Quiz deixar lembranças a Maria; era natural e necessario, mas faltou-me

o animo. Embaixo arrependi-me de o não ter feito. Recapitulei a

conversação, achei-me atado e incerto; elle pareceu-me, além de frio,

sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O seu aperto de mão

tanto á entrada, como á saida, não me déra a sensação do costume.

Na noite desse dia, Barreto veiu ter commigo, atordoado com a noticia

da manhã, e perguntando-me o que sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe

a minha visita da manhã, a nossa conversação, sem as minhas suspeitas.

--Póde ser engano, disse elle, depois de um instante.

--Engano?

--Raymunda contou-me hoje que falára a Maria, que esta negára tudo a

principio, depois confessára, e recusára reatar as relações com você.

--Já sei.

--Sim, mas parece que da terceira vez foram presentidas e ouvidas por

elle, que estava na saleta ao pé. Maria correu a contar a Raymunda que

elle mudára inteiramente; esta dispoz-se a sondal-o, eu oppuz-me, até

que li a noticia nos jornaes. Vi-o na rua, andando: não tinha aquelle

gesto sereno de costume, mas o passo era forte.

Fiquei aturdido com a noticia, que confirmava a minha impressão. Nem

por isso deixei de ir lá jantar no dia seguinte. Barreto quiz ir

tambem; percebi que era com o fim unico de estar commigo, e recusei.

X... não dissera nada a Maria; achei-os na sala, e não me lembro de

outra situação na vida em que me sentisse mais extranho a mim mesmo.

Apertei-lhes a mão, sem olhar para ella. Creio que ella tambem desviou

os olhos. Elle é que, com certeza, não nos observou; riscava um

phosphoro e accendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente

que poude, ainda que frio. O rosto exprimia maior esforço que na

vespera. Para explicar a possivel alteração, disse-me que embarcaria

no fim da semana, e que, á proporção que a hora ia chegando, sentia

difficuldade em sair.

--Mas é só até fóra da barra; lá fóra torno a ser o que sou, e, na

campanha, serei o que devo ser.

Usava dessas palavras rigidas, alguma vez emphaticas. Notei que Maria

trazia os olhos pisados; soube depois que chorára muito e tivera grande

luta com elle, na vespera, para que não embarcasse. Só conhecêra a

resolução pelos jornaes, prova de alguma cousa mais particular que o

patriotismo. Não falou á mesa, e a dôr podia explicar o silencio, sem

nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrario, X...

procurava falar muito, contava os batalhões, os officiaes novos, as

probabilidades de victoria, e referia anecdotas e boatos, sem curar

de ligação. Ás vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente

voltaria general, mas ficou tão carrancudo depois deste gracejo, que

não tentou outro. O jantar acabou frio; fumámos, elle ainda quiz falar

da guerra, mas o assumpto estava exhausto. Antes de sair, convidei-o a

ir jantar commigo.

--Não posso; todos os meus dias estão tomados.

--Venha almoçar.

--Tambem não posso. Faço uma cousa; na volta do Paraguay, o terceiro

dia é seu.

Creio ainda hoje que o fim desta ultima phrase era indicar que os dous

primeiros dias seriam da mãe e de Maria; assim, qualquer suspeita que

eu tivesse dos motivos secretos da resolução, devia dissipar-se. Nem

bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembrança, um livro,

por exemplo. Preferi o seu ultimo retrato, photographado a pedido da

mãe, com a farda de capitão de voluntarios. Por dissimulação, quiz que

assignasse; elle promptamente escreveu: «Ao seu leal amigo Simão de

Castro offerece o capitão de voluntarios da patria X...» O marmore do

rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode,

com um gesto convulso, e despedimo-nos.

No sabbado embarcou. Deixou a Maria os recursos necessarios para viver

aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ella preferiu o Rio Grande,

e partiu para lá, trez semanas depois, a esperar que elle voltasse

da guerra. Não a pude ver antes; fechára-me a porta, como já me havia

fechado o rosto e o coração.

Antes de um anno, soube-se que elle morrêra em combate, no qual se

houve com mais denodo que pericia. Ouvi contar que primeiro perdêra um

braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se

contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta versão

podia ser exacta, porque elle tinha desvanecimento das bellas fórmas;

mas a causa foi complexa. Tambem me contaram que Maria, voltando do Rio

Grande, morreu em Curytiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéo.

A filha não passou dos quinze annos.

Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos;

agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande

senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o

que elle praticou. Nem effectivamente conheci ninguem que se parecesse

com X... E porque teimar nesta letra? Chamemol-o pelo nome que lhe

deram na pia, Emilio, o meigo, o forte, o simples Emilio.

Suje-se gordo!

Uma noite, ha muitos annos, passeava eu com um amigo no terraço do

theatro de S. Pedro de Alcantara. Era entre o segundo e o terceiro acto

da peça _A sentença ou o tribunal do jury_. Só me ficou o titulo, e foi

justamente o titulo que nos levou a falar da instituição e de um facto

que nunca mais me esqueceu.

Fui sempre contrario ao jury,--disse-me aquelle amigo,--não pela

instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condemnar

alguem, e por aquelle preceito do Evangelho: «Não queiraes julgar para

que não sejais julgados.» Não obstante, servi duas vezes. O tribunal

era então no antigo Aljube, fim da rua dos Ourives, principio da

ladeira da Conceição.

Tal era o meu escrupulo que, salvo dous, absolvi todos os réos. Com

effeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos

eram muito mal feitos. O primeiro réo que condemnei, era um moço

limpo, accusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes

pequena, com falsificação de um papel. Não negou o facto, nem podia

fazel-o, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do

crime. Alguem, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir

a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao

criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem emphase,

triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal pallidez que mettia

pena; o promotor publico achou nessa mesma côr do gesto a confissão do

crime. Ao contrario, o defensor mostrou que o abatimento e a pallidez

significavam a lastima da innocencia calumniada.

Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do

promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia odio,

e não era. A defeza, além do talento do advogado, tinha a circumstancia

de ser a estréa delle na tribuna. Parentes, collegas e amigos esperavam

o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi

admiravel, e teria salvo o réo, se elle pudesse ser salvo, mas o crime

mettia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous annos depois, em

1865. Quem sabe o que se perdeu nelle! Eu, acredite, quando vejo morrer

um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos

ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O

presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram

entregues ao presidente do conselho, que era eu.

Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá

se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse

tambem calado, confesso. Contarei depressa; o terceiro acto não tarda.

Um dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais

que ninguem convencido do delicto e do delinquente. O processo foi

examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas (onze votos

contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os votos

assegurassem a condemnação, ficou satisfeito, disse que seria um acto

de fraqueza, ou cousa peior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos

jurados, certamente o que votára pela negativa,--proferiu algumas

palavras de defeza do moço. O ruivo,--chamava-se Lopes,--replicou com

aborrecimento:

--Como, senhor? Mas o crime do réo está mais que provado.

--Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram commigo.

--Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O

crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réo nega,

mas o certo é que elle commetteu a falsidade, e que falsidade! Tudo por

uma miseria, duzentos mil reis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se

gordo!

«Suje-se gordo!» Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que

entendesse a phrase, ao contrario; nem a entendi nem a achei limpa, e

foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati á

porta, abriram-nos, fui á mesa do juiz, dei as respostas do conselho

e o réu saiu condemnado. O advogado appellou; se a sentença foi

confirmada ou a appellação acceita, não sei; perdi o negocio de vista.

Quando sai do tribunal, vim pensando na phrase do Lopes, e pareceu-me

entendel-a. «Suje-se gordo!» era como se dissesse que o condemnado

era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei

esta explicação na esquina da rua de S. Pedro; vinha ainda pela dos

Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para

lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos

jornaes os nossos nomes, dei com o nome todo delle; não valia a pena

procural-o, nem me ficou de cór. Assim são as paginas da vida, como

dizia meu filho quando fazia versos, e accrescentava que as paginas vão

passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas

não me lembra a fórma dos versos.

Em prosa disse-me elle, muito tempo depois, que eu não devia faltar

ao jury, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não

compareceria, e citei o preceito evangelico; elle teimou, dizendo ser

um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguem que se prezasse

podia negar ao seu paiz. Fui e julguei tres processos.

Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa,

accusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornaes

deram sem grande minucia, e aliás eu lia pouco as noticias de crimes.

O accusado appareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réos. Era um

homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu

collega daquelle julgamento de annos antes. Não poderia reconhecel-o

logo por estar agora magro, mas era a mesma côr dos cabellos e das

barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.

--Como se chama? perguntou o presidente.

--Antonio do Carmo Ribeiro Lopes.

Já me não lembravam os tres primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e

os outros signaes vieram confirmando as reminiscencias; não me tardou

reconhecer a pessoa exacta daquelle dia remoto. Digo-lhe aqui com

verdade que todas essas circumstancias me impediram de acompanhar

attentamente o interrogatorio, e muitas cousas me escaparam. Quando me

dispuz a ouvil-o bem, estava quasi no fim. Lopes negava com firmeza

tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma

complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem anciedade; não

sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.

Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento

e dez contos de reis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o

criminoso, por já ser tarde; a orchestra está afinando os instrumentos.

O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou

muito, o inquerito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e

uma serie de circumstancias aggravantes; por fim o depoimento das

testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tambem elle

ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o tecto

e as pessoas que o iam julgar; entre ellas eu. Quando olhou para mim,

não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.

Todos esses gestos do homem serviram á accusação e á defeza, tal como

serviram, tempos antes, os gestos contrarios do outro accusado. O

promotor achou nelles a revelação clara do cynismo, o advogado mostrou

que só a innocencia e a certeza da absolvição podiam trazer aquella paz

de espirito.

Emquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar

alli, no mesmo banco do outro, este homem que votára a condemnação

delle, e naturalmente repeti commigo o texto evangelico: «Não queiraes

julgar, para que não sejaes julgados.» Confesso-lhe que mais de uma

vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a commetter algum desvio

de dinheiro, mas podia, em occasião de raiva, matar alguem ou ser

calumniado de desfalque. Aquelle que julgava outr'ora, era agora

julgado tambem.

Ao pé da palavra biblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes:

«Suje-se gordo!» Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança.

Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala

secreta, até áquellas palavras: «Suje-se gordo!» Vi que não era um

ladrão réles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que

definia duramente a acção: «Suje-se gordo!» Queria dizer que o homem

não se devia levar a um acto daquella especie sem a grossura da somma.

A ninguem cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se

gordo!

Idéas e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo

resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado,

leu os quesitos e recolhemo-nos á sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em

particular que votei affirmativamente, tão certo me pareceu o desvio

dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de

Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com

os mesmos olhos que eu. Votaram commigo dous jurados. Nove negaram a

criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida,

e o accusado saiu para a rua. A differença da votação era tamanha que

cheguei a duvidar commigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora

mesmo sinto uns repellões de consciencia. Felizmente, se o Lopes não

commetteu devéras o crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta

consideração acaba por me consolar do erro, mas os repellões voltam. O

melhor de tudo é não julgar ninguem para não vir a ser julgado. Suje-se

gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não

julgar ninguem... Acabou a musica, vamos para as nossas cadeiras.

Umas férias

Vieram dizer ao mestre-escola que alguem lhe queria falar.

--Quem é?

--Diz que meu senhor não o conhece, respondeu o preto.

--Que entre.

Houve um movimento geral de cabeças na direcção da porta do corredor,

por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Eramos não sei quantos

meninos na escola. Não tardou que apparecesse uma figura rude, tez

queimada, cabellos compridos, sem signal de pente, a roupa amarrotada,

não me lembra bem a côr nem a fazenda, mas provavelmente era brim

pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais

que ninguem, porque elle era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba.

Chamava-se tio Zéca.

Tio Zéca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre fêl-o sentar, olhou

para mim, e creio que lhe perguntou alguma cousa, porque tio Zéca

entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, elle

respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:

--Sr. José Martins, póde sair.

A minha sensação de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez

annos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Um chamado

de casa, o proprio tio, irmão de meu pae, que chegára na vespera de

Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer cousa.

Corri a buscar o chapéo, metti o livro de leitura no bolso e desci

as escadas da escola, um sobradinho da rua do Senado. No corredor

beijei a mão a tio Zéca. Na rua fui andando ao pé delle, amiudando os

passos, e levantando a cara. Elle não me dizia nada, eu não me atrevia

a nenhuma pergunta. Pouco depois chegavamos ao collegio de minha irmã

Felicia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os

tres caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia

festa em casa, pois que iamos os dous, ella e eu; iamos na frente,

trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez annos de tio Zéca.

Voltei a cara para elle; vinha com os olhos no chão, provavelmente para

não cair.

Fomos andando. Felicia era mais velha que eu um anno. Calçava sapato

raso, atado ao peito do pé por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima

do tornozello com laço. Eu, botins de cordavão, já gastos. As calcinhas

della pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam

sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra vez paravamos, ella

para admirar as bonecas á porta dos armarinhos, eu para ver, á porta

das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro

atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não cança

em tal edade. Tio Zéca é que nos tirava do espectaculo industrial ou

natural. Andem, dizia elle em voz sumida. E nós andavamos, até que

outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era

a festa que nos esperava em casa.

--Não creio que sejam annos de tio Zéca, disse-me Felicia.

--Porqué?

--Parece meio triste.

--Triste, não, parece carrancudo.

--Ou carrancudo. Quem faz annos tem a cara alegre.

--Então serão annos de meu padrinho...

--Ou de minha madrinha...

--Mas porque é que mamãe nos mandou para a escola?

--Talvez não soubesse.

--Ha de haver jantar grande...

--Com doce...

--Talvez dancemos.

Fizemos um accordo: podia ser festa, sem anniversario de ninguem. A

sorte grande, por exemplo. Occorreu-me tambem que podiam ser eleições.

Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu não soubesse bem o que

era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em victoria proxima

que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o

dia era sexta-feira. Imaginei bandas de musica, vivas e palmas, e nós,

meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espectaculo

á noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao theatro, e voltei

dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente que morria por lá

tornar, posto não houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita

cousa, isso sim, cadeiras ricas, thronos, lanças compridas, scenas que

mudavam á vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma

rua. Depois, os personagens, todos principes. Era assim que chamavamos

aos que vestiam calção de seda, sapato de fivella ou botas, espada,

capa de velludo, gorra com pluma. Tambem houve bailado. As bailarinas

e os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um

sorriso constante na boca. Depois os gritos do publico e as palmas...

Já duas vezes escrevi palmas; é que as conhecia bem. Felicia, a quem

communiquei a possibilidade do espectaculo, não me pareceu gostar

muito, mas tambem não recusou nada. Iria ao theatro. E quem sabe se não

seria em casa, theatrinho de bonecos? Iamos nessas conjecturas, quando

tio Zéca nos disse que esperassemos; tinha parado a conversar com um

sujeito.

Parámos, á espera. A idéa da festa, qualquer que fosse, continuou a

agitar-nos, mais a mim que a ella. Imaginei trinta mil cousas, sem

acabar nenhuma, tão precipitadas vinham, e tão confusas que não as

distinguia; póde ser até que se repetissem. Felicia chamou a minha

attenção para dous moleques de carapuça encarnada, que passavam

carregando cannas,--o que nos lembrou as noites de Santo Antonio e

S. João, já lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso quintal,

das bichas que queimámos, das rodinhas, das pistolas e das danças com

outros meninos. Se houvesse agora a mesma cousa... Ah! lembrou-me que

era occasião de deitar á fogueira o livro da escola, e o della tambem,

com os pontos de costura que estava aprendendo.

--Isso não, acudiu Felicia.

--Eu queimava o meu livro.

--Papae comprava outro.

--Emquanto comprasse, eu ficava brincando em casa; aprender é muito

aborrecido.

Nisto estavamos, quando vimos tio Zéca e o desconhecido ao pé de nós.

O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos a cara para elle,

fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se.

--Nove horas? Lá estarei, disse elle.

--Vamos, disse-nos tio Zéca.

Quiz perguntar-lhe quem era aquelle homem, e até me pareceu conhecel-o

vagamente. Felicia tambem. Nenhum de nós acertava com a pessoa; mas

a promessa de lá estar ás nove horas dominou o resto. Era festa,

algum baile, comquanto ás nove horas costumassemos ir para a cama.

Naturalmente, por excepção, estariamos accordados. Como chegassemos

a um rego de lama, peguei da mão de Felicia, e transpuzemol-o de um

salto, tão violento que quasi me caiu o livro. Olhei para tio Zéca, a

ver o effeito do gesto; viu-o abanar a cabeça com reprovação. Ri, ella

sorriu, e fomos pela calçada adeante.

Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dous

era mulher. Vinham da roça. Tio Zéca foi ter com elles ao meio da rua,

depois de dizer que esperassemos. Os animaes pararam, creio que de si

mesmos, por tambem conhecerem a tio Zéca, idéa que Felicia reprovou

com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convicção;

tudo era folgar. Fosse como fosse, esperámos os dous, examinando o

casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e

tambem mais moça; elle tinha os cabellos grisalhos. Não ouvimos o que

disseram, elle e tio Zéca; vimol-o, sim, o marido olhar para nós com

ar de curiosidade, e falar á mulher, que tambem nos deitou os olhos,

agora com pena ou cousa parecida. Emfim apartaram-se, tio Zéca veiu ter

comnosco e enfiámos para casa.

A casa ficava na rua proxima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta,

vimos os portaes da casa forrados de preto,--o que nos encheu de

espanto. Instinctivamente parámos e voltámos a cabeça para tio Zéca.

Este veiu a nós, deu a mão a cada um e ia a dizer alguma palavra que

lhe ficou na garganta; andou, levando-nos comsigo. Quando chegámos,

as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um

armarinho. Na rua, curiosos. Nas janellas fronteiras e lateraes,

cabeças agglomeradas. Houve certo reboliço quando chegámos. É natural

que eu tivesse a boca aberta, como Felicia. Tio Zéca empurrou uma das

meias portas, entrámos os tres, elle tornou a cerral-a, metteu-se pelo

corredor e fomos á sala de jantar e á alcova.

Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos.

Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veiu abraçar-nos entre

lagrimas, bradando:

--Meus filhos, vosso pae morreu!

A commoção foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem

a consciencia da noticia. Não tive forças para andar, e teria medo de

o fazer. Morto como? morto porque? Estas duas perguntas, se as metto

aqui, é para dar seguimento á acção; naquelle momento não perguntei

nada a mim nem a ninguem. Ouvia as palavras de minha mãe, que se

repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ella pegou em nós

e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadaver do marido; e fez-nos

beijar-lhe a mão. Tão longe estava eu daquillo que, apezar de tudo,

não entendêra nada a principio; a tristeza e o silencio das pessoas que

rodeavam a cama, ajudaram a explicar que meu pae morrêra devéras. Não

se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, não era festa,

não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa,

arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito

fizesse crescer a minha dôr de filho não é cousa que possa affirmar

ou negar; melhor é calar. O pae alli estava defunto, sem pulos,

nem danças, nem risadas, nem bandas de musica, cousas todas tambem

defuntas. Se me houvessem dito á saida da escola porque é que me iam lá

buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, donde

era agora expellida a punhadas.

Reliquias de Casa Velha · 第 4 / 11 段