A lamparina deu melhor corpo á realidade. Cordovil espancou as idéas

funebres e esperou que as alegres tomassem conta delle e dançassem

até cançal-o. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa

engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memoria de todos elles

era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente

extinctos. Gestos, scenas de sociedade e de familia, panoramas,

repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto.

Deixára de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse

agora a mastigal-os. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados,

cantos joviaes e tristes, e palavras de todos os feitios. O tacto, o

olfacto, todos fizeram o seu officio, durante um prazo que elle não

calculou.

Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não poude, nem do lado direito,

nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relogio;

eram tres horas. Insensivelmente levou-o á orelha a ver se estava

parado; estava andando, déra-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um

bom somno; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz.

Ah! foi então que o somno tentou entrar, calado e surdo, todo

cautellas, como seria a morte, se quizesse leval-o de repente, para

nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a

força accentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e

fez bem. O somno, que ia a recuar, tornou atraz, e veiu estirar-se ao

lado delle, passando-lhe aquelles braços leves e pesados, a um tempo,

que tiram á pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus

quiz conchegal-os ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra

á mão nem tempo de ir buscal-a. Digo só o resultado do gesto, que foi

arredar o somno de si, tão aborrecido ficou este reformador de cançados.

--Que terá elle hoje contra mim? perguntaria o somno, se falasse.

Tu sabes que elle é mudo por essencia. Quando parece que fala é o sonho

que abre a boca á pessoa; elle não, elle é a pedra, e ainda a pedra

fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha

rua. Cada pancada accorda na pedra um som, e a regularidade do gesto

torna aquelle som tão pontual que parece a alma de um relogio. Vozes

de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janella

batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua

e a noite de Cordovil. Tudo era propicio ao somno.

Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéa de amanhecer morto

appareceu outra vez. O somno recuou e fugiu. Esta alternativa durou

muito tempo. Sempre que o somno ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança

da morte os abria, até que elle sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu

uma janella e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns

vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para

o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era

frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janella.

Parece que era frio, porque não sentia mais nada.

A gente continuava a passar, o céu a clarear, e um assobio da estrada

de ferro deu signal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do

descanço; o céu fazia economia de estrellas, apagando-as, á medida

que o sol ia chegando para o seu officio. Tudo dava idéa de vida.

Naturalmente a idéa da morte foi recuando e desappareceu de todo,

emquanto o nosso homem, que suspirou por ella no Cassino, que a

desejou para o dia seguinte na Camara dos deputados, que a encarou no

carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o somno, seu irmão

mais velho,--ou mais moço, não sei.

Quando veiu a fallecer, muitos annos depois, pediu e teve a morte, não

subita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sae impuro

de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o

cemiterio. Agora é que lhe via a philosophia; em ambas as garrafas era

sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a

segunda. Morte subita não acabava de entender o que era.

Um capitão de voluntarios

Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclamação da Republica,

Simão de Castro fez inventario das cartas e apontamentos; rasgou tudo.

Só lhe ficou a narração que ides ler; entregou-a a um amigo para

imprimil-a quando elle estivesse barra fóra. O amigo não cumpriu a

recommendação por achar na historia alguma cousa que podia ser penosa,

e assim lh'o disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que

quizesse; não tendo vaidades literarias, pouco se lhe dava de vir ou

não a publico. Agora que os dous falleceram, e não ha egual escrupulo,

dá-se o manuscripto ao prelo.

* * * * *

Eramos dous, ellas duas. Os dous iamos alli por visita, costume,

desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, elle

meu amigo. Às tardes, sobre o jantar,--jantava-se cedo em 1866,--ia

alli fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janella, donde se via

um morro com casas em cima. A janella opposta dava para o mar. Não digo

a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro.

Occultarei o nome do meu amigo; ponhamos uma letra, X... Ella, uma

dellas, chamava-se Maria.

Quando eu entrava, já elle estava na cadeira de balanço. Os moveis da

sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X... estendia-me a

mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da janella, olho na sala, olho

na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro. Eramos nada um para o

outro; ligava-nos unicamente a affeição de X... Conversavamos; eu saía

para casa ou ia passear, elles ficavam e iam dormir. Algumas vezes

jogavamos cartas, ás noites, e, para o fim do tempo, era alli que eu

passava a maior parte destas.

Tudo em X... me dominava. A figura primeiro. Elle robusto, eu franzino;

a minha graça feminina, debil, desapparecia ao pé do garbo varonil

delle, dos seus hombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o pé

solido que, andando, batia rijo no chão. Dae-me um bigode escasso e

fino; vêde nelle as suissas longas, espessas e encaracoladas, e um dos

seus gestos habituaes, pensando ou escutando, era passar os dedos por

ellas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só

por serem grandes e bellos, mas por que riam mais e melhor que a boca.

Depois da figura, a edade; X... era homem de quarenta annos, eu não

passava dos vinte e quatro. Depois da edade, a vida; elle vivêra muito,

em outro meio, donde saíra a encafuar-se naquella casa, com aquella

senhora; eu não vivêra nada nem com pessoa alguma. Emfim,--e este rasgo

é capital,--havia nelle uma fibra castelhana, uma gotta do sangue que

circula nas paginas de Calderon, uma attitude moral que posso comparar,

sem depressão nem riso, á do heróe de Cervantes.

Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava já vinte e sete

annos, e parecia haver recebido alguma educação. Ouvi que o primeiro

encontro fôra em um baile de mascaras, no antigo Theatro Provisorio.

Ella trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro. Tinha os

pés admiraveis, e foram elles ou o seu destino a causa do amor de X...

Nunca lhe perguntei a origem da alliança; sei só que ella tinha uma

filha, que estava no collegio e não vinha á casa; a mãe é que ia vê-la.

Verdadeiramente as nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao

ponto de acceitar a situação sem a examinar.

Quando comecei a ir alli, não tinha ainda o emprego no banco. Só

dous ou tres mezes depois é que entrei para este, e não interrompi

as relações. Maria tocava piano; ás vezes, ella e a amiga Raymunda

conseguiam arrastar X... ao theatro; eu ia com elles. No fim, tomavamos

chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabavamos a

noite indo de carro a Botafogo.

A estas festas não ia Barreto, que só mais tarde começou a frequentar

a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite,

como saissemos de lá, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e

convidou-me a namoral-as.

--Tu escolhes uma, Simão, eu outra.

Estremecei e parei.

--Ou antes, eu já escolhi, continuou elle; escolhi a Raymunda. Gosto

muito da Raymunda. Tu, escolhe a outra.

--A Maria?

--Pois que outra ha de ser.

O alvoroço que me deu este tentador foi tal que não achei palavra de

recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necessario.

Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tres annos, mas

tinha a edade conveniente para ensinar-me a amar. Está dito, Maria.

Deitámo-nos ás duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto não

tinha que vencer muito; a eleita delle não trazia amores, mas até pouco

antes padecêra de uns que rompêra contra a vontade, indo o amante casar

com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia,

estando eu a almoçar, veiu annunciar-me que recebêra uma carta della, e

mostrou-m'a.

--Estão entendidos?

--Estamos. E vocês?

--Eu não.

--Então quando?

--Deixa ver; eu te digo.

Naquelle dia fiquei meio vexado. Com effeito, apezar da melhor vontade

deste mundo, não me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. Não

supponhas que era nenhuma paixão. Não tinha paixão, mas curiosidade.

Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de

uma força nova e mysteriosa; mas, por um lado, não amára nunca, e,

por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para

explicar escrupulos, mas unicamente para fazer comprehender o meu

acanhamento. Viviam juntos desde alguns annos, um para o outro. X...

tinha confiança em mim, confiança absoluta, communicava-me os seus

negocios, contava-me cousas da vida passada. Apezar da desproporção da

edade, eramos como estudantes do mesmo anno.

Como entrasse a pensar mais constantemente em Maria, é provavel que por

algum gesto lhe houvesse descoberto o meu recente estado; certo é que,

um dia, ao apertar-lhe a mão, senti que os dedos della se demoravam

mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio, encontrei-a

sellando uma carta para a Bahia. Ainda não disse que era bahiana? Era

bahiana. Ella é que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pôr o

sello e despedimo-nos. Á porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante

nós, parada, a figura de X...

--Vim trazer a carta para mamãe, apressou-se ella em dizer.

Despediu-se de nós e foi para casa; elle e eu tomámos outro rumo. X...

aproveitou a occasião para fazer muitos elogios de Maria. Sem entrar em

minudencias ácerca da origem das relações, assegurou-me que fôra uma

grande paixão egual em ambos, e concluiu que tinha a vida feita.

--Já agora não me caso; vivo maritalmente com ella, morrerei com ella.

Tenho só uma pena; é ser obrigado a viver separado de minha mãe. Minha

mãe sabe, disse-me elle parando. E continuou andando: sabe, e até já

me fez uma allusão muito vaga e remota, mas que eu percebi. Consta-me

que não desapprova; sabe que Maria é séria e boa, e uma vez que eu seja

feliz, não exige mais nada. O casamento não me daria mais que isto....

Disse muitas outras cousas, que eu fui ouvindo sem saber de mim; o

coração batia-me rijo, e as pernas andavam frouxas. Não atinava com

resposta idonea; alguma palavra que soltava, saia-me engasgada. Ao cabo

de algum tempo, elle notou o meu estado e interpretou-o erradamente;

suppoz que as suas confidencias me aborreciam, e disse-m'o rindo.

Contestei serio;

--Ao contrario, ouço com interesse, e trata-se de pessoa de toda a

consideração e respeito.

Penso agora que cedia inconscientemente a uma necessidade de

hypocrisia. A edade das paixões é confusa, e naquella situação não

posso discernir bem os sentimentos e suas causas. Entretanto, não é

fóra de proposito que buscasse dissipar no animo de X... qualquer

possivel desconfiança. A verdade é que elle me ouviu agradecido.

Os seus grandes olhos de creança envolveram-me todo, e quando nos

despedimos, apertou-me a mão com energia. Creio até que lhe ouvi dizer:

«Obrigado!»

Não me separei delle atterrado, nem ferido de remorsos previos. A

primeira impressão da confidencia esvaiu-se, ficou só a confidencia,

e senti crescer-me o alvoroço da curiosidade. X... falára-me de Maria

como de pessoa casta e conjugal; nenhuma allusão ás suas prendas

physicas, mas a minha edade dispensava qualquer referencia directa.

Agora, na rua, via de cór a figura da moça, os seus gestos egualmente

languidos e robustos, e cada vez me sentia mais fóra de mim. Em casa

escrevi-lhe uma carta longa e diffusa, que rasguei meia hora depois, e

fui jantar. Sobre o jantar fui á casa de X...

Eram ave-marias. Elle estava na cadeira de balanço, eu sentei-me no

logar do costume, olho na sala, olho no morro. Maria appareceu tarde,

depois das horas, e tão anojada que não tomou parte na conversação.

Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e saiu da sala.

--Maria accordou hoje com a mania de colher donativos para a guerra,

disse-me elle. Já lhe fiz notar que nem todos quererão parecer que...

Você sabe... A posição della... Felizmente, a idéa ha de passar; tem

dessas phantasias...

--E porque não?

--Ora, porque não! E depois, a guerra do Paraguay, não digo que

não seja como todas as guerras, mas palavra, não me enthusiasma. A

principio, sim, quando o Lopez tomou o _Marquez de Olinda_, fiquei

indignado; logo depois perdi a impressão, e agora, francamente, acho

que tinhamos feito muito melhor se nos alliassemos ao Lopez contra os

argentinos.

--Eu não. Prefiro os argentinos.

--Tambem gosto delles, mas, no interesse da nossa gente, era melhor

ficar com o Lopez.

--Não; olhe, eu estive quasi a alistar-me como voluntario da patria.

--Eu, nem que me fizessem coronel, não me alistava.

Elle disse não sei que mais. Eu, como tinha a orelha afiada, á escuta

dos pés de Maria, não respondi logo, nem claro, nem seguido; fui

engrolando alguma palavra e sempre á escuta. Mas o diabo da moça não

vinha; imaginei que estariam arrufados. Emfim, propuz cartas, podiamos

jogar uma partida de voltarete.

--Podemos, disse elle.

Passámos ao gabinete. X... poz as cartas na mesa e foi chamar a amiga.

Dalli ouvi algumas phrases sussurradas, mas só estas me chegaram claras:

--Vem! é só meia hora.

--Que massada! Estou doente.

Maria appareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era só meia

hora; tinha dormido mal, doia-lhe a cabeça e contava deitar-se cedo.

Sentou-se enfastiada, e começámos a partida. Eu arrependia-me de

haver rasgado a carta; lembravam-me alguns trechos della, que diriam

bem o meu estado, com o calor necessario a persuadil-a. Se a tenho

conservado, entregava-lh'a agora; ella ia muita vez ao patamar da

escada despedir-se de mim e fechar a cancella. Nessa occasião podia

dar-lh'a; era uma solução da minha crise.

