quando
intentavam matar as pobres victimas nos seus anneis roliços, e com
seus venenos fulminantes. Era uma collecção suggestiva essa, hoje
sumida de todo perante esta moderna correcção idiota que tudo invade e
vae dominando, matando arte e poesia e fé.
_Carnide. Domingo, 15 de janeiro de 1899._--Começou hoje a funcionar o
ascensor Rocio-S. Sebastião da Pedreira. Fui a Carnide no carro da rua
da Asumpção. Carro cheio; pessoas que iam ao collegio militar visitar
os filhos. Nestes domingos de visita ha sempre no carro conversas
interessantes; dos filhos que vão bem, d’outros que perderam o anno; e
corre-se uma larga escala de affectos, de caracteres, e de saudades.
Viuvas que vão vêr os seus filhos, amigos que vão vêr os filhos dos
que estão no ultramar para lhes dar noticias, tutores que visitam
pobres orphãos. Todos levam uma lembrança, um embrulho atadinho, para
os rapazes. Com as senhoras vão ás vezes meninas, mui palreiras,
enthusiasmadas com a visita aos pequenos militares. Que estes carros
de Carnide favorecem o cavaco, com os seus pulos e solavancos; vae
uma pessoa muito correcta, zás solavanco, e vem uma senhora nervosa
cair-nos nos joelhos; um cavalheiro solemne e mui serio, pula o carro,
e elle apanha na cara com um chapeu de plumas, ou um papeluço de bolos.
Quer a gente mover-se, não póde, está presa, as taboinhas dos assentos
do carro apertam abas de casacos e dobras de vestidos; não faltam os
preguinhos atrevidos que rasgam tecidos e ás vezes a pelle; ha sempre
episodios; depois logo ao entrar na estrada das Larangeiras, o ar é
mais fino, e fresco, com perfumes campesinos; a estrada da Luz tem
vista de campos, de varzeas e arvoredo. Alegram-se os olhos de vêr a
paizagem e os pulmões gozam ar mais puro.
Mas hoje, 15 de janeiro, o aspecto é outro, o vento é desabrido, de
rajadas, ha nevoeiro denso, humido, que mal deixa vêr as arvores
proximas, num esbatido leve. Na Luz alguns carros, e varios grupos;
ha corridas pedestres e de bicycletas, e prepara-se uma partida de
foot-ball.
Fomos até ao casal do Falcão, e ainda mais adiante a Alfornel vêr o
faval nascente. Os trigos nasceram bem mas estão amuados.
A paisagem é extraordinaria hoje, porque a nevoa tem intermitencias;
é um nevoeiro muito humido, irregular, de densidade diversa, e como a
camada de nevoa que está passando não tem grande espessura, de vez em
quando rompe-se e apparece logo o ceu velho, e um jorro de sol.
Como isto agora tem o aspecto triste, no nevoeiro frio e humido,
rasgado pelo vento convulso que vae passando; o casal tão velho, ruina
tragica, as figueiras, as vinhas sem folhas, como tiritando no frio de
janeiro.
Jantar de familia, casa cheia; como a sopinha quente sabe bem
neste frio de janeiro, em dia de nevoa cerrada; depois algumas
especialidades, os nabos guisados, a carne de porco assada, com a
loura agua pé; o pudim delicioso; as raivinhas e os esquecidos do Bom
Successo. Ao café, com o competente cognac caseiro, entraram os srs.
Duartes, de Mafra, que trouxeram elementos novos á cavaqueira. Contaram
que el-rei mandára deitar javardos na tapada de Mafra; já entraram oito
de Castello Branco, e um que nasceu no parque das Necessidades. Na
Tapada, a comida é pouca; em tempos antigos houve porcos bravos ali,
mas acabaram com elles porque nada lhes escapava.
De subito entrou uma mascarada animada, os meninos e meninas T.,
uma série muito gentil, vibrantes de riso; houve piano, valsas,
improvisou-se um concerto: a sr.ᵃ D. G. cantou superiormente alguns
trechos.
--Já 9 e um quarto! toca a ir para o carro.
Eu fiquei; da janella do meu gabinete a vista era admiravel; estava o
ceu muito estrellado, havia algum luar, o ar muito frio e sereno; a
nevoa abaixára, e estava agora quieta e branca sobre as varzeas, os
campos do valle; muito salientes, a massa negra do casal do Falcão, e
a collina triste coroada de cyprestes do cemiterio dos Arneiros; um
grande silencio frio; como uma palpebra semicerrada de agonisante,
a esvaír-se de luz e de vida, a lua em minguante, muito obliqua,
branqueando a toalha de nevoa quieta sobre as terras mais baixas, as
varzeas humidas.
_Carnide, domingo 28 de janeiro de 1899._--Vi hoje lindas flôres do
logar de Telheiras; com a inverneira que tem corrido, frios, geadas,
tempestades, notei as flôres; é que o logar de Telheiras é mais ameno
e abrigado, a este de Carnide mais alto e exposto ás grandes correntes
do ar. O antigo oratorio, convento e egreja de Nossa Senhora da Porta
do Ceu, em Telheiras, está hoje abandonado. É n’esta egreja que está
a sepultura do principe de Candia, o pobre rei do Ceylão, fundador do
edificio, que veiu morrer tão longe das suas florestas de canella.
O oratorio de Nossa Senhora da Porta do Ceu, de Telheiras, foi fundado
pelo principe D. João de Candia. Este infeliz principe nasceu em
Ceylão, por 1578, e teve de abandonar o seu throno de marfim e perolas,
entre luctas politicas e religiosas; era criança ainda. Levaram-o para
a ilha de Manar, depois a Gôa, e ao collegio dos Reis Magos de Bardez;
veiu parar a S. Francisco de Lisboa, mais tarde a S. Francisco da
Ponte, em Coimbra, e gastou o resto da vida a requerer e representar
entre Lisboa e Madrid, porque então dominavam os Filippes. O que isto
seria, Santo Deus! n’aquelles tempos, quando hoje basta uma burocracia
para abafar e esterilisar todas as vontades, o que seria no tempo da
dominação hespanhola com tantos officios e dezembargos em Lisboa e
Madrid.
A historia d’este homem é interessante; pobre soberano de Candia,
Cota, Ceytavaca e Cettecorlas, que veiu descançar aqui em Telheiras,
cingindo o cordão franciscano.
Dizem que hoje não é assim; os soberanos desthronados vão direitinhos
ás folias de Paris, e as alfayas e tapeçarias apparecem no Druot,
escapando aos ministros de que falla o chronista Soledade.
