Ao contrario, a intenção quasi exclusiva do poeta era a galhofa, e tal

galhofa que transcendia muita vez as raias da conveniencia publica.

Nenhuma de suas peças,--operas é o nome classico,--nenhuma é isenta

de expressões baixas e até obscenas, com que elle, segundo lhe arguia

um prelado, «chafurdou na immundicie.» Tinha razão o prelado, mas não

basta ter razão; cumpre saber tel-a. Ora, a baixeza e a obscenidade

das locuções não eram novidade na scena portugueza, nem na de outros

paizes; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos á nossa lingua,

basta lembrar que o _Cioso_, de Ferreira, do culto autor da _Castro_,

foi dado por Figueiredo com a declaração de ter sido «expurgado

segundo o melindre dos ouvidos do nosso seculo.» Gil Vicente, sem

embargo de se representarem suas peças na côrte de D. João III e D.

Manuel, adubava-as ás vezes de especies que nos parecem hoje bem pouco

exquisitas. As operas do judeu eram dadas num theatro popular; não as

ouvia a côrte de D. João V, mas o povo e os burguezes de Lisboa, cujas

orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde lhes attribuiu

Figueiredo. A differença entre Antonio José e os outros era afinal uma

questão de quantidade; mas, se o tempo lh'o permittia e, com o tempo,

a censura, que muito é que o poeta reincidisse? Não é isto escusal-o,

mas explical-o. Deixemos os trocados e equivocos, que são um chiste de

mau gosto, mácula de estylo, que o poeta exagerou até á puerilidade,

cedendo a si mesmo e ao riso das platéas. Outro defeito que se lhe

argúe, é o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se notam em

muitas falas de certos personagens, os deuses, principes e heróes.

Um de seus biographos, comparando o estylo de taes personagens com o

dos criados e pessoas infimas, que são simples e naturaes, suppõe que

houve no poeta intenção satyrica, opinião que me parece carecer de

fundamento, entre outras razões porque não ha sempre aquella differença

de estylo, e não é raro falarem os principaes personagens do mesmo

modo natural e recto, que os de condição inferior. Guindam-se muita

vez, mas era achaque do tempo e exageração na maneira de empregar o

estylo nobre, porque havia então um estylo nobre; e, se o judeu teve

alguma vez intenção satyrica, arrebicando ou empolando a expressão,

tal intenção foi sómente literaria e nenhuma outra. Que diremos dos

anachronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os

dobrões de Alcmena, a alcunha de _alfacinha_ dada a Amphytrião, Juno

chrismada em Felizarda, um criado antigo «de corpo á ingleza,» outro

com «relogio de pendurucalhos,» deviam promover a gargalhada franca

do povo. Esse fugir do meio e da acção para a realidade presente vae

algumas vezes além, como na _Esopaida_, em que o heróe, falando de

sua vida, diz que anda em livros pelo mundo--«e agora me dizem que se

está representando no Bairro-Alto.» Já na _Vida de D. Quixote_ havia o

poeta posto a mesma cousa na boca de Sancho, quando o cavalleiro, vendo

um barco amarrado, pergunta ao escudeiro:--«Sabes onde estamos?--Sei

bem.--Aonde?--No Bairro-Alto.» O judeu podia responder que tal séstro

foi o de Regnard e o de Boursault, por exemplo, que poz o seu Esopo a

tomar café e metteu com elle esposas de tabelliães; podia citar muitos

outros exemplos anteriores e contemporaneos, e a critica se incumbiria

de apontar os que vieram depois delle; mas não vale a pena.

Venhamos ao _Amphytrião_. Um erudito escriptor, o Sr. Theophilo

Braga, suppõe que a intenção do poeta, nessa comedia, foi pintar em

Jupiter a pessoa de D. João V, supposição que detidamente examinei

e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o critico faz de uma

coincidencia um proposito, e fundamenta a sua suspeita na possivel

analogia das aventuras do deus pagão e do rei christão. A analogia

podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras não faz

chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler o _Amphytrião_,

basta comparar a situação do poeta e o tempo para varrer do espirito

semelhante hypothese. Certo, não faltava audacia ao poeta; ahi está,

como exemplo, a definição da justiça, feita por Sancho, na _Vida de D.

