D. Isabel Maria

A infanta D. Isabel Maria residiu bastantes annos na sua casa de S.

Domingos de Bemfica. Velhinha, adoentada nos ultimos tempos, cheia

de recordações, por alli passeava morosamente sob as magnolias e os

cedros. A quinta está contigua á cerca do convento.

O palacio parece que foi construido em tempo de um certo Devisme

negociante e capitalista, grande amigo do marquez de Pombal, que tambem

se importava de politica, tendo altas relações no estrangeiro, ahi

pelo meio do seculo XVIII. As estatuas de marmore que ornam o jardim

são d’essa época, mas o desenho, a disposição foi alterada. No palacio

houve mudanças e ainda nos ultimos annos foi ampliado; está installado

alli o bem afamado collegio de Jesus, Maria, José; grande numero das

senhoras da fina sociedade actual passou por esse estabelecimento de

educação.

Depois de Devisme pertenceu a bella propriedade á casa dos marquezes

de Abrantes, illustre familia. Por morte do ultimo marquez, em 1847,

foi comprada pela infanta D. Isabel Maria filha de D. João VI, e de D.

Carlota Joaquina. Nasceu a infanta em 4 de julho de 1801, e falleceu a

22 de abril de 1876, pelas 3 horas da tarde.

Interessante figura; vida que em grande parte decorreu entre agitações

politicas e palacianas; presidente da junta de regencia, em 6 de

março de 1826, ficando de parte a rainha D. Carlota, por occasião da

enfermidade de D. João VI, e por morte d’este, regente em nome de D.

Pedro IV, até ao celebre dia 22 de fevereiro de 1828, em que depoz o

governo nas mãos de D. Miguel. Foram um horror esses tempos de paixões

violentas, de conspirações politicas, que não paravam no vestibulo

do paço, e até de lá partiam, pois conspiradora foi sempre a mal

aventurada D. Carlota Joaquina.

Devia ser curioso este sitio de S. Domingos de Bemfica nessa longa

crise politica dos primeiros decennios do século passado, porque

os Fronteiras, os Mascarenhas, entraram na tentativa de 1805, e

continuaram até á ultima no liberalismo; os da casa d’Abrantes e os

dominicanos inclinavam-se ao absolutismo.

Mas a infanta que no Paço viu as discordias insensatas entre pae e mãe,

e na politica encontrou o tumulto entre exaltadas individualidades,

entre partidos raivosos, conseguiu equilibrar-se desempenhando com

superioridade o melindroso cargo de regente.

Crescendo a idade retirou-se, cada vez mais; por fim metteu-se no seu

ninho de S. Domingos, nas sombras abrigadas e aromaticas das suas

magnolias.

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 13 / 72 题