Uma noite, voltando para casa, trazia tanto somno que não de

ACABA DE SER PUBLICADO

O

Plano Pangermanista

desmascarado

A temivel cilada Berlineza da "=Partida Nulla="

POR

_André Chéradame_

Um vol. in-16 com 31 mappas no texto,

brochado, 4$000

Á venda na LIVRARIA GARNIER

_109, Rua do Ouvidor--Rio de Janeiro_

_Todos os direitos reservados_

MACHADO DE ASSIS

DA ACADEMIA BRASILEIRA

Reliquias

de

Casa Velha

H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

71, RUA DO OUVIDOR, 71

RIO DE JANEIRO

6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6

PARIS

1906

INDICE

ADVERTENCIA. I

A CAROLINA. III

Pae contra mãe. 1

Maria Cora. 19

Marcha funebre. 47

Um capitão de voluntarios. 59

Suje-se gordo! 79

Umas ferias. 87

Evolução. 99

Pylades e Orestes. 109

Anecdota do cabriolet. 125

Paginas criticas e commemorativas. 137

Não consultes medico. 167

Licção de botanica. 211

ADVERTENCIA

_Uma casa tem muita vez as suas reliquias, lembranças de um dia ou de

outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Suppõe que

o dono pense em as arejar e expôr para teu e meu desenfado. Nem todas

serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver

cuidado, póde extrair uma duzia dellas que mereçam sair cá fóra._

_Chama-lhe á minha vida uma casa, dá o nome de reliquias aos ineditos e

impressos que aqui vão, idéas, historias, críticas, dialogos, e verás

explicados o livro e o titulo. Possivelmente não terão a mesma supposta

fortuna daquella duzia de outras, nem todas valerão a pena de sair cá

fóra. Depende da tua impressão, leitor amigo, como dependerá de ti a

absolvição da má escolha._

MACHADO DE ASSIS.

A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro

Em que descanças dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquelle affecto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existencia appetecida

E n'um recanto poz um mundo inteiro.

Trago-te flores,--restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos.

Pae contra Mãe

A escravidão levou comsigo officios e apparelhos, como terá succedido

a outras instituições sociaes. Não cito alguns apparelhos senão por

se ligarem a certo officio. Um delles era o ferro ao pescoço, outro o

ferro ao pé; havia tambem a mascara de folha de Flandres. A mascara

fazia perder o vicio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a

bocca. Tinha só tres buracos, dous para ver, um para respirar, e era

fechada atraz da cabeça por um cadeado. Com o vicio de beber, perdiam

a tentação de furtar, porque geralmente era dos vintens do senhor

que elles tiravam com que matar a sêde, e ahi ficavam dous peccados

extinctos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal

mascara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o

grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, á

venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de mascaras.

O ferro ao pescoço era applicado aos escravos fujões. Imaginae uma

colleira grossa, com a haste grossa tambem, á direita ou á esquerda,

até ao alto da cabeça e fechada atraz com chave. Pesava, naturalmente,

mas era menos castigo que signal. Escravo que fugia assim, onde quer

que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Ha meio seculo, os escravos fugiam com frequencia. Eram muitos, e

nem todos gostavam da escravidão. Succedia occasionalmente apanharem

pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era

apenas reprehendida; havia alguem de casa que servia de padrinho, e

o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade

moderava a acção, porque dinheiro tambem dóe. A fuga repetia-se,

entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de

contrabando, apenas comprado no Vallongo, deitava a correr, sem

conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raros,

apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam

ganhal-o fóra, quitandando.

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lh'o

levasse. Punha annuncios nas folhas publicas, com os signaes do

fugido, o nome, a roupa, o defeito physico, se o tinha, o bairro por

onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia,

vinha promessa: «gratificar-se-ha generosamente,»--ou «receberá uma

boa gratificação.» Muita vez o annuncio trazia em cima ou ao lado uma

vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao hombro, e na

ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o

acoutasse.

Ora, pegar escravos fugidos era um officio do tempo. Não seria

nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei

e a propriedade, trazia esta outra nobreza implicita das acções

reivindicadoras. Ninguem se mettia em tal officio por desfastio ou

estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros

trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir tambem, ainda que

por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo

para pôr ordem á desordem.