Quixote_; mas entre a generalidade desse trecho e a satyra pessoal do

_Amphytrião_ vae um abysmo. Occorre-me que do _Amphytrião_ de Molière

tambem se disse ser allusão a Luiz XIV, com a differença que em França

não se attribuiu a Molière a intenção de ferir, mas de ser agradavel

ao rei, que lhe havia encommendado aquella apotheose de suas proprias

aventuras, opinião esta que foi de todo condemnada. Não, não ha motivo

para attribuir a Antonio José a intenção que lhe suppõe o Sr. Theophilo

Braga; e, se tal intenção existisse, o desenlace da comedia, quando

Jupiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão crú que

não alcançariamos comprehendel-o naquelle seculo.

Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam

Plauto, Molière e Camões,--um assumpto prestadio ás combinações

scenicas, e, demais, singularmente proprio para as chufas do

Bairro-Alto. Desnecessario é dizer os tramites dessa travessura de

Jupiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vae á

casa della, acompanhado de Mercurio, que copia as feições de Sosias,

criado de Amphytrião. O nosso poeta seguiu no principal a fabula

que encontrou nos antecessores, fazendo-lhe todavia as alterações

suscitadas pelo gosto proprio e das platéas. Assim, o Sosias de Plauto,

de Molière e de Camões é na peça de Antonio José um Saramago. Não lhe

mudou elle o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao systema de

dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos _Encantos de Medéa_,

chama-se Sacatrapos; ha nas outras operas um Carangueijo, um Esfusiote,

um Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou

Dandin ao principal personagem de uma de suas comedias sinão para o

caracterisar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa.

Comtudo, a observação em relação a Antonio José tem o valor de um rasgo

significativo.

Cotejando o _Amphytrião_ de Antonio José com os de seus antecessores,

vê-se o que elle imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu.

Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube

escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo

poeta comico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de

Molière, o desenlace do _Amphytrião_ de Plauto. Na comedia deste, logo

depois de explicar Jupiter os equivocos da situação e de annunciar

ao marido de Alcmena que o filho desta é seu, mostra-se Amphytrião

inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões supprimiu

tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos os poetas

Amphytrião ouve silencioso as declarações do pae dos deuses, sem que

Alcmena assista a ellas. Antonio José não só não seguiu nessa parte

os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de

Plauto. A alegria do seu Amphytrião e da sua Alcmena é tão franca,

tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a offender

as leis da verosimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste

ponto Antonio José foi antes inadvertido do que obrigado do gosto

publico. Outro caso. Nas comedias anteriores não ha nenhum logar em

que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Amphytriões, e isto não só era

necessario para prolongar e justificar os equivocos, mas até o exigia a

verosimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous

exemplares exactos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento á

sua illusão, para cair no maravilhoso e no inextricavel. E é justamente

o que acontece na comedia do judeu.

Vamos agora ao que o judeu imitou directamente de Molière. Ha na

comedia daquelle um caracter, o de Cornucopia, mulher de Saramago,

que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na

de Molière existe. «Molière (é observação de La Harpe), fazendo de

Cleanthis mulher de Sosias, inventou uma situação parallela á de

Amphytrião e Alcmena, dando-lhe porém differente aspecto; Cleanthis

pertence ao numero das esposas que, por serem honestas, cuidam ter

o direito de ser insupportaveis». Ora bem, a situação e o caracter

de Cleanthis transportou-os o judeu para o seu _Amphytrião_, e não

se póde dizer encontro fortuito, senão deliberado proposito. Basta

cotejal-os com espirito advertido; a differença é de tom, de estylo;

substancialmente, a invenção é a mesma; as proprias idéas reproduzem-se

ás vezes na obra do judeu. Assim, logo na scena em que Mercurio

transformado em Saramago (Sosias) encontra a mulher deste, achamos o

traço commum aos dois poetas.

Na comedia de Molière:

CLEANTHIS

Regarde, traitre, Amphytrion;

Vois comme pour Alcmène il étale de flamme;

Et rougis là-dessus du peu de passion

Que tu témoignes pour ta femme.

MERCURIO

Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.

Il est certain âge où tout passe;

Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,

En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.

Il nous ferait beau voir, attachés face à face,

A pousser les beaux sentiments!