Infeliz principe singalez, chamaram-lhe D. João d’Austria, e principe
de Candia, e foi um martyr toda a vida; teimaram em ensinar-lhe latim e
theologia, andou em bolandas pelos conventos intrigado e explorado, e
nem mesmo cumpriram a sua ultima vontade. Morreu em 1 de abril de 1642,
a sua morte foi um lauto regabofe para muita gente... «pelas mãos dos
ministros, como ficaram todas as tapeçarias, peças de prata, e outras
muitas alfayas preciosas, que elle tinha consignado á egreja d’este seu
convento, as quaes levaram d’elle com violencia os ditos ministros,
e sem obstarem os requerimentos dos religiosos, tudo repartiram e
consumiram entre si.»
Isto escreve fr. Fernando da Soledade, na sua _Chronica serafica_, 5.ᵒ
vol. n.ᵒ 893, pag. 611.
Elle diz ainda mais coisas que eu não estou para transcrever; foi uma
patifaria, como tantas outras que se teem feito modernamente.
* * * * *
_Paço do Lumiar, 2 de fevereiro de 1899._--Dia de Nossa Senhora da
Purificação, as Candeias, como se diz vulgarmente.
Fui vêr a festa religiosa e a feira, na egreja parochial de S. João
Baptista do Lumiar, e no bello adro que a cérca.
A festa é a Santa Brigida.
Na egreja esteve exposta a reliquia da Santa, uma parte do craneo, em
uma urna de prata dourada, muito bem trabalhada, elegantissima: uma das
urnas mais gentis que tenho visto em estylo D. João V.
Dizem que veiu esta urna do mosteiro de Odivellas.
Na feira havia gado suino alemtejano, vaccas leiteiras com bezerros,
vidros, louças, queijadas e bolos.
Ha uma especialidade n’estas feiras saloias; as leitoas assadas,
abertas a meio e espalmadas, seccas e rijas, de uma côr apetitosa,
expostas á venda em canastras ou caixotes com ramos de louro.
O saloio com a canastra de leitoas emparelhava bem com a collareja,
assentadinha, chapeu de chuva aberto, com a cesta de queijadas de
Cintra.
Dois ou tres homens vendiam bordões, chibatas, varas e varapaus armados.
Na feira de S. João, em Evora, apparecem tambem saloios, uns vendendo
varapaus, e outros a que chamam saloios da Nazareth com taboleiros
de pederneiras para isca. Agora com as guerras á isca feitas pelos
phosphoros, não sei se vão desapparecer de todo estes representantes
ultimos da edade do _silex lascado_.
Passeavam lavradores invocando ou agradecendo a protecção da Santa, em
volta da egreja, com juntas de bois, algumas muito enfeitadas de fitas
de côres vivas, com entrançados e bordados.
Dentro da egreja, á direita da entrada, dois homens recebiam esmolas,
em trigo na sua arca especial, ou em dinheiro, e vendiam _registos_,
milagres de cêra, bois e peitos, e muito pavio de cêra amarella ás
braçadas. O pavio amarello é bom para livrar o gado de doenças, olhados
e desastres; enrola-se dando volta aos dois chifres do boi, e ahi se
deixa ficar até se estragar.
Sobre o altar de Santa Brigida foram collocar alguns boisinhos de cêra.
Depois da festa houve communhão na capella da Santa, tocando o orgão,
e em seguida o padre deu a reliquia a beijar; e foi muito beijada, por
mais de cem pessoas, com muita devoção.
Esta Santa Brigida, protectora do gado bovino, da-me que pensar.
Brigitta, Brigida, Brigides, Birgida, Birgita, Britta, etc., virgem,
natural da Escocia, abbadessa de Kildare na Irlanda, morreu em 523, no
1.ᵒ de fevereiro, segundo affirmam.
As lendas d’esta Santa ligam-se com a famosa de S. Brandão (Brendanus,
Bredan) abbade de Chainfort, na Irlanda, que morreu em 578 (16 de maio
ou 5 de junho).
A reliquia, a cabeça da Santa, segundo diz a inscripção no exterior da
capella, foi trazida por tres cavalleiros hibernios, ou irlandezes.
O que eu vi na urna pareceu-me effectivamente um fragmento de craneo, o
occipital, talvez; não se vê bem por causa dos ornatos.
Que esta devoção por Santa Brigida vem pelo menos do seculo XIII, com
certeza, e continúa ainda intensa; ha pouco ainda uma devota offereceu
uma cabeça de prata.
Este sitio do Lumiar e Paço do Lumiar merece um estudo especial; foi
aqui o paço do famoso infante Affonso Sanches; ha estreitas relações
entre esta egreja e o sitio e mosteiro de Odivellas, antigos santuarios
que estão no principal caminho de Lisboa para o interior, o caminho de
Alvallade, onde se encontraram os exercitos na sanhosa guerra civil de
D. Diniz.
A inscripção dos cavalleiros hibernios está no exterior da capella de
Santa Brigida, da egreja de S. João Baptista do Lumiar, lado norte. É
copia da antiga que de ha muito se sumiu. É a seguinte:
Aqvi nestas tres sepvltvras iazẽ enterados os tres caval.ʳᵒ ibernios
q. trouxerã a cabeça da bẽ avẽtvrada S. Brizida virgẽ natvral da
Ibernia cuia reliqvia está nesta capella p.ᵃ memoria do qval hos
oficiais da mesa da bẽaventvrada S. mão darão fazer este ẽ ian.ʳᵒ de
1283.
* * * * *
_Quinta feira da Ascensão, 11 de maio de 1899._--A chuva miudinha de
hontem não regou bem as terras, mas abateu a poeira das estradas, e
lavou as folhagens que estão viçosissimas, com o brilho setinoso,
exuberante de primavera.
Chegando á rua do Norte admirei-me de vêr a calçada coalhada de folhas
de rosa. Houve uma grande festa na egreja das Freirinhas, e tive pena
de não ter assistido. Foi a primeira communhão a alguns alumnos do
Collegio Militar; pela primeira vez, ao que me disseram, se lembraram
de fazer este acto com certa solemnidade. Nem tudo póde lembrar. N’um
estabelecimento de educação, internato militar, ha tanto que fazer,
tamanhas responsabilidades! O ensino dos compendios, a alimentação,
a disciplina, as formaturas, os toques de cornetas, não deixam tempo
para pensar n’estas questões da alma. Este anno, emfim, houve ensejo de
celebrar solemnemente a entrada dos jovens militares n’este primeiro
gráo de consciencia responsavel com hymnos religiosos, musicas e
bençãos, e mãos finas de senhoras lhes atapetaram o caminho com folhas
de rosa.
