(1903-1905)
Os caminhos mais seguidos para ir á Ericeira são os que partem de Mafra
e de Cintra; este o mais frequentado.
A estação do caminho de ferro de Cintra está pittorescamente
aconchegada na base do alteroso monte granitico, rochedos pardos entre
manchas de vegetação verde escura, coroado pelas torres e quadrellas
mouriscas terminadas na fina grega de ameias. Da estação partem os
carros para a villa, para Collares e Ericeira.
Começa logo a descida, passa-se uma ponte; termina de subito a invasão
das construcções modernas, e definem-se as modestas casas saloias da
moda velha.
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_Lourel_, a primeira aldeia; era já povoado o sitio em tempo da
dominação romana; antes de gódos e de mouros, vejam lá!
Mais cinco minutos de carro e apparece, espreitando entre agrestes
collinas, a torre de Ribafria; uma residencia nobre medieval,
conservando a sua linha primitiva, a torre com seu brazão, palacete,
grande lago e alta cerca, naquelle fundo valle aproveitado
provavelmente pela abundancia de agua nativa.
São bem raras estas residencias ruraes em Portugal, todavia restam
algumas que contam a sua formação pela juxtaposição dos seus cunhaes.
A residencia de Bellas, por exemplo, que é muito interessante, onde eu
julgo vêr restos ainda da alta idade media.
As arvores que bordam a estrada estão inclinadas uniformemente para
suéste marcando bem a corrente dos ventos dominantes.
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_Villa Verde_, um grupo de casas com seus quintaes, muros de pedra
solta, figueiras e parreiras.
A vista alarga-se pelos vastos campos, accidentados; ao longe collinas
arredondadas com manchas escuras de pinhal. A serra de Cintra mostra
agora a sua crista atormentada, as massas escuras de arvoredo,
destoante de tudo o que a cérca; e avista-se Mafra, a enorme joia,
principalmente vistosa se o sol da tarde illumina a soberba frontaria,
que olha para occidente.
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_Terrugem_, povoado alegre, amplo terreiro, egreja antiga com sua
alpendrada, e seu gentil campanario do seculo XVIII; pouco adiante uma
velhissima ermidinha, com portal em ogiva.
Estamos em pleno paiz saloio, onde apenas algumas pequenas explorações
de pedreiras juntam fracos elementos á vida agricola. Ha poucas
habitações dispersas, e nenhum povoado importante. Esta freguezia de S.
João Degolado da Terrugem compõe-se de mais de vinte povos ou logares,
que teem na média 10 fogos. Os mais povoados são Terrugem, Villa Verde,
Alcolomba, Lameiras, Almurquim, Fajão, Cabrella, Carnessada, Goudigana,
Armez. Grupos de 4, 6, 8 casaes são os logares de Toja, Da do Bispo,
Alpolentim, Urmeiro, Fervença, Moleirinhos, Sequeiro, Murganhal,
Alparrel, Funchal, Silva. Um ribeiro, o Fervença, corta as terras da
freguezia.
Entre as designações locativas algumas merecem reparo pois mostram
influencias de antigas linguagens.
E por todo o paiz saloio a população se encontra assim em pequenos
grupos, sendo muito menor a parte que vive em casaes ou quintas
isoladas.
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_Odrinhas_; pára a carrinha de bancos para descanço dos animaes, e
breve allivio dos passageiros.
Se o saltitante vehiculo vier completo, e entre os passageiros
houver gorduchos, é caso grave; porque a diligencia foi feita para
trinca-espinhas. A paragem é uma consolação, para alargar um pouco os
musculos.
A um kilometro da pobre locanda, estação _central_! onde pára a
carrinha, fica o meu adorado S. Miguel de Odrinhas, a velha egreja,
com as suas veneraveis antiguidades, o primitivo alpendre, o cemiterio
medieval, e as suas lendas bem interessantes.
Mais dez minutos e passamos perto de um cómoro cheio de enormes
pedregulhos, ovoides uns, globulares outros; ali os muros das pequenas
propriedades parecem feitos de pelouros, de grandes balas de pedra. É
_Alvarinhos_, uma formação granitica, bem frisante entre os terrenos da
grande chapada.
Segue-se um plaino pouco accidentado; casas saloias de construcção
quasi cubica, escada exterior para o sobrado, e telhado de quatro
aguas; grandes lages formam as divisorias; uma casa tem a sua porta
abrigada por um alpendre formado por tres lages, duas a prumo e uma
coberteira; cruzes de cal branca em muitas paredes, ás vezes muitas
cruzes numa só parede; algumas casas mais modernas e janotas com os
cunhaes pintados a azul e vermelho.
