Uma parte do convento que olha para norte está bastante arruinada;
eram ahi os dormitorios do noviciado; as janellas das humildes cellas
deitam para a cerca; a vista dilata-se por aquelles campos e collinas
verdejantes de Bemfica, jardins, frescos hortejos, copados arvoredos.
Uma d’essas pequeninas janellas é a do quarto que por muitos annos foi
habitado por um homem dos raros, dos mais raros, que tem havido em
Portugal, fr. Bartholomeu dos Martyres.
Foi aqui professor muitos annos.
Primeiramente esteve, ensinando já, no convento da Batalha.
Passou ao convento de Evora porque o infante D. Luiz, desejando fazer
grande lettrado seu filho o sr. D. Antonio, depois prior do Crato,
infeliz rei e exilado, instou e conseguiu que fr. Bartholomeu fosse ler
theologia nos dominicanos de Evora; ahi conheceu fr. Luiz de Granada,
outro raro. Permaneceu em Evora alguns annos; obrigaram-no então a
vir ser prior de S. Domingos de Bemfica, que era o grande noviciado
de Portugal. Vivia muito pobremente, sem a minima ostentação; amigo
do Convento e mais amigo da cella; dormindo pouco, comendo pouco.
Enthusiasta professor estava sempre prompto a ensinar; lia aos noviços
disciplinas superiores, mas se via necessidade fazia cursos d’artes
elementares, aos rapazes; fazia praticas numa capella da egreja. Era um
eloquente, como fr. Luiz de Granada; e ás vezes arrastado pelo calor
da palavra, enthusiasmava-se, e enthusiasmava o auditorio; uma vez
terminou a pratica chorando elle e todos os ouvintes.
Gostava de passear na cerca, e estava muitas vezes á janella da sua
pobre cella; os noviços ouviam-no cantarolar a meia voz, tomando o ar,
encostado ao peitoril da janella que dá para o campo.
As visitas contrariavam-no um pouco, o cardeal D. Henrique, o infante
D. Luiz frequentavam o convento; um dia instaram com elle para que
acceitasse a mitra de Braga. Do tranquillo cantinho de S. Domingos de
Bemfica para o paço archi-episcopal de Braga!
Largar o convento, as aulas, a cêrca, a sua cella tão boa para o
estudo! Não queria, não queria! Foi a rainha D. Catharina que o mandou;
elle então obedeceu. Foi sempre um altruista, espirito cheio de
abnegação. Preparou-se para a partida, teve de deixar por algum tempo
Bemfica; mas antes de partir definitivamente para Braga foi passar um
dia a S. Domingos, ao querido sitio de Bemfica, foi despedir-se da
egreja, das aulas, da sua tranquilla cella, das arcadas silenciosas do
claustro, da fonte da horta, das arvores, das flores.
E foi para Braga, para aquellas extranhas missões das montanhas
minhotas, e para as solemnes discussões do concilio de Trento.
Era por indole um professor, gostava de ensinar. Tanto que se viu
livre da mitra primacial elle ahi vae para o seu retiro de Vianna do
Lima, ensinar rapazes; nos seus passeios pelos campos o bom velhinho,
ás vezes, assentado a repousar, doutrinava os humildes pastores. Que
esta raça portugueza em tempos antigos produziu mestres em sciencias
e lettras que illuminaram universidades em Hespanha, Italia e França.
Merece ainda attenção este homem no ponto de vista da hygiene em geral;
pelo seu regime de vida, habitos e predilecções. Usava fazer grandes
passeios a pé, era sóbrio, de bom humor. Lendo hygienistas modernos,
Gautier (Armand--_L’alimentation et les regimes chez l’homme sain et
chez les malades_) por exemplo, encontram-se conselhos para a vida dos
intellectuaes, que lembram logo o methodo de vida de fr. Bartholomeu
dos Martyres.