Fui a Porto Alegre, alistei-me e marchei para a campanha. Não disse

a meu respeito nada que pudesse despertar a curiosidade de ninguem,

mas era difficil encobrir a minha condição, a minha origem, a minha

viagem com o plano de ir combater a revolução. Fez-se logo uma lenda a

meu respeito. Eu era um republicano antigo, riquissimo, enthusiasta,

disposto a dar pela Republica mil vidas, se as tivesse, e resoluto

a não poupar a unica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu

indagasse das forças revolucionarias com que estaria João da Fonseca,

alguem quiz ver nisto uma razão de odio pessoal; tambem não faltou

quem me suppozesse espião dos rebeldes, que ia pôr-me em communicação

secreta com aquelle. Pessoas que sabiam das relações delle com a

Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que se queria

vingar dos amores delle. Todas aquellas supposições morreram, para

só ficar a do meu enthusiasmo politico; a da minha espionagem ia-me

prejudicando; felizmente, não passou de duas cabeças e de uma noite.

Levava commigo um retrato de Maria Cora; alcançára-o della mesma,

uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma pequena dedicatoria

cerimoniosa. Já disse que estava em pleno romantismo; dado o primeiro

passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntae a isto o amor

proprio, e comprehendereis que de simples cidadão indifferente da

capital saisse um guerreiro aspero da campanha rio-grandense.

Nem por isso conto combates, nem escrevo para falar da revolução, que

não teve nada commigo, por si mesma, senão pela occasião que me dava,

e por algum golpe que lhe desfechei na estreita área da minha acção.

João da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte no

combate de Sarandy e Coxilla Negra, ouvi que o marido de Maria Cora

fôra morto, não sei em que recontro; mais tarde deram-me a noticia de

estar com as forças de Gumercindo, e tambem que fôra feito prisioneiro

e seguira, para Porto Alegre; mas ainda isto não era verdade. Disperso,

com dois camaradas, encontrei um dia um regimento legal que ia em

defeza da Encruzilhada, investida ultimamente por uma força dos

federalistas; apresentei-me ao commandante e segui. Ahi soube que João

da Fonseca estava entre essa força; deram-me todos os signaes delle,

contaram-me a historia dos amores e a separação da mulher.

A idéa de matal-o no turbilhão de um combate tinha algo phantastico;

nem eu sabia se taes duellos eram possiveis em semelhantes occasiões,

quando a força de cada homem tem de sommar com a de toda uma força

unica e obediente a uma só direcção. Tambem me pareceu, mais de uma

vez, que ia commetter um crime pessoal, e a sensação que isto me

dava, podeis crer que não era leve nem doce; mas a figura de Maria

Cora abraçava-me e absolvia com uma benção de felicidades. Atirei-me

de vez. Não conhecia João da Fonseca; além dos signaes que me haviam

dado, tinha de memoria um retrato delle que vira no Engenho Velho; se

as feições não estivessem mudadas, era provavel que eu o reconhecesse

entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro possivel? Os

combates em que eu entrára, já me faziam desconfiar que não era facil,

ao menos.

Não foi facil nem breve. No combate da Encruzilhada creio que me houve

com a necessaria intrepidez e disciplina, e devo aqui notar que eu me

ia acostumando á vida da guerra civil. Os odios que ouvia, eram forças

reaes. De um lado e outro batiam-se com ardor, e a paixão que eu

sentia nos meus ia-se pegando em mim. Já lêra o meu nome em uma ordem

do dia, e de viva voz recebêra louvores, que commigo não pude deixar de

achar justos, e ainda agora taes os declaro. Mas vamos ao principal,

que é acabar com isto.

Naquelle combate achei-me um tanto como o heróe de Stendhal na batalha

de Waterloo; a differença é que o espaço foi menor. Por isso, e tambem

porque não me quero deter em cousas de recordação facil, direi sómente

que tive occasião de matar em pessoa a João da Fonseca. Verdade é que

escapei de ser morto por elle. Ainda agora trago na testa a cicatriz

que elle me deixou. O combate entre nós foi curto. Se não parecesse

romanesco de mais, eu diria que João da Fonseca adivinhára o motivo e

previra o resultado da acção.

