commum vel-o rir-se; alguma vez o riso era universal, entornava-se-lhe
da bocca, dos olhos, da testa, dos braços, das pernas, todo elle era um
riso unico. Sem ter paixões, estava longe de ser apathico.
A letra saccada contra Gonçalves tinha o prazo de seis mezes. No
dia do vencimento, não só não pensou em cobral-a, mas resolveu ir
jantar a algum arrabalde para não ver o amigo, se fosse convidado á
reforma. Gonçalves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi levar-lhe
o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recusal-o, dizendo-lhe
que o guardasse, podia precisar d'elle; o devedor teimou em pagar e
pagou.
Quintanilha acompanhava os actos de Gonçalves; via a constancia do seu
trabalho, o zelo que elle punha na defesa das demandas, e vivia cheio
de admiração. Realmente, não era grande advogado, mas na medida das
suas habilitações, era distincto.
-- Você porque não se casa? perguntou-lhe um dia; um advogado precisa
casar.
Gonçalves respondia rindo. Tinha uma tia, unica parenta, a quem elle
queria muito, e que lhe morreu, quando elles iam em trinta annos. Dias
depois, dizia ao amigo:
-- Agora só me resta você.
Quintanilha sentiu os olhos molhados, e não achou que lhe respondesse.
Quando se lembrou de dizer que «iria até á morte» era tarde. Redobrou
então de carinhos, e um dia accordou com a idéa de fazer testamento.
Sem revelar nada ao outro, nomeou-o testamenteiro e herdeiro universal.
-- Guarde-me este papel, Gonçalves, disse-lhe entregando o testamento.
Sinto-me forte, mas a morte é facil, e não quero confiar a qualquer
pessoa as minhas ultimas vontades.
Foi por esse tempo que succedeu um caso que vou contar.
Quintanilha tinha uma prima-segunda, Camilla, moça de vinte e dous
annos, modesta, educada e bonita. Não era rica; o pae, João Bastos,
era guarda-livros de uma casa de café. Haviam brigado por occasião da
herança; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de João Bastos,
e este acto de piedade novamente os ligou. João Bastos esqueceu
facilmente alguns nomes crús que dissera do primo, chamou-lhe outros
nomes doces, e pediu-lhe que fosse jantar com elle. Quintanilha foi e
tornou a ir. Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; n'uma occasião
em que Camilla os deixou sós, João Bastos louvou as raras prendas da
filha, que affirmava haver recebido integralmente a herança moral da
mãe.
-- Não direi isto nunca á pequena, nem você lhe diga nada. É modesta,
e, se começarmos a elogial-a, póde perder-se. Assim, por exemplo, nunca
lhe direi que é tão bonita como foi a mãe, quando tinha a edade d'ella;
póde ficar vaidosa. Mas a verdade é que é mais, não lhe parece? Tem
ainda o talento de tocar piano, que a mãe não possuia.
Quando Camilla voltou á sala de jantar, Quintanilha sentiu vontade de
lhe descobrir tudo, conteve-se e piscou o olho ao primo. Quiz ouvil-a
ao piano; ella respondeu, cheia de melancolia:
-- Ainda não, ha apenas um mez que mamãe falleceu, deixe passar mais
tempo. Demais, eu toco mal.
-- Mal?
-- Muito mal.
Quintanilha tornou a piscar o olho ao primo, e ponderou á moça que a
prova de tocar bem ou mal só se dava ao piano. Quanto ao prazo, era
certo que apenas passára um mez; todavia era tambem certo que a musica
era uma distracção natural e elevada. Além d'isso, bastava tocar um
pedaço triste. João Bastos approvou este modo de ver e lembrou uma
composição elegiaca. Camilla abanou a cabeça.
-- Não, não, sempre é tocar piano; os vizinhos são capazes de inventar
que eu toquei uma polka.
Quintanilha achou graça e riu. Depois concordou e esperou que os tres
mezes fossem passados. Até lá, viu a prima algumas vezes, sendo as tres
ultimas visitas mais proximas e longas. Emfim, poude ouvil-a tocar
piano, e gostou. O pae confessou que, ao principio, não gostava muito
d'aquellas musicas allemãs; com o tempo e o costume achou-lhes sabor.
Chamava á filha «a minha allemãsinha», appellido que foi adoptado por
Quintanilha, apenas modificado para o plural: «a nossa allemãsinha».
Pronomes possessivos dão intimidade; dentro em pouco, ella existia
entre os tres,--ou quatro, se contarmos Gonçalves, que alli foi
apresentado pelo amigo; -- mas fiquemos nos tres.
Que elle é cousa já farejada por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou
gostando da moça. Como não, se Camilla tinha uns longos olhos mortaes?
Não é que os pousasse muita vez nelle, e, se o fazia, era com tal
ou qual constrangimento, a principio, como as creanças que obedecem
sem vontade ás ordens do mestre ou do pae; mas pousava-os, e elles
eram taes que, ainda sem intenção, feriam de morte. Tambem sorria
com frequencia e falava com graça. Ao piano, e por mais aborrecida
que tocasse, tocava bem. Em summa, Camilla não faria obra de impulso
proprio, sem ser por isso menos feiticeira. Quintanilha descobriu um
dia de manhã que sonhára com ella a noite toda, e á noite que pensára
nella todo o dia, e concluiu da descoberta que a amava e era amado. Tão
tonto ficou que esteve prestes a imprimil-o nas folhas publicas. Quando
menos, quiz dizel-o ao amigo Gonçalves e correu ao escriptorio d'este.
A affeição de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quasi a
abrir a boca, engoliu outra vez o segredo. Não ousou dizel-o nesse dia
nem no outro.
Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a
revelação por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de
muitas hesitações, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.
-- Você approva, Gonçalves?
Gonçalves empallideceu,--ou, pelo menos, ficou serio; nelle a seriedade
confundia-se com a pallidez. Mas, não; verdadeiramente ficou pallido.
-- Approva? repetiu Quintanilha.
Após alguns segundos, Gonçalves ia abrir a bocca para responder, mas
fechou-a de novo, e fitou os olhos «em hontem», como elle mesmo dizia
de si, quando os estendia ao longe. Em vão Quintanilha teimou em
saber o que era, o que pensava, se aquelle amor era asneira. Estava
tão acostumado a ouvir-lhe este vocabulo que já lhe não doia nem
affrontava, ainda em materia tão melindrosa e pessoal. Gonçalves tornou
a si d'aquella meditação, sacudiu os hombros, com ar desenganado, e
murmurou esta palavra tão surdamente que o outro mal a poude ouvir:
-- Não me pergunte nada; faça o que quizer.
-- Gonçalves, que é isso? perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas mãos,
assustado.
Gonçalves soltou um grande suspiro, que, se tinha azas, ainda agora
estará voando. Tal foi, sem esta fórma paradoxal, a impressão de
Quintanilha. O relogio da sala de jantar bateu oito horas, Gonçalves
allegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.
Na rua, Quintanilha parou atordoado. Não acabava de entender aquelles
gestos, aquelle suspiro, aquella pallidez, todo o effeito mysterioso
da noticia dos seus amores. Entrára e falára, disposto a ouvir do
outro um ou mais d'aquelles epithetos costumados e amigos, _idiota,
credulo, paspalhão_, e não ouviu nenhum. Ao contrario, havia nos gestos
de Gonçalves alguma cousa que pegava com o respeito. Não se lembrava
de nada, ao jantar, que pudesse tel-o offendido; foi só depois de lhe
confiar o sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo
ficou acabrunhado.
-- Mas, não póde ser, pensava elle; o que é que Camilla tem que não
possa ser boa esposa?
Nisto gastou, parado, defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu
então que Gonçalves não saira. Esperou mais meia hora, nada. Quiz
entrar outra vez, abraçal-o, interrogal-o... Não teve forças; enfiou
pela rua fóra, desesperado. Chegou á casa de João Bastos, e não viu
Camilla; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe
tudo, e aqui é preciso explicar que elle ainda não se havia declarado
á prima. Os olhares da moça não fugiam dos seus; era tudo, e podia não
passar de faceirice. Mas o lance não podia ser melhor para clarear a
situação. Contando o que se passára com o amigo, tinha o ensejo de lhe
fazer saber que a amava e ia pedil-a ao pae. Era uma consolação no meio
d'aquella agonia, o acaso negou-lh'a, e Quintanilha saiu da casa, peior
do que entrára. Recolheu-se á sua.
Não dormiu antes das duas horas da manhã, e não foi para repouso, senão
para agitação maior e nova. Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha
e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho viu surdir debaixo um
vulto e fincar os pés defronte d'elle. Era Gonçalves. «Infame, disse
este com os olhos accesos, porque me vens tirar a noiva de meu coração,
a mulher que eu amo e é minha? Toma, toma logo o meu coração, é mais
completo.» E com um gesto rapido abriu o peito, arrancou o coração
e metteu-lh'o na bocca. Quintanilha tentou pegar da viscera amiga e
repol-a no peito de Gonçalves; foi impossivel. Os queixos acabaram por
fechal-a. Quiz cuspil-a, e foi peior; os dentes cravaram-se no coração.
Quiz falar, mas vá alguem falar com a bocca cheia d'aquella maneira.
Afinal o amigo ergueu os braços e estendeu-lhe as mãos com o gesto de
maldição que elle vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo depois,
brotaram-lhe dos olhos duas immensas lagrimas, que encheram o valle de
agua, atirou-se abaixo e desappareceu. Quintanilha accordou suffocado.
A illusão do pesadelo era tal que elle ainda levou as mãos á bocca,
para arrancar de lá o coração do amigo. Achou a lingua sómente,
esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte? E o
Gonçalves? Voltou a si de todo, comprehendeu e novamente se deitou,
para outra insomnia, menor que a primeira, é certo; veiu a dormir ás
quatro horas.
De dia, rememorando toda a vespera, realidade e sonho, chegou á
conclusão de que o amigo Gonçalves era seu rival, amava a prima
d'elle, era talvez amado por ella... Sim, sim, podia ser. Quintanilha
passou duas horas crueis. Afinal pegou em si e foi ao escriptorio de
Gonçalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se
fosse verdade...
Gonçalves redigia umas razões de embargo. Interrompeu-as para fital-o
um instante, erguer-se, abrir o armario de ferro, onde guardava os
papeis graves, tirar de lá o testamento de Quintanilha, e entregal-o ao
testador.
-- Que é isto?
-- Você vae mudar de estado, respondeu Gonçalves, sentando-se á mesa.
Quintanilha sentiu-lhe lagrimas na voz; assim lhe pareceu, ao menos.
Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o seu depositario natural.
Instou muito; só lhe respondia o som aspero da penna correndo no papel.
Não corria bem a penna, a letra era tremida, as emendas mais numerosas
que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros
era feita com tal melancolia que entristecia o outro. Ás vezes, parava
tudo, penna e consulta, para só ficar o olhar fito «em hontem».
-- Entendo, disse Quintanilha subitamente; ella será tua.
-- Ella quem? quiz perguntar Gonçalves, mas já o amigo voava, escada
abaixo, como uma flecha, e elle continuou as suas razões de embargo.
Não se adivinha todo o resto; basta saber o final. Nem se adivinha nem
se crê; mas a alma humana é capaz de esforços grandes, no bem como no
mal. Quintanilha fez outro testamento, legando tudo á prima, com a
condição de desposar o amigo. Camilla não acceitou o testamento, mas
ficou tão contente, quando o primo lhe falou das lagrimas de Gonçalves,
que acceitou Gonçalves e as lagrimas. Então Quintanilha não achou
melhor remedio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.
O final da historia foi dito em latim. Quintanilha serviu de
testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous primeiros filhos. Um dia
em que, levando doces para os afilhados, atravessava a praça Quinze
de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quasi
instantaneamente. Está enterrado no cemiterio de S. João Baptista; a
sepultura é simples, a pedra tem um epitaphio que termina com esta
pia phrase: «Orae por elle!» É tambem o fecho da minha historia.
Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pylades é agora o
personagem mudo de Sophocles. Orae por elle!
Anecdota do cabriolet
--_Cabriolet_ está ahi, sim, senhor, dizia o preto que viera á matriz
de S. José chamar o vigario para sacramentar dous moribundos.
A geração de hoje não viu a entrada e a saida do _cabriolet_ no Rio de
Janeiro. Tambem não saberá do tempo em que o _cab_ e o _tilbury_ vieram
para o rol dos nossos vehiculos de praça ou particulares. O _cab_
durou pouco. O _tilbury_, anterior aos dous, promette ir á destruição
da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruinas,
achar-se-ha um parado, com o cavallo e o cocheiro em ossos, esperando
o freguez do costume. A paciencia será a mesma de hoje, por mais que
chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntará
a propria actual á do espectro dos tempos. O archeologo dirá cousas
raras sobre os tres esqueletos. O _cabriolet_ não teve historia; deixou
apenas a anecdota que vou dizer.
--Dous! exclamou o sacristão.
--Sim, senhor, dous: nhã Annunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô
Pedrinho! E nhã Annunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando
de um lado para outro, afflicto, fóra de si.
Alguem que leia isto com a alma turva de duvidas, é natural que
pergunte se o preto sentia devéras, ou se queria picar a curiosidade
do coadjuctor e do sacristão. Eu estou que tudo se póde combinar neste
mundo, como no outro. Creio que elle sentia devéras: não descreio
que anciasse por dizer alguma historia terrivel. Em todo caso, nem o
coadjuctor nem o sacristão lhe perguntavam nada.
Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era
que isso. Trazia a parochia de cór; sabia os nomes ás devotas, a vida
dellas, a dos maridos e a dos paes, as prendas e os recursos de cada
uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e
as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as
saudades das viuvas. Pesquizava tudo; nos intervallos ajudava a missa
e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e
grisalho, magro e meão.
--Que Pedrinho e que Annunciada serão esses? dizia comsigo,
acompanhando o coadjuctor.
Embora ardesse por sabel-os, a presença do coadjuctor impediria
qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta
da egreja, que era força mostrar o mesmo silencio e piedade que
elle. Assim foram andando. O _cabriolet_ esperava-os; o cocheiro
desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, emquanto
o padre e o sacristão entravam e o vehiculo enfiava pela rua da
Misericordia. O preto desandou o caminho a passo largo.
Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no ceu, se as ha, e os
pensamentos nas cabeças, se os tem. A do sacristão tinha-os varios e
confusos. Não era ácerca de _Nosso-Pae_, embora soubesse adoral-o,
nem da agua benta e do hyssope que levava; tambem não era ácerca da
hora,--oito e quarto da noite,--aliás, o ceu estava claro e a lua ia
apparecendo. O proprio _cabriolet_, que era novo na terra, e substituia
neste caso a sege, esse mesmo vehiculo não occupava o cerebro todo de
João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhâ
Annunciada.
--Ha de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspeda em alguma
casa, de certo, porque não ha casa vasia na praia, e o numero é da do
commendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi...?
Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então
mandariam _cabriolet_? Este mesmo preto é novo na casa; ha de ser
escravo de um dos moribundos, ou de ambos.
Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo.
O _cabriolet_ parou á porta de um sobrado, justamente a casa do
commendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas em
baixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada,
acompanhados do commendador. A esposa deste, no patamar, beijou o annel
ao padre. Gente grande, creanças, escravos, um borborinho surdo, meia
claridade, e os dous moribundos á espera, cada um no seu quarto, ao
fundo.
Tudo se passou, como é de uso e regra, em taes occasiões. Nhô Pedrinho
foi absolvido e ungido, nhâ Annunciada tambem, e o coadjuctor
despediu-se da casa para tornar á matriz com o sacristão. Este não se
despediu do commendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram
parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de
um sobrinho que vivia em Campinas; uma historia terrivel... Os olhos
de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e
disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto,--talvez naquella mesma
noite. Tudo foi rapido, porque o padre descia a escada, era força ir
com elle.
Foi tão curta a moda do _cabriolet_ que este provavelmente não levou
outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anecdota, que vou acabar já,
tão escassa foi ella, uma anecdota de nada. Não importa. Qualquer que
fosse o tamanho ou a importancia, era sempre uma fatia de vida para
o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a
sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu,
emfim, a pé, rua acima, praia fóra, até parar á porta do commendador.
Em caminho foi evocando toda a vida daquelle homem, antes e depois
da commenda. Compoz o negocio, que era fornecimento de navios, creio
eu, a familia, as festas dadas, os cargos parochiaes, commerciaes
e eleitoraes, e daqui aos boatos e anecdotas não houve mais que um
passo ou dous. A grande memoria de João das Mercês guardava todas as
cousas, maximas e minimas, com tal nitidez que pareciam da vespera,
e tão completas que nem o proprio objecto delles era capaz de as
repetir eguaes. Sabia-as como o Padre-Nosso, isto é, sem pensar nas
palavras; elle resava tal qual comia, mastigando a oração, que lhe
saía dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar tres duzias de
Padre-Nossos seguidamente, João das Mercês os diria sem contar. Tal era
com as vidas alheias; amava sabel-as, pesquisava-as, decorava-as, e
nunca mais lhe saiam da memoria.
Na parochia todos lhe queriam bem, porque elle não enredava nem
maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso
perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antonio e Antonio a de José.
O que elle fazia era ratificar ou rectificar um com outro, e os dous
com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim
é que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, á propria
missa, recordava uma anecdota da vespera, e, a principio, pedia perdão
a Deus; deixou de lh'o pedir quando reflectiu que não falhava uma só
palavra ou gesto do santo sacrificio, tão consubstanciados os trazia em
si. A anecdota que então revivia por instantes, era como a andorinha
que atravessa uma paizagem. A paizagem fica sendo a mesma, e a agua,
se ha agua, murmura o mesmo som. Esta comparação, que era delle, valia
mais do que elle pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte
da paizagem, e a anecdota fazia nelle parte da pessoa; era um dos seus
actos de viver.
Quando chegou á casa do commendador, tinha desfiado o rosario da vida
deste, e entrou com o pé direito para não sair mal. Não pensou em
sair cedo, por mais afflicta que fosse a occasião, e nisto a fortuna
o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher,
quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava pelo estado dos
moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou pedindo
desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrára-se
de saber se os enfermos tinham ido para o ceu,--ou se ainda eram deste
mundo. Tudo o que dissesse respeito ao commendador seria ouvido por
elle com interesse.
--Não morreram, nem sei se escaparão; quando menos, ella creio que
morrerá, concluiu Brito.
--Parecem bem mal.
--Ella, principalmente; tambem é a que mais padece da febre. A febre
os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, ha dias.
--Já estavam aqui? perguntou o sacristão, pasmado de o não saber.
--Já; chegaram ha quinze dias,--quatorze. Vieram com o meu sobrinho
Carlos e aqui apanharam a doença...
Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacristão, que
poz no semblante toda a expressão de pessoa que espera o resto.
Entretanto, como o outro estivesse a morder os beiços e a olhar para
as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados.
Brito acabou andando ao longo da sala, emquanto João das Mercês dizia
comsigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira idéa que lhe
acudiu, foi se os medicos teriam errado na doença ou no remedio; tambem
pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre
para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o commendador,
emquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para
não aborrecer mais os que estavam dentro. De lá vinha algum murmurio
de conversação, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo
isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado; mas o nosso
sacristão já agora não tinha mais que saber o que não sabia. Quando
menos, a familia dos enfermos, a posição, o actual estado, alguma
pagina da vida delles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que
fosse da parochia.
--Ah! exclamou Brito estacando o passo.
Parecia haver nelle o desejo impaciente de referir um caso,--a
«historia terrivel», que annunciára ao sacristão, pouco antes; mas nem
este ousava pedil-a, nem aquelle dizel-a, e o commendador pegou a
andar outra vez.
João das Mercês sentou-se. Viu bem que em tal situação cumpria
despedir-se com boas palavras de esperança ou de conforto, e voltar no
dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não viu na cara do outro
nenhum signal de reprovação do seu gesto; ao contrario, elle parou
defronte e suspirou com grande cançaço.
--Triste, sim, triste, concordou João das Mercês. Boas pessoas, não?
--Iam casar.
--Casar? Noivos um do outro?
Brito confirmou de cabeça. A nota era melancolica, mas não havia signal
da historia terrivel annunciada, e o sacristão esperou por ella.
Observou comsigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de
gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas ha pouco, eram
o unico signal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso.
Iam casar... Podia ser que a historia terrivel fosse isso mesmo. Em
verdade, atacados de um mal na vespera de um bem, o mal devia ser
terrivel. Noivos e moribundos...
Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licença ao sacristão,
tão depressa que nem deu tempo a que elle se despedisse e saisse.
Correu para dentro, e lá ficou cincoenta minutos. Ao cabo, chegou á
sala um pranto suffocado; logo após, tornou o commendador.
--Que lhe dizia eu, ha pouco? Quando menos, ella ia morrer; morreu.
Brito disse isto sem lagrimas e quasi sem tristeza. Conhecia a defunta
de pouco tempo. As lagrimas, segundo referiu, eram do sobrinho de
Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Dahi
a suppôr que o sobrinho do commendador gostasse da noiva do moribundo
foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéa por muito
tempo; não era forçoso, e depois se elle proprio os acompanhára...
Talvez fosse padrinho de casamento. Quiz saber, e era natural,--o nome
da defunta. O dono da casa,--ou por não querer dar-lh'o,--ou porque
outra idéa lhe tomasse agora a cabeça,--não declarou o nome da noiva,
nem do noivo. Ambas as causas seriam.
--Iam casar...
--Deus a receberá em sua santa guarda, e a elle tambem, se vier a
expirar, disse o sacristão cheio de melancolia.
E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece anciava
por sair da boca do fornecedor de navios. Quando João das Mercês lhe
viu a expressão dos olhos, o gesto com que o levou á janella, e o
pedido que lhe fez de jurar,--jurou por todas as almas dos seus que
ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidencias
alheias, mórmente as de pessoas gradas e honradas, como era o
commendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e então lhe
confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos,
criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de
Mata-porcos, uma noticia abominavel...
--E foi...? precipitou-se em dizer João das Mercês, sentindo alguma
hesitação no commendador.
--Que eram irmãos.
--Irmãos como? Irmãos de verdade?
--De verdade; irmãos por parte de mãe. O pae é que não era o mesmo. A
parenta não lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e elles
ficaram fulminados durante um dia ou mais...