CLEANTHIS

Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheur

De te voir pour épouse une femme d'honneur?

MERCURIO

Mon Dieu! tu n'es que trop honnête;

Ce grand honneur ne me vaut rien.

Ne sois point si femme de bien,

Et me romps un peu moins la tête.

Agora Antonio José:

CORNUCOPIA

Tambem nosso amo trazia bastante fome, e comtudo está dizendo á nossa

ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra

MERCURIO

Com que é o mesmo nossos amos do que nós? Elles casadinhos de um anno,

e nós ha um seculo? Elles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?[1]

Elles dous jasmins e nós dous lagartos? E finalmente elles com amor, e

nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?

[1] Criados.

CORNUCOPIA

Ora o certo é que peior é fazer festa a villões ruins; por estas, que

se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fôra; talvez que

se eu fôra alguma dessas bonecrinhas enfeitadas que me quizeras mais;

porém a culpa tenho eu em não aceitar o que me davam nas tuas costas.

MERCURIO

Pois ainda estás em tempo...

Trata-se, como se vê, de um caracter e de uma situação integralmente

transcriptos, embora de outro geito, cedendo o poeta aos seus habitos

literarios, á sua indole e ao seu meio. Nem é sómente na introducção

do caracter de Cornucopia, e na situação dos dous personagens, que

Antonio José revela ter deante de si ou na memoria a peça de Molière,

ha ainda outro vestigio; ha uma idéa na scena em que Jupiter se

despede de Alcmena,--idéa que o judeu expressa deste modo:

ALCMENA

Este amor nasce da obrigação.

JUPITER

Pois quizera que esta fineza nascera mais do teu amor que da tua

obrigação.

ALCMENA

A obrigação de amar ao esposo supera toda a obrigação.

JUPITER

Pois mais devera que me quizeras como a amante que como a esposo.

ALCMENA

Não sei fazer esta differença, pois não posso amar-te como a esposa,

sem que te ame como a amante.

Na comedia de Molière:

JUPITER

En moi, belle et charmante Alcmène,

Vous voyez un mari, vous voyez un amant;

Mais l'amant seul me touche, à parler franchement;

Et je sens près de vous que le mari me gêne.

Cet amant, de vos vœux jaloux au dernier point,

Souhaite qu'à lui seul votre amour s'abandonne.

ALCMENA

Je ne sépare point ce qu'unissent les dieux;

Et l'époux et l'amant me sont fort précieux.

Se, neste ponto, já se não trata de uma situação, de um caracter

novo, mas de uma idéa entrelaçada no dialogo, importa repetir

que, ainda imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel á sua

physionomia literaria; póde ir buscar a especiaria alheia, mas ha de

ser para temperal-a com o molho da sua fabrica. Dessa inclinação ao

baixo-comico achamos outro exemplo na _Esopaida_, cujo assumpto fôra

tratado, antes delle, por Boursault. O caracter tradicional de Esopo

era pouco apropriado á comedia: é um moralista, um autor de apologos,

mas Boursault trouxe-o assim mesmo para a scena, unico modo de lhe

conservar a côr original. O Esopo de Antonio José parece antes um

exemplar apurado daquelles lacaios argutos e atrevidos da comedia

classica; salvo dous ou tres logares, é outro genero de Sacatrapos

ou Chichisbéo; figura alli com agudezas e trocadilhos. Ha destes

extremamente bufões, como o da bacia das almas, e disso e de pouco

mais se compõe a philosophia de Esopo. Não obstante essa côr geral,

notam-se alli toques de bom comico, embora leves e a espaços. Ha

tambem, e principalmente, a veia satyrica, na scena que quasi todos

os seus biographos transcrevem,--a das theses dos philosophos, scena

extremamente chistosa, e que o proprio Diniz, com toda a sua veia do

_Hyssope_ e do _Falso Heroismo_, não sei se chegaria a fazer mais

acabada. Compare-se essa scena com a da invasão do Parnaso pelos maus

poetas, na _Vida de D. Quixote_, e ver-se-ha que havia no talento

de Antonio José uma forte dóse de satyra,--o que, de certa maneira,

lhe diminuia a força comica. Nessas duas peças é, aliás, sensivel a

habilidade theatral do poeta, que não tinha propriamente uma acção em

nenhuma dellas, e, não obstante, logrou condensar a vida dos episodios,

manter a unidade do interesse e angariar o applauso publico. Accresce

que o seu D. Quixote não tem o defeito capital do seu Esopo; o poeta

soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime, que caracterisa o

typo de Cervantes: é o que se vê logo, na exposição, quando D. Quixote

responde ao barbeiro acerca da armada que se prepara para combater o

turco:--«Para que se cançam com tantas machinas? diz elle. Eu lhes déra

um bom arbitrio com que, em menos de uma hora, vençam quantas armadas

e armadilhas o turco tiver.» É ocioso dizer que o arbitrio seria a

cavallaria andante.

De todas as comedias, porém, a que goza as honras da primazia, é a

das _Guerras do Alecrim e Mangerona_, e com razão; é a mais acabada e

a mais comica. Tem o gosto do tempo, e até um resaibo da maneira de

Calderon, que de si mesmo escrevia:

Es comedia de Don Pedro

Calderon, d'onde hade haber,

Por fuerza, amante escondido

Y rebozada mujer.

Ha alli com effeito mulheres rebuçadas e amantes escondidos, e tanta

vida como nas peças de Calderon.

Não trato aqui do facto que poderia ter dado logar á obra do judeu, nem

das duvidas de Costa e Silva sobre se os dois _ranchos_ do _alecrim_

e da _mangerona_ existiam antes da comedia, ou se esta os fez nascer;

é investigação que não vale a pena de um minuto, e aliás o texto do

poeta é claro. Em tudo se avantaja o _Alecrim_ e _mangerona_, até na

linguagem, que é ahi muito menos obscena que nas outras, differença que

se póde attribuir ao progresso do talento, porquanto já no _Labyrintho

de Creta_ se dá o mesmo phenomeno. Não direi, como Garrett, que essa

peça teria hoje todo o valor de uma comedia historica; mas assim

mesmo, quem lhe vê as figuras, a seculo e meio de distancia, parece

contemplar uma gravura em que ellas conservam as feições e o vestuario

do tempo,--os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver

livre das sobrinhas, e que, ao annunciarem-lhe a chegada do pretendente

provinciano, manda deitar «mais um ovo nos espinafres,» D. Tiburcio, as

duas damas, o Semicupio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga

farça.

Superior ás outras composições, como estylo e originalidade, não menos

o é como viveza, graça e movimento: e, se a farça domina, não é tanto

que não appareça a comedia. Basta apontar, por exemplo, a scena da

consulta medica, por occasião do desastre de D. Tiburcio, que é uma

das melhores do theatro do judeu, e não ficaria vexada si a puzessemos

ao lado das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, ha tambem

aphorismos latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos

considerar o _Alecrim e Mangerona_ como uma das melhores comedias do

seculo XVIII.

Ler o _Alecrim e Mangerona_, o _Amphytrião_, a _Esopaida_ e o _D.

Quixote_, é avaliar todo o poeta, com suas qualidades boas e más,

com o geito do seu espirito e influencia do seu tempo. Nicolau Luiz,

Figueiredo, Diniz e Garção, no mesmo seculo, tiveram talvez mais

intenção comica do que Antonio José, mas os meios deste eram maiores,

possuiam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abundancia.

Dir-se-ha que, se a Inquisição o deixára viver, Antonio José produziria

alguma obra de esphera superior? Repito: não creio que elle subisse

muito acima do _Alecrim e Mangerona_; iria talvez ao ponto de fazer

alguma cousa parecida com o _Avaro_, mas não faria todo o _Avaro_.

Agora, a seculo e meio de distancia, podemos affirmar que Antonio

José foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do

seu engenho, é fóra de duvida que o auto da fé em que elle pereceu,

devorou com a mesma flamma assaz de paginas alegres e vivazes. A

prova de que o theatro poderia ainda esperar muito de Antonio José,

está na comparação das obras delle com a vida delle. Era um christão

novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um annos padeceu

um primeiro processo, e sabe-se que terriveis eram os processos

inquisitoriaes; basta dizer que o delinquente revelou todos os seus

complices em judaismo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que

se póde explicar pela tenra edade do poeta, mas tambem pelo terror

que o tribunal infundia, não menos que pela exhortação mansa com que

os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denuncia

de todos os complices,--sem prejuizo, aliás, do carcere e da polé.

Pois bem, não obstante os vestigios e as lembranças desse primeiro

acto da Inquisição, não obstante o espectaculo do que padeciam os

seus, as operas de Antonio José trazem o sabor de uma mocidade

imperturbavelmente feliz, a facecia grossa e petulante, tal como lh'a

pedia o paladar das platéas, nenhum vislumbre do episodio tragico,

salvo uns versos do _Amphytrião_ que se creem, (e, quanto a mim, sem

outro fundamento além da conjectura) como applicaveis a elle mesmo.

Mas ainda suppondo que a conjectura tenha razão, admittindo mais que a

allegoria da justiça na _Vida de D. Quixote_ seja o resumo das queixas

pessoaes do poeta (supposição tão fragil como aquella), a verdade é

que os successos da vida delle não influiram, não diminuiram a força

nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe

da hypocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no caminho,

não conheceu o infimo dos padecimentos de Antonio José, foi o creador

de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de

talento, não escolheria nunca o assumpto do _Misanthropo_.

Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria elle o grande mestre.

Não lhe fossem propôr graves problemas, nem maximas profundas, nem

os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das

comedias de outra esphera, nem sobretudo as melancolias de Molière e

Shakespeare. O nosso judeu era a farça, a genuina farça, sem outras

pretenções, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e

do seu tempo. Certo, eu posso hoje, á fina força, arrancar alguma

idéa inicial das operas do judeu; por exemplo, ao ver nos _Encantos

de Medéa_ a dedicação da feiticeira de Colchos, que tráe os deveres

filiaes e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe

entregar o vellocino e ao ver que, apezar de tudo isto, o principe

foge com Creusa, posso, digo eu, attribuir ao poeta a intenção de que

o reconhecimento não é o caminho do amor e que um coração póde ser

legitimamente ingrato. Seria logico, seria bem deduzido da acção, mas

não passaria de obra da critica, inteiramente alheia á intenção do

poeta, que achou no assumpto uma farça de tramoias e nada mais. Esta

é a ultima conclusão que rigorosamente se póde tirar do poeta. Elle

não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as

transcripções que fez no _Amphytrião_; tinha originalidade, embora a

influencia das operas italianas. Convenhamos que era um engenho sem

disciplina, nem gosto, mas caracterisco e pessoal.

Não consultes medico

PESSOAS

D. LEOCADIA

D. ADELAIDE

D. CARLOTA

CAVALCANTE

MAGALHAES

Um gabinete em casa de Magalhães, na Tijuca.

SCENA I

MAGALHÃES, D. ADELAIDE

Magalhães lê um livro, D. Adelaide folhea um livro de gravuras.

MAGALHÃES

Esta gente não terá vindo?

D. ADELAIDE

Parece que não. Já sairam ha um bom pedaço; felizmente o dia está

fresco. Titia estava tão contente ao almoço! E hontem? Você viu que

risadas que ella dava, ao jantar, ouvindo o Dr. Cavalcante? E o

Cavalcante serio. Meu Deus, que homem triste! que cara de defunto!

MAGALHÃES

Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ella commigo? Falou-me em um

obsequio.

D. ADELAIDE

Sei o que é.

MAGALHÃES

Que é?

D. ADELAIDE

Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota comnosco.

MAGALHÃES

Para a Grecia?

D. ADELAIDE

Sim, para a Grecia.

MAGALHÃES,

Talvez ella pense que a Grecia é em Pariz. Eu acceitei a legação de

Athenas porque não me dava bem em Guatemala, e não ha outra vaga na

America. Nem é só por isso; você tem vontade de ir acabar a lua de mel

na Europa... Mas então Carlota vae ficar comnosco?

D. ADELAIDE

É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capitão de

engenharia, que casou com uma viuva hespanhola. Soffreu muito, e ainda

agora anda meia triste; titia diz que ha de cural-a.

MAGALHÃES, _rindo_

É a mania della.

D. ADELAIDE, _rindo_

Só cura molestias moraes.

MAGALHÃES

A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe paguemos em

gratidão, fala-nos sempre da nossa antiga molestia. «Como vão os meus

doentesinhos? Não é verdade que estão curados?»

D. ADELAIDE

Pois falemos-lhe nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a

filha.

