lá estava aquelle amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a
promessa de ir ás nove horas. Não vi as cerimonias; alguns vultos,
poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um
trapiche, lá estava, e a mulher tambem, que me levou a uma alcova dos
fundos para me mostrar gravuras. Na occasião da saida, ouvi os gritos
de minha mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas
que pegavam nas alças do caixão, creio eu: «--vire de lado,--mais á
esquerda,--assim,--segure bem...» Depois, ao longe, o coche andando e
as seges atraz delle...
Lá iam meu pae e as férias! Um dia de folga sem folguedo! Não, não
foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quaes alguma vez
me lembrei do collegio. Minha mãe chorava, cosendo o luto, entre duas
visitas de pesames. Eu tambem chorava; não via meu pae ás horas do
costume, não lhe ouvia as palavras á mesa ou ao balcão, nem as caricias
que dizia aos passaros. Que elle era muito amigo de passaros, e tinha
tres ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quasi que só falava
ás pessoas de fóra. Foi assim que eu soube que meu pae morrêra de
apoplexia. Ouvi esta noticia muitas vezes; as visitas perguntavam pela
causa da morte, e ella referia tudo, a hora, o gesto, a occasião: tinha
ido beber agua, e enchia um copo, á janella da área. Tudo decorei, á
força de ouvil-o contar.
Nem por isso os meninos do collegio deixavam de vir espiar para dentro
da minha memoria. Um delles chegou a perguntar-me quando é que eu
voltaria.
--Sabbado, meu filho, disse minha mãe, quando lhe repeti a pergunta
imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez seja melhor voltar na segunda.
--Antes sabbado, emendei.
--Pois sim, concordou.
Não sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar
mais cedo á escola. Mas, sabendo que eu não gostava de aprender, como
entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum sentido superior,
conselho do ceu ou do marido. Em verdade, eu não folgava, se lerdes
isto com o sentido de rir. Com o de descançar tambem não cabe, porque
minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a
attitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou
á mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que
recommendo aos preguiçosos: deixava os olhos na pagina e abria a porta
á imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os
realejos, a bailar com meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira
ou de brincadeira, como fôr mais claro.
Uma vez, como désse por mim a andar na sala sem ler, minha mãe
reprehendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu pae. A
explicação fel-a chorar, e, para dizer tudo, não era totalmente
mentira; tinha-me lembrado o ultimo presentinho que elle me déra, e
entrei a vel-o com o mimo na mão.
Felicia vivia tão triste como eu, mas confesso a minha verdade, a
causa principal não era a mesma. Gostava de brincar, mas não sentia
a ausencia do brinco, não se lhe dava de acompanhar a mãe, coser com
ella, e uma vez fui achal-a a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei
em imital-a, e metti a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou
sem ternura, e, não achando lenço, saiu sem pesar. Creio que ao gesto
não faltava só originalidade, mas sinceridade tambem.
Não me censurem. Sincero fui longos dias calados e reclusos. Quiz
uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro, onde o
caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria á venda
de linhas e agulhas, á medição de fitas, iria á porta, á calçada, á
esquina da rua... Minha mãe suffocou este sonho pouco depois delle
nascer. Mal chegára ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui
para o interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos
á guiza de quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva.
O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me. Já então
lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras dos meninos, os
nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos á saida. Senti cair-me
na cara uma daquellas bolinhas de papel com que nos espertavamos
uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu supposto espertador.
A bolinha, como acontecia ás vezes, foi cair na cabeça de terceiro,
que se desforrou depressa. Alguns, mais timidos, limitavam-se a fazer
caretas. Não era folguedo franco, mas já me valia por elle. Aquelle
degredo que eu deixei tão alegremente com tio Zeca, parecia-me agora
um céo remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas
palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu desenhei a lapis
maior numero de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos.
Não alegrava, mas distrahia.
A missa do setimo dia restituiu-me á rua; no sabbado não fui á escola,
fui á casa de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo
estive á porta da loja. Não era alegria completa. A total alegria
foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado
com curiosidade, mas tão outro ao pé dos meus condiscipulos, que me
esqueceram as férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias.
Evolução
Chamo-me Ignacio; elle, Benedicto. Não digo o resto dos nossos nomes
por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará.
Ignacio basta. Contentem-se com Benedicto. Não é muito, mas é alguma
cousa, e está com a philosophia de Julieta: «Que valem nomes?
perguntava ella ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá
sempre o mesmo cheiro.» Vamos ao cheiro do Benedicto.
E desde logo assentemos que elle era o menos Romeo d'este mundo. Tinha
quarenta e cinco annos, quando o conheci; não declaro em que tempo,
porque tudo n'este conto ha de ser mysterioso e truncado. Quarenta e
cinco annos, e muitos cabellos pretos; para os que o não eram, usava
um processo chimico, tão efficaz que não se lhe distinguiam os pretos
dos outros--salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não
apparecia a ninguem. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça,
olhos, roupa, sapatos, corrente do relogio e bengala. O proprio
alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos
que tenho visto, era natural e legitimo; custou-lhe bom dinheiro;
eu mesmo o vi comprar na casa do... lá me ia escapando o nome do
joalheiro;--fiquemos na rua do Ouvidor.
Moralmente, era elle mesmo. Ninguem muda de caracter, e o do Benedicto
era bom,--ou para melhor dizer, pacato. Mas, intellectualmente, é
que elle era menos original. Podemos comparal-o a uma hospedaria bem
afreguezada, aonde iam ter idéas de toda parte e de toda sorte, que se
sentavam á mesa com a familia da casa. Ás vezes, acontecia acharem-se
alli duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipathicas; ninguem
brigava, o dono da casa impunha aos hospedes a indulgencia reciproca.
Era assim que elle conseguia ajustar uma especie de atheismo vago
com duas irmandades que fundou, não sei se na Gavea, na Tijuca ou no
Engenho-Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e
as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas elle não tinha
segredos para os amigos.
Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tinhamos deixado o trem e
entrado na diligencia que nos ia levar da estação á cidade. Trocámos
algumas palavras, e não tardou conversarmos francamente, ao sabor das
circumstancias que nos impunham a convivencia, antes mesmo de saber
quem eramos.
Naturalmente, o primeiro objecto foi o progresso que nos traziam as
estradas de ferro. Benedicto lembrava-se do tempo em que toda a jornada
era feita ás costas de burro. Contámos então algumas anecdotas, falámos
de alguns nomes, e ficámos de accordo em que as estradas de ferro eram
uma condição de progresso do paiz. Quem nunca viajou não sabe o valor
que tem uma d'essas banalidades graves e solidas para dissipar os
tedios do caminho. O espirito areja-se, os proprios musculos recebem
uma communicação agradavel, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus
e os homens.
--Não serão os nossos filhos que verão todo este paiz cortado de
estradas, disse elle.
--Não, de certo. O senhor tem filhos?
--Nenhum.
--Nem eu. Não será ainda em cincoenta annos; e, entretanto, é a nossa
primeira necessidade. Eu comparo o Brazil a uma creança que está
engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.
--Bonita idéa! exclamou Benedicto faiscando-lhe os olhos.
--Importa-me pouco que seja bonita, comtanto que seja justa.
--Bonita e justa, redarguiu elle com amabilidade. Sim, senhor, tem
razão:--o Brazil está engatinhando; só começará a andar quando tiver
muitas estradas de ferro.
Chegámos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada
antigo; elle demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias
depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sósinho. Uma semana mais tarde,
voltou elle; encontrámo-nos no theatro, conversámos muito e trocámos
noticias; Benedicto acabou convidando-me a ir almoçar com elle no dia
seguinte. Fui; deu-me um almoço de principe, bons charutos e palestra
animada. Notei que a conversa d'elle fazia mais effeito no meio da
viagem--arejando o espirito e deixando a gente em paz com Deus e os
homens; mas devo dizer que o almoço póde ter prejudicado o resto.
Realmente era magnifico; e seria impertinencia historica pôr a mesa
de Lucullo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me elle,
apoiando o cotovello na borda da mesa, e olhando para o charuto que
ardia:
--Na minha viagem agora, achei occasião de ver como o senhor tem razão
com aquella idéa do Brazil engatinhando.
--Ah?
--Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligencia de
Vassouras. Só começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de
ferro. Não imagina como isso é verdade.
E referiu muita cousa, observações relativas aos costumes do interior,
difficuldades da vida, atrazo, concordando, porém, nos bons sentimentos
da população e nas aspirações de progresso. Infelizmente, o governo
não correspondia ás necessidades da patria; parecia até interessado
em mantel-a atraz das outras nações americanas. Mas era indispensavel
que nos persuadissemos de que os principios são tudo e os homens nada.
Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos;
e _abyssus abyssum invocat_. Depois foi mostrar-me outras salas.
Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as collecções de quadros,
de moedas, de livros antigos, de sellos, de armas; tinha espadas e
floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um
lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era. Benedicto sorriu.
--Não irei adeante, disse eu sorrindo tambem.
--Não, não ha que negar, acudiu elle; foi uma moça de quem gostei
muito. Bonita, não? Não imagina a belleza que era. Os labios eram mesmo
de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, côr da noite. E
que dentes! verdadeiras perolas. Um mimo da natureza.
Em seguida, passámos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco
trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de
livros muito bem encadernados, um mappa-mundi, dous mappas do Brazil.
A secretaria era de ebano, obra fina; sobre ella, casualmente aberto,
um almanak de Laemmert. O tinteiro era de crystal,--«crystal de rocha»,
disse-me elle, explicando o tinteiro, como explicava as outras cousas.
Na sala contigua havia um orgão. Tocava orgão, e gostava muito de
musica, falou d'ella com enthusiasmo, citando as operas, os trechos
melhores, e noticiou-me que, em pequeno, começára a aprender flauta;
abandonou-a logo,--o que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um
instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao
jardim, que era esplendido, tanto ajudava a arte á natureza, e tanto a
natureza coroava a arte. Em rosas, por exemplo, (não ha negar, disse-me
elle, que é a rainha das flôres) em rosas, tinha-as de toda casta e de
todas as regiões.
Saí encantado. Encontrámo-nos algumas vezes, na rua, no theatro, em
casa de amigos communs, tive occasião de aprecial-o. Quatro mezes
depois fui á Europa, negocio que me obrigava á ausencia de um anno;
elle ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu mesmo que
o induzi a isso, sem a menor intenção politica, mas com o unico fim de
lhe ser agradavel; mal comparando, era como se lhe elogiasse o córte do
collete. Elle pegou da idéa, e apresentou-se. Um dia, atravessando uma
rua de Pariz, dei subitamente com o Benedicto. --Que é isto? exclamei.
--Perdi a eleição, disse elle, e vim passear á Europa.
Não me deixou mais; viajámos juntos o resto do tempo. Confessou-me que
a perda da eleição não lhe tirára a idéa de entrar no parlamento. Ao
contrario, incitára-o mais. Falou-me de um grande plano.
--Quero vel-o ministro, disse-lhe.
Benedicto não contava com esta palavra, o rosto illuminou-se-lhe; mas
disfarçou depressa.
--Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que
serei tão sómente ministro industrial. Estamos fartos de partidos;
precisamos desenvolver as forças vivas do paiz, os seus grandes
recursos. Lembra-se do que _nós diziamos_ na diligencia de Vassouras? O
Brazil está engatinhando; só andará com estradas de ferro.
--Tem razão, concordei um pouco espantado. E porque é que eu mesmo
vim á Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as cousas
arranjadas em Londres.
--Sim?
--Perfeitamente.
Mostrei-lhe os papeis; elle viu-os deslumbrado. Como eu tivesse
então recolhido alguns apontamentos, dados estatisticos, folhetos,
relatorios, copias de contractos, tudo referente a materias
industriaes, e lh'os mostrasse, Benedicto declarou-me que ia tambem
colligir algumas cousas d'aquellas. E, na verdade, vi-o andar por
ministerios, bancos, associações, pedindo muitas notas e opusculos, que
amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi
curto; era de emprestimo. Benedicto recolheu com muito mais gosto os
anexins politicos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto
arsenal d'elles. Nas conversas commigo repetia-os muita vez, á laia
de experiencia; achava n'elles grande prestigio e valor inestimavel.
Muitos eram de tradição ingleza, e elle os preferia aos outros, como
trazendo em si um pouco da Camara dos Communs. Saboreava-os tanto que
eu não sei se elle acceitaria jámais a liberdade real sem aquelle
apparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar,
optaria por essas fórmas curtas, tão commodas, algumas lindas, outras
sonoras, todas axiomaticas, que não forçam a reflexão, preenchem os
vasios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.
Regressámos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde
a Londres, d'onde vim ao Rio de Janeiro, um anno depois. Já então
Benedicto era deputado. Fui visital-o; achei-o preparando o discurso de
estréa. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatorios, livros
de economia politica, alguns com paginas marcadas, por meio de tiras
de papel rubricadas assim:--_Cambio_, _Taxa das terras_, _Questão dos
cereaes em Inglaterra_, _Opinião de Stuart Mill_, _Erro de Thiers sobre
caminhos de ferro_, etc. Era sincero, minucioso e callido. Falava-me
d'aquellas cousas, como se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo,
ab ovo; tinha a peito mostrar aos homens praticos da Camara que tambem
elle era pratico. Em seguida, perguntou-me pela empreza; disse-lhe o
que havia.
--Dentro de dous annos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.
--E os capitalistas inglezes?
--Que têm?
--Estão contentes, esperançados?
--Muito; não imagina.
Contei-lhe algumas particularidades technicas, que elle ouviu
distrahidamente,--ou porque a minha narração fosse em extremo
complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava
ver-me entregue ao movimento industrial; era d'elle que precisavamos, e
a este proposito fez-me o favor de ler o exordio do discurso que devia
proferir d'alli a dias.
--Está ainda em borrão, explicou-me; mas as idéas capitaes ficam. E
começou: «No meio da agitação crescente dos espiritos, do alarido
partidario que encobre as vozes dos legitimos interesses, permitti que
alguem faça ouvir uma supplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar,
exclusivamente,--notae que digo exclusivamente,--dos melhoramentos
materiaes do paiz. Não desconheço o que se me póde replicar;
dir-me-heis que uma nação não se compõe só de estomago para digerir,
mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que
tudo isso não valerá nada ou pouco, se ella não tiver pernas para
caminhar; e aqui repetirei o que, ha alguns annos, _dizia eu_ a um
amigo, em viagem pelo interior: o Brazil é uma creança que engatinha;
só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro...»
Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei
assombrado, desvairado deante do abysmo que a psychologia rasgava aos
meus pés. Este homem é sincero, pensei commigo, está persuadido do
que escreveu. E fui por ahi abaixo até ver se achava a explicação dos
tramites por que passou aquella recordação da diligencia de Vassouras.
Achei (perdôem-me se ha n'isto infatuação), achei alli mais um effeito
da lei da evolução, tal como a definiu Spencer,--Spencer ou Benedicto,
um d'elles.
Pylades e Orestes
Quintanilha engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os dous
juntos, não que se parecessem. Ao contrario, Quintanilha tinha o rosto
redondo, Gonçalves comprido, o primeiro era baixo e moreno, o segundo
alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente. Accresce que
eram quasi da mesma edade. A idéa da paternidade nascia das maneiras
com que o primeiro tratava o segundo; um pae não se desfaria mais em
carinhos, cautellas e pensamentos.
Tinham estudado juntos, morado juntos, e eram bachareis do mesmo
anno. Quintanilha não seguiu advocacia nem magistratura, metteu-se na
politica; mas, eleito deputado provincial em 187... cumpriu o prazo
da legislatura e abandonou a carreira. Herdára os bens de um tio, que
lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis. Veiu para o seu
Gonçalves, que advogava no Rio de Janeiro.
Posto que abastado, moço, amigo do seu unico amigo, não se póde dizer
que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vaes ver. Ponho de lado
o desgosto que lhe trouxe a herança com o odio dos parentes; tal odio
foi que elle esteve prestes a abrir mão d'ella, e não o fez porque o
amigo Gonçalves, que lhe dava idéas e conselhos, o convenceu de que
similhante acto seria rematada loucura.
--Que culpa tem você que merecesse mais a seu tio que os outros
parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o
defunto, como os outros. Se elle deixou tudo a você, é que o achou
melhor que elles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do morto, e
não seja tolo.
Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram
reconciliar-se com elle, mas o amigo mostrou-lhe a intenção recondita
dos taes, e Quintanilha não lhes abriu a porta. Um d'esses, ao vê-lo
ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:
-- Ahi está, deixa os parentes para se metter com extranhos; ha de ver
o fim que leva.
Ao saber d'isto, Quintanilha correu a contal-o a Gonçalves, indignado.
Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o animo; não valia a
pena irritar-se por ditinhos.
-- Uma só cousa desejo, continuou, é que nos separemos, para que se não
diga...
--Que se não diga o quê? É boa! Tinha que vêr, se eu passava a escolher
as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem vergonha!
-- Não fale assim, Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes.
-- Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas
que me fôrem designadas por meia duzia de velhacos que o que querem
é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo o que você quizer, menos
isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é o meu coração. Ou você
está... está aborrecido de mim?
-- Eu? Tinha graça.
-- Pois então?
-- Mas é...
-- Não é tal!
A vida que viviam os dous, era a mais unida d'este mundo. Quintanilha
accordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com elle. Jantavam
juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no theatro.
Se Gonçalves tinha algum trabalho que fazer á noite, Quintanilha ia
ajudal-o como obrigação; dava busca aos textos de lei, marcava-os,
copiava-os, carregava os livros. Gonçalves esquecia com facilidade,
ora um recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papeis. Quintanilha
suppria-lhe a memoria. Ás vezes, na rua do Ouvidor, vendo passar as
moças, Gonçalves lembrava-se de uns autos que deixára no escriptorio.
Quintanilha voava a buscal-os e tornava com elles, tão contente que
não se podia saber se eram autos, se a sorte grande; procurava-o
anciosamente com os olhos, corria, sorria, morria de fadiga.
-- São estes?
-- São; deixa ver, são estes mesmos. Dá cá.
-- Deixa, eu levo.
A principio, Gonçalves suspirava:
--Que massada que dei a você!
Quintanilha ria do suspiro com tão bom humor que o outro, para não
o molestar, não se accusou de mais nada; concordou em receber os
obsequios. Com o tempo, os obsequios ficaram sendo puro officio.
Gonçalves dizia ao outro: «Você hoje ha de lembrar-me isto e aquillo.»
E o outro decorava as recommendações, ou escrevia-as, se eram muitas.
Algumas dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha
suspirava afflicto, á espera que chegasse tal ou tal hora para ter o
gosto de lembrar os negocios ao amigo. E levava-lhe as cartas e papeis,
ia buscar as respostas, procurar as pessoas, esperal-as na estrada
de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo descobria-lhe bons
charutos, bons jantares, bons espectaculos. Gonçalves já não tinha
liberdade de falar de um livro novo, ou sómente caro, que não achasse
um exemplar em casa.
-- Você é um perdulario, dizia-lhe em tom reprehensivo.
-- Então gastar com letras e sciencias é botar fóra? É boa! concluia o
outro.
No fim do anno quiz obrigal-o a passar fóra as férias. Gonçalves
acabou acceitando, e o prazer que lhe deu com isto foi enorme. Subiram
a Petropolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de pintura,
Quintanilha advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos
dous, e mandou fazel-a. Quando a levou ao amigo, este não poude deixar
de lhe dizer que não prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.
-- É uma porcaria, insistiu Gonçalves.
-- Pois o pintor disse-me...
-- Você não entende de pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a
occasião para metter a espiga. Pois isto é cara decente? Eu tenho este
braço torto?
-- Que ladrão!
-- Não, elle não tem culpa, fez o seu negocio; você é que não tem o
sentimento da arte, nem pratica, e espichou-se redondamente. A intenção
foi boa, creio...
-- Sim, a intenção foi boa.
-- E aposto que já pagou?
-- Já.
Gonçalves abanou a cabeça, chamou-lhe ignorante e acabou rindo.
Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava para a tela, até que saccou
de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Com se não bastasse esse
gesto de vingança, devolveu a pintura ao artista com um bilhete em que
lhe transmittiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A vida
tem muitas de taes pagas. Demais, uma letra de Gonçalves que se venceu
d'alli a dias e que este não poude pagar, veiu trazer ao espirito de
Quintanilha uma diversão. Quasi brigaram; a idéa de Gonçalves era
reformar a letra; Quintanilha, que era o endossante, entendia não valer
a pena pedir o favor por tão escassa quantia (um conto e quinhentos),
elle emprestaria o valor da letra, e o outro que lhe pagasse, quando
pudesse. Gonçalves não consentiu e fez-se a reforma. Quando, ao fim
d'ella, a situação se repetiu, o mais que este admittiu foi acceitar
uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro.
-- Você não vê que me envergonha, Gonçalves? Pois eu hei de receber
juro de você...?
-- Ou recebe, ou não fazemos nada.
-- Mas, meu querido...
Teve que concordar. A união dos dous era tal que uma senhora
chamava-lhes os «casadinhos de fresco», e um letrado, Pylades e
Orestes. Elles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia
alguma cousa parecida com lagrimas: era, nos olhos, uma ternura
humida. Outra differença é que o sentimento de Quintanilha tinha uma
nota de enthusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gonçalves; mas,
enthusiasmo não se inventa. É claro que o segundo era mais capaz de
inspiral-o ao primeiro do que este a elle. Em verdade, Quintanilha era
mui sensivel a qualquer distincção; uma palavra, um olhar bastava a
accender-lhe o cerebro. Uma pancadinha no hombro ou no ventre, com o
fim de approval-o ou só accentuar a intimidade, era para derretel-o de
prazer. Contava o gesto e as circumstancias durante dous e tres dias.