Quatro palavras. Cavalcante estava em commissão do nosso governo, e

frequentava o corpo diplomatico, onde era muito bem visto. Realmente,

não se podia achar creatura mais dada, mais expansiva, mais estimavel.

Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bella e alta, com uns

olhos admiraveis. Cavalcante, dentro de pouco, estava doudo por ella,

não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via

ficava extatico. Se ella gostava delle, não sei; é certo que o animava,

e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Perú,

onde casou com um primo, segundo me escreveu o pae.

D. LEOCADIA

Elle ficou desconsolado, naturalmente.

MAGALHÃES

Ah! não me fale! Quiz matar-se; pude impedir esse acto de desespero, e

o desespero desfez-se em lagrimas. Caiu doente, uma febre que quasi o

levou. Pediu dispensa da commissão, e, como eu tinha obtido seis mezes

de licença, voltámos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a

tristeza profunda; chegou a ter as idéas baralhadas. Ainda agora, diz

alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.

D. LEOCADIA

Quer que lhe diga? Já hontem suspeitei que era negocio de amores;

achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?

MAGALHÃES

Coração de ouro.

D. LEOCADIA

Espirito elevado?

MAGALHÃES

Sim, senhora.

D. LEOCADIA

Espirito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.

MAGALHÃES

Entendido o que?

D. LEOCADIA

Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam?

D. ADELAIDE

De nada.

MAGALHÃES

De nada, mas...

D. LEOCADIA

Mas que?

MAGALHÃES

Parece-me...

D. LEOCADIA

Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei

o nariz de um e a hypocondria do outro, como é que põem em duvida que

eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou cural-o. Elle virá hoje?

D. ADELAIDE

Não vem todos os dias; ás vezes passa-se uma semana.

MAGALHÃES

Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar,

dir-lhe-hei que a senhora é o maior medico do seculo; cura o moral...

Mas, minha tia, devo avisal-a de uma cousa; não lhe fale em casamento.

D. LEOCADIA

Oh! não!

MAGALHÃES

Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se ha de

casar com a morte... A senhora exponha-lhe...

D. LEOCADIA

Ora, meu sobrinho, vá ensinar o _padre-nosso_ ao vigario. Eu sei o que

elle precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto.

MAGALHÃES

Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana...

D. LEOCADIA

Pois se eu mesma adivinhei que elle soffria do coração. (_Sae; entra

Carlota._)

SCENA III

MAGALHÃES, D. ADELAIDE, D. CARLOTA

D. ADELAIDE

Bravo! está mais corada agora!

D. CARLOTA

Foi do passeio.

D. ADELAIDE

De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade?

D. CARLOTA

Eu por mim, ficava mettida aqui na Tijuca.

MAGALHÃES

Não creio. Sem bailes? sem theatro lyrico?

D. CARLOTA

Os bailes cançam, e não temos agora theatro lyrico.

MAGALHÃES

Mas, em summa, aqui ou na cidade, o que é preciso é que você ria; esse

ar tristonho faz-lhe a cara feia.

D. CARLOTA

Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir vendo o Dr. Cavalcante.

MAGALHÃES

Porque?

D. CARLOTA

Elle passava ao longe, a cavallo, tão distrahido que levava a cabeça

caida entre as orelhas do animal; ri da posição, mas lembrei-me que

podia cair e ferir-se, e estremeci toda.

MAGALHÃES

Mas não caiu?

CARLOTA

Não.

ADELAIDE

Titia viu tambem?

CARLOTA

Mamãe ia-me falando da Grecia, do ceu da Grecia, dos monumentos da

Grecia, do rei da Grecia; toda ella é Grecia, fala como se tivesse

estado na Grecia.

ADELAIDE

Você quer ir comnosco para lá?

CARLOTA

Mamãe não ha de querer.

ADELAIDE

Talvez queira. (_Mostrando-lhe as gravuras do livro_) Olhe que bonitas

vistas! Isto são ruinas. Aqui está uma scena de costumes. Olhe esta

rapariga com um pote...

MAGALHÃES, _á janella_

Cavalcante ahi vem.

CARLOTA

Não quero vel-o.

ADELAIDE

Porque?

CARLOTA

Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que elle fazia.

ADELAIDE

Eu tambem vou. (_Saem as duas; Cavalcante apparece á porta, Magalhães

deixa a janella._)

SCENA IV

CAVALCANTE e MAGALHÃES

MAGALHÃES

Entra. Como passaste a noite?

CAVALCANTE

Bem. Dei um bello passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa. (_Magalhães

olha espantado._) Não te assustes, não estou doudo. Eis o que foi: o

meu cavallo ia para um lado e o meu espirito para outro. Eu pensava

em fazer-me frade; então todas as minhas idéas vestiram-se de burel,

e entrei a ver sobrepelizes e tochas; emfim, cheguei a Roma,

apresentei-me á porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em

que Sua Santidade appareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei

e vi que o meu corpo seguira atraz do sonho, e que eu ia quasi caindo.

MAGALHÃES

Foi então que a nossa prima Carlota deu comtigo ao longe.

CAVALCANTE

Tambem eu a vi, e, de vexado, piquei o cavallo.

MAGALHÃES

Mas, então ainda não perdeste essa idéa de ser frade?

CAVALCANTE

Não.

MAGALHÃES

Que paixão romanesca!

CAVALCANTE

Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com as suas

perfidias e tempestades. Quero achar um abrigo contra ellas; esse

abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cella, e buscarei

esquecer deante do altar...

MAGALHÃES

Olha que vaes cair do cavallo!

CAVALCANTE

Não te rias, meu amigo!

MAGALHÃES

Não; quero só accordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses

mais em semelhante moça. Ha no mundo milhares e milhares de moças

eguaes á bella Dolores.

CAVALCANTE

Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um

convento. Mas é engano; ha só uma, e basta.

MAGALHÃES

Bem; não ha remedio se não entregar-te á minha tia.

CAVALCANTE

Á tua tia?

MAGALHÃES

Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral,--e

adivinhou,--e fala de curar-te. Não sei se sabes que ella vive na

persuasão de que cura todas as enfermidades moraes.

CAVALCANTE

Oh! eu sou incuravel!

MAGALHÃES

Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remedios. Se te não curar,

dar-te-ha alguma distracção, e é o que eu quero. (_Abre a charuteira,

que está vazia_). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar

charutos. (_Sae; Cavalcante pega num livro e senta-se._)

SCENA V

CAVALCANTE, D. CARLOTA, apparecendo ao fundo.

D. CARLOTA

Primo... (_Vendo Cavalcante_) Ah! perdão!

CAVALCANTE (_erguendo-se_)

Perdão de que?

D. CARLOTA

Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de

prima Adelaide; está aqui...

CAVALCANTE

A senhora viu-me passar a cavallo, ha uma hora, n'uma posição incommoda

e inexplicavel.

D. CARLOTA

Perdão, mas...

CAVALCANTE

Quero dizer-lhe que eu levava na cabeça uma idéa séria, um negocio

grave.

D. CARLOTA

Creio.

CAVALCANTE

Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a

distracção que me deu aquella postura inexplicavel. Na minha familia

quasi todos são distrahidos. Um dos meus tios morreu na guerra do

Paraguay, por cousa de uma distracção; era capitão de engenharia...

D. CARLOTA, _perturbada_.

Oh! não me fale!

CAVALCANTE

Porque? Não póde tel-o conhecido.

D. CARLOTA

Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro á minha

prima.

CAVALCANTE

Peço-lhe perdão, mas...

D. CARLOTA

Passe bem. (_Vae até á porta._)

CAVALCANTE

Mas, eu desejava saber...

D. CARLOTA

Não, não, perdôe-me (_Sae._)

SCENA VI

CAVALCANTE, só

Não comprehendo; não sei se a offendi. Falei no tio João Pedro, que

morreu no Paraguay, antes della nascer...

SCENA VII

CAVALCANTE, D. LEOCADIA

D. Leocadia, _ao fundo, aparte_.

Está pensando (_Desce._) Bom dia, Dr. Cavalcante!

CAVALCANTE

Como passou, minha senhora?

D. LEOCADIA

Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?

CAVALCANTE

Foi buscar charutos, já volta.

D. LEOCADIA

Os senhores são muito amigos.

CAVALCANTE

Somos como dous irmãos.

D. LEOCADIA

Magalhães é um coração de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só

um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o

senhor fala trocado.

CAVALCANTE

Disse-lhe hontem algumas tolices, não?

D. LEOCADIA

Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.

CAVALCANTE

Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.

D. LEOCADIA, _pegando-lhe nas mãos_.

Olhe bem para mim (_Pausa._) Suspire. (_Cavalcante suspira._) O senhor

está doente; não negue que está doente,--moralmente, entenda-se; não

negue! (_Solta-lhe as mãos._)

CAVALCANTE

Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um

grandissimo desgosto...

D. LEOCADIA

Jogo de praça?

CAVALCANTE

Não, senhora.

D. LEOCADIA

Ambições politicas mallogradas?

CAVALCANTE

Não conheço politica.

D. LEOCADIA

Algum livro mal recebido pela imprensa?

CAVALCANTE

Só escrevo cartas particulares.

D. LEOCADIA

Não atino. Diga francamente; eu sou medico de enfermidades moraes, e

posso cural-o. Ao medico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo,

tudo. Não se trata de amores?...

CAVALCANTE, _suspirando_.

Trata-se justamente de amores.

D. LEOCADIA

Paixão grande?

CAVALCANTE

Oh! immensa!

D. LEOCADIA

Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente, bonita?

CAVALCANTE

Como um anjo!

D. LEOCADIA

O coração também era de anjo?

CAVALCANTE

Póde ser, mas de anjo mau.

D. LEOCADIA

Uma ingrata...

CAVALCANTE

Uma perversa!

D. LEOCADIA

Diabolica...

CAVALCANTE

Sem entranhas!

D. LEOCADIA

Vê que estou adivinhando. Console-se; uma creatura dessas não acha

casamento.

CAVALCANTE

Já achou!

D. LEOCADIA

Já?

CAVALCANTE

Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.

D. LEOCADIA

Os primos quasi que não nascem para outra cousa. Diga-me, não procurou

esquecer o mal nas folias proprias de rapazes?

CAVALCANTE

Oh! não! Meu unico prazer é pensar nella.

D. LEOCADIA

Desgraçado! Assim nunca ha de sarar.

CAVALCANTE

Vou tratar de esquecel-a.

D. LEOCADIA

De que modo?

CAVALCANTE

De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e archaico. Penso em

fazer-me frade. Ha de haver em algum recanto do mundo um claustro em

que não penetre sol nem lua.

D. LEOCADIA

Que illusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Ha de vel-a nas paredes da

cella, no tecto, no chão, nas folhas do breviario. O silencio far-se-ha

boca da moça, a solidão será o seu corpo.

CAVALCANTE

Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?

D. LEOCADIA

Póde ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remedio

naturalmente indicado é ir prégar... na China, por exemplo. Va prégar

aos infieis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos

de chinezas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez annos está curado.

Volte, metta-se no convento e não achará lá o diabo.

CAVALCANTE

Está certa que na China...

D. LEOCADIA

Certissima.

CAVALCANTE

O seu remedio é muito amargo! Porque é que me não manda antes para o

Egypto? Também é paiz de infieis.

D. LEOCADIA

Não serve; é a terra daquella rainha... Como se chama?

CAVALCANTE

Cleopatra? Morreu ha tantos seculos!

D. LEOCADIA

Meu marido disse que era uma desmiolada.

CAVALCANTE

Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor

nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que

elle adorava a V. Ex.

D. LEOCADIA

Ah! ah! Já o doente começa a adular o medico. Não, senhor, ha de ir á

China. Lá ha mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança

em mim?

CAVALCANTE

Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permittido fazer uma careta antes de

engolir a pilula. Obedeço; vou para a China. Dez annos, não?

D. LEOCADIA, _levanta-se_.

Dez ou quinze, se quizer; mas antes dos quinze está curado.

CAVALCANTE

Vou.

D. LEOCADIA

Muito bem. A sua doença é tal que só com remedios fortes. Vá; dez annos

passam depressa.

CAVALCANTE

Obrigado, minha senhora.

D. LEOCADIA

Até logo.

CAVALCANTE

Não, minha senhora, vou já.

D. LEOCADIA

Já para a China!

CAVALCANTE

Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma,

depois sigo immediatamente para a China. Até daqui a dez annos.

(_Estende-lhe a mão._)

D. LEOCADIA

Fique ainda uns dias...

CAVALCANTE

Não posso.

D. LEOCADIA

Gosto de ver essa pressa; mas, emfim, póde esperar ainda uma semana.

CAVALCANTE

Não, não devo esperar. Quero ir ás pilulas, quanto antes; é preciso

obedecer religiosamente ao medico.

D. LEOCADIA

Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no medico. O

peior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre delle.

CAVALCANTE

Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!

D. LEOCADIA

No fim de dous annos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e

talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido

a namorada, consentirei que volte.

CAVALCANTE

Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.

D. LEOCADIA

Então não volta mais a esta casa?

CAVALCANTE

Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou

tomar passagem no paquete de amanhã.

D. LEOCADIA

Jante, ao menos, comnosco.

CAVALCANTE

Janto na cidade.

D. LEOCADIA

Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me:

o senhor merece estar doente. Ha pessoas que adoecem sem merecimento

nenhum; ao contrario, não merecem outra cousa mais que uma saude de

ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediencia ao medico! que

facilidade em engolir todas as nossas pilulas! Adeus!

CAVALCANTE

Adeus, D. Leocadia. (_Sae pelo fundo._)

SCENA VIII

D. LEOCADIA, D. ADELAIDE

D. LEOCADIA

Com dous annos de China está curado. (_Vendo entrar Adelaide_) O Dr.

Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame medico?

D. ADELAIDE

Não. Que lhe pareceu?

D. LEOCADIA

Cura-se.

D. ADELAIDE

De que modo?

D. LEOCADIA

Não posso dizer; é segredo profissional.

D. ADELAIDE

Em quantas semanas fica bem?

D. LEOCADIA

Em dez annos.

D. ADELAIDE

Misericordia! Dez annos!

D. LEOCADIA

Talvez dous; é moço, é robusto, a natureza ajudará a medicina,

comquanto esteja muito atacado. Ahi vem teu marido.

SCENA IX

OS MESMOS, MAGALHÃES

MAGALHÃES, _a D. Leocadia_.

Cavalcante disse-me que vae embora; eu vim correndo saber o que é que

lhe receitou.

D. LEOCADIA

Receitei-lhe um remedio energico, mas que ha de salval-o. Não são

consolações de cacaracá. Coitado! Soffre muito, está gravemente doente;

mas, descancem, meus filhos, juro-lhes, á fé do meu gráo, que hei de

cural-o. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh! aquelle crê em mim.

E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que

estão curados? (_Sae pelo fundo._)

SCENA X

MAGALHÃES, D. ADELAIDE

MAGALHÃES

Tinha vontade de saber o que é que ella lhe receitou.

D. ADELAIDE

Não falemos disso.

MAGALHÃES

Sabes o que foi?

D. ADELAIDE

Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez annos. (_Espanto de

Magalhães._) Sim, dez annos; talvez dous, mas a cura certa é em dez

annos.

MAGALHÃES, _atordoado_.

Dez annos!

D. ADELAIDE

Ou dous.

MAGALHÃES

Ou dous?

D. ADELAIDE

Ou dez.

MAGALHÃES

Dez annos! Mas é impossivel! Quiz brincar comtigo. Ninguem leva dez

annos a sarar; ou sára antes ou morre.

D. ADELAIDE

Talvez ella pense que a melhor cura é a morte.

MAGALHÃES

Talvez. Dez annos!

D. ADELAIDE

Ou dous; não esqueças.

MAGALHÃES

Sim, ou dous; dous annos é muito, mas, ha casos... Vou ter com elle.

D. ADELAIDE

Se titia quiz enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam.

Vamos falar com ella, talvez que, pedindo muito, ella diga a verdade.

Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com

indifferença.

MAGALHÃES

Pois vamos.

D. ADELAIDE

Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...

MAGALHÃES

Não; ella continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brazas.

D. ADELAIDE

Vamos.

MAGALHÃES

Dez annos!

D. ADELAIDE

Ou dous. (_Saem pelo fundo._)

SCENA XI

D. CARLOTA, entrando pela direita.

Ninguem! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mysterios. Ha um

quarto de hora quiz vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que

se tratavam aqui negocios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas

antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grecia. A

verdade é que todos me falam de Athenas, de ruinas, de danças gregas,

da Acropole... Creio que é Acropole que se diz. (_Pega no livro que

Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê_) «Entre os proverbios

gregos, ha um muito fino: Não consultes medico; consulta alguem que

tenha estado doente.» Consultar alguem que tenha estado doente! Não sei

que possa ser. (_Continua a ler em voz baixa._)

SCENA XII

D. CARLOTA, CAVALCANTE

CAVALCANTE, _ao fundo_.

D. Leocadia! (_Entra e fala de longe a Carlota, que está de costas._)

Quando eu ia a sair, lembrei-me...

D. CARLOTA

Quem é? (_Levanta-se._) Ah! doutor!

CAVALCANTE

Desculpe-me, vinha falar á senhora sua mãe para lhe pedir um favor.

D. CARLOTA

Vou chamal-a.

CAVALCANTE

Não se incommode; falar-lhe-hei logo. Saberá por acaso se a senhora sua

mãe conhece algum cardeal em Roma?

D. CARLOTA

Não sei, não, senhor.

CAVALCANTE

Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde

(_Corteja, sae e pára._) Ah! aproveito a occasião para lhe perguntar

ainda uma vez em que é que a offendi?

D. CARLOTA

O senhor nunca me offendeu.

CAVALCANTE

Certamente que não; mas ainda ha pouco, falando-lhe de um tio meu, que

morreu no Paraguay, tio João Pedro, capitão de engenharia...

D. CARLOTA, _atalhando_.

Porque é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?

CAVALCANTE

Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já

ha de saber que eu tenho distracções repentinas, e quando não caio

no ridiculo, como hoje de manhã, caio na indiscreção. São segredos

mais graves que os seus. É feliz, é bonita, póde contar com o futuro,

emquanto que eu... Mas eu não quero aborrecel-a. O meu caso ha de andar

em romances. (_Indicando o livro que ella tem na mão_) Talvez nesse.

D. CARLOTA

Não é romance. (_Dá-lhe o livro._)

CAVALCANTE

Não? (_Lê o titulo_) Como? Está estudando a Grecia?

D. CARLOTA

Estou.

CAVALCANTE

Vae para lá?

D. CARLOTA

Vou, com prima Adelaide.

CAVALCANTE

Viagem de recreio, ou vae tratar-se?

D. CARLOTA

Deixe-me ir chamar mamãe.

CAVALCANTE

Perdôe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (_Dá alguns passos

para sair._)

D. CARLOTA

Doutor! (_Cavalcante pára._) Não se zangue commigo; sou um pouco tonta,

o senhor é bom...

Cavalcante, _descendo_.

Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é

toda sua. Ha poucos dias que nos conhecemos, e já nos zangámos, por

minha causa. Não proteste; a causa é a minha molestia.

D. CARLOTA

O senhor está doente?

CAVALCANTE

Mortalmente.

D. CARLOTA

Não diga isso!

CAVALCANTE

Ou gravemente, se prefere.

D. CARLOTA

Ainda é muito. E que molestia é?

CAVALCANTE

Quanto ao nome, não ha accordo: loucura, espirito romanesco e muitos

outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida

commigo!

D. CARLOTA

Oh! não, não, não. (_Procurando rir._) É o contrario; estou até muito

alegre. Diz-me então que está doente, louco...

CAVALCANTE

Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro

amor, por ser mais bonito, mas a molestia, qualquer que seja a causa,

é cruel e terrivel. Não póde comprehender este _imbroglio_; peça a

Deus que a conserva nessa boa e feliz ignorancia. Porque é que me está

olhando assim? Quer talvez saber...

D. CARLOTA

Não, não quero saber nada.

CAVALCANTE

Não é crime ser curiosa.

D. CARLOTA

Seja ou não loucura, não quero ouvir historias como a sua.

CAVALCANTE

Já sabe qual é?

D. CARLOTA

Não.

CAVALCANTE

Não tenho direito de interrogal-a; mas ha já dez minutos que estamos

neste gabinete, falando de cousas bem exquisitas para duas pessoas que

apenas se conhecem.

D. CARLOTA, _estendendo-lhe a mão_

Até logo.

CAVALCANTE

A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achal-a agitada.

Socegue um pouco, sente-se (_Carlota senta-se._) Eu retiro-me.

D. CARLOTA

Passe bem.

CAVALCANTE

Até logo.

D. CARLOTA

Volta logo?

CAVALCANTE

Não, não volto mais; queria enganal-a.

D. CARLOTA

Enganar-me porque?

CAVALCANTE

Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas palavras. Eu gostava

muito de uma moça que tinha a sua belleza, e ella casou com outro. Eis

a minha molestia.

D. CARLOTA, _erguendo-se_

Como assim?

CAVALCANTE

É verdade; casou com outro.

D. CARLOTA, _indignada_

Que acção vil!

CAVALCANTE

Não acha?

D. CARLOTA

E ella gostava do senhor?

CAVALCANTE

Apparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.

D. CARLOTA, _animando-se aos poucos_

Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua

unica ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplal-o

por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam

cair do ceu, e suspirava...

CAVALCANTE

Sim, suspirava, mas...

D. CARLOTA, _muito animada_

Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação,

fugiu e foi casar com uma viuva hespanhola!

CAVALCANTE, _espantado_

Uma viuva hespanhola!

D. CARLOTA

Ah! tem muita razão em estar doente!

CAVALCANTE

Mas que viuva hespanhola é essa de que me fala?

D. CARLOTA, _caindo em si_

Eu falei-lhe de uma viuva hespanhola?

CAVALCANTE

Falou.

D. CARLOTA

Foi engano... Adeus, sr. doutor.

CAVALCANTE

Espere um instante. Creio que me comprehendeu. Falou com tal paixão que

os medicos não têm. Oh! como eu execro os medicos! principalmente os

que me mandam para a China.

D. CARLOTA

O senhor vae para a China?

CAVALCANTE

Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita.

D. CARLOTA

A China é muito longe!

CAVALCANTE

Creio até que está fóra do mundo.

D. CARLOTA

Tão longe porque?

CAVALCANTE

Boa palavra essa. Sim, porque ir á China, se a gente póde sarar na

Grecia? Dizem que a Grecia é muito efficaz para estas feridas; ha quem

affirme que não ha melhor para as que são feitas pelos capitães de

engenharia. Quanto tempo vae lá passar?

D. CARLOTA

Não sei. Um anno, talvez.

CAVALCANTE

Crê que eu possa sarar n'um anno?

D. CARLOTA

É possivel.

CAVALCANTE

Talvez sejam precisos dous,--dous ou tres.

D. CARLOTA

Ou tres.

CAVALCANTE

Quatro, cinco...

D. CARLOTA

Cinco, seis...

CAVALCANTE

Depende menos do paiz que da doença.

D. CARLOTA

Ou do doente.

CAVALCANTE

Ou do doente. Já a passagem do mar póde ser que me faça bem. A minha

molestia casou com um primo. A sua (perdôe esta outra indiscreção; é a

ultima) a sua casou com a viuva hespanhola. As hespanholas, mórmente

viuvas, são detestaveis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa já está

curada, que é que vae fazer á Grecia?

D. CARLOTA

Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vae para a

China.

CAVALCANTE

Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez

na morte?

D. CARLOTA

Pensa-se nella, mas lá vem um dia em que a gente acceita a vida, seja

como fôr.

CAVALCANTE

Vejo que sabe muita cousa.

D. CARLOTA

Não sei nada; sou uma tagarella, que o senhor obrigou a dar por páos

e por pedras; mas, como é a ultima vez que nos vemos, não importa.

Agora, passe bem.

CAVALCANTE

Adeus, D. Carlota!

D. CARLOTA

Adeus, doutor!

CAVALCANTE

Adeus. (_Dá um passo para a porta do fundo._) Talvez eu vá a Athenas;

não fuja se me vir vestido de frade.

D.CARLOTA (_indo a elle_)

De frade? O senhor vae ser frade?

CAVALCANTE

Frade. Sua mãe approva-me, comtanto que eu vá á China. Parece-lhe que

devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?

D. CARLOTA

É difficil obedecer a uma vocação perdida.

CAVALCANTE

Talvez nem a tivesse, e ninguem se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi

aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sae de um coração que

padeceu tambem, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doudo, se

quizer, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame (_Carlota,

perturbada, volta o rosto_). Não lhe peço que me ame, mas que se deixe

amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não podia impedir que

lhe accendesse uma vela.

D.CARLOTA

Não falemos mais nisto, e separemo-nos.

CAVALCANTE

A sua voz treme; olhe para mim...

D. CARLOTA

Adeus; ahi vem mamãe.

SCENA XIII

OS MESMOS, D. LEOCADIA

D. LEOCADIA

Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um anno de China? Vieram

pedir-me que reduzisse a sua ausencia.

CAVALCANTE

D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.

D. CARLOTA

O doutor veiu saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.

CAVALCANTE

A principio era um cardeal; agora basta um vigario.

D. LEOCADIA

Um vigario? Para que?

CAVALCANTE

Não posso dizer.

D. LEOCADIA, _a Carlota_

Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidencia.

CAVALCANTE

Não, não, ao contrario... D. Carlota póde ficar. O que eu quero dizer é

que um vigario basta para casar.

D. LEOCADIA

Casar a quem?

CAVALCANTE

Não é já, falta-me ainda a noiva.

D. LEOCADIA

Reliquias de Casa Velha · 第 9 / 11 段