MAGALHÃES

Do mesmo modo?

D. ADELAIDE

Por ora não. Quer mandal-a á Grecia para que ella esqueça o capitão de

engenharia.

MAGALHÃES

Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia.

D. ADELAIDE

Titia pensa que a vista das ruinas e dos costumes differentes cura mais

depressa. Carlota está com dezoito para dezenove annos; titia não a

quer casar antes dos vinte. Desconfio que já traz um noivo em mente,

um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado.

MAGALHÃES

É um desarranjo para nós; mas, emfim, póde ser que lhe achemos lá

na Grecia algum descendente de Alcibiades que a preserve do olhar

espantado.

D. ADELAIDE

Ouço passos. Ha de ser titia...

MAGALHÃES

Justamente! Continuemos a estudar a Grecia.

(_Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, D. Adelaide folheando o livro

de vistas._)

SCENA II

OS MESMOS E D. LEOCADIA

D. LEOCADIA (_pára á porta, desce pé ante pé, e mette a cabeça entre os

dous_.)

Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES, _aparte_ É isto todos os dias.

D. LEOCADIA

Agora estudam a Grecia; fazem muito bem. O paiz do casamento é que

vocês não precisaram estudar.

D. ADELAIDE

A senhora foi a nossa geographia, foi quem nos deu as primeiras licções.

D. LEOCADIA

Não diga licções, diga remedios. Eu sou doutora, eu sou medica. Este

(_indicando Magalhães_), quando voltou de Guatemala, tinha um ar

exquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não;

observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitario...

MAGALHÃES

Já me disse isto cem vezes.

D. LEOCADIA, _voltando-se para elle e continuando_

Esta (_designando Adelaide_) andava hypocondriaca. O medico da casa

receitava pilulas, capsulas, uma porção de tolices que ella não tomava,

porque eu não deixava; o medico devia ser eu.

D. ADELAIDE

Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pilulas?

D. LEOCADIA

Apanham-se molestias.

D. ADELAIDE

Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães...

D. LEOCADIA

Perdão, o nariz.

ADELAIDE

Vá lá. A senhora disse-me que elle tinha o nariz bonito, mas muito

solitario. Não entendi; dous dias depois, perguntou-me se queria casar,

eu não sei que disse, e acabei casando.

D. LEOCADIA

Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES

Perfeitamente.

D. LEOCADIA

A proposito, como irá o Dr. Cavalcante? Que exquisitão! Disse-me hontem

que a cousa mais alegre do mundo era um cemiterio. Perguntei-lhe se

gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro

era uma grande cidade. «É a segunda vez que a vejo, disse elle; eu

sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifacio é um grande homem,

a rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um bello chafariz,

o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os _Tymbiras_, o

Maranhão...» Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Elle é doudo?

MAGALHÃES

Não.

D. LEOCADIA

A principio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o perú.

Perguntei-lhe que tal achava o perú. Ficou pallido, deixou cair o

garfo, fechou os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a attenção de

vocês, quando elle abriu os olhos e disse com voz surda: «D. Leocadia,

eu não conheço o Perú...» Eu, espantada, perguntei: «Pois não está

comendo...?» «Não falo desta pobre ave; falo-lhe da republica.»

MAGALHÃES

Pois conhece a republica.

D. LEOCADIA

Então mentiu.

MAGALHÃES

Não, porque nunca lá foi.

D. LEOCADIA (_a D.Adelaide_)

Mau! seu marido parece que tambem está virando o juizo. (_A Magalhães_)

Conhece então o Perú, como vocês estão conhecendo a Grecia... pelos

livros.

MAGALHÃES

Tambem não.

D. LEOCADIA

Pelos homems?

MAGALHÃES

Não, senhora.

D. LEOCADIA

Então pelas mulheres?

MAGALHÃES

Nem pelas mulheres.

D. LEOCADIA

Por uma mulher?

MAGALHÃES

Por uma mocinha, filha do ministro do Perú em Guatemala. Já contei

a historia a Adelaide. (_D. Adelaide senta-se folheando o livro de

gravuras_.)

D. LEOCADIA, _senta-se_

Ouçamos a historia. É curta?

MAGALHÃES

Reliquias de Casa Velha · 第 8 / 11 段