Em 1875 » 260 »

Provavelmente a freguezia cedeu alguns fogos para a formação de outra

qualquer, ou então houve largo estacionamento.

Actualmente (abril 1898) Carnide pertence ao 3.ᵒ bairro de Lisboa.

Fogos, 337.

Habitantes, 1:737.

Sendo: varões, 1:018; femeas, 719.

Solteiros, 710 varões e 404 femeas.

Casados, 277 varões e 255 femeas.

Viuvos, 31 varões e 57 femeas.

Analphabetos, 432 varões e 353 femeas.

Sabem ler, 6 varões e 18 femeas.

Sabem ler e escrever, 580 varões e 345 femeas.

É preciso lembrar que na freguezia de Carnide está o collegio militar,

o que produz as grandes divergencias nos numeros dos solteiros, dos

instruidos, etc.

* * * * *

O sitio é agradavel, de amoravel paizagem, brilhante mesmo nos dias

bons; como o terreno é variavel na sua constituição, basaltos,

calcareos, argilas, as culturas diversas, e de tons que vão do claro

do rebento novo da vinha ao verde intenso do trigo, produzem um matiz

onde o olhar repousa sem achar monotonia. Pelas quintas ha arvoredos

sombrios, ou compridas latadas e hortejos cuidados, vinhas, searas,

geiras de fava ou batata. Trabalha-se, cultiva-se com intensidade, e

não sobram os braços porque os salarios dos trabalhadores ruraes são

maiores que em outras partes.

A par da quinta antiga com seu palacio e capella ha o _chalet_ moderno,

com as suas varias traducções, vivenda, tugurio e não sei que mais. Bom

exemplo de casa antiga é o casal do Falcão, com a sua varanda alta, e

as suas dependencias; casa mais moderna, do começo do seculo XVIII,

talvez, é a da quinta de Santa Martha, ou dos Azulejos, assim chamada

por ter forradas de azulejos as paredes que deitam para o jardim, e as

escadas, que são exteriores, a varanda, a nora, a parede do tanque,

e as paredes dos alegretes altos, tudo em assumptos variados, em

grandes quadros, em medalhões, com damas nobres, e archeiros, e deuses

mythologicos, e quadrinhos que fazem lembrar o Nicolau Tolentino.

Ao lado da propriedade grande e custosa ha a pequena que o saloio rega

com o suor do seu rosto, e com a agua que tira do poço ou do regato com

a _cegonha_ ou picota, a grande alavanca que já figura nas esculpturas

do Egypto a levantar a agua do Nilo sagrado.

De Carnide-Luz ha estradas para o Campo Grande, Telheiras, Paço do

Lumiar, Sete Rios, Bemfica, Odivellas ou da Beja, mais ou menos

assombradas, sempre agradaveis, por vezes com grandes vistas. A estrada

militar corta grande parte da freguezia, offerecendo sempre largo

horizonte.

Eu tenho caminhado por estes sitios e acho adoraveis certas estradinhas

discretas, humildes carreteiras bordadas de vallados agora floridos, de

madresilvas e congossas, assombradas por oliveiras, olaias, cerejeiras;

de vez em quando uma palmeira rompe entre as larangeiras, um cypreste

ergue a sua pyramide verde escura.

* * * * *

Proximo da quinta dos Azulejos está o convento de Santa Thereza de

Jesus. Eu ouço repetidas vezes a sineta com um som fraco, lamentoso,

chamando á missa ou marcando as horas coraes.

Os sinos de S. Lourenço são vibrantes, mui sonoros; aos domingos

tocam musicas festivas que ficam bem na grande e virente paizagem,

annunciando o dia de repouso a essa gente que tanto trabalha. Gosto de

os ouvir nas Ave-Marias da manhã quando o sol nascente rutila na grande

vidraça da egreja do cemiterio dos Arneiros.

A egreja de Santa Thereza é bonita, de linhas sobrias, com uma só nave.

O convento divide-se agora por duas communidades diversas. Uma parte

pertence ás freiras portuguezas, senhoras mui virtuosas, e com

excellente tradição por estes sitios. Outra parte ás freiras francezas,

irmãs de S. José de Cluny. Estas são mais numerosas e teem pupilas e

postulantes. Tem escola, e enviam pessoal para as missões africanas. As

portuguezas resam no côro de baixo, as francezas no côro de cima.

Todo o tecto da egreja, nave, cruzeiro, capella-mór e côro alto é de

pintura antiga, de 1662 provavelmente, com as suas flores e fructos,

mascaras e garças, molduras quebradas e grinaldas, grandes espiraes de

folhagens, e figuras inteiras de virtudes. É muito lindo.

Grandes paineis de azulejos com passos da vida de Santa Thereza forram

a egreja até certa altura; télas pintadas a oleo, em grandes molduras

de talha dourada, illuminam a parte mais alta das paredes.

Entre estas reparo na grande téla que representa o passamento de Santa

Thereza notavel na composição, no desenho e no colorido. É boa obra

d’arte e documento notavel na indumentaria e mobiliario. O quadro da

capella-mór é muito lindo tambem: composição importante, com muitas

figuras, e bem colorido.

A obra de talha da capella-mór, relativamente moderna, é muito elegante

com o seu bello portico de columnas encimado pelas grandes figuras da

Fé e da Esperança.

Os altares lateraes são revestidos de azulejos polycromos, com as armas

de Portugal entre ramarias e animaes, e moldura fingindo embrechado de

marmore amarello sobre fundo negro. Estes azulejos devem ser tambem do

seculo XVII.

O pulpito e sua escada de páu brazil em torcidos e tremidos, com

applicações de metal amarello, é notavel, e merece attenção tambem a

especial pintura que cerca a janella, que está sobre a porta lateral da

egreja, da parte de dentro.

A infanta D. Maria, filha de D. João IV, está no côro de baixo; sob a

grade d’este côro repousa uma princeza germanica.

Reproduzo a inscripção desdobrando os breves:==Aqui debaixo d’esta

grade jaz a veneravel madre Michaella Margarida de Sancta Anna filha

do imperador Mathias, fundadora que foi d’este convento: resplandeceu

em virtudes, faleceu em 28 de setembro de 1663 de idade de 82 annos

havendo entrado na religião de 4 para 5 annos.==Esta inscripção está

gravada em tres linhas, com bastantes lettras inclusas.

Ha n’esta egreja uma devoção especial a «Santa Agape V. M. cujos

despojos mortaes foram achados em Roma no cemiterio de Prescilla, sito

na estrada Salaria Nova, e pelo santo padre Gregorio XVI concedidos

á egreja de Santa Thereza de Carnide a 25 de abril de 1843... sendo

expostos á veneração dos fieis em 14 d’outubro de 1846.»

No exterior, templo e convento são de extrema singeleza. Sobre a porta

principal a estatueta de Santa Thereza, e sobre a portaria a de S. José.

No cunhal da esquerda da frontaria, lá está a inscripção:

M.ᴬ F.ᴬ IOANNIS IIII LVSI

TANIAE REGIS HOC OP

VS STRVXIT, ANNO

DNI. M.DCLXII.

Este convento conheceu dias de tormenta; quantas angustias passaram

atraz d’essas grades; nas grandes crises do tempo pombalino, dos

francezes, das guerras civis, muitas damas, algumas das mais nobres

familias de Portugal, aqui vieram asylar-se.

Aqui esteve a duqueza de Ficalho a quem um capellão esperto dava

noticias dos filhos, todos no exercito do imperador, no meio de

motejos e allusões que contava em voz alta ás pessoas que estavam no

locutorio, em quanto a duqueza escutava em ancias na casa proxima.

* * * * *

N’este convento de Santa Thereza de Carnide viveu uma religiosa

celebrada no seu tempo pelas suas virtudes, lettras, prendas, e bom

humor. Era insigne no cravo, escreveu prosas e versos, e desenhava

muito bem. A sua biographia encontra-se n’um volume com o titulo==Vida

e obras da serva de Deus e madre soror Marianna Josepha Joaquina de

Jesus, religiosa carmelita descalça do convento de Santa Thereza do

logar de Carnide.==(Lisboa, 1783). É obra publicada sem nome de auctor,

mas sabe-se que o foi D. José Maria de Mello, filho de Francisco de

Mello, monteiro-mór do reino, oratoriano, bispo do Algarve, etc. Era

sobrinho da insigne religiosa; e esta era filha do conde de Tarouca, o

conhecido diplomata João Gomes da Silva.

As obras da madre Marianna são escriptos piedosos, em prosa e verso,

em boa e fluente linguagem. As prosas são exercicios espirituaes,

instrucções para as noviças, actos das virtudes, etc. E as poesias que

se leem sem enfado porque tem certa animação são todas conventuaes,

celebrando, festividades; sonetos, decimas, nas festas da prelada;

sortes de exercicio de virtudes para se tirarem no dia da exaltação

da cruz; sortes da paixão para se tirarem no domingo de Ramos. Ha um

romance.==A uma noviça attribulada.== E varios desafios poeticos no

tempo do advento, exaltação e quaresma.

* * * * *

A egreja parochial de S. Lourenço de Carnide está agora bem reparada; é

antiga como mostra a sua orientação e disposição. Todavia pouco resta,

á vista, dos seus primeiros tempos. Na frontaria á direita ha uma pedra

que é precioso monumento. Diz assim:==Era de 1380, 14 de maio o bispo

Dom João mandou edificar esta egreja por Pero Sanches chantre de Lisboa

á honra de S. Lourenço e deu-a a João Dor, seu capellão 24 dias do dito

mez e passou o dito bispo 24 de julho da dita era ao qual Deus perdôe.

Amen. Isto declara o que diz a pedra antiga correspondente.==

A qual pedra não se vê hoje.

Á esquerda da frontaria está em pedra lavrada, um brazão raro; tem na

parte superior uma barra com vincos obliquos, sob isto uma estrella,

uma perna com meia e sapato, que pousa sobre uma nuvem.

Na igreja ha um quadro bom, o _lavapedes,_ mal restaurado infelizmente;

algumas campas, duas pias de agua benta que são dois capiteis do seculo

XIV escavados, e na sacristia um arcaz de boa madeira, bom trabalho,

com metaes bem lavrados.

O terreno em redor da igreja era antigamente o cemiterio e ainda ahi

está uma urna com inscripção que será bom registar:==Josephus Joannes

de Pinna de Soveral e Barbuda speciosus forma oritur ut moriatur 23 die

decembris anno 1710 et plenus gratia per merita domini nostri Jesus

Christi moritur ut vivat 1.ᵒ die mayi anno 1742,==o lettreiro está na

face da urna em moldura, tendo na facha superior==Deo laus honor et

gloria, amen,==e na inferior==Spes et voluntas in Deo.==

Visinha da igreja de S. Lourenço está uma fonte com bello aspecto mas

sem agua. Tem seu terreiro bem empedrado defendido por frades de pedra,

tanque, e um corpo central encimado por uma estatua, uma figura de

mulher que me intriga um tanto. Esta figura está mutilada, sem braços,

e pegaram-lhe ao lado uma pedra com seu lettreiro:==Encanamento de

ferro pela vereação de 1858.==Mais em baixo o dizer:==Camara Municipal

de Belem, 1857.==Apesar dos lettreiros e dos canos de ferro a fonte

está enxuta.

No passeio de cima chamado antigamente do Espirito Santo, agora o _alto

do poço_, está uma fonte, isto é, um poço com bomba, e uma urna de

pedra bem tosca com a indicação:==C. M. B. 1859.==Dizem os de Carnide

que a agua da fonte de baixo era excellente. Parece que n’este caso

como em tantos outros a companhia apanhou as aguas boas, misturou-as

com as ruins, e fornece a mistura aos consumidores, que em certas

localidades ficaram prejudicados.

Agora a respeito da estatua; é uma figura de mulher, com tunica de

pregas miudas, e amplo manto cingido. Parece-me uma estatua romana,

pelo trabalho, disposição, rosto e cabello. Provavelmente foi

aproveitada alli como o satyro da fonte de S. Domingos de Bemfica.

Carnide tem illuminação a gaz, agua da Companhia, estação

telegrapho-postal, posto de bombeiros, posto de policia civil, a sua

philarmonica com aprendizes de cornetim, a pharmacia com seu gamão,

um theatro particular, um club e duas escolas municipaes primarias

officiaes de ensino gratuito, uma para meninas e outra para meninos que

me parecem regularmente frequentadas.

As irmãs de S. José tem escola de meninas.

O que anima muito o sitio é o collegio militar, que está muito bem

installado no sólido edificio que ainda conserva na sua frente o brazão

da fundadora, a inclita infanta D. Maria, filha de el-rei D. Manuel.

Na procissão dos Passos faziam a guarda de honra os alumnos do Collegio

Militar com as suas carabinas no braço, marchando muito garbosamente,

entre o povo e as familias d’elles que os acompanhavam, cobrindo-os

com os seus melhores olhares. Sentia-se um certo perfume de familia,

patria, dever, brio, mocidade, um ramilhete de cousas boas, ao vêr

passar, musica na frente, aquelles bellos rapazes, entre a multidão

sympathica.

A igreja de Nossa Senhora da Luz é bem conhecida; eu mesmo já

escrevi algures da formosa téla onde se vê retratada a infanta D.

Maria (ha outro retrato no quadro da capella do collegio militar),

do extraordinario altar-mór com os seus finos baixos relevos, da

capella-mór que é um monumento da arte nacional, excepcionalmente bem

conservado. No exterior está a fonte, a velha estatua da Virgem e uma

longa inscripção repartida em duas lapides de marmore avermelhado, que

diz o seguinte:

==No anno de 1463 reinando em Portugal D. Affonso V os visinhos de

Carnide com devoção das revelações que Pedro Martins, natural deste

logar, teve em seu captiveiro, donde sahiu milagrosamente, lhe ajudaram

a fazer uma capella a nossa Senhora da Luz sobre esta fonte. O lugar

como determinado pela divina providencia para este effeito se via

dantes claro e resplandecente com visão e lumes do Céo, como depois

se viu resplandecer com grandes e innumeraveis milagres na terra. E

seguindo em tudo a ordem e revelação que a Virgem purissima inspirou

a Pedro Martins, lhe puzeram o nome que tem da Luz, em cuja memoria

e louvor a infanta D. Maria filha delrei D. Manuel o primeiro deste

nome, rei de Portugal, e da Christianissima rainha D. Leonor infanta de

Castella, mandou reedificar e levantar o templo de novo nesta ordenança

e grandeza, no anno de 1575.==

* * * * *

Domingo de Ramos, 3 abril 1898.

Pela manhã cedo dei um pequeno passeio até á Casa da Pontinha, proxima

da estrada militar. É casa antiga, com algumas alterações modernas; na

parede que deita para a estrada, a pouca altura, está um marmore com

lettreiro:

Louvado seja

o santissimo

sacramento.

--

Se quereis

saber quem

he o serafi

co Frc.ᵒ está

junto a IHS

Cristo que

16 assim o te 37

mos por

fee

Superior á lapide está um quadro de azulejo; a Senhora da Conceição, em

azul sobre o branco, de bom desenho, em moldura de azulejos policromos.

Proximo da Casa da Pontinha, na estrada que vem para Carnide, está uma

casa quadrada, na ponta da horta do casal do Falcão, n’um angulo de

muro, que conserva um friso ornamentado, uma grega singela em relevo de

cal, um _esgrafitto_, datado «1622».

Depois ouvi a sineta das freiras, que sôa como uma voz debil, triste,

e entrei na linda igreja. O capellão lia no seu missal a grande

narrativa do triumpho em Jerusalem, que foi terminar na paixão, na cruz

do Calvario, verdadeiro symbolo da vida humana, que a dias de puras

alegrias e risonhas esperanças faz succeder horas de desespero e uma

eternidade de angustias.

O capellão lançou a sua benção sobre os ramos, folhas de palmeira

sem ornato algum, e deu-os pela grade do côro de baixo ás religiosas

portuguezas. Entraram processionalmente as irmãs de S. José de Cluny,

com as suas tunicas azues e mantos pretos; toucas brancas moldurando os

rostos; atravessaram o cruzeiro e ajoelharam no degrau da capella-mór.

Ahi receberam as palmas, os ramos do grande triumpho. Não havia

musicas, nem canto; um grande silencio apenas. E retiraram na mesma

ordem, e no mesmo silencio para a sua clausura.

Quantas estarão de marcha para as missões africanas!

* * * * *

Quinta-feira santa, 7 d’abril 1898.

Hoje o passeio foi longo, quiz verificar o que havia a respeito de

certas antiguidades na ribeira de Carenque.

Ha tempos, nem me recordo porque circumstancia, folheei um opusculo

intitulado==_Representações dirigidas a S. M. a Rainha e ao corpo

legislativo pela Camara Municipal de Lisboa sobre o abastecimento

d’aguas na Capital_==(Lisboa, 1853). Ora estas representações são

acompanhadas de pequenas memorias de J. M. O. Pimentel e do engenheiro

Pézerat, duas summidades do seu tempo. A de Pézerat começa a pag.

53:==Memoria sobre as conservas d’agua da Quintam até ao Salto Grande.==

Tratava-se de estabelecer tanques nos valles superiores (da ribeira

de Carenque), ou conserva para a repreza de todas as aguas de sobejo

fornecidas no inverno pelos differentes nascentes d’este systema de

aqueducto (o das Aguas Livres). E diz Pézerat:==Descobri o valle da

Quintam, com condições muito favoraveis porquanto já tinha servido em

tempos remotos de conserva ou bacia para uma immensa repreza, cuja

existencia está provada pelos restos do antigo paredão ou marachão com

11 metros de largura, e 9 de altura, e que os habitantes attribuiam á

epocha do dominio romano, e como tal o denominam, porém mui facilmente

reconheci pertencer á epocha mourisca.==

Na planta que vem com a memoria marcam-se o casal da Fonte Santa, o

resto do marachão, as linhas do aqueducto de D. João V, as mães d’agua,

velha e nova, a escavação de um aqueducto abandonado, o valle de

Fornos, o casal da Quintam e as ruinas do Castello velho.

Eu desejava ver estas antigualhas.

Parti de Carnide á Porcalhota, ao sitio da Amadora, passei por um

grande arco sob a linha ferrea, e entrei na estrada de Carenque, que

vae seguindo a corrente. Um valle muito comprido, accidentado, com

dois logares, Carenque de baixo, Carenque de cima, alguns grupos de

casebres, azenhas, pequenas hortas, e dominando tudo a formidavel obra

do aqueducto das Aguas Livres, sempre bem feita, de silharia sempre bem

faciada, formidavel monumento.

A principio ia desanimando, ninguem me sabia dizer das velharias

mouriscas ou romanas, nem da Quintam, e cheguei assim ao casal do

Ernesto.

Ahi depois de expôr a minha questão a um grupo que nada sabia,

surgiu-me um sujeito côxo conhecedor do caso, da obra dos mouros (não

me fallou de romanos) e da Quintam. Este côxo providencial chama-se

João Silvestre, e foi pastor na sua mocidade. Pastores sabem muito,

andam pelos montes e charnecas, por atalhos e a corta-matto; são sempre

bons informadores.

Com o Silvestre passei as terras do casal do Ernesto; em breve estava

na ponte entre as mães d’agua; a chamada _nova_ (D. João V) é uma linda

construcção oitavada, de elegantes fórmas singelas, classicas, parece

uma obra grega. Pouco acima avistava-se outra obra inconfundivel, o

marachão, enorme, firme, apezar das cheias, dos seculos e dos homens.

Porque já para a obra do aqueducto de D. João V tiveram de o romper a

poente, e mais recentemente a nascente para a passagem de uma estrada;

todavia o que existe é pouco menos do que viu Pézerat.

Nas dimensões que elle apresenta, na da largura do paredão, houve

engano me parece. Contando com os encostos ou gigantes, na base,

chega-se a 11 metros, mas a parede em si tem 7 metros, o que é bem

respeitavel. É feito de camadas de pedregulho e argamassa, revestido

de pedras grandes irregulares e mal faciadas, em fiadas; por isto

me parece obra dos arabes; os romanos em obra de tal importancia

empregavam os seus bellos apparelhos. O paredão tem 9 metros de altura

na face do sul. Completo teria 40 a 50 metros de comprimento, e 5 ou

6 de altura sobre o terreno a montante; ora a montante segue-se uma

varzea consideravel que fechada formaria uma grande albufeira. Mais

acima, a 2 kilometros, fica a Quintam, um casal muito velho; ao lado

restos da muralha com ameias, e um grande portal.

É de notar que junto de Odivellas, sahindo da povoação a entrar no

atalho que vem ao moinho da Luz, na estrada militar, está um muro

ameiado, com seu portico em ogiva, resto tambem de uma construcção

fortificada. Castellos não seriam, mas habitações fortificadas talvez.

E disse-me o Silvestre,--mas por aqui ainda ha melhor, se tem tempo

e vontade eu lhe vou mostrar a eira dos mouros.--Trepámos por atalho

até uma chapada, proxima e inferior á crista do cerro que é formado

de calcareo secundario muito fragmentado. E achei-me em face de um

problema.

É uma chapada ligeiramente inclinada de poente para nascente. N’este

declive traçaram um octogono regular, menos a face do nascente que está

de nivel com o terreno natural. Este octogono está cercado por um muro

duplo, isto é, por dois muros parallelos que entre si conservam um

intervallo de meio metro; estes muros conservam a mesma altura em cinco

lados do octogono, decrescem nos dois a nascente até chegar ao nivel do

solo. Os muros teem 0,5 de espessura; nos cinco lados a poente, norte

e sul, quasi um metro de altura na face interior, porque na exterior,

a poente estão com o terreno, que é mais alto ahi. São de alvenaria

bem solida. No espaço assim limitado arranjaram um centro plano e das

paredes para esse centro ha declives regulares, artificiaes. Todo

este espaço interior está, não calçado de pedra, mas forrado de uma

forte camada de alvenaria, que assenta, como se vê n’um ponto que está

escavado (por algum caçador, ou mais provavelmente por algum sonhador

de thesouros; porque, notou o antigo pastor, dizem que ha muita somma

de dinheiro e outras cousas enterradas por estes sitios), em grande

camada de pedregulhos.

--Dizem que era aqui que os mouros se vinham divertir,--informou o

Silvestre. Um theatro, uma palestra, uma praça de touros? quasi que

parece; mas para que a dupla parede com a sua sanja ou caneiro? E os

declives, e a solidissima alvenaria que forra o fundo? Para um fim

industrial, ou assento de grande arribana, tambem não vejo; se fosse

questão de aguas, tanques de lavagem, então não fariam aquella obra na

altura, porque o rio corre muito abaixo. O espaço é consideravel; tem

proximamente 35 metros de diametro maximo, e os lados, muito regulares,

tem 15 metros cada um na face interna. Ha outras eiras de mouros, disse

Silvestre, mas sem o duplo muro, n’uns outeiros mais distantes.

* * * * *

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 21 / 72 题