D. João 1.ᵒ cedeu a Casa real de Bemfica a fr. Vicente de Lisboa para
estabelecimento do instituto dominicano, em 1399.
Este fr. Vicente era provincial da sua ordem em Castella e Portugal,
inquisidor geral de Hespanha, confessor e prégador de D. João 1.ᵒ
Foi com certeza um vulto importante. Barbosa Machado, na Bibliotheca
Lusitana falla delle, firmando-se no epitaphio que primitivamente
marcava o logar de repouso das suas reliquias.
Ahi se _lia per illum_ (fr. Vicente) _in hac civitate_ (Lisboa) _et
in diversis hujus regni partibus, destructa fuerunt opera diaboli et
haereses erroresque, atque idolatriae._ _Edidit etiam varios libros
excellentis doctrinae._
Barbosa Machado diz que não conseguiu vêr nenhum de taes livros. Mas
sabe pelo epitaphio que elle combateu as crendices populares, as
superstições viciosas, as praticas pagans observadas ainda no seu tempo
pela gente rude. É tarefa antiga esta de combater tradições, bruxarias,
costumeiras, que hoje fazem as delicias dos folqueloristas. Ainda não
vi tambem livro que se possa attribuir a fr. Vicente de Lisboa; mas
não se perde a esperança. É bem possivel que nalguma antiga collecção
de sermões se contenham os do prégador de D. João 1.ᵒ Na livraria do
infante D. Fernando havia um volume assim designado==_Item, hum livro
de pregações de frey Vicente per lingoagem_. (T. Braga, _Historia da
Universidade de Coimbra_, 1.ᵒ pag. 229).
Muitas obras que se julgavam perdidas teem surgido nos ultimos annos.
Os tratados de alveitaria e citraria (este incompleto) de mestre
Giraldo existem na Bibliotheca Nacional, assim como uma copia antiga
do _Livro de Montaria de D. João 1.ᵒ_ O tratado da phisionomia, _Opus
de physiognomia_, de mestre Rolando, está na Bibliotheca da Ajuda.
Nos Documentos historicos da cidade de Evora dei noticia e grandes
extractos dos tratados medicos, da idade media, existentes na livraria
d’aquella cidade.
O sr. Leite de Vasconcellos, o nosso grande investigador, foi descobrir
em Vienna, uma versão portugueza das fabulas de Esopo, que já publicou
na Revista Lusitana.
Por isto não perco a esperança de ver ainda um dia alguma obra de fr.
Vicente de Lisboa.