Poucos minutos depois da luta pessoal, a um canto da villa, João da

Fonseca caiu prostrado. Quiz ainda lutar, e certamente lutou um pouco;

eu é que não consenti na desforra, que podia ser a minha derrota, se

é que raciocinei; creio que não. Tudo o que fiz foi cego pelo sangue

em que o deixára banhado, e surdo pelo clamor e tumulto de combate.

Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficámos senhores do campo.

Quando vi que João da Fonseca morrêra devéras, voltei ao combate por

instantes; a minha ebriedade cessára um pouco, e os motivos primarios

tornaram a dominar-me, como se fossem unicos. A figura de Maria Cora

appareceu-me como um sorriso de approvação e perdão; tudo foi rapido.

Haveis de ter lido que alli se apprehenderam tres ou quatro mulheres.

Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado tudo, a Prazeres viu o

cadaver do amante, fez uma scena que me encheu de odio e de inveja.

Pegou em si e deitou-se a abraçal-o; as lagrimas que verteu, as

palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se não enterneceram,

deram algum sentimento de admiração. Eu, como digo, achei-me tomado de

inveja e odio, mas tambem esse duplo sentimento desappareceu para não

ficar nem admiração; acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dôr

a morte do amante, ficou sendo a federalista que já era; não vestia

farda, como dissera ao desafiar João da Fonseca, quiz ser prisioneira

com os rebeldes e seguir com elles.

É claro que não deixei logo as forças, bati-me ainda algumas vezes, mas

a razão principal dominou, e abri mão das armas. Durante o tempo em que

estive alistado, só escrevi duas cartas a Maria Cora, uma pouco depois

de encetar aquella vida nova,--outra depois do combate da Encruzilhada;

nesta não lhe contei nada do marido, nem da morte, nem sequer que

o vira. Unicamente annunciei que era provavel acabasse brevemente

a guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor allusão aos meus

sentimentos nem ao motivo do meu acto; entretanto, para quem soubesse

delles, a carta era significativa. Maria Cora só respondeu á primeira

das cartas, com serenidade, mas não com isenção. Percebia-se,--ou

percebia-o eu,--que, não promettendo nada, tudo agradecia, e, quando

menos, admirava. Gratidão e admiração podiam encaminhal-a ao amor.

Ainda não disse,--e não sei como diga este ponto,--que na Encruzilhada,

depois da morte de João da Fonseca, tentei degolal-o; mas nem queria

fazel-o nem realmente o fiz. O meu objecto era ainda outro e romanesco.

Perdoa-me tu, realista sincero, ha nisto tambem um pouco de realidade,

e foi o que pratiquei, de accôrdo com o estado da minha alma: o que

fiz foi cortar-lhe um molho de cabellos. Era o recibo da morte que eu

levaria á viuva.

VI

Quando voltei ao Rio de Janeiro, tinham já passado muitos mezes do

combate da Encruzilhada. O meu nome figurou não só em partes officiaes

como em telegrammas e correspondencias, por mais que eu buscasse

esquivar-me ao ruido e desapparecer na sombra. Recebi cartas de

felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro,

note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um

dia, sem ser esperado, metti-me na estrada de ferro e entrei na cidade.

Fui para a casa de pensão do Cattete.

Não procurei logo Maria Cora. Pareceu-me até mais acertado que a

noticia da minha vinda lhe chegasse pelos jornaes. Não tinha pessoa

que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma redacção contar o meu

regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo nome viesse em

lista nas folhas publicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo

uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se alli que viera de S. Paulo

e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com

adjectivos de louvor; emfim, que voltava á mesma pensão do Cattete.

Como eu só contára alguma cousa ao dono da casa, podia ser elle o autor

das notas; disse-me que não. Entrei a receber visitas pessoaes. Todas

queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada.

Entre os cartões, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras

de boas vindas. Não era preciso mais; restava-me ir agradecer-lhes,

e dispuz-me a isso; mas, no proprio dia em que resolvi ir ao Engenho

Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se podem, o

acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto ás

minhas mãos. A sensação que ia ter diante della tolheu-me inteiramente.

Sabendo-se qual foi o movel principal da minha acção militar, mal se

comprehende aquella hesitação; mas, se considerardes que, por mais que

me defendesse do marido e o matasse para não morrer, elle era sempre o

marido, terás entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal,

peguei em mim e fui á casa della.

Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a

tia, as felicitações escriptas. Falámos da guerra civil, dos costumes

do Rio Grande, um pouco de politica, e mais nada. Não se disse de João

da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria

disposta a casar conmigo.

--Não me parece que recuse, embora não lhe ache maneiras especiaes.

Creio até que está menos affavel que d'antes... Terá mudado?

Pensei assim, vagamente. Attribui a alteração ao estado moral da

viuvez; era natural. E continuei a frequental-a, disposto a deixar

passar a primeira phase do luto para lhe pedir formalmente a mão.

Não tinha que fazer declarações novas; ella sabia tudo. Continuou

a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia

tambem não, e da propria revolução não se falou mais. Pela minha

parte, tornando á situação anterior, busquei não perder tempo, fiz-me

pretendente com todas as maneiras do officio. Um dia, perguntei-lhe se

pensava em tornar ao Rio Grande.

--Por ora, não.

--Mas irá?

--É possivel; não tenho plano nem prazo marcado; é possivel.

Eu, depois de algum silencio, durante o qual olhava interrogativamente

para ella, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, não

alteraria nada em sua vida.

--A minha vida está tão alterada...

Não me entendera; foi o que suppuz. Tratei de me explicar melhor, e

escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira

e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a carta, dous dias depois, com

estas palavras:

--Desta vez não recusará ler-me.

Não recusou, acceitou a carta. Foi á saida, á porta da sala. Creio até

que lhe vi certa commoção de bom agouro. Não me respondeu por escripto,

como esperei. Passados tres dias, estava tão ancioso que resolvi ir

ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo: que me recusasse, que me

acceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a ultima hypothese,

se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido passar

alguns dias na Tijuca. Sai de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria

absolutamente casar; mas então era mais simples dizel-o ou escrevel-o.

Esta consideração trouxe-me esperanças novas.

Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu

a primeira carta, e eu lhe falei da minha paixão: «Supponha que eu

o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.» Era claro que

então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão decisiva para crer

o contrario, embora a apparencia fosse um tanto fria. Ultimamente,

entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por

sympathia, e não sei se por gratidão tambem; tive alguns vestigios

disso. Não obstante, não me deu resposta á segunda carta. Ao voltar da

Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe

falar na materia; a resposta foi que, por ora, estava disposta a não

casar.

--Mas um dia...? perguntei depois de algum silencio.

--Estarei velha.

--Mas então... será muito tarde?

--Meu marido póde não estar morto.

Espantou-me esta objecção.

--Mas a senhora está de luto.

--Tal foi a noticia que li e me deram; póde não ser exacta. Tenho visto

desmentir outras que se reputavam certas.

--Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso dal-a.

Maria Cora empallideceu. Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe

contasse tudo, mas tudo. A situação era tão penosa para mim que não

hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era intenção minha não lhe

contar nada, como não contára a ninguem, ia fazel-o, unicamente para

obedecer á intimação. E referi o combate, as suas phases todas, os

riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ancia com

que me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim,

dominou-se, e perguntou-me:

--Jura que me não está enganando?

--Para que a enganar? O que tenho feito é bastante para provar que sou

sincero. Amanhã, trago-lhe outra prova, se é preciso mais alguma.

Levei-lhe os cabellos que cortára ao cadaver. Contei-lhe,--e confesso

que o meu fim foi irrital-a contra a memoria do defunto,--contei-lhe

o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas lagrimas.

Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com

ciumes. Quando lhe mostrei os cabellos do marido, atirou-se a elles,

recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor

sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta á minha carta;

recusava casar.

Na resposta havia uma palavra que é a unica razão de escrever esta

narrativa: «Comprehende que eu não podia aceitar a mão do homem que,

embora lealmente, matou meu marido.» Comparei-a áquella outra que me

dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matal-o e voltar:

«Não creio que ninguem me ame com tal força.» E foi essa palavra que

me levou á guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda

dizer uma missa por alma do marido, no anniversario do combate da

Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difficil, nunca mais

esqueci dar corda ao relogio.

Marcha funebre

O deputado Cordovil não podia pregar olho uma noite de Agosto de 186...

Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do imperador, e

durante o baile não tivera o minimo incommodo moral nem physico. Ao

contrario, a noite foi excellente; tão excellente que um inimigo seu,

que padecia do coração, falleceu antes das dez horas, e a noticia

chegou ao Cassino pouco depois das onze.

Naturalmente conclues que elle ficou alegre com a morte do homem,

especie de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta

de outra. Digo-te que conclues mal; não foi alegria, foi desabafo.

A morte vinha de mezes, era daquellas que não acabam mais, e moem,

mordem, comem, trituram a pobre creatura humana. Cordovil sabia dos

padecimentos do adversario. Alguns amigos, para o consolar de antigas

injurias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a

uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as

auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil

pagava-lhes com alguma palavra de compaixão, que o alviçareiro

adoptava, e repetia, e era mais sincera naquelle que neste. Emfim

acabára de padecer; dahi o desabafo.

Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em

politica, não gostava do mal alheio. Quando resava, ao levantar da

cama: «Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome,

venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como

no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa as nossas dividas,

como nós perdoamos aos nossos devedores...» não imitava um de seus

amigos que resava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores,

como dizia de lingua; esse chegava a cobrar além do que elles lhe

deviam, isto é, se ouvia maldizer de alguem, decorava tudo e mais

alguma cousa, e ia repetil-o a outra parte. No dia seguinte, porém, a

bella oração de Jesus tornava a sair dos labios da vespera com a mesma

caridade de officio.

Cordovil não ia nas aguas d'esse amigo; perdoava devéras. Que entrasse

no perdão um tantinho de preguiça, é possivel, sem aliás ser evidente.

Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa mingoar força

á acção do mal. Não esqueça que o deputado só gostava do mal alheio

em politica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto á causa da

inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.

--Coitado! descançou, disse Cordovil.

Conversaram da longa doença do finado. Tambem falaram das varias mortes

d'este mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de Cesar, não por

motivo do ferro, mas por inesperada e rapida.

--_Tu quoque?_ perguntou-lhe um collega rindo.

Ao que elle, apanhando a allusão, replicou:

--Eu, se tivesse um filho, quizera morrer ás mãos delle. O parricidio,

estando fóra do commum, faria a tragedia mais tragica.

Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com somno, e foi

cochilando no carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa,

sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto,

que duas praças de policia estavam levantando do chão.

--Assassinado? perguntou elle ao lacaio, que descêra da almofada para

saber o que era.

--Não sei, não, senhor.

--Pergunta o que é.

--Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido,

que falava a outros.

O moço approximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse

ouvil-o. Referiu-lhe então em poucas palavras o accidente a que

assistira.

--Vinhamos andando, elle adeante, eu atraz. Parece que assobiava uma

polka. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o

passo, a modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um

doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e

disse que «morreu de repente». Foi-se juntando gente, a patrulha levou

muito tempo a chegar. Agora pegou delle. Quer ver o defunto?

--Não, obrigado. Já se póde passar?

--Póde.

--Obrigado. Vamos, Domingos.

Domingos trepou á almofada, o cocheiro tocou os animaes, e o carro

seguiu até á rua de S. Christovão, onde morava Cordovil.

Antes de chegar á casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido.

Em si mesma, era boa; comparada á do inimigo pessoal, excellente.

Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delicia passada ou em que

esperança futura; revivia o que vivêra, ou antevia o que podia viver,

senão quando, a morte pegou da delicia ou da esperança, e lá se foi o

homem ao eterno repouso. Morreu sem dôr, ou, se alguma teve, foi acaso

brevissima, como um relampago que deixa a escuridão mais escura.

Então poz o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do

Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta annos não dançavam.

Podia até dizer que elle só dançou até aos vinte. Não era dado a moças,

tivera uma affeição unica na vida,--aos vinte e cinco annos, casou e

enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe

faltassem noivas,--mórmente depois de perder o avô, que lhe deixou duas

fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver comsigo, fez duas viagens á

Europa, continuou a politica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado

de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão

dellas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da marinha, não passou

de sete mezes. Nem a pasta lhe deu gloria, nem a demissão desgosto. Não

era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.