Estamos em terras da freguezia de S. João das Lampas, mais importante
que a Terrugem: tem 32 povos ou logares; mas a media de fogos por logar
é egual á da Terrugem.
Os povos mais importantes são: S. João das Lampas, Bolelos,
Montearroio, Odrinhas, Alvarinhos, Amoreiras, Almagreira, Areias,
Alfaqueques, Mouxeira, Arreganha, Seixal, Assafôra, Cortezia,
Cantrivana, Arneiro, Togeira, Magute, Bolembre, Fontenellas, Gouvêa,
Perningem, Codiceira.
Os ribeiros de Magute, Samarra e Barril, que vão á foz de S. Julião,
cortam parte da freguezia em valles fundos, formando nos convalles
pequenas veigas ferteis.
A oriente, Mafra, o soberbo zimborio, as altas torres dos sinos,
os formidaveis torreões dos extremos; e a sul a serra de Cintra,
decorativa por excellencia, mais azul quanto mais longe, com tons de
amethysta, frequentemente variada com ligeiras neblinas.
Pouco mais e descobre-se a veiga da ribeira de Chileiros, os sulcos
fortes dos seus pequenos afluentes, entre collinas de declives rapidos.
Para o poente a grande face tranquilla do Atlantico.
Uma e outra vinhasita entre muros de pedra solta; retalhos de tojaes
cortados; vaccas leiteiras guardadas por creanças; grupos de pinheiros
mansos de verde lustroso, poucas arvores de fructo; sobre os telhados
filas de aboboras; em fins de setembro os campos estão animados,
trabalha-se nas eiras na debulha do milho, e na estrada passam os
carros com as uvas para as adegas.
Fica ao longe a casaria branca, baixa, de S. João das Lampas, alveja a
Assafôra, e outros pequenos povos; passa um fresco pinhal, e começa a
descida que leva á Carvoeira, uma aldeia na encosta; em baixo o valle
agora mais amplo da ribeira de Chileiros, forrado de vinhedos novos.
Ha uma ponte nova, bem lançada; e a carrinha sobe vagarosamente a
longa ladeira; vê-se a Foz, a barra de areia branca, a agua do rio
mui socegada entre as escarpas altas e escuras; ouve-se o rumor da
arrebentação, das grandes ondas de claro verde transparente, de franjas
alvissimas que o vento pulverisa, desenrolando-se espumantes sobre a
barra de areia branca, ou saltando, espadanando nas escuras rochas das
ribas.
O vasto oceano impõe-se agora, de fim vago se ha neblina; se o tempo é
claro sempre a mesma linha de horizonte, nitida, limite implacavel e
monotono.
Termina a ladeira, salvam-se umas curvas de macadam, e apparece-nos a
distancia a branca villa da Ericeira, como um bando de gaivotas pousado
na riba da beira-mar.
As _arribas_ são escarpas de 30, 40 metros de altura, pittorescas em
muitos pontos pelo estranho colorido, pela fórma de fragmentação;
parecem ruinas de edificios gigantes.
Escuros penedos á beira-mar quebram as vagas que se empinam em
cristaes, se desfazem em brancas espumas ferventes, numa lucta
rithmica. Das arribas a encosta faz uma plataforma, e logo sobe
rapidamente o terreno para oriente, o lado de Mafra.
Nesse largo socalco assenta a villa da Ericeira, a branca villa toda
caiada, porque os habitantes até branqueam os telhados de muitas casas,
e as ermidas das _arribas_, S. Julião, S. Antonio e S. Sebastião
parecem talhadas em sal marinho.
Nenhuma vegetação agora rompe a nitidez do verde mar, do escuro das
furnas, da cal branca faiscando ao sol; só umas delgadas, flexiveis
araucarias conseguem erguer-se sobre a linha da casaria; outras arvores
ao passar a crista dos muros desfolham-se e quebram-se pela ventania
maritima; nos pequenos quintaes abrigados ha roseiras finas, jasmins
viçosos e latadas de dourado moscatel.
Tambem tenho ido á Ericeira, passando por Mafra. Na estação do
caminho de ferro apparece um carro de bancos, especie de americano
de montanha, que nos leva á povoação, vencendo uma comprida ladeira.
Proximo á estação, sobre uma collina, avista-se uma aldeia de aspecto
interessante; as casas cubicas, com suas barracas ou quinchosos
aos lados, coroam o monte, semelhando uma fortificação de torres e
quadrellas. A estrada vae subindo pela meia encosta de um grande
massiço; os largos declives dos montes povoados de culturas, vinhedos;
nos sovacos mais humidos grupos de vaccas leiteiras.
Para cortar caminho, indo de trem, atravessa-se um canto de tapada, uma
rua de platanos, e logo o assombro do monumento.
Ha ali primores de extraordinario merecimento. Que magestade imponente
nas linhas geraes, que afinação, que equilibrio entre os corpos que
compõem o grande conjuncto, que acabada execução! e na egreja que
relevos de delicado lavor! e que bello horisonte!
N’este paiz accidentado quasi todos os monumentos teem moldura de
grandiosa paizagem; não succede o mesmo em França, Inglaterra,
Allemanha onde a vista pára em arvoredos proximos ou encontra planuras
monotonas. Mafra tem moldura larga e rica, basta a decorativa Cintra,
joia azul, o mar, e aquella vastidão de terras accidentadas, com seus
povos e casaes, quintas, vinhedos e manchas avelludadas de pinhal.
Os sinos, um dos primeiros carrilhões do mundo, enchem de vibração
religiosa aquelles campos; ouvem-se muito ao longe; uma vez passando
em Odrinhas ouvi uma toada longa, mui grave, que me impressionou;
era a sonoridade dos sinos de Mafra que chega a muitos kilometros de
distancia. Outra vez ouvi no carrilhão a valsa do _Fausto_! que typo
de sineiro, quando hoje ha musicas escriptas expressamente para estes
grandes instrumentos de musica!
Mafra tem outra notabilidade, a velha egreja de Santo André, antiga
freguezia. Cautella com os amadores, pois a vi muito abandonada.
Tem altares de azulejos mosarabes, e frontaes de couro lavrado,
colorido e dourado; e duas arcas tumulares medievaes, de interesse
historico e artistico. O exterior da capella mór e a torre sineira são
da primitiva, e em volta está o velho cemiterio, tão pouco respeitado!
Com pequeno esforço se poderia conservar melhor essa interessante
egreja de Santo André!
Muito curioso o pequeno mercado, os figos moscateis, as lindas uvas, as
bellas maçãs, os aromaticos melões, as saloias com os seus cabazes de
ovos. Mas que ovos saborosos! nos almoços que nas minhas passagens por
Mafra consumi no Moreira ou no Duarte ou no Ricardo, eu repeti os ovos
fritos na manteiga saloia.
A carrinha da Ericeira pára á porta do correio, que fica ao lado da
escadaria monumental da egreja.
E partimos para o lado do mar.
Pela estrada carros com rama de pinho, rapazes com vaccas leiteiras, e
grupos de crianças pedindo cincoreizinhos em cantilena nasalada.
_Sobreira_, logarejo com caixa de correio, e uma loja centro
commercial, onde se vende tudo á gente do sitio, e vinho á gente que
passa; o cocheiro aceita sempre o seu copito. Fabrica-se por aqui
ceramica popular, louça de barro, vidrada ou não, com sua ornamentação
especial. E não só na Sobreira, mas em outros povos proximos ha
oleiros, até á Lapa da serra, pequeno logar já visinho da Ericeira.
Agora atravessamos trechos de pinhal; paisagem formidavel; na luz forte
o grande mar, a serra de Cintra, amethista lavrada, os vastos campos
accidentados, palhetados de logares e casaes brancos, as verdes manchas
de pinhal, e Mafra, o imponente edificio avermelhado, saliente entre a
pequena casaria branqueada da villa.
E quanto mais nos avisinhamos da Ericeira mais viçosos são os pinhaes;
tudo pinhal novo, porque as velhas arvores foram derrubadas nos ultimos
annos. O mar quanto mais proximo mais scintillante.
E nada da Ericeira; para esse lado, a quem vem de Mafra nem uma casa,
nem uma torre de egreja mostra a villa; porque ella está no grande
socalco da ribamar; quasi ao terminar a ladeira surge a casaria branca
alastrada, projectando-se sobre o oceano.
Ora vamos ouvir o padre Antonio Carvalho da Costa, bom author que eu
sempre recommendo, na sua mui excellente «Corografia portugueza, e
descripçam topografica do famoso reyno de Portugal», impressa em 1712:
escreve o prestimoso clerigo e mathematico lisbonense, a pag. 42 do
tomo terceiro: