sair dalli sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais
da noite, velaria o cadaver de um ou de ambos, uma vez que pudesse
juntar mais esta pagina ás outras da parochia, embora não fosse da
parochia.
--E vamos, vamos, foi então que a febre os tomou...?
Brito cerrou os dentes para não dizer mais nada. Como, porém, o viessem
chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta,
com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais franco, posto que
mais esperado, não havendo já de quem o esconder, trouxera a noticia ao
sacristão.
--Lá se foi o outro, o irmão, o noivo... Que Deus lhes perdôe! Saiba
agora tudo, meu amigo. Saiba que elles se queriam tanto que alguns dias
depois de conhecido o impedimento natural e canonico do consorcio,
pegaram em si e, fiados em serem apenas meios irmãos e não irmãos
inteiros, metteram-se em um _cabriolet_ e fugiram de casa. Dado logo
o alarme, alcançámos pegar o _cabriolet_ em caminho da Cidade Nova, e
elles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre
e acabam de morrer.
Não se póde escrever o que sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso.
Guardou-o por algum tempo, com difficuldade. Soube os nomes das pessoas
pelo obituario dos jornaes, e combinou as circumstancias ouvidas ao
commendador com outras. Emfim, sem se ter por indiscreto, espalhou
a historia, só com esconder os nomes e contal-a a um amigo, que a
passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; metteu-se-lhe
em cabeça que o _cabriolet_ da fuga podia ser o mesmo dos ultimos
sacramentos; foi á cocheira, conversou familiarmente com um empregado,
e descobriu que sim. Donde veiu chamar-se a esta pagina a «anecdota do
_cabriolet_.»
Paginas criticas e commemorativas
GONÇALVES DIAS
DISCURSO LIDO NO PASSEIO PUBLICO, AO INAUGURAR-SE O BUSTO DE GONÇALVES
DIAS
Sr. Prefeito do Districto Federal,
A commissão que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me,
como presidente da Academia Brazileira, de o entregar a V Ex.,
como representante da cidade. O encargo é não sómente honroso, mas
particularmente agradavel á Academia e a mim.
Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria
um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem
querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funeraes de
George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir á beira
da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. «Ah!
eis o verdadeiro discurso!» disseram elles comsigo. O mesmo seria
aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor
discurso da occasião. Ella repetiria á alma de todos aquella canção do
exilio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-patria uma licção nova
da lingua de Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os
outros cantos que elle veiu espalhando pela vida e pelo mundo, e o
som dos golpes de Itajuba, a piedade de Y-Juca-Pyrama, os suspiros de
Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais
jovens, e daqui em deante ouvirão outros e outros, emquanto a lingua
que falamos fôr a lingua dos nossos destinos.
Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins publicos. Talvez
este busto emende o costume; mas, suppondo que não, nem por isso
perderão os que só vierem contemplar aquella fronte que meditou paginas
tão magnificas. A solidão e o silencio são azas robustas para os surtos
do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua,
achará o que se encontra nas capellas solitarias, uma voz interior,
e dirá pelo rosario da memoria as preces em verso que elle compoz e
ensinou aos seus compatricios.
E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra.
Nem V. Ex., nem os seus successores consentirão que se destrua este
abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte.
Se alguem propuzer arrazar um e mudar outro, para trazer utilidade
ao terreno, por meio de uma avenida ou cousa equivalente, o Prefeito
recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos
regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regimen só,
universal, commum e perpetuo. Tambem póde declarar que a veneração
dos seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os
Prefeitos de todos os partidos, sem aggravo do seu proprio, porque o
poeta que ora celebramos, fiel á vocação, não teve outro partido que o
de cantar maravilhosamente.
Demais, se o caso fôr de utilidade, V. Ex. e os seus successores
acharão aqui o mais util remedio ás agruras administrativas. Este busto
consolará do trabalho acerbo e ingrato; elle dirá que ha tambem uma
prefeitura do espirito, cujo exercicio não pede mais que o mudo bronze
e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silencio. E repetirá a todos
o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem
contemplal-o. Tambem aqui vinha, ha muitos annos, desenfadar-se da
vespera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor
de _Iracema_. Se já estivesse aqui este busto, elle se consolaria da
vida com a memoria, e do tempo com a perennidade. Mas então só existiam
as arvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, não
povoára ainda as nossas praças com outras obras de artista illustre.
Olavo Bilac, que promoveu a subscripção de senhoras a que se deve
esta obra, não afinára ainda pela lyra de Gonçalves Dias a sua lyra
deliciosa.
Aqui fica entregue o monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde elle
deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a patria
inteira no mesmo ponto em que a historia, melhor que leis, poz a cabeça
da nação, perto daquelle gigante de pedra que o grande poeta cantou em
versos masculos.
UM LIVRO
Aqui está um livro que ha de ser relido com apreço, com interesse,
não raro com admiração. O autor que occupa logar eminente na critica
brasileira, tambem enveredou um dia pela novella, como Sainte-Beuve,
que escreveu _Volupté_, antes de attingir o summo gráo na critica
franceza. Tambem ha aqui um narrador e um observador, e ha mais aquillo
que não acharemos em _Volupté_, um paizagista e um miniaturista. Já era
tempo de dar ás _Scenas da vida amazonica_ outra e melhor edição. Eu,
que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outr'ora. Os que as lerem,
pela primeira vez, dirão se o meu falar desmente as suas proprias
impressões.
Talvez achem commigo que o titulo é exacto, sem dizer tudo. São
effectivamente scenas daquella vida e daquelle meio; sente-se que não
podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas directamente.
Mas não diz tudo o titulo. Tres, ao menos, das quatro novellas em
que se divide o livro, são pequenos dramas completos. Taes o _Bôto_,
o _Crime do Tapuio_ e a _Sorte de Vicentina_. O proprio _Voluntario
da patria_ tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quietação na
palhoça até aquelle adeus que ella fica acenando na margem, não já ao
filho, que a não póde ver, nem ella a elle, mas ao fumo do vapor que se
perde ao longe no rio, como uma sombra.
Em todos elles, os costumes locaes e a natureza grande e rica, quando
não é só aspera e dura, servem de quadro a sentimentos ingenuos,
simples e alguma vez fortes. O Sr. José Verissimo possue o dom da
sympathia e da piedade. As suas principaes figuras são as victimas de
um meio rude, como Benedicta, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquelle
José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o unico fim de
salvar uma menina, ou de «fazê bem p'ra ella», como diz o texto. Não
se irritem os amigos da lingua culta com a prosodia e a syntaxe de
José Tapuio. Ha dessas phrases no livro, postas com arte e cabimento,
a espaços, onde é preciso caracterisar melhor as pessoas. Ha locuções
da terra. Ha a technologia dos usos e costumes. Ninguem esquece que
está deante da vida amazonica, não toda, mas aquella que o Sr. José
Verissimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do contraste entre
o meio e o homem.
O contraste é grande. A floresta e a agua envolvem e acabrunham a
alma. A magnificencia d'aquellas regiões chega a ser excessiva. Tudo é
innumeravel e immensuravel. São milhões, milhares e centenas os seres
que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a agua e a terra, ou
bramam e cantam na matta, em meio de um concerto de rumores, coleras,
delicias e mysterios. O Sr. José Verissimo dá-nos a sensação daquella
realidade. A descripção do caminho que leva ao povoado do Ereré,
atravez do «coberto», do «lavrado» e de um espaço sem nome, é das mais
bellas e acabadas do livro. Assim tambem a do Parú, ou antes a historia
do rio nas duas partes do anno, de verão e de inverno, um só lago
intermino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desapparecem,
com os aspectos varios do tempo e da margem.
Não são descripções trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas
vão para alli continuar a acção começada. No Parú, como o tempo é de
«salga», a agua é sulcada de canôas, a margem alastrada de barracas, o
sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. Ahi assistimos á morte
tragica do pelintra de Obidos, regatão de alguns dias, deixando uma
triste moça defunta, amarella e magra. Adeante, por meio do «coberto»
e do «lavrado», vemos correr Vicentina, com a filha de alguns mezes
«escarranchada nos quadris», fugindo á casa do marido, depois ás onças,
depois á solidão, que parece maior alli que em nenhuma parte; e ambas
as scenas são das mais vivas do livro.
Ao pé do tragico, o mesquinho, o commum, o quotidiano da existencia e
dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos
quadros succedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade de Obidos, á hora
da sésta, ou no fim d'ella, quando «a natureza estira os braços n'um
bocejo preguiçoso de quem deixa a rêde». A rêde é o movel principal das
casas; ella serve ao somno, ao descanço, á palestra, á indolencia. Se
a casa é pobre, pouco mais ha que ella; mas, pouco ou muito, podemos
fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de
costumes ou possa avivar a côr da realidade. Vimos o regatão; veremos a
benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado,
do promotor, do presidente de provincia.
Nem falta aqui a observação fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia
Zeferina, que a criou, recorre chorando para que faça soltar o filho,
preso para voluntario (como diziam aqui no sul), ouve a mãe tapuia, tem
sincera pena della, promette que sim, fala do presidente da provincia,
que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palacio, a que ella
foi: «uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de
verde e amarello; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas
foi tolice, porque em Manáos arranjava-se um vestido tão bem como no
Pará; o della, por exemplo, foi muito gabado...» Já a tia Zeferina
ouvira cousa analoga ao major Rabello, seu compadre, quando lhe foi
contar a prisão do filho, e elle rompeu furioso contra os adversarios
politicos. Todos os negocios pessoaes se vão coçando assim naquella
agonia errante. No _Bôto_, é o proprio pae de Rosinha, que não excava
muito as razões do abatimento mortal da filha, «por andar atarefado com
as eleições».
Que elle tambem ha eleições no Amazonas; é o tempo da salga politica,
a quadra das barracas e dos regatões. Não nos dá um capitulo desses
o Sr. José Verissimo, naturalmente por lhe não ser necessario, mas a
rivalidade da villa e do porto de Monte Alegre é um quadro vivo do que
são raivas locaes, os motivos que as accendem, a guerra que fazem e
os odios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará
no porto, em baixo, ou na villa em cima. E porque não ha victoria sem
foguetes, os foguetes vão contar ás nuvens o despacho presidencial. A
sessão do jury, no _Crime do Tapuio_, é outro quadro finamente acabado.
Tudo sem sombra de caricatura. O embarque dos voluntarios é outro, mas
ahi a emoção discreta acompanha os movimentos mal ordenados dos homens.
Nós os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tropegos e obedientes,
marchando mal, mas emfim marchando seguros para a guerra que já lá vae.
Em tão varias scenas e lances, o estylo do Sr. José Verissimo (salvo
nos _Esbocetos_, cuja estructura é differente) é já o estylo correntio
e vernaculo dos seus escriptos posteriores. Já então vemos o homem
feito de mão assentada, dominando a materia. Ha, a mais uma nota de
poesia, a graça e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos nem
sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sitio em que Rosinha
nasceu: «A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto alvar
das creanças que trazem os cabellos cahidos na testa.» No tempo da
pesca emigram, não só os homens, mas tambem os cães e os urubús. Os
cães são magros e famintos: «Cães magros, com as costellas salientes,
como se houvessem engolido arcos de barris...» Os urubús pousam nas
arvores, alguma vez baixam ao solo, andando «com o seu passo rythmado
de anjos de procissão». A umas arvores que ha na grande charneca
do «coberto», bastava mostral-as por uma imagem curta e viva, «em
posições retorcidas de entrevados». Mas não se contenta o nosso autor
de as dizer assim: em terra tal, tudo ha de vibrar ao calor do sol:
«Dir-se-hia que o sol, que abraza aquellas paragens, obriga-as a taes
contorções violentas e paralysa-as depois...»
Ha muitas dessas imagens originaes e expressivas; melhor é lel-as ou
relel-as intercaladas na narração e na descripção. Chateaubriand,
escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a proposito de _Volupté_,
que acabava de sahir do prélo, pergunta-lhe admirado como é que elle,
René, não achára tantas outras. «Comment n'ai-je pas trouvé _ces
deux vieillards et ces deux enfants entre lesquels une révolution a
passé_...» etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é de Chateaubriand, e
alguma cousa se ha de perdoar ao genio. Mas, em verdade, mais de um de
nós outros poderiamos dizer com sinceridade e modestia como é que nos
não acudiram taes e taes imagens do nosso autor, pois que ellas trazem
a feição de cousas antes saidas do tinteiro que compostas no papel.
Tambem é dado perguntar porque é que o Sr. José Verissimo deixou logo
um terreno que soube arrotear com fructo. Elle dirá, em uma nota,
falando dos _Esbocetos_, que o fructo era da primeira mocidade. Vá que
sim; mas as _Scenas_ trazem outra experiencia, e a boa terra não é
esquecida, se se lhe encommenda alguma cousa com amor.
Até lá, fiquem-nos estas _Scenas da vida amazonica_. Mais tarde, algum
critico da escola do autor compulsará as suas paginas para restituir
costumes extinctos. Muito estará mudado. Onde José Tapuio lutou com
a sicurijú até matal-a, outro homem estudará alguma nova força da
natureza até reduzil-a ao domestico. Coberto e lavrado darão melhor
caminho ás pessoas. Já agora, como disse nhâ Miloca á mãe tapuia, os
vestidos fazem-se tão bons em Manáos como em Belém. A politica irá
pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhará todas as artes,
suas hospedas. Tal critico, se tiver o mesmo dom de analyse do Sr. José
Verissimo, achará que um testemunho esclarecido é mais cabal que outro,
e regalará os seus leitores dando-lhe este depoimento feito com emoção,
com exacção e com estylo.
EDUARDO PRADO
A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de
Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da
morte em si. Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me
dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto,
porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas,
é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em
que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o.
Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o
gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom
ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos
intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez
ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o
bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se
deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito
na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por
amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão
pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o
sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e
social.
Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á
vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida
politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria
para ella qualidades de primeira ordem, não contando o _humour_, tão
diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a historia,
não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas
as cousas que sabia.
Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois
della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um
grande talento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava
ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr
o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha
aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente
a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam
andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo,
observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação
produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles,
sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto
essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se
recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e
as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas
as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e
cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas,
através de regiões remotas...
Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que
ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das
duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de
psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria.
Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se
o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal
e Byron, passeando no solitario _foyer_ do theatro Scala. Quando
Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a
delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo.
Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse
o talento, o amor das cousas finas e bellas, e, emfim, a grande
sympathia que um inspirava ao outro.
Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim
mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que
esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen,
e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra.
Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza;
bastaria dizer--indifferente.
ANTONIO JOSÉ
Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães
consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo
judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite
Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle
não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio
José não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não
cogitou jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière
caminhou do _Medico Volante_ e dos _Zelos de Barbouillé_ á _Escola
das Mulheres_ e ao _Tartufo_; Antonio José não passou das _Guerras do
Alecrim e Mangerona_, e, dado que tentasse fazel-o, é certo que não
poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado, nem largas vistas;
faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou
em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente, levantando sobre os
alicerces lançados por esse operario do seculo XVI as paredes de um
theatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguem, não
se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a condição das
obras vivas.
Interpretada desse modo, é exacta e verdadeira a resposta que Magalhães
põe na boca do judeu; mas só desse modo. O _Amphytrião_ prova que o
nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Molière, a tal ponto
que forçosamente o tinha deante de si, ou na banca de trabalho ou na
memoria; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido que
interessará, quando menos, a titulo de curiosidade litteraria. Ao mesmo
tempo, direi o que me parece do escriptor e da sua obra.
E, antes de mais nada, occorre ponderar que Antonio José gosa de
uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739
illuminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos;
a tragedia do Sr. Magalhães vulgarisou-o entre as nossas platéas de
ha 40 annos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque
a tarefa exige constancia e esforço, embora de certo modo os pague.
Póde-se dizer, sem erro, que elle pertence á familia dos poetas
comicos, qualquer que seja o grau de parentesco,--com a circumstancia
que era um desperdiçado,--trocava a boa moeda do comico pelo cobre
vulgar do burlesco. Mas, poeta comico era-o, e de boa veia;--mais de
certo que Nicolau Luiz, que lhe succedeu na estima das platéas de
Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções literarias
abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia
de si mesmo que--«havendo-se enganado comsigo em infinitas cousas,
nunca se preoccupou de que tinha graça.» Accresce que o fim tragico
do judeu communica ás suas paginas alegres e juvenis um reflexo de
sympathica melancolia, que ainda mais nos convida a percorrel-as e
estudal-as. A piedade não é de certo razão determinativa em pontos de
critica, e tal poetastro haverá que, succumbindo a uma grande injustiça
social, somente inspire compaixão sem desafiar a analyse. Não é o caso
de Antonio José; este mereceria por si só que o estudassemos, ainda
despido das occorrencias tragicas que lhe circumdam o nome.
Nenhuma das comedias do judeu se póde dizer excellente e perfeita;
ha porém graus entre ellas, e a todas sobreleva a das _Guerras do
Alecrim e Mangerona_. Nesta, como nas demais, nota-se de certo muita
espontaneidade, viveza de dialogo, graça de estylo, variedade de
situações, e certo conhecimento de scena; mas a alma de todas ellas
não é grande; vive-se alli de enredo e de apparato. Se ao poeta foi
estranha a invenção dos caracteres e a pintura dos vicios, não menos o
foi a transcripção dos costumes locaes. Salvo o _Alecrim e Mangerona_,
todas as suas peças são inteiramente alheias á sociedade e ao tempo;
a _Esopaida_ tem por base um assumpto antigo; a _Vida de D. Quixote_
põe em scena o personagem de Cervantes; as outras peças são todas
mythologicas. Podiam estas, não obstante o rotulo, conter a pintura
dos costumes e da sociedade cujo producto eram; mas, comquanto em taes
composições influa muito o moderno, não se descobre nellas nenhuma
intenção daquella natureza.