Mas se lhe tivesse succedido morrer de repente no Cassino, ante uma

valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil

compoz de imaginação a scena, elle caido de bruços ou de costas, o

prazer turbado, a dança interrompida... e d'ahi podia ser que não; um

pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas,

a orchestra continuando por instantes a opposição do compasso e da

confusão. Não faltariam braços que o levasse para um gabinete, já

morto, totalmente morto.

--Tal qual a morte de Cesar, ia dizendo comsigo.

E logo emendou:

--Não, melhor que ella; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples

queda e o fim. Não sentiria nada.

Cordovil deu comsigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o

terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte

assim que após longos dias ou longos mezes e annos, como o adversario

que perdêra algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de

chapéo, que se perdia no ar com a propria mão e a alma que lhe déra

movimento. Um cochilo e o somno eterno. Achava-lhe um só defeito,--o

apparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do imperador, ao som

de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas publicas, essa morte

pareceria de encommenda. Paciencia, uma vez que fosse repentina.

Tambem pensou que podia ser na Camara, no dia seguinte, ao começar o

debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e

citações. Não quiz imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou

e appareceu de si mesmo. O salão da Camara, em vez do Cassino, sem

damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silencio. Cordovil em pé

começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o

ministro e fitar o presidente: «Releve-me a Camara que lhe tome algum

tempo, serei breve, buscarei ser justo...» Aqui uma nuvem lhe taparia

os olhos, a lingua pararia, o coração tambem, e elle cairia de golpe no

chão. Camara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados

correriam a erguel-o; um, que era medico, verificaria a morte; não

diria que fôra de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por

outro estylo mais technico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de

algumas palavras do presidente e escolha da commissão que acompanharia

o finado ao cemiterio...

Cordovil quiz rir da circumstancia de imaginar além da morte, o

movimento e o sahimento, as proprias noticias dos jornaes, que elle leu

de cór e depressa. Quiz rir, mas preferia cochilar; os olhos é que,

estando já perto de casa e da cama, não quizeram desperdiçar o somno, e

ficaram arregalados.

Então a morte, que elle imaginára pudesse ter sido no baile, antes

de sair, ou no dia seguinte em plena sessão da Camara, appareceu

alli mesmo no carro. Suppoz elle que, ao abrirem-lhe a portinhola,

déssem com o seu cadaver. Sairia assim de uma noite ruidosa para outra

pacifica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem especie alguma

de luta ou resistencia. O estremeção que teve fez-lhe ver que não era

verdade. Effectivamente, o carro entrou na chacara, estacou, e Domingos

saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com

as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava

com um castiçal e vela accesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e

os pés sentiam que os degraus eram d'este mundo; se fossem do outro,

desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a

cama; era a mesma dos somnos quietos e demorados.

--Veiu alguem?

--Não, senhor, respondeu o escravo distrahido, mas corrigiu logo: Veiu,

sim, senhor; veiu aquelle doutor que almoçou com meu senhor domingo

passado.

--Queria alguma cousa?

--Disse que vinha dar a meu senhor uma boa noticia, e deixou este

bilhete--que eu botei ao pé da cama.

O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam

contar-lhe a marcha da molestia. Quiz ser o primeiro a annunciar o

desenlace, um alegrão, com um abraço apertado. Emfim, morrêra o patife.

Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou

vinham a dar nelles, accrescendo que não attribuiu esse unico objecto

á visita. Vinha passar a noite; só alli soube que Cordovil fôra ao

Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que

lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e

ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e

exclamou a meia voz:

--Coitado! Vivam as mortes subitas!

Florindo, se referisse o gesto e a phrase ao doutor do bilhete, talvez

o fizesse arrepender da cançeira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor

a preparar-se para dormir, ouviu as ultimas ordens e despediu-se.

Cordovil deitou-se.

--Ah! suspirou elle estirando o corpo cançado.

Teve então uma idéa, a de amanhecer morto. Esta hypothese, a melhor de

todas, porque o apanharia meio morto, trouxe comsigo mil phantasias

que lhe arredaram o somno dos olhos. Em parte, era a repetição das

outras, a participação á Camara, as palavras do presidente, commissão

para o sahimento, e o resto. Ouviu lastimas de amigos e de famulos, viu

noticias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar

que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, á cama, a si mesmo:

estava accordado.

Reliquias de Casa Velha · 第 2 / 11 段