Hoje pela manhã fui vêr uma obra d’arte na quinta da Marqueza.
A meio do jardim quadrado agora exhuberante de bellas rosas, de
macissos de flôres, está um tanque de fino marmore, grande, formado
de enormes blocos lavrados, com seus chanfros e curvas, decorado de
quatro mascaras collossaes; sobre a borda do tanque quatro golphinhos
decorativos de cauda erguida, infelizmente quebradas as extremidades,
que lançam jorros d’agua para o tanque. No centro um grande grupo, um
tritão vigoroso, uma formosa sereia e um genio marinho, em posições
movimentadas, dando um todo agradavel de qualquer lado que se observe.
É uma peça de esculptura notavel em marmore de Italia.
Depois segui para o casal do Falcão, que não tinha ainda examinado
internamente. É um grande predio apalaçado, com suas dependencias;
palacio e centro de exploração agricola. Da casa de residencia está
metade em pé, outra que olhava ao norte, e que tinha como a do nascente
a sua alta varanda coberta, com finas pilastras, foi derrubada ha muito
tempo. Tem dois pavimentos; no terreo estão cosinhas e arrecadações; no
superior, o andar nobre, salas e alcovas. As salas eram ladrilhadas,
com altos rodapés de azulejo, e tectos de madeira em caixilhos ou
almofadas.
Tem capella. Sobre a porta da pequena mas elegante egrejinha está o
lettreiro:==Dedicada a Nosa Snra da Asumsão ano de 1705 (?).==
Parece-me 1705, mas os dois ultimos algarismos estão muito gastos. O
altar-mór tem seu retabulo em marmores lavrados, com seus nichos, em
trabalho que tem movimento. Nas paredes ha azulejos bem conservados, e
em frente da pequena tribuna um lettreiro diz que alli está enterrado
João Coelho que instituiu a quinta em morgado em 1647. Esta casa com
suas dependencias, lagares, arribanas, abegoarias, é um bello exemplar
de construcção portugueza no seculo XVII.
Entre almoço e jantar fui vêr o casal e o moinho do Castello, para lá
de Alfornellos ou talvez melhor, Alfornel.
Estes nomes de Fornos, Fornellos e Alfornellos indicam a existencia de
antigos fornos, os d’estes sitios provavelmente só destinados a coser
calcareo e grossa ceramica; não encontrei ainda escorias de metaes.
O moinho do Castello desappareceu, está lá como testemunha a grande
pedra do frechal. A altura é formada por calcareo jurassico, cujas
cristas parallelas afloram sobre o solo. Não vi grandes movimentos de
terra ou pedra que indiquem trincheiras bem definidas. Nem fragmentos
de ceramica, escorias, ou outra qualquer cousa que indique trabalho
humano. É possivel todavia que alli tenha havido alguma fortificação
prehistorica; á vista e não muito distante está outro monte a que um
pastor tambem chamou do Castello.
A proposito de movimentos de pedra e terra direi que nos arredores
de Lisboa o archeologo precisa estar sempre lembrado de que dois
formidaveis trabalhos se proseguem ha muitos seculos por estes sitios;
a exploração das pedreiras, e a pesquiza e captagem das aguas.
O trabalho das pedreiras em varias epochas, depois dos terremotos
da capital, foi collossal. A formação de aqueductos para Lisboa,
especialmente o prodigioso trabalho da rede do Aqueducto das Aguas
Livres que acompanha e alimenta o cano geral deu origem tambem a grande
deslocação de material.
Seguindo do casal do Castello para Falagueiras segui eu um ramo do
aqueducto, e um caneiro para regularisar a sahida das aguas do valle,
tudo bem feito, com solidas fiadas de silhares, suas caixas d’agua,
algumas das quaes me pareceram muito anteriores ás suas visinhas do
tempo de D. João V. Exactamente, antes de chegar á queda da ribeira
onde está uma grande caixa d’agua, vi muitos movimentos de terra,
comoros artificiaes, que n’outra região tomaria por mamunhas ou mamoas
tumulares.
* * * * *
O rev. padre Pereira, actual prior de S. Lourenço de Carnide, tem
colligido muitas noticias para a historia d’este logar.
Para o estudo da topographia de Carnide e seus arredores serve muito
bem a carta n.ᵒ 7, publicada pelo Corpo d’Estado Maior.
A historia da egreja de Nossa Senhora da Luz, e do edificio onde
actualmente se acha installado o Collegio Militar, encontra-se na
_Vida da infanta D. Maria, filha de D. Manuel_, por fr. Miguel Pacheco
(Lisboa, 1675); em _O Occidente,_ vol. de 1890, pag. 219; e no _Archivo
Pittoresco,_ vol. de 1863, pag. 299.
O casal do Falcão mereceu estudo especial ao sr. Julio de Castilho,
2.ᵒ visconde de Castilho, gentil espirito que esmalta de poesia a mais
variada erudição. O sr. visconde publicou no _Instituto_ de Coimbra,
vols. de 1889-90, uma serie de artigos historiando os dramaticos amores
do pintor Francisco Vieira de Mattos, o Vieira Lusitano, com a firme
e leal senhora, D. Ignez Helena de Lima e Mello, que apoz dolorosos
episodios foi esposa do grande artista.
Esses amores puros, honestos, bem portuguezes, que douram de deliciosa
poesia os restos, agora tristes, da fidalga vivenda, de ha muito
chamada o casal do Falcão, foram contados pelo proprio Vieira n’um
livro: «O insigne pintor e leal esposo Vieira Lusitano, historia
verdadeira que elle escreve em cantos lyricos (Lisboa, 1780)»; livro
interessante porque além do poema amoroso, apresenta grande numero de
quadros de costumes, scenas palacianas, festas populares, e noticias
artisticas.