Ao cabo de alguns minutos, X... levantou-se para ir buscar tabaco de

uma caixa de folha de Flandres, posta sobre a secretaria. Maria fez

então um gesto que não sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas á

altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava á

esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e attracção, que não sei

como não entrei por elles. Tudo foi rapido. Quando elle voltou fazendo

um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque,

fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tremulo; não obstante,

calculava tambem, com a differença de não poder falar. Ella disse então

com placidez uma das palavras do jogo, _passo_ ou _licença_.

Jogámos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente,

e foi o proprio X... que lhe disse que era melhor ir descançar.

Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapéo e a bengala.

Maria, á porta da sala, esperava que eu saisse e acompanhou-me até á

cancella, para fechal-a. Antes que eu descesse, lançou-me um dos braços

ao pescoço, chegou-me a si, collou-me os labios nos labios, onde elles

me depositaram um beijo grande, rapido e surdo. Na mão senti alguma

cousa.

--Boa noite, disse Maria fechando a cancella.

Não sei como não caí. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos

nos della, e a mão apertando instinctivamente um objecto. Cuidei de me

pôr longe. Na primeira rua, corri a um lampião, para ver o que trazia.

Era um cartão de loja de fazendas, um annuncio, com isto escripto nas

costas, a lapis: «Espere-me amanhã, na ponte das barcas de Nietheroy, a

uma hora da tarde.»

O meu alvoroço foi tamanho que durante os primeiros minutos não

soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emoções eram demasiado

grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu mal podia saber

de mim. Andei até ao largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o

cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava

perto, talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a despeito da

commoção, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Principes. Não dormi antes

da madrugada; ás seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as

agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei á ponte; já lá

achei Maria, envolvida n'uma capa, e com um veu azul no rosto. Ia sair

uma barca, entrámos nella.

O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia

movimento de lanchas, de aves, e o ceu luminoso parecia cantar a nossa

primeira entrevista. O que dissemos foi tão de atropello e confusão

que não me ficou mais de meia duzia de palavras, e dellas nenhuma foi

o nome de X... ou qualquer referencia a elle. Sentiamos ambos que

trahiamos, eu o meu amigo, ella o seu amigo e protector. Mas, ainda

que o não sentissemos, não é provavel que falassemos delle, tão pouco

era o tempo para o nosso infinito. Maria appareceu-me então como nunca

a vi nem suspeitára, falando de mim e de si, com a ternura possivel

naquelle logar publico, mas toda a possivel, não menos. As nossas

mãos collavam-se, os nossos olhos comiam-se, e os corações batiam

provavelmente ao mesmo compasso rapido e rapido. Pelo menos foi a

sensação com que me separei della, após a viagem redonda a Nictheroy e

S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou;

na volta, lembrei-lhe que nos mettessemos n'uma caleça fechada:

«Que idéa faria de mim?» perguntou-me com um gesto de pudor que a

transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu não

deixaria de ir vel-os, á noite, como de costume.

Como eu não tomei da penna para narrar a minha felicidade, deixo

a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e

palavras, e mais os sonhos e esperanças, as infinitas saudades e os

renascentes desejos. Taes aventuras são como os almanaks, que, com

todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e mezes, com os

seus eternos nomes e santos. O nosso almanak apenas durou um trimestre,

sem quartos minguantes nem occasos de sol. Maria era um modelo de

graças finas, toda vida, todo movimento. Era bahiana, como disse, fôra

educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando

lhe falei do seu primeiro encontro com X... no Theatro Provisorio,

dançando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fôra alli

vestida á castelhana e de mascara; e, como eu lhe pedisse a mesma

cousa, menos a mascara, ou um simples lundú nosso, respondeu-me como

quem recusa um perigo:

--Você poderia ficar doudo.

--Mas X... não ficou doudo.

--Ainda hoje não está em seu juizo, replicou Maria rindo. Imagina que

eu fazia isto só...

E em pé, n'um meneio rapido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver

o sangue.

O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquella casta. Maria

faltou um dia á entrevista. Era tão pontual que fiquei tonto quando

vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois

trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de um lado

para outro, na sala, no corredor, á espreita e á escuta, até que de

todo passou a possibilidade de vir. Poupo a noticia do meu desespero,

o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando

cancei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tambem,

explicando a falta. Não mandei a carta, e á noite fui á casa delles.

Maria poude explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada

por alguem que a perseguia desde algum tempo. Com effeito, havia-me

já falado em não sei que vizinho que a cortejava com instancia; uma

vez disse-me que elle a seguira até á porta da minha casa. Acreditei

na razão, e propuz-lhe outro logar de encontro, mas não lhe pareceu

conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas,

até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não comprehendi então

que a principal verdade era ter cessado nella o ardor dos primeiros

dias. Maria era outra, principalmente outra. E não pódes imaginar o que

vinha a ser essa bella creatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era

mais quente e mais fria que ninguem.

Quando me entrou a convicção de que tudo estava acabado, resolvi não

voltar lá, mas nem por isso perdia a esperança; era para mim questão de

esforço. A imaginação, que torna presentes os dias passados, fazia-me

crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao

cabo de cinco dias, voltei: não podia viver sem ella.

X... recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a mão

forte e sincera; perguntou a razão da minha ausencia. Alleguei uma

febresinha, e, para explicar o enfadamento que eu não podia vencer,

disse que ainda me doia a cabeça. Maria comprehendeu tudo; nem por

isso se mostrou meiga ou compassiva, e, á minha saida, não foi até ao

corredor, como de costume.

Tudo isto dobrou a minha angustia. A idéa de morrer entrou a passar-me

pela cabeça; e, por uma symetria romantica, pensei em metter-me na

barca de Nictheroy, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio

da bahia, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem outro. Tendo

encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacillei em lhe dizer

tudo; precisava de alguem para falar commigo mesmo. No fim pedi-lhe

segredo; devia pedir-lhe que especialmente não contasse nada a

Raymunda. Nessa mesma noite ella soube tudo. Raymunda era um espirito

aventureiro, amigo de entreprezas e novidades. Não se lhe dava, talvez,

de mim nem da outra, mas viu naquillo um lance, uma occupação, e cuidou

em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e é o que dá logar a

este papel.

Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quiz negar a principio, acabou

confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabeçada que déra. Usaria

provavelmente de circumloquios e synonymos, phrases vagas e truncadas,

alguma vez empregaria só gestos. O texto que ahi fica é o da propria

Raymunda, que me mandou chamar á casa della e me referiu todos os seus

esforços, contente de si mesma.

--Mas não perca as esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era

capaz de matar-se.

--E sou.

--Pois não se mate por ora; espere.

No dia seguinte vi nos jornaes uma lista de cidadãos que, na vespera,

tinham ido ao quartel-general apresentar-se como voluntarios da patria,

e nella o nome de X..., com o posto de capitão. Não acreditei logo;

mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia referencias

á familia de X..., ao pae, que fôra official de marinha, e á figura

esbelta e varonil do novo capitão; era elle mesmo.

A minha primeira impressão foi de prazer; iamos ficar sós. Ella não

iria de vivandeira para o Sul. Depois, lembrou-me o que elle me disse

ácerca da guerra, e achei extranho o seu alistamento de voluntario,

ainda que o amor dos actos generosos e a nota cavalheiresca do espirito

de X... pudessem explical-o. Nem de coronel iria, disse-me, e agora

acceitava o posto de capitão. Emfim, Maria; como é que elle, que tanto

lhe queria, ia separar-se della repentinamente, sem paixão forte que o

levasse á guerra?

Havia tres semanas que eu não ia á casa delles. A noticia do

alistamento justificava a minha visita immediata e dispensava-me de

explicações. Almocei e fui. Compuz um rosto ajustado á situação e

entrei. X... veiu á sala, depois de alguns minutos de espera. A cara

desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquella era

fechada e torva, além de pallida. Estendeu-me a mão, dizendo:

--Então, vem ver o capitão de voluntarios?

--Venho ouvir o desmentido.

--Que desmentido? É pura verdade. Não sei como isto foi, creio que as

ultimas noticias... Você porque não vem commigo?

--Mas então é verdade?

--É

Após alguns instantes de silencio, meio sincero, por não saber

realmente que dissesse, meio calculado, para persuadil-o da minha

consternação, murmurei que era melhor não ir, e falei-lhe na mãe. X...

respondeu-me que a mãe approvava; era viuva de militar. Fazia esforços

para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam

desviar-se, e geralmente não fitavam bem nem longo. Não conversámos

muito; elle ergueu-se, allegando que ia liquidar um negocio, e pediu-me

que voltasse a vel-o. Á porta, disse-me com algum esforço:

--Venha jantar um dia destes, antes da minha partida.

--Sim.

--Olhe, venha jantar amanhã.

--Amanhã?

--Ou hoje, se quizer.

--Amanhã.

Reliquias de Casa Velha · 第 3 / 11 段