Estes já tiveram na vida um dia florido, esperem outros ainda melhores,
os que se seguem aos trabalhos vencidos, ás bellas acções de honra e
abnegação.
Celebraram a linda festividade na egreja das freiras, ornamentada pelo
dr. Sant’Anna; de todos os pontos vieram taboleiros de flôres.
Este anno os campos estão menos verdes do que no anno passado, os
trigaes são menos fortes, menos densos; principalmente nos terrenos
altos as seáras não encobrem o chão; _terreja_ muito; mas as oliveiras
e as vinhas apresentam-se cheias de promessas.
Quando eu ia por entre as latadas da quinta, opulentas de folhagem,
na paisagem quieta de searas e olivedos, lá do sul, de além do sevéro
macisso de Monsanto, veiu o estrondo das salvas de grossa artilheria.
Estão no Tejo duas formidaveis esquadras, ingleza e allemã, grandes
navios de aço, maravilhas de construcção naval, collossos de força,
suprema expressão da energia dos arsenaes. Como o ruido d’esses
poderosos canhões desafina na paisagem de primavera florida! sobre
esses campos e logarejos respirando a serena vida da natureza.
É o dia da _espiga_, como o povo chama aqui, nos arredores de Lisboa,
á quinta-feira da Ascensão; até os carros de trabalho vão enfeitados
com ramos de oliveira, espigas de trigo, rubras papoulas, brancos
malmequeres; tambem enfeitam de espigas e flôres as cabeçadas dos
animaes; e passam ranchos animados, palreiros e galhofantes, as
raparigas com grandes ramos nas mãos, os rapazes com raminhos atados
nos varapaus.
É a festa agricola que vae por esses seculos atravez raças e religiões,
provavelmente até ao dia em que o espirito do homem pela primeira vez
admirou e agradeceu com ternura a planta florida, a suprema graça e o
divino aroma da corolla, promessa do saboroso fructo.
Na minha terra além das _maias_ do primeiro dia do mez e da festa da
Ascensão, o povo da cidade e dos campos celebra tambem o dia 3 de
maio, o da invenção da Santa Cruz, e ornamenta de flôres as cruzes dos
logares publicos, as das vias sacras, as que marcam nos campos, nas
estradas, os logares onde cairam os assassinados; a cruz de azulejo do
sitio do fusilamento dos frades patriotas na catastrophe de 1808, no
tempo dos francezes, a cruz na base do aqueducto junto do antigo fosso
da muralha, onde se realisou o ultimo fusilamento militar.
Estes campos de Carnide são menos tragicos; hoje porém as salvas das
esquadras, algumas vezes repetidas, que parece fazem estremecer o
robusto massiço de Monsanto, dão uma preoccupação morbida ao espirito;
para que tal apparato de força, para que a reunião das duas mais
poderosas esquadras de Inglaterra e Allemanha, será apenas para mostrar
ao mundo a sua boa harmonia, no grande porto do paiz pequeno e neutral?
O que é com certeza é a pomposa, a estrondosa manifestação de força,
convicção deprimente, expressão ultima da civilisação n’este findar
de seculo de tão maravilhosas descobertas, que termina affirmando
o direito do mais forte, em que tanto se luctou pelas liberdades,
acabando no militarismo ruinoso, e tanto pela melhoria social, pela
equação de direitos, em quanto se erguem implacaveis, cada vez mais
ameaçadores, os monopolios da finança, industria e commercio.
Passam os ranchos alegres, de vez em quando roda na estrada um trem com
mulheres e creanças, flôres e gargalhadas, na linda tarde de primavera.
Outro rancho ahi vem agora, lento e sereno pelo trigal verde; é um
grupo de religiosas de S. José de Cluny, que veiu ao campo florido
respirar no ar tepido e aromatico.
Vestem os seus habitos severos, trazem nas mãos ramos de flôres do
campo; andam vagarosas como cançadas ou enfraquecidas; são novas,
sorriem, sorrisos de doentes em rostos palidos: interessante grupo! são
convalescentes sem duvida; vieram dos hospitaes e escolas do ultramar
dominadas pelas febres, procurar restabelecer a saude n’este lindo
sitio de Carnide.
O que Mousinho de Albuquerque no seu livro _Moçambique_ escreve
a respeito d’estas religiosas é encantador. Elle falla dos
extraordinarios serviços por ellas prestados nos hospitaes de Lourenço
Marques, de Inhambane, e Moçambique, nas escolas, _por uma fórma acima
de todo o elogio_; e em Gaza, e no Chibuto.==O carinho e dedicação com
que tratavam os doentes e feridos, procurando não só proporcionar-lhes
todas as commodidades que as circumstancias permittiam, mas não se
esquecendo um só momento de lhes confortar o animo, de lhes levantar
o moral, sómente póde avalial-o quem o testemunhou.==Ou eu não sei o
que é caridade, ou o que as Irmãs de S. José de Cluny estão fazendo
na provincia de Moçambique é a sua manifestação mais elevada e
commovedora==.
Em Carnide sabe-se que esses serviços ultramarinos são uma verdadeira
batalha. Das que lá morrem não consta, as lévas de doentes que voltam
essas todos as vêem. Algumas voltam anemicas, ás vezes tuberculosas;
chegam, descansam, melhoram, e lá partem outra vez para os hospitaes e
escolas.
* * * * *
_Domingo, 14 de maio de 1899._--Scena inesperada; um touro da manada do
conselheiro Alvares Pereira, n’uma corrida em Algés, partiu uma perna,
e foi recolhido n’um pateo do casal do Falcão. É bicho de estimação,
de muito genio e boa estampa. Foi amarrado sobre um carro e tratado
com todos os cuidados, algodão borico, arnica, talas, ligaduras, nada
faltou.
O aspecto do touro no carro era extraordinario; os olhos negros e
vermelhos com uma expressão de furia mais que de dôr; suava em grossas
bagas; mordeu-se nos beiços até levantar a pelle. Alli, atadinho no
carro, sim, que a gente podia vêr um touro de pertinho. De repente deu
um puchão, e assoprou; isso é que foi panico, não sei se cahiu alguem,
ouvi dizer que sim. O resto do caso foi visto de cima do muro. E lá foi
o carro pela estrada fóra, á noitinha, caminho da leziria, com o seu
cortejo de campinos nas suas ligeiras facas.
* * * * *
_Nomes dos animaes._--Á sombra da parreira vestida de bellos cachos;
entre os alegretes azulejados, azul em fundo branco, em pequenos
quadros de galanteria, episodios comicos, italianices e chinezices,
á moda do seculo XVIII; proximo da nóra onde barulha a agua ao som
emolliente e rhytmico do engenho, cavaqueia-se em cousas diversas;
appareceu o sr. F. V. que tem lavoura e gados no Alemtejo; e logo se
fallou de searas, pastagens, touros, casos de pastores...
--E sabe os nomes dos bois?
--Ora, essa! dos bois, dos cavallos, dos touros...
E eu fui tomando nota dos nomes dos animaes.
NOMES DE TOUROS.--Artilheiro--Azeitono--Barqueiro--Batoque--Bugino
--Caçador--Caixeiro--Caldeiro--Camarinho--Capirote--Caraça--Carvoeiro
--Corvacho--Espingardo--Estandarte--Estorninho--Estrello--Foguete
--Forcado--Gaiato--Gaveto--Lanceiro--Luviano--Murtinho--Rabalvo
--Rasteiro--Teimoso--Verdugo.
NOMES DE CABRESTOS.--Calçado--Caminhante--Caminheiro--Ligeiro--Pardal.
NOMES DE BOIS DE TRABALHO.--Alfayate--Bigode--Bonito--Castanho--Esperto
--Formoso--Galante--Galhardo--Joeiro--Lagarto--Mourisco--Trigueiro.
Dois bois de trabalho, de egual marca, fazem uma junta; aqui por
estes sitios os bois da junta teem nomes certos; se um é _castanho_ o
outro é _mourisco_; o _formoso_ com o _galante_; o _galhardo_ com o
_ramalhete_, e o _damasco_ com _diamante_.
NOMES DE
VACCAS.--Andorinha--Bonecra--Bonita--Borracha--Branca--Briosa--Carriça
--Catita--Caterina--Coimbra--Corvina--Doirada--Estrella--Gadanha--Janota
--Padeira--Pomba--Rita.
NOMES DE CAVALLOS.--Carocho--Catrapim--Palmeiro--Pardal--Pirata--Tareco.
NOMES DE
CABRAS.--Alvadia--Carocha--Cartaxa--Condeça--Marmella--Rasteira.
NOMES DE CÃES E CADELLAS.--Tejo--Nilo--Maltez--Leão--Navio--Norte
--Beirollas--Ladina--Esperta--Belleza--Brincatudo--Digoélla
(diga-o ella).
Agora em Carnide ha nomes de cães e gatos, de origem culta, Macbeth,
Castor; a par da Tartaruga a Giroflée; ao lado do Rabicho e do Janota
os gatos Zixacha, Gungunhana, e o Godide, de nomes gloriosos.
_Noticias várias._--O padre Anastacio resou a missa de corpo presente
por alma do principe de La Rochejacquelin (Luiz), morto na furiosa
carga de cavallaria nas terras do marquez de Louriçal, á Palhavan
(agora dos condes da Azambuja). A missa foi celebrada na egreja de
Carnide. O padre Anastacio morreu em idade muito avançada em 1896.
Carnide tem o seu papel importante nas crises da primeira metade do
seculo XIX. Na Luz esteve um deposito de cavallaria organisado no tempo
de Junot; aqui esteve o brilhante official que foi depois o glorioso
marquez de Sá da Bandeira.
* * * * *
No palacio da quinta do Street, agora residencia da sr.ᵃ condessa
de Carnide (o conde de Carnide era Street Arriaga e Cunha) esteve
o quartel general de Bourmont, commandante em chefe das forças
miguelistas que atacaram Lisboa.
* * * * *
Esta quinta dos condes de Carnide foi em tempo muito nomeada pelas
experiencias agricolas, adubações, drenagens, empregos de machinismos,
que o primeiro conde, homem instruido e grande enthusiasta da
agricultura, aqui realisou. Os ultimos proprietarios não teem seguido a
tradição.
* * * * *
A celebre cascata da quinta dos condes de Mossamedes, complicada
fabrica de embrechados e nichos, foi destruida ultimamente.
* * * * *
Tambem a infanta D. Maria habitou em Carnide; assim o declara fr.
Miguel Pacheco, na Vida de la serenissima infanta Dona Maria (Lisboa,
1675):==Vivió la senora infanta algun tiempo cerca del convento de la
Luz, distante una legua de Lisboa, en un lugar que llaman Carnide (pag.
109-121)==.
A feira da Luz ainda hoje tem nome, mas em tempos antigos foi muito
afamada; a gente de Lisboa abandonava a capital, empenhava tudo para
ir á feira, havia brigas para obter seges, ou mesmo burrinhos. Tomavam
ponche, ou limonadas, e compravam fitas, anneis, figas e corações. Isto
li eu na Nova e pequena peça critica e moral; _os Carrinhos da feira da
Luz_: composta por Joseph Daniel Rodrigues da Costa (Lisboa, 1784).
* * * * *
Na casa proxima á sacristia da egreja de N. Senhora da Luz, no
pavimento, está uma campa com letreiro:
S.ᵃ DE DOM FREI PEDRO
SANCHES, RELIGIOSO D’ESTA
ORDEM E BISPO D’ANGOLA
FALECEO A 30 DE
NOVEMBRO DE 1671
Quando se fez o cemiterio de Bemfica, chamado dos Arneiros,
transportaram para lá algumas campas do antigo cemiterio de Carnide,
que era em volta da egreja de S. Lourenço. Lá está a campa da marqueza
Ravara com seu letreiro:
AQUI JAZ D. AN
NA MARIA GUI
DO MARQUEZA
RAVARA FALE
CEO AOS 24 DE
JANEIRO DE
1752
Nas _Memorias de Garrett_ diz-se que a quinta do Pinheiro fica em
Carnide. A quinta do Pinheiro que foi de Duarte Sá está entre Palhavã e
Larangeiras. Ahi se representou pela primeira vez o drama _Frei Luiz de
Sousa_, a obra immortal de Garrett. Hoje installaram um hospicio n’essa
bella vivenda.
* * * * *
O palacete e quinta do Sarmento onde residiu o visconde de Juromenha
ficam proximos da parochial de S. Lourenço de Carnide na estrada que
vae do Alto do Poço para Bemfica, a azinhaga do Poço do Chão.
O visconde de Juromenha falleceu muito velhinho. Foi n’esta casa do
Sarmento que elle escreveu a sua obra classica, monumental, sobre os
_Luziadas_. Esta propriedade pertence hoje por herança á sua antiga
governanta.
* * * * *
Um folheto que julgo raro é a «Memoria sobre a união perpétua da
paroquial igreja de Carnide ao priorado do convento de Nossa Senhora da
Luz». É um opusculo de 7 pag. in-4.ᵒ, que me parece escripto por 1810.
* * * * *
_O pinto preto_.--Veiu uma mulher, da estrada do Paço do Lumiar, a
comprar um pintaínho preto.
--Para que é o pinto preto?
--É para um doente que tem uma fraqueza, e não ha nada que lh’a tire.
Dizem agora que só com o pinto preto... E a mulher instou que lh’o
vendessem, ou emprestassem, depois traria outro.
--Não se vende, nem se empresta. Vá a outra porta. Vá á botica comprar
remedios.
--Mas então, é para caldos?
--Não senhor! isto é uma crendice d’esta pobre gente. Abrem-no com uma
faca pelo meio e applicam-no palpitante sobre o peito ou estomago se é
fraqueza; se fôr por alguma dôr, sobre a região onde lhes dóe. É uma
das taes tolices que não sáe dos cascos d’esta gente. Para estas cousas
não sou capaz de vender o pobre animal.
Em livros de medicina mui velhos apparece o singular curativo; e
recordo-me de ter lido que um medico de Lisboa, no seculo XVI,
receitava ainda a ave aberta viva para a peste bubonica.
* * * * *
_Jogo do pião_.--Vi um grupo de rapazes jogando o pião. Nas cabeças
dos piões os rapazes tinham mettido tachas de ferro de haste curta e
cabeça larga de modo que os piões ficam com a cabeça protegida contra o
ferrão do inimigo, é invenção nova para mim. E a isto chamam os rapazes
pôr sêllo no pião, e é obrigatoria a sellagem; se apanham algum sem a
cabeça couraçada, dizem logo:
Pião que não tem sêllo
Vae a casa do camêllo,
e atiram com elle para o telhado mais proximo.
* * * * *
_Carnide, 1 de janeiro de 1900._--Caso novo, missa do gallo á entrada
do anno. Disseram-me que por ordem do Santo Padre se transferiu a missa
do Natal, por esta e a vez seguinte, para celebração do novo seculo,
visto que surgiram duvidas (a meu vêr singulares) ácerca de qual é o
primeiro anno do seculo XX, se é 1900 ou 1901.
Não consta que se começasse a datar do anno _zero_, do seculo _zero_;
mas assim vae o mundo. Começou pois o anno santo pela missa do gallo.
Antes da missa do gallo passiei no Alto do Poço, a noite estava muito
serena e agradavel, e casualmente assisti a uma scena dramatica, a
chegada de um expedicionario africanista, inesperada pela familia, que
móra num predio daquelle sitio. O pobre soldado, minado pela febre,
embarcára mui doente em Lourenço Marques; não poude avisar a familia,
chegára a Lisboa já melhor, foi á inspecção ao hospital da Estrella, e
logo lhe deram licença para passar alguns mezes em casa, ares patrios;
e elle assim que apanhou a guia foi direitinho a Carnide. Como elle ia
nervoso, febril, vêr os seus queridos nunca esquecidos, exalçados pela
ausencia larga em regiões e climas remotos.
Na familia, durante a ausencia do moço soldado, houve mortes de
pessoas queridas, que não lhe participaram para o não contristar, pobre
rapaz.
Chega o soldado em sobresalto febril e logo reparou nos vestidos de
luto; veiu gente conhecida da visinhança e romperam em parabens e
lamentos, numa confusão de lagrimas.
No theatrinho de Carnide representou-se nessa noite, espectaculo feito
por alguns curiosos da localidade, e terminado o ultimo acto um grupo
animado, cantarolando, veiu da quinta do Sarmento, passando pela casa
do pobre expedicionario. Eram conhecidos e amigos d’elle.
Missa do gallo! annunciava a sineta do convento, n’uma vibração fina
cortando a noite.
Na egreja, cheia de devotos em muito silencio, como n’um mysterio,
ergueu-se a voz do capellão.
Houve exposição do Santissimo, e communhão, na grade ás religiosas
portuguezas, e na capella do Senhor dos Passos ás irmans de Missão.
E exposição do Menino, com o seu alegre motete executado no orgão
velhinho, por uma velhinha no seu habito de Santa Thereza.
Que singular espiritualidade acho neste cantar das velhinhas
religiosas, tremulo, enfraquecido, esmorecendo como a toada de um sino
que se esvae no ar. E contraste ainda nestas duas instituições aqui a
par, a antiga, a que se apaga, a da vida contemplativa, ascetica, a da
clausura austera, orante áparte da humanidade, e a nova da actividade
christan, luctadora dos hospitaes, trabalhadora das escolas, militante
em regiões longinquas, arrostando os paizes das febres e dos selvagens.
Missa do gallo em noite de anno novo, foi caso inedito para mim. O meu
pobre espirito estava abalado pelos contrastes que presenceára, e ao
mesmo tempo lembrava-me da antiga missa do galo, na minha freguezia de
Santo Antão, seguida da canja no meu lar, tudo n’uma aureola de familia
e de pureza santa!
* * * * *
_D. Sebastião enamorado._--No jornal _A Arte_, de 1879 (pag. 158), se
transcreve um antigo manuscripto que trata da--«Origem da desgraçada
jornada de Africa que executou el-rei D. Sebastião para ruina total
d’este reino».
É singular escripto e parece ter um fundo verdadeiro.
O sr. A. Pimentel tambem se lhe refere no seu bello livro _Atravez do
Passado_ (pag. 119).
Alguem, talvez com o fim de deprimir a familia do duque de Aveiro, no
tempo pombalino, lhe juntou ou alterou umas linhas que no meu espirito
não originam duvidas sobre os factos do seculo XVI ali relatados. O que
ha escripto sobre D. Sebastião tem origens muito alheias á intenção
historica simples; assim como o pobre infeliz rei viveu rodeado de
intrigas palacianas, assim a sua memoria serviu ainda para enredadas
phantasias, e manias politicas.
Que em roda do rapaz houve lucta de influencias a proposito do
casamento d’Estado, provam-no muitos papeis velhos; que um amor natural
perturbasse o coração do joven rei não custa a crer; que um duque,
proximo do throno, favorecesse a inclinação do rei para sua filha, é
bem possivel; que D. Catharina, e os politicos, vissem com inquieto
olhar esses amores, é provavel tambem. Ora é esta a essencia do papel
a que me refiro, e que vou mencionar aqui por se fallar n’elle de uma
quinta de Carnide.
* * * * *
--O duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre, teve uma filha unica
chamada D. Juliana, a quem creou no Paço a rainha D. Catharina, sendo
Regente d’este reino. Era dama formosa, bem feita, e muito esperta; ao
menos, quando não tivesse estas qualidades, agradou-se d’ella El-Rei
D. Sebastião, sendo mancebo, e veiu a declarar-se mais depois do anno
de 1568 em que tomou o governo. Similhantes inclinações, que não podem
ser occultas muito tempo, principalmente entre pessoas taes, chegaram
á noticia da Rainha, e do duque de Aveiro; porém com differentes
sentimentos, porque a Rainha receiava a consequencia d’estes amores,
de que era objecto uma bisneta de el-rei D. João o 2.ᵒ, e o genio
apaixonado de seu neto, que teria então 20 annos, e D. Juliana,
16, com pouca differença; e o duque com uma vaidade disfarçada, e
fingindo-se ignorante, do que todos sabiam, aspirava a altas ideias,
lembrando-se de que era neto de um rei, da sua grande representação e
casa, e tudo isto o persuadia de que algum dia sua filha a contariam no
catalogo das Rainhas de Portugal--.
Fallaram os politicos, os cortezãos, os invejosos, a Rainha fallou ao
Cardeal infante D. Henrique e começaram a querer fazer casamento a D.
Juliana, dando ao duque de Aveiro mais honras e mercês. E foi subindo a
intriga, e D. Sebastião o bello rapaz sempre contrariado, a querer mal
a D. Henrique seu tio, e a faltar ao respeito a D. Catharina sua avó.
Faltava-lhe a mãe; talvez a origem da desgraça esteja n’isto.
O rei desconfiava de todos, a camarilha enjoava-o; evitava-a quanto
podia, ia caçar; andar pelos montes onde o ar é sempre puro. Os seus
amigos e companheiros eram D. Alvaro de Castro, Christovão de Tavora e
o duque de Aveiro.
A uma caçada em Cintra foi muita gente da côrte; o duque levou sua
filha; a Rainha D. Catharina encarregou uma dama de observar os passos
de D. Sebastião. E esta dama foi descobrir no alto da serra, apartados
dos caçadores, o rei, e o duque de Aveiro com sua filha D. Juliana!
Outros ajuntamentos houve a seguir, affirmando-se que el-rei promovia
essas festas agitadas e com muita gente para se encontrar com D.
Juliana.
--Ultimamente houve um ajuntamento que muito dissaboreou a Rainha,
e o Cardeal infante, e foi uma mascarada de noute, em uma _quinta
no districto de Carnide_, na qual se acharam grandes senhores e o
duque de Aveiro com sua filha vestida á turqueza, e muitas outras
damas lusidamente ataviadas; e do que ali se passou teve a Rainha
circumstanciadas informações; mas não se disse com certeza quem as
dera, supposto que se presumiu ser o prior do Crato, D. Antonio, filho
do infante D. Luiz--.
A Rainha D. Catharina, o tio Cardeal censuraram el-rei; e elle começou
a fallar de ir á Africa.
Nem em Cintra, nem em Carnide o deixavam á vontade.
Só Africa, para casos d’estes.
A primeira ida á Africa foi effectivamente uma surpreza para a côrte.
D. Sebastião foi caçar nos arredores de Ceuta e Tanger e parece que
encontrou lá uma filha do Xarife que se parecia com D. Juliana.
De cá choviam os avisos da Rainha-avó, do tio Cardeal, dos bispos;
custou a vir.
Parece que D. Juliana, a ladina turqueza de Carnide, foi offuscada pela
filha do Xarife; encanto de moura!
Na segunda jornada o duque de Aveiro, apesar de ter perdidas as
esperanças no casamento da filha, acompanhou D. Sebastião; e morreu
com o seu rei e amigo.
No seu testamento, feito antes de partir, recommendava que D. Juliana
casasse com D. Jorge de Lencastre; este morreu tambem na batalha.
D. Juliana, nova, herdeira riquissima, teve varias propostas de
casamento com os maiores de Hespanha, que não acceitou; esperaria o
rei? só dez annos depois de Alcacer casou com D. Alvaro de Lencastre,
que foi o 3.ᵒ duque de Aveiro.
Agora, onde a _quinta do districto de Carnide_? Gostaria de saber,
gostaria, mas é certo que não encontro vestigios a que possa attribuir
grande antiguidade, nem mesmo tradição local. As grandes casas de
Carnide e seu termo são do seculo XVII e do XVIII; e estas na maioria
ainda modificadas e transformadas modernamente.
* * * * *
_A familia Carnide._--Em antigo codice genealogico encontro este
appellido, de origem local. Um homem natural de Carnide adquiriu bens,
fez serviços e alcançou a nobreza. Diz o codice: «é Carnide logar de
80 visinhos, com boas e rendosas fazendas, e entre os visinhos alguns
que se tratam nobremente, e viveram em tempos antigos com abundancia e
nobreza.»
O primeiro mencionado é Pedro Gonçalves de Carnide, do tempo de Affonso
V. Seu filho Pedro de Carnide morou em Cintra.
Balthazar de Carnide foi moço da camara de D. Manuel. A familia
Carnide apparece em seguida alliada a Gamboas e Ayalas.
Jeronymo de Carnide, moço da camara, esteve em Roma com o embaixador D.
Alvaro de Castro: foi provedor de saude no periodo terrivel das pestes
e contagios; basta dizer que foi guarda-mór de saude do Reino em tempo
de D. Sebastião. Era natural de Cintra; viveu 120 annos (1503-1623),
alcançando os reinados de D. Manuel, D. João III, D. Sebastião, D.
Henrique e os Filippes I e II. Um seu filho, Balthazar de Carnide,
viveu 100 annos.
Os Carnides mencionados nas genealogias são quasi todos de Cintra; é
certo que ainda hoje apparece este appellido em familias de Cintra e de
Torres Vedras.
* * * * *
_Propriedade territorial na idade média._--Ha documentos relativos a
propriedade territorial em Carnide, nos fins do seculo XII, e primeiro
quartel do XIII. É bem raro encontrar uma série tão variada de taes
documentos. Não nos é todavia possivel marcar com precisão, com
exactidão, o local da propriedade, ou quinta de que se trata.
Porque as propriedades variam muito, dividem-se, aggregam-se; as
extremas fluctuam; os nomes alteram-se.
Os documentos de Urraca Machado, _dóna_ de Chellas, isto é, freira
do mosteiro de Chellas, foram publicados pelo erudito sr. Pedro de
Azevedo, no _Archivo Historico Portuguez_, vol. III, pag. 5 e seg.
Quem era esta senhora? era _dona Orraca Martins_, filha de Martim
Machado, professa do Mosteiro de Chellas, que andava _fóra da Ordem_,
quer dizer, ausente por muito tempo do seu convento. Tinha bens e
parentes proximos em Carnide, e o seu compromisso com a Ordem. Ora
constou que ella vendia e desbaratava esses bens, em damno do mosteiro,
este protestou, e por isto a série de documentos muito especiaes e
valiosos. O protesto é de 1299, tempo de D. Diniz; foi lavrado no
concelho da cidade de Lisboa, perante o alcaide e alvazis.
No terceiro documento, de 1308, falla-se da quinta de Carnide, em que
a freira tinha uma parte. No quarto documento, de 1309, se diz que as
rendas de Carnide foram arrematadas a Salomão Negro, judeu. A familia
judaica _Negro_ apparece em documentos do seculo XIII ao XV.
David Negro era o famoso thesoureiro de Leonor Telles, quando
proprietario em Camarate e na Outra Banda. A outra parte da quinta
pertencia a Martim Martins Machado, irmão da freira. O documento é
interessante; trata do arrendamento, almoeda, e negocios, em que houve
_malfeitoria_; o instrumento ou contracto que o judeu apresentou
não afinava com a _nota_ tabellioa, havia _mentira e burla_. Este
instrumento, declara o tabellião, foi escripto em papel porque não
havia _porgamyo decoyro_. Acontecia isto por vezes; em cousas
officiaes usava-se o pergaminho; quando este faltava, lançavam mão do
papel. E certo é que papel e tinta chegaram até nós; bom papel e boa
tinta; não sei quantos annos durarão certos papeis e tintas usados
actualmente.
O documento n.ᵒ 7 é uma carta regia, ou sentença de D. Diniz, passada
em 1311, sobre a partição dos bens da freira e de João Machado, tambem
seu irmão. A monja de Chellas tinha terras em Carnide, nos sitios da
Panasqueira e na Feiteira.
_Panasqueira_ é na parte norte da moderna quinta de Montalegre, formada
pelo fallecido Carlos Anjos, entre as estradas de Telheiras, Luz e da
Fonte.
Não é facil marcar os sitios das propriedades; diz-se _sob a fonte_,
na _varzea_, na _corredoura_, designando as fazendas pelos nomes dos
donos, pessoas bem conhecidas em 1311. Mas já havia no sitio _vinha
velha_, moinho e almoinha ou horta, courellas e ferrageaes, adega com
material vinario, tinas, toneis e cubas, já se falla das _covas_ de
Carnide. Trata-se me parece de covas de guardar pão ou cereaes, silos;
em 1908, modificando-se a calçada no _Alto do Poço_, appareceram
duas grandes covas, abertas no solo, de dois metros de fundo por um
e meio de diametro, quasi totalmente entulhadas. As paredes estavam
nitidas, bem conservadas. As pessoas da localidade ignoravam o
destino d’aquellas grandes cavidades, o que succede, me parece, por
todo o paiz. E todavia no seculo XVI ainda se utilisavam os silos ou
matamorras, e no centro de Espanha ainda hoje estão em uso. Em Lisboa,
na grande obra municipal de ha poucos annos, ao Arco do Marquez do
Alegrete, tambem appareceram silos, ao longo da muralha fernandina.
O documento n.ᵒ 10 é de 1312; refere-se a certa divida de João Machado
a Isaac, filho de Judas Negro, outro judeu da familia Negro; e a uma
courella do _Cano_, pertencente a Urraca Machado. O n.ᵒ 12, de 1313,
falla-nos da courella da _Coelheira_, da qual traz as confrontações
pelo _sol levante, aguião, poente_ e _avrego_. _Aguião_ quer dizer
_aquilão_ ou norte, e _avrego_ vem de africo, ou vento de Africa, isto
é, sul. N’este documento figura Domingas Eanes, prioreza de Chellas, e
Ousenda Domingues, sub-prioreza. Já menciona a _aldeia de Carnide_ com
seu _rocío_.
Em 1321, com licença do mosteiro de Chellas, a freira Urraca Machado
entregava por aforamento os seus bens de Carnide a um Rodrigo Eanes,
por duzentos maravedis de Portugal, pagos ás metades do anno por
Paschoa e Santa Iria, mais doze almudes de vinho. Não é bem um
aforamento, é um arrendamento a longo prazo, em vidas, pois só termina
depois da morte do rendeiro, de sua mulher e filho. O contracto tem
penas severas e condições bem determinadas, como a de o rendeiro
fazer á sua propria custa almoinha ou hortejo, e plantação de vinha,
concertos de casas, adegas e lagares, e de sua louça.
Em 1325 já a dóna Urraca era fallecida; mas havia freiras de Chellas
na sua casa de Carnide; por causa de certa questão de posse foram ahi
notarios que viram duas freiras em _uma camara sob a torre_. N’esse
tempo era Clara Gonçalves prioreza de Chellas; é notavel que n’este
mesmo documento se lhe chama abbadessa. N’esta época a questão chegou á
maior intensidade, houve violencia, e Martim Machado foi excommungado.
Em 1390 foi a quinta de Carnide emprazada em tres vidas a Martim Annes;
confrontava com as herdades de fuão e fuão, e do mosteiro de Santa
Clara de Lisboa...
Era uma _quintam_ de herdades de vinhas e de pão que o dito mosteiro ha
na aldeia de Carnide, termo da dita cidade (Lisboa).
A par dos elementos relativos á _quintam_, apparecem outros em razão
das confrontações, das testemunhas, etc.
Assim n’um documento de 1313 se falla de uns quartos de courellas de
vinhas que o mosteiro havia em Carnide no herdamento do Louro; de uma
testemunha se diz: fuão morador ao Louro, no casal da _Ordim_.
Em 1352: quinta no logo que chamam _Alperiate_... casal e herdades de
pão sitas em _Queylus_... uma vinha que chamam a _Coelheira, a par de
Carnide_. Alperiate, ou Alpriate, é o nome de uma localidade perto da
Povoa de Santa Iria.
Em 1356: courella do _Pereiro_, alem de Carnide que parte com vinha de
_Santaloy_.
Deve ser Santo Eloy, no caminho da Pontinha para A da Beja.
Em 1366: vinha no _Cano_, logo, ou logar, de Carnide.
Em 1397: em Carnide... em logo que chamam a _Soeira_.
Em 1438: fulano morador na _Payãa_. Agora diz-se _Payam_.
De 1443 temos um documento interessante: trata de uns _Tintaes_ de
vinha, um acerca do outeiro... confrontando com caminho da _Granja_,
outro com azinhaga que foi da _fonte do Machado_; são nomes que ainda
vivem.
Em 1466... vinha do morgado de _Mem de Brito_.
Em 1481... vinha que parte com a ermida de Santa Maria da Luz, em
Carnide.
Um documento de 1484 menciona as courellas que pagavam o quarto á
quinta de Carnide, duas entestavam com a Luz e caminho que vae para o
_Lomear_. Outra com estrada que vae de Carnide para Lisboa. Menciona-se
um fulano morador na _Ribeira de Agoa Livre_; é um sitio da ribeira ou
do valle de Carenque. Uma courella no cabo do _Rego_, outra na estrada
de Lisboa e na do Lumiar.
A pag. 32 da publicação do sr. P. d’Azevedo (_Archivo Historico
Portuguez_, vol. III), vem o _titulo dos canos_: F. morador na de _Dona
Maria_ (é a aldeia que fica a norte de A da Beja) tinha uma courella de
vinho e azeite que entesta no ribeiro do Bom Nome (a quinta do Bom Nome
é agora a do Sarmento), e com o _Resyo do logar_. O rocio de Carnide
era a poente da egreja de S. Lourenço, a parochial, que é do seculo
XIII.
F. morador nas Fontellas, na ribeira de Loures tinha uma courella que
entesta com o rio do _Bom Nome_ e com o _resyo de Carnide_. F. tinha
metade de um quarto de courella. Vê-se que a propriedade estava muito
dividida.
A _albergaria_ de Carnide trazia tambem um meio quarto de courella.
Passou depois a pequena fazenda para o _hospital_ de Carnide.
Outra courella entesta no rio do Bom Nome e com o adro de S. Lourenço;
deve ser a fazenda onde está agora uma vaccaria.
F. do _Calhariz_ possue uma terra que vem á estrada _na do Correia_...
caminho de Bemfica. F. tem uns quinhões na almoinha do Machado defronte
da porta travessa de Nossa Senhora da Luz. _Correia_ é o nome da quinta
do sr. conselheiro Pequito. Um quinhão do lagar do Espongeiro... parte
do aguião ao longo da estrada _na do Correia_, e do vendaval (sul)
entesta com o caminho de Bemfica e da travessia (poente)...
No _Esparageiro_; será variante de Espongeiro? Esparageiro virá de
espargo?
Agora apparece-nos um nome estranho, quinhões dos _Feytaes layrasos_, e
tambem _Feytaes castelhanos_. Nada conheço agora que se lhe avisinhe.
Todos estes nomes estão no titulo dos _Canos_: este era pois o nome de
uma região, entre a estrada do Poço do Chão e a estrada que vae de S.
Lourenço para a Porcalhota, agora, recentemente, Amadora, passando pela
actual quinta da Correia. É possivel que este nome de Canos tenha a sua
origem em antigos pequenos aqueductos.
Finalmente apparece-nos um documento com autos de medição de certas
propriedades; é de 1554. A vinha da Coelheira que parte com caminho
da Granja, tinha de largura 28 varas e de comprido 246 varas, era um
tira de terra: outra vinha tinha de largura 51 varas e de comprido 280
varas, era uma fazenda com pouco mais de hectare e meio.
Esta collecção de documentos é importante para o estudo da marcha
do processo civil; especialmente o grupo que pertence ao primeiro
quartel do seculo XIV. Brigam no comprido pleito particulares, freiras,
o convento; chegam á excommunhão. Ha instrumentos de protesto, de
testemunho, de intimação, procuração, cartas regias, sentenças, recibos
e obrigações, aforamento, arrendamento a longo praso, e suas condições,
carta de excommunhão, posse, emprazamentos em tres vidas; todos estes
variados instrumentos entram no seculo XIV, a maior parte no seu
primeiro quartel (1299 a 1325).
As conclusões a que chegamos são: no termo de Carnide a propriedade
estava muito dividida; havia proprietarios de meia courella, de quarto,
de meio quarto de courella.
A cultura era variada, vinhas, olivaes, terras de seara ou de pão;
almoinhas ou hortas. Falla-se numa vinha _velha_.
Não vejo nos nomes de proprietarios ou rendeiros nomes mouriscos;
muitos teem dito que os saloios são de origem mourisca, nestes
documentos não apparecem nomes desse elemento; apparecem individuos
da familia Negro, judaica, proprietarios ou gente de negocio. Nestes
documentos falla-se em muitos predios porque tratando da quinta de
Carnide, cabeça dos predios rusticos de Urraca Martins Machado, e das
suas dependencias ou terras annexas, ao mesmo tempo se mencionam varias
com que confrontam. Não vejo mencionar cercas, tapadas, muros. Como
noutras partes accumularam propriedades, arredondaram e muraram. Aqui a
construcção dos conventos com suas cercas importantes alterou immenso a
topographia dos predios.
Os conventos da Luz, de Santa Thereza, dos Carmelitas, o Hospicio das
freiras de Christo, alastraram no fim do seculo XVI e no XVII os seus
vastos edificios e amplas cercas de altos muros.
Todavia as estradas indicadas existem ainda hoje, a azinhaga da Fonte,
o caminho de S. Lourenço para Bemfica, que é a estrada do Poço do
Chão, que passa pela Granja, a estrada de A do Correia, estradas da
Luz para o Lumiar, e da Luz para Lisboa. Em frente da porta travessa
da egreja da Luz lá está ainda uma almoinha com suas latadas e
canteiros; a quinta do Bom Nome, é agora chamada do Sarmento. A do
Correia é a quinta da Correia, os logares ou aldeias de A da Beja, Dona
Maria, Calhariz, Payam, Santo Eloy existem. O valle de Odivellas tão
interessante conserva-se dividido em pequenas propriedades, de intensa
cultura onde o saloio moureja.
Fóra d’esse valle a pequena propriedade quasi desappareceu; a tendencia
é para accumular. Depois dos conventos, ou contemporaneamente, formaram
as quintas depois chamadas do Oliveira, da Condessa, do Mossamedes, do
casal do Falcão. Modernamente formou-se a grande quinta de Montalegre
que fundiu cinco propriedades grandes; o collegio militar tambem
alargou as suas terras. Só entre o logar de Carnide e o Paço do Lumiar
se encontram os grandes vallados antigos, as propriedades sem muros.