Candido Neves,--em familia, Candinho,--é a pessoa a quem se liga a

historia de uma fuga, cedeu á pobreza, quando adquiriu o officio

de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não

aguentava emprego nem officio, carecia de estabilidade; é o que elle

chamava caiporismo. Começou por querer aprender typographia, mas viu

cedo que era preciso algum tempo para compôr bem, e ainda assim talvez

não ganhasse o bastante; foi o que elle disse a si mesmo. O commercio

chamou-lhe a attenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de

caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de attender e servir a

todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas

estava na rua por sua vontade. Fiel de cartorio, continuo de uma

repartição annexa ao ministerio do imperio, carteiro e outros empregos

foram deixados pouco depois de obtidos.

Quando veiu a paixão da moça Clara, não tinha elle mais que dividas,

ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de officio.

Depois de varias tentativas para obter emprego, resolveu adoptar o

officio do primo, de que aliás já tomára algumas licções. Não lhe

custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu

mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás

e relevos communs para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando

casasse, e o casamento não se demorou muito.

Contava trinta annos, Clara vinte e dous. Ella era orphã, morava com

uma tia, Monica, e cosia com ella. Não cosia tanto que não namorasse

o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não

tinham outro empenho. Passavam ás tardes, olhavam muito para ella,

ella para elles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O

que ella notava é que nenhum d'elles lhe deixava saudades nem lhe

accendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar,

naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se

o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só

para andar á roda da isca, miral-a, cheiral-a, deixal-a e ir a outras.

O amor traz sobrescriptos. Quando a moça viu Candido Neves, sentiu que

era este o possivel marido, o marido verdadeiro e unico. O encontro

deu-se em um baile; tal foi--para lembrar o primeiro officio do

namorado,--tal foi a pagina inicial daquelle livro, que tinha de sair

mal composto e peior brochado. O casamento fez-se onze mezes depois, e

foi a mais bella festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos

por amizade que por inveja, tentaram arredal-a do passo que ia dar.

Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda

algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.

--Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.

--Não, defunto não; mas é que...

Não diziam o que era. Tia Monica, depois do casamento, na casa pobre

onde elles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possiveis.

Elles queriam um, um só, embora viesse aggravar a necessidade.

--Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia á sobrinha.

--Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.

Tia Monica devia ter-lhes feito a advertencia, ou ameaça, quando elle

lhe foi pedir a mão da moça; mas tambem ella era amiga de patuscadas, e

o casamento seria uma festa, como foi.

A alegria era commum aos tres. O casal ria a proposito de tudo. Os

mesmos nomes eram objecto de trocados, Clara, Neves, Candido; não davam

que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ella

cosia agora mais, elle saía a empreitadas de uma cousa e outra; não

tinha emprego certo.

Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquelle

desejo especifico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia,

porém, deu signal de si a creança; varão ou femea, era o fructo

abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Monica

ficou desorientada, Candido e Clara riram dos seus sustos.

--Deus nos ha de ajudar, titia, insistia a futura mãe.

A noticia correu de visinha a visinha. Não houve mais que espreitar a

aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e

assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir

fazendo com retalhos o enxoval da creança. Á força de pensar nella,

vivia já com ella, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era

escassa, os intervallos longos. Tia Monica ajudava, é certo, ainda que

de má vontade.

--Vocês verão a triste vida, suspirava ella.

--Mas as outras creanças não nascem tambem? perguntou Clara.

--Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que

pouco...

--Certa como?

--Certa, um emprego, um officio, uma occupação, mas em que é que o pae

dessa infeliz creatura que ahi vem, gasta o tempo?

Candido Neves, logo que soube daquella advertencia, foi ter com a tia,

não aspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já

algum dia deixára de comer.

--A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo

quando não quer jantar commigo. Nunca deixámos de ter o nosso

bacalhau...

--Bem sei, mas somos tres.

--Seremos quatro.

--Não é a mesma cousa.

--Que quer então que eu faça, além do que faço?

--Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem

do armarinho, o typographo que casou sabbado, todos têm um emprego

certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a

occupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintem.

--Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não

me abandona, e preto fugido sabe que commigo não brinca; quasi nenhum

resiste, muitos entregam-se logo.

Tinha gloria nisto, falava da esperança como de capital seguro. Dahi a

pouco ria, e fazia rir á tia, que era naturalmente alegre, e previa uma

patuscada no baptisado.

Candido Neves perdera já o officio de entalhador, como abrira mão de

outros muitos, melhores ou peiores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe

um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia

força, olho vivo, paciencia, coragem e um pedaço de corda. Candido

Neves lia os annuncios, copiava-os, mettia-os no bolso e saía ás

pesquizas. Tinha boa memoria. Fixados os signaes e os costumes de um

escravo fugido, gastava pouco tempo em achal-o, segural-o, amarral-o

e leval-o. A força era muita, a agilidade tambem. Mais de uma vez, a

uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como

os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono,

a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atraz do

vicioso. Não o apanhava logo, espreitava logar azado, e de um salto

tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e

os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente elle os vencia sem o

menor arranhão.

Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham

já, como d'antes, metter-se nas mãos de Candido Neves. Havia mãos novas

e habeis. Como o negocio crescesse, mais de um desempregado pegou em

si e n'uma corda, foi aos jornaes, copiou annuncios e deitou-se á

caçada. No proprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que

as dividas de Candido Neves começaram de subir, sem aquelles pagamentos

promptos ou quasi promptos dos primeiros tempos. A vida fez-se difficil

e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos

alugueis.

Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta

era a necessidade de coser para fóra. Tia Monica ajudava a sobrinha,

naturalmente. Quando elle chegava á tarde, via-se-lhe pela cara que não

trazia vintem. Jantava e saía outra vez, á cata de algum fugido. Já

lhe succedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo

fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade.

Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu

grande somma de murros que lhe deram os parentes do homem.

--É o que lhe faltava! exclamou tia Monica, ao vel-o entrar, e depois

de ouvir narrar o equivoco e suas consequencias. Deixe-se disso,

Candinho; procure outra vida, outro emprego.

Candido quizera effectivamente fazer outra cousa, não pela razão do

conselho, mas por simples gosto de trocar de officio; seria um modo de

mudar de pelle ou de pessoa. O peior é que não achava á mão negocio que

aprendesse depressa.

A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado á mãe, antes

de nascer. Chegou o oitavo mez, mez de angustias e necessidades, menos

ainda que o nono, cuja narração dispenso tambem. Melhor é dizer somente

os seus effeitos. Não podiam ser mais amargos.

--Não, tia Monica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa

escrever, quanto mais ao pae ouvil-o. Isso nunca!

Foi na ultima semana do derradeiro mez que a tia Monica deu ao casal

o conselho de levar a creança que nascesse á Roda dos engeitados. Em

verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens

paes que espreitavam a creança, para beijal-a, guardal-a, vel-a rir,

crescer, engordar, pular... Engeitar quê? engeitar como? Candinho

arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de

jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quasi a se

desfazer inteiramente. Clara interveiu:

--Titia não fala por mal, Candinho.

--Por mal? replicou tia Monica. Por mal ou por bem, seja o que fôr,

digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne

e o feijão vão faltando. Se não apparecer algum dinheiro, como é que

a familia ha de augmentar? E depois, ha tempo; mais tarde, quando o

senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos

com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe

faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se

mata ninguem, ninguem morre á tôa, emquanto que aqui é certo morrer, se

viver á mingua. Enfim...

Tia Monica terminou a phrase com um gesto de hombros, deu as costas e

foi metter-se na alcova. Tinha já insinuado aquella solução, mas era

a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,--crueldade, se

preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o animo;

Candido Neves fez uma careta, e chamou maluca á tia, em voz baixa. A

ternura dos dous foi interrompida por alguem que batia á porta da rua.

--Quem é? perguntou o marido.

--Sou eu.

Era o dono da casa, credor de tres mezes de aluguel, que vinha em

pessoa ameaçar o inquilino. Este quiz que elle entrasse.

--Não é preciso...

--Faça favor.

O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos á mobilia para ver

se daria algo á penhora; achou que pouco. Vinha receber os alugueis

vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse

pago, pol-o-hia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros.

Ao vel-o, ninguem diria que era proprietario; mas a palavra suppria

o que faltava ao gesto, e o pobre Candido Neves preferiu calar a

retorquir. Fez uma inclinação de promessa e supplica ao mesmo tempo. O

dono da casa não cedeu mais.

--Cinco dias ou rua! repetiu, mettendo a mão no ferrolho da porta e

saindo.

Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao

desespero, contava com algum emprestimo, não sabia como nem onde,

mas contava. Demais, recorreu aos annuncios. Achou varios, alguns

já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas

sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou

recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietario,

não alcançando mais que a ordem de mudança.

A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que

lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia.

Tia Monica teve arte de alcançar aposento para os tres em casa de uma

senhora velha e rica, que lhe prometteu emprestar os quartos baixos

da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pateo. Teve ainda

a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Candido Neves,

no desespero da crise, começasse por engeitar o filho e acabasse

alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a

vida, em summa. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo,

mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa,

fal-os-hia espantar com a noticia do obsequio e iriam dormir melhor do

que cuidassem.

Assim succedeu. Postos fóra da casa, passaram ao aposento de favor,

e dous dias depois nasceu a creança. A alegria do pae foi enorme, e

a tristeza tambem. Tia Monica insistiu em dar a creança á Roda. «Se

você não a quer levar, deixe isso commigo; eu vou á rua dos Barbonos.»

Candido Neves pediu que não, que esperasse, que elle mesmo a levaria.

Notae que era um menino, e que ambos os paes desejavam justamente este

sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse á noite, assentou o

pae leval-o á Roda na noite seguinte.

Naquella reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As

gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a somma

escripta e escassa. Uma, porém, subia a cem mil réis. Tratava-se de uma

mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Candido Neves andára a

pesquizal-a sem melhor fortuna, e abrira mão do negocio; imaginou que

algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista

nova da quantia e a necessidade della animaram Candido Neves a fazer

um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela rua

e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ella parecia andar,

segundo o annuncio. Não a achou; apenas um pharmaceutico da rua da

Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, tres dias

antes, á pessoa que tinha os signaes indicados. Candido Neves parecia

falar como dono da escrava, e agradeceu cortezmente a noticia. Não foi

mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.

Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Monica

arranjára de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino

para ser levado á Roda. O pae, não obstante o accordo feito, mal poude

esconder a dôr do espectaculo. Não quiz comer o que Tia Monica lhe

guardára; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos

de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o proprio

albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada.

Tia Monica pintára-lhe a criação do menino; seria maior miseria,

podendo succeder que o filho achasse a morte sem recurso. Candido Neves

foi obrigado a cumprir a promessa; pediu á mulher que désse ao filho

o resto do leite que elle beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno

adormeceu, o pae pegou delle, e saiu na direcção da rua dos Barbonos.

Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com elle, é certo; não

menos certo é que o agazalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o

rosto para preserval-o do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha,

Candido Neves começou a afrouxar o passo.

--Hei de entregal-o o mais tarde que puder, murmurou elle.

Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabal-a; foi

então que lhe occorreu entrar por um dos beccos que ligavam aquella á

rua da Ajuda. Chegou ao fim do becco e, indo a dobrar á direita, na

direcção do largo da Ajuda, viu do lado opposto, um vulto de mulher;

era a mulata fugida. Não dou aqui a commoção de Candido Neves por não

podel-o fazer com a intensidade real. Um adjectivo basta; digamos

enorme. Descendo a mulher, desceu elle tambem; a poucos passos estava a

pharmacia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o

pharmaceutico, pediu-lhe a fineza de guardar a creança por um instante;

viria buscal-a sem falta.

--Mas...

Candido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rapido, atravessou

a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarme. No

extremo da rua, quando ella ia a descer a de S. José, Candido Neves

approximou-se della. Era a mesma, era a mulata fujona.

--Arminda! bradou, conforme a nomeava o annuncio.

Arminda voltou-se sem cuidar malicia. Foi só quando elle, tendo tirado

o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ella

comprehendeu e quiz fugir. Era já impossivel. Candido Neves, com as

mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quiz

gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume,

mas entendeu logo que ninguem viria libertal-a, ao contrario. Pediu

então que a soltasse pelo amor de Deus.

--Estou gravida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum

filho, peço-lhe por amor delle que me solte; eu serei sua escrava, vou

servil-o pelo tempo que quizer. Me solte, meu senhor moço!

--Siga! repetiu Candido Neves.

--Me solte!

--Não quero demoras; siga!

Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao

filho. Quem passava ou estava á porta de uma loja, comprehendia o que

era e naturalmente não acudia. Arminda ia allegando que o senhor era

muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,-- cousa que, no

estado em que ella estava, seria peior de sentir. Com certeza, elle lhe

mandaria dar açoutes.

--Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?

perguntou Candido Neves.

Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficára na

pharmacia, á espera delle. Tambem é certo que não costumava dizer

grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em

direcção á da Alfandega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta

cresceu; a escrava poz os pés á parede, recuou com grande esforço,

inutilmente. O que alcançou foi, apezar de ser a casa proxima, gastar

mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, emfim, arrastada,

desesperada, arquejando. Ainda alli ajoelhou-se, mas em vão. O senhor

estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.

--Aqui está a fujona, disse Candido Neves.

--É ella mesma.

--Meu senhor!

--Anda, entra...

Arminda caiu no corredor. Alli mesmo o senhor da escrava abriu a

carteira e tirou os cem mil reis de gratificação. Candido Neves guardou

as duas notas de cincoenta mil reis, emquanto o senhor novamente dizia

á escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dôr, e

após algum tempo de luta a escrava abortou.

O fructo de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos

da mãe e os gestos de desespero do dono. Candido Neves viu todo esse

espectaculo. Não sabia que horas eram. Quaesquer que fossem, urgia

correr á rua da Ajuda, e foi o que elle fez sem querer conhecer as

consequencias do desastre.

Quando lá chegou, viu o pharmaceutico sósinho, sem o filho que lhe

entregára. Quiz esganal-o. Felizmente, o pharmaceutico explicou tudo a

tempo; o menino estava lá dentro com a familia, e ambos entraram. O

pae recebeu o filho com a mesma furia com que pegára a escrava fujona

de ha pouco, furia diversa, naturalmente, furia de amor. Agradeceu

depressa e mal, e saiu ás carreiras, não para a Roda dos engeitados,

mas para a casa de emprestimo, com o filho e os cem mil reis de

gratificação. Tia Monica, ouvida a explicação, perdoou a volta do

pequeno, uma vez que trazia os cem mil reis. Disse, é verdade, algumas

palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.

Candido Neves, beijando o filho, entre lagrimas verdadeiras, abençoava

a fuga e não se lhe dava do aborto.

--Nem todas as creanças vingam, bateu-lhe o coração.

Maria Cora

I

Uma noite, voltando para casa, trazia tanto somno que não dei corda

ao relogio. Póde ser tambem que a vista de uma senhora que encontrei

em casa do commendador T. contribuisse para aquelle esquecimento;

mas estas duas razões destróem-se. Cogitação tira o somno e o somno

impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos

que nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relogio parado, de manhã,

quando me levantei, ouvindo dez horas no relogio da casa.

Morava então (1893) em uma casa de pensão no Cattete. Já por esse

tempo este genero de residencia florescia no Rio de Janeiro. Aquella

era pequena e tranquilla. Os quatrocentos contos de réis permittiam-me

casa exclusiva e propria; mas, em primeiro logar, já eu alli residia

quando os adquri, por jogo de praça; em segundo logar, era um solteirão

de quarenta annos, tão affeito á vida de hospedaria que me seria

impossivel morar só. Casar não era menos impossivel. Não é que me

faltassem noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama,--e não das

menos bellas,--olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das

filhas do commendador tratava-me com particular attenção. A nenhuma dei

corda; o celibato era a minha alma, a minha vocação, o meu costume, a

minha unica ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas

aventuras por anno bastavam a um coração meio inclinado ao occaso e á

noite.

Talvez por isso dei alguma attenção á senhora que vi em casa do

commendador, na vespera. Era uma creatura morena, robusta, vinte e oito

a trinta annos, vestida de escuro; entrou ás dez horas, acompanhada de

uma tia velha. A recepção que lhe fizeram, foi mais cerimoniosa que as

outras; era a primeira vez que alli ia. Eu era a terceira. Perguntei se

era viuva.

--Não; é casada.

--Com quem?

--Com um estancieiro do Rio Grande.

--Chama-se?

--Elle? Fonseca, ella Maria Cora.

--O marido não veiu com ella?

--Está no Rio Grande.

Não soube mais nada; mas a figura da dama interessou-me pelas graças

physicas, que eram o opposto do que poderiam sonhar poetas romanticos

e artistas seraphicos. Conversei com ella alguns minutos, sobre cousas

indifferentes,--mas sufficientes para escutar-lhe a voz, que era

musical, e saber que tinha opiniões republicanas. Vexou-me confessar

que não as professava de especie alguma; declarei-me vagamente pelo

futuro do paiz. Quando ella falava, tinha um modo de humedecer os

beiços, não sei se casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas

assim ao pé, as feições não eram tão correctas como pareciam a

distancia, mas eram mais suas, mais originaes.

II

De manhã tinha o relogio parado. Chegando á cidade, desci a rua do

Ouvidor, até á da Quitanda, e indo a voltar á direita, para ir ao

escriptorio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram. Não me

acudiu que o relogio estava parado.

--Que massada! exclamei.

Felizmente, naquella mesma rua da Quitanda, á esquerda, entre as do

Ouvidor e Rosario, era a officina onde eu comprára o relogio, e a

cuja pendula usava acertal-o. Em vez de ir para um lado, fui para

outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relogio, acertei-o, troquei

duas palavras com o official que estava ao balcão, e indo a sair, vi

á porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem

menos que a senhora de escuro que encontrára em casa do commendador.

Comprimentei-a, ella correspondeu depois de alguma hesitação, como se

me não houvesse reconhecido logo, e depois seguiu pela rua da Quