Provavelmente a freguezia cedeu alguns fogos para a formação de outra
qualquer, ou então houve largo estacionamento.
Actualmente (abril 1898) Carnide pertence ao 3.ᵒ bairro de Lisboa.
Fogos, 337.
Habitantes, 1:737.
Sendo: varões, 1:018; femeas, 719.
Solteiros, 710 varões e 404 femeas.
Casados, 277 varões e 255 femeas.
Viuvos, 31 varões e 57 femeas.
Analphabetos, 432 varões e 353 femeas.
Sabem ler, 6 varões e 18 femeas.
Sabem ler e escrever, 580 varões e 345 femeas.
É preciso lembrar que na freguezia de Carnide está o collegio militar,
o que produz as grandes divergencias nos numeros dos solteiros, dos
instruidos, etc.
* * * * *
O sitio é agradavel, de amoravel paizagem, brilhante mesmo nos dias
bons; como o terreno é variavel na sua constituição, basaltos,
calcareos, argilas, as culturas diversas, e de tons que vão do claro
do rebento novo da vinha ao verde intenso do trigo, produzem um matiz
onde o olhar repousa sem achar monotonia. Pelas quintas ha arvoredos
sombrios, ou compridas latadas e hortejos cuidados, vinhas, searas,
geiras de fava ou batata. Trabalha-se, cultiva-se com intensidade, e
não sobram os braços porque os salarios dos trabalhadores ruraes são
maiores que em outras partes.
A par da quinta antiga com seu palacio e capella ha o _chalet_ moderno,
com as suas varias traducções, vivenda, tugurio e não sei que mais. Bom
exemplo de casa antiga é o casal do Falcão, com a sua varanda alta, e
as suas dependencias; casa mais moderna, do começo do seculo XVIII,
talvez, é a da quinta de Santa Martha, ou dos Azulejos, assim chamada
por ter forradas de azulejos as paredes que deitam para o jardim, e as
escadas, que são exteriores, a varanda, a nora, a parede do tanque,
e as paredes dos alegretes altos, tudo em assumptos variados, em
grandes quadros, em medalhões, com damas nobres, e archeiros, e deuses
mythologicos, e quadrinhos que fazem lembrar o Nicolau Tolentino.
Ao lado da propriedade grande e custosa ha a pequena que o saloio rega
com o suor do seu rosto, e com a agua que tira do poço ou do regato com
a _cegonha_ ou picota, a grande alavanca que já figura nas esculpturas
do Egypto a levantar a agua do Nilo sagrado.
De Carnide-Luz ha estradas para o Campo Grande, Telheiras, Paço do
Lumiar, Sete Rios, Bemfica, Odivellas ou da Beja, mais ou menos
assombradas, sempre agradaveis, por vezes com grandes vistas. A estrada
militar corta grande parte da freguezia, offerecendo sempre largo
horizonte.
Eu tenho caminhado por estes sitios e acho adoraveis certas estradinhas
discretas, humildes carreteiras bordadas de vallados agora floridos, de
madresilvas e congossas, assombradas por oliveiras, olaias, cerejeiras;
de vez em quando uma palmeira rompe entre as larangeiras, um cypreste
ergue a sua pyramide verde escura.
* * * * *
Proximo da quinta dos Azulejos está o convento de Santa Thereza de
Jesus. Eu ouço repetidas vezes a sineta com um som fraco, lamentoso,
chamando á missa ou marcando as horas coraes.
Os sinos de S. Lourenço são vibrantes, mui sonoros; aos domingos
tocam musicas festivas que ficam bem na grande e virente paizagem,
annunciando o dia de repouso a essa gente que tanto trabalha. Gosto de
os ouvir nas Ave-Marias da manhã quando o sol nascente rutila na grande
vidraça da egreja do cemiterio dos Arneiros.
A egreja de Santa Thereza é bonita, de linhas sobrias, com uma só nave.
O convento divide-se agora por duas communidades diversas. Uma parte
pertence ás freiras portuguezas, senhoras mui virtuosas, e com
excellente tradição por estes sitios. Outra parte ás freiras francezas,
irmãs de S. José de Cluny. Estas são mais numerosas e teem pupilas e
postulantes. Tem escola, e enviam pessoal para as missões africanas. As
portuguezas resam no côro de baixo, as francezas no côro de cima.
Todo o tecto da egreja, nave, cruzeiro, capella-mór e côro alto é de
pintura antiga, de 1662 provavelmente, com as suas flores e fructos,
mascaras e garças, molduras quebradas e grinaldas, grandes espiraes de
folhagens, e figuras inteiras de virtudes. É muito lindo.
Grandes paineis de azulejos com passos da vida de Santa Thereza forram
a egreja até certa altura; télas pintadas a oleo, em grandes molduras
de talha dourada, illuminam a parte mais alta das paredes.
Entre estas reparo na grande téla que representa o passamento de Santa
Thereza notavel na composição, no desenho e no colorido. É boa obra
d’arte e documento notavel na indumentaria e mobiliario. O quadro da
capella-mór é muito lindo tambem: composição importante, com muitas
figuras, e bem colorido.
A obra de talha da capella-mór, relativamente moderna, é muito elegante
com o seu bello portico de columnas encimado pelas grandes figuras da
Fé e da Esperança.
Os altares lateraes são revestidos de azulejos polycromos, com as armas
de Portugal entre ramarias e animaes, e moldura fingindo embrechado de
marmore amarello sobre fundo negro. Estes azulejos devem ser tambem do
seculo XVII.
O pulpito e sua escada de páu brazil em torcidos e tremidos, com
applicações de metal amarello, é notavel, e merece attenção tambem a
especial pintura que cerca a janella, que está sobre a porta lateral da
egreja, da parte de dentro.
A infanta D. Maria, filha de D. João IV, está no côro de baixo; sob a
grade d’este côro repousa uma princeza germanica.
Reproduzo a inscripção desdobrando os breves:==Aqui debaixo d’esta
grade jaz a veneravel madre Michaella Margarida de Sancta Anna filha
do imperador Mathias, fundadora que foi d’este convento: resplandeceu
em virtudes, faleceu em 28 de setembro de 1663 de idade de 82 annos
havendo entrado na religião de 4 para 5 annos.==Esta inscripção está
gravada em tres linhas, com bastantes lettras inclusas.
Ha n’esta egreja uma devoção especial a «Santa Agape V. M. cujos
despojos mortaes foram achados em Roma no cemiterio de Prescilla, sito
na estrada Salaria Nova, e pelo santo padre Gregorio XVI concedidos
á egreja de Santa Thereza de Carnide a 25 de abril de 1843... sendo
expostos á veneração dos fieis em 14 d’outubro de 1846.»
No exterior, templo e convento são de extrema singeleza. Sobre a porta
principal a estatueta de Santa Thereza, e sobre a portaria a de S. José.
No cunhal da esquerda da frontaria, lá está a inscripção:
M.ᴬ F.ᴬ IOANNIS IIII LVSI
TANIAE REGIS HOC OP
VS STRVXIT, ANNO
DNI. M.DCLXII.
Este convento conheceu dias de tormenta; quantas angustias passaram
atraz d’essas grades; nas grandes crises do tempo pombalino, dos
francezes, das guerras civis, muitas damas, algumas das mais nobres
familias de Portugal, aqui vieram asylar-se.
Aqui esteve a duqueza de Ficalho a quem um capellão esperto dava
noticias dos filhos, todos no exercito do imperador, no meio de
motejos e allusões que contava em voz alta ás pessoas que estavam no
locutorio, em quanto a duqueza escutava em ancias na casa proxima.
* * * * *
N’este convento de Santa Thereza de Carnide viveu uma religiosa
celebrada no seu tempo pelas suas virtudes, lettras, prendas, e bom
humor. Era insigne no cravo, escreveu prosas e versos, e desenhava
muito bem. A sua biographia encontra-se n’um volume com o titulo==Vida
e obras da serva de Deus e madre soror Marianna Josepha Joaquina de
Jesus, religiosa carmelita descalça do convento de Santa Thereza do
logar de Carnide.==(Lisboa, 1783). É obra publicada sem nome de auctor,
mas sabe-se que o foi D. José Maria de Mello, filho de Francisco de
Mello, monteiro-mór do reino, oratoriano, bispo do Algarve, etc. Era
sobrinho da insigne religiosa; e esta era filha do conde de Tarouca, o
conhecido diplomata João Gomes da Silva.
As obras da madre Marianna são escriptos piedosos, em prosa e verso,
em boa e fluente linguagem. As prosas são exercicios espirituaes,
instrucções para as noviças, actos das virtudes, etc. E as poesias que
se leem sem enfado porque tem certa animação são todas conventuaes,
celebrando, festividades; sonetos, decimas, nas festas da prelada;
sortes de exercicio de virtudes para se tirarem no dia da exaltação
da cruz; sortes da paixão para se tirarem no domingo de Ramos. Ha um
romance.==A uma noviça attribulada.== E varios desafios poeticos no
tempo do advento, exaltação e quaresma.
* * * * *
A egreja parochial de S. Lourenço de Carnide está agora bem reparada; é
antiga como mostra a sua orientação e disposição. Todavia pouco resta,
á vista, dos seus primeiros tempos. Na frontaria á direita ha uma pedra
que é precioso monumento. Diz assim:==Era de 1380, 14 de maio o bispo
Dom João mandou edificar esta egreja por Pero Sanches chantre de Lisboa
á honra de S. Lourenço e deu-a a João Dor, seu capellão 24 dias do dito
mez e passou o dito bispo 24 de julho da dita era ao qual Deus perdôe.
Amen. Isto declara o que diz a pedra antiga correspondente.==
A qual pedra não se vê hoje.
Á esquerda da frontaria está em pedra lavrada, um brazão raro; tem na
parte superior uma barra com vincos obliquos, sob isto uma estrella,
uma perna com meia e sapato, que pousa sobre uma nuvem.
Na igreja ha um quadro bom, o _lavapedes,_ mal restaurado infelizmente;
algumas campas, duas pias de agua benta que são dois capiteis do seculo
XIV escavados, e na sacristia um arcaz de boa madeira, bom trabalho,
com metaes bem lavrados.
O terreno em redor da igreja era antigamente o cemiterio e ainda ahi
está uma urna com inscripção que será bom registar:==Josephus Joannes
de Pinna de Soveral e Barbuda speciosus forma oritur ut moriatur 23 die
decembris anno 1710 et plenus gratia per merita domini nostri Jesus
Christi moritur ut vivat 1.ᵒ die mayi anno 1742,==o lettreiro está na
face da urna em moldura, tendo na facha superior==Deo laus honor et
gloria, amen,==e na inferior==Spes et voluntas in Deo.==
Visinha da igreja de S. Lourenço está uma fonte com bello aspecto mas
sem agua. Tem seu terreiro bem empedrado defendido por frades de pedra,
tanque, e um corpo central encimado por uma estatua, uma figura de
mulher que me intriga um tanto. Esta figura está mutilada, sem braços,
e pegaram-lhe ao lado uma pedra com seu lettreiro:==Encanamento de
ferro pela vereação de 1858.==Mais em baixo o dizer:==Camara Municipal
de Belem, 1857.==Apesar dos lettreiros e dos canos de ferro a fonte
está enxuta.
No passeio de cima chamado antigamente do Espirito Santo, agora o _alto
do poço_, está uma fonte, isto é, um poço com bomba, e uma urna de
pedra bem tosca com a indicação:==C. M. B. 1859.==Dizem os de Carnide
que a agua da fonte de baixo era excellente. Parece que n’este caso
como em tantos outros a companhia apanhou as aguas boas, misturou-as
com as ruins, e fornece a mistura aos consumidores, que em certas
localidades ficaram prejudicados.
Agora a respeito da estatua; é uma figura de mulher, com tunica de
pregas miudas, e amplo manto cingido. Parece-me uma estatua romana,
pelo trabalho, disposição, rosto e cabello. Provavelmente foi
aproveitada alli como o satyro da fonte de S. Domingos de Bemfica.
Carnide tem illuminação a gaz, agua da Companhia, estação
telegrapho-postal, posto de bombeiros, posto de policia civil, a sua
philarmonica com aprendizes de cornetim, a pharmacia com seu gamão,
um theatro particular, um club e duas escolas municipaes primarias
officiaes de ensino gratuito, uma para meninas e outra para meninos que
me parecem regularmente frequentadas.
As irmãs de S. José tem escola de meninas.
O que anima muito o sitio é o collegio militar, que está muito bem
installado no sólido edificio que ainda conserva na sua frente o brazão
da fundadora, a inclita infanta D. Maria, filha de el-rei D. Manuel.
Na procissão dos Passos faziam a guarda de honra os alumnos do Collegio
Militar com as suas carabinas no braço, marchando muito garbosamente,
entre o povo e as familias d’elles que os acompanhavam, cobrindo-os
com os seus melhores olhares. Sentia-se um certo perfume de familia,
patria, dever, brio, mocidade, um ramilhete de cousas boas, ao vêr
passar, musica na frente, aquelles bellos rapazes, entre a multidão
sympathica.
A igreja de Nossa Senhora da Luz é bem conhecida; eu mesmo já
escrevi algures da formosa téla onde se vê retratada a infanta D.
Maria (ha outro retrato no quadro da capella do collegio militar),
do extraordinario altar-mór com os seus finos baixos relevos, da
capella-mór que é um monumento da arte nacional, excepcionalmente bem
conservado. No exterior está a fonte, a velha estatua da Virgem e uma
longa inscripção repartida em duas lapides de marmore avermelhado, que
diz o seguinte:
==No anno de 1463 reinando em Portugal D. Affonso V os visinhos de
Carnide com devoção das revelações que Pedro Martins, natural deste
logar, teve em seu captiveiro, donde sahiu milagrosamente, lhe ajudaram
a fazer uma capella a nossa Senhora da Luz sobre esta fonte. O lugar
como determinado pela divina providencia para este effeito se via
dantes claro e resplandecente com visão e lumes do Céo, como depois
se viu resplandecer com grandes e innumeraveis milagres na terra. E
seguindo em tudo a ordem e revelação que a Virgem purissima inspirou
a Pedro Martins, lhe puzeram o nome que tem da Luz, em cuja memoria
e louvor a infanta D. Maria filha delrei D. Manuel o primeiro deste
nome, rei de Portugal, e da Christianissima rainha D. Leonor infanta de
Castella, mandou reedificar e levantar o templo de novo nesta ordenança
e grandeza, no anno de 1575.==
* * * * *
Domingo de Ramos, 3 abril 1898.
Pela manhã cedo dei um pequeno passeio até á Casa da Pontinha, proxima
da estrada militar. É casa antiga, com algumas alterações modernas; na
parede que deita para a estrada, a pouca altura, está um marmore com
lettreiro:
Louvado seja
o santissimo
sacramento.
--
Se quereis
saber quem
he o serafi
co Frc.ᵒ está
junto a IHS
Cristo que
16 assim o te 37
mos por
fee
Superior á lapide está um quadro de azulejo; a Senhora da Conceição, em
azul sobre o branco, de bom desenho, em moldura de azulejos policromos.
Proximo da Casa da Pontinha, na estrada que vem para Carnide, está uma
casa quadrada, na ponta da horta do casal do Falcão, n’um angulo de
muro, que conserva um friso ornamentado, uma grega singela em relevo de
cal, um _esgrafitto_, datado «1622».
Depois ouvi a sineta das freiras, que sôa como uma voz debil, triste,
e entrei na linda igreja. O capellão lia no seu missal a grande
narrativa do triumpho em Jerusalem, que foi terminar na paixão, na cruz
do Calvario, verdadeiro symbolo da vida humana, que a dias de puras
alegrias e risonhas esperanças faz succeder horas de desespero e uma
eternidade de angustias.
O capellão lançou a sua benção sobre os ramos, folhas de palmeira
sem ornato algum, e deu-os pela grade do côro de baixo ás religiosas
portuguezas. Entraram processionalmente as irmãs de S. José de Cluny,
com as suas tunicas azues e mantos pretos; toucas brancas moldurando os
rostos; atravessaram o cruzeiro e ajoelharam no degrau da capella-mór.
Ahi receberam as palmas, os ramos do grande triumpho. Não havia
musicas, nem canto; um grande silencio apenas. E retiraram na mesma
ordem, e no mesmo silencio para a sua clausura.
Quantas estarão de marcha para as missões africanas!
* * * * *
Quinta-feira santa, 7 d’abril 1898.
Hoje o passeio foi longo, quiz verificar o que havia a respeito de
certas antiguidades na ribeira de Carenque.
Ha tempos, nem me recordo porque circumstancia, folheei um opusculo
intitulado==_Representações dirigidas a S. M. a Rainha e ao corpo
legislativo pela Camara Municipal de Lisboa sobre o abastecimento
d’aguas na Capital_==(Lisboa, 1853). Ora estas representações são
acompanhadas de pequenas memorias de J. M. O. Pimentel e do engenheiro
Pézerat, duas summidades do seu tempo. A de Pézerat começa a pag.
53:==Memoria sobre as conservas d’agua da Quintam até ao Salto Grande.==
Tratava-se de estabelecer tanques nos valles superiores (da ribeira
de Carenque), ou conserva para a repreza de todas as aguas de sobejo
fornecidas no inverno pelos differentes nascentes d’este systema de
aqueducto (o das Aguas Livres). E diz Pézerat:==Descobri o valle da
Quintam, com condições muito favoraveis porquanto já tinha servido em
tempos remotos de conserva ou bacia para uma immensa repreza, cuja
existencia está provada pelos restos do antigo paredão ou marachão com
11 metros de largura, e 9 de altura, e que os habitantes attribuiam á
epocha do dominio romano, e como tal o denominam, porém mui facilmente
reconheci pertencer á epocha mourisca.==
Na planta que vem com a memoria marcam-se o casal da Fonte Santa, o
resto do marachão, as linhas do aqueducto de D. João V, as mães d’agua,
velha e nova, a escavação de um aqueducto abandonado, o valle de
Fornos, o casal da Quintam e as ruinas do Castello velho.
Eu desejava ver estas antigualhas.
Parti de Carnide á Porcalhota, ao sitio da Amadora, passei por um
grande arco sob a linha ferrea, e entrei na estrada de Carenque, que
vae seguindo a corrente. Um valle muito comprido, accidentado, com
dois logares, Carenque de baixo, Carenque de cima, alguns grupos de
casebres, azenhas, pequenas hortas, e dominando tudo a formidavel obra
do aqueducto das Aguas Livres, sempre bem feita, de silharia sempre bem
faciada, formidavel monumento.
A principio ia desanimando, ninguem me sabia dizer das velharias
mouriscas ou romanas, nem da Quintam, e cheguei assim ao casal do
Ernesto.
Ahi depois de expôr a minha questão a um grupo que nada sabia,
surgiu-me um sujeito côxo conhecedor do caso, da obra dos mouros (não
me fallou de romanos) e da Quintam. Este côxo providencial chama-se
João Silvestre, e foi pastor na sua mocidade. Pastores sabem muito,
andam pelos montes e charnecas, por atalhos e a corta-matto; são sempre
bons informadores.
Com o Silvestre passei as terras do casal do Ernesto; em breve estava
na ponte entre as mães d’agua; a chamada _nova_ (D. João V) é uma linda
construcção oitavada, de elegantes fórmas singelas, classicas, parece
uma obra grega. Pouco acima avistava-se outra obra inconfundivel, o
marachão, enorme, firme, apezar das cheias, dos seculos e dos homens.
Porque já para a obra do aqueducto de D. João V tiveram de o romper a
poente, e mais recentemente a nascente para a passagem de uma estrada;
todavia o que existe é pouco menos do que viu Pézerat.
Nas dimensões que elle apresenta, na da largura do paredão, houve
engano me parece. Contando com os encostos ou gigantes, na base,
chega-se a 11 metros, mas a parede em si tem 7 metros, o que é bem
respeitavel. É feito de camadas de pedregulho e argamassa, revestido
de pedras grandes irregulares e mal faciadas, em fiadas; por isto
me parece obra dos arabes; os romanos em obra de tal importancia
empregavam os seus bellos apparelhos. O paredão tem 9 metros de altura
na face do sul. Completo teria 40 a 50 metros de comprimento, e 5 ou
6 de altura sobre o terreno a montante; ora a montante segue-se uma
varzea consideravel que fechada formaria uma grande albufeira. Mais
acima, a 2 kilometros, fica a Quintam, um casal muito velho; ao lado
restos da muralha com ameias, e um grande portal.
É de notar que junto de Odivellas, sahindo da povoação a entrar no
atalho que vem ao moinho da Luz, na estrada militar, está um muro
ameiado, com seu portico em ogiva, resto tambem de uma construcção
fortificada. Castellos não seriam, mas habitações fortificadas talvez.
E disse-me o Silvestre,--mas por aqui ainda ha melhor, se tem tempo
e vontade eu lhe vou mostrar a eira dos mouros.--Trepámos por atalho
até uma chapada, proxima e inferior á crista do cerro que é formado
de calcareo secundario muito fragmentado. E achei-me em face de um
problema.
É uma chapada ligeiramente inclinada de poente para nascente. N’este
declive traçaram um octogono regular, menos a face do nascente que está
de nivel com o terreno natural. Este octogono está cercado por um muro
duplo, isto é, por dois muros parallelos que entre si conservam um
intervallo de meio metro; estes muros conservam a mesma altura em cinco
lados do octogono, decrescem nos dois a nascente até chegar ao nivel do
solo. Os muros teem 0,5 de espessura; nos cinco lados a poente, norte
e sul, quasi um metro de altura na face interior, porque na exterior,
a poente estão com o terreno, que é mais alto ahi. São de alvenaria
bem solida. No espaço assim limitado arranjaram um centro plano e das
paredes para esse centro ha declives regulares, artificiaes. Todo
este espaço interior está, não calçado de pedra, mas forrado de uma
forte camada de alvenaria, que assenta, como se vê n’um ponto que está
escavado (por algum caçador, ou mais provavelmente por algum sonhador
de thesouros; porque, notou o antigo pastor, dizem que ha muita somma
de dinheiro e outras cousas enterradas por estes sitios), em grande
camada de pedregulhos.
--Dizem que era aqui que os mouros se vinham divertir,--informou o
Silvestre. Um theatro, uma palestra, uma praça de touros? quasi que
parece; mas para que a dupla parede com a sua sanja ou caneiro? E os
declives, e a solidissima alvenaria que forra o fundo? Para um fim
industrial, ou assento de grande arribana, tambem não vejo; se fosse
questão de aguas, tanques de lavagem, então não fariam aquella obra na
altura, porque o rio corre muito abaixo. O espaço é consideravel; tem
proximamente 35 metros de diametro maximo, e os lados, muito regulares,
tem 15 metros cada um na face interna. Ha outras eiras de mouros, disse
Silvestre, mas sem o duplo muro, n’uns outeiros mais distantes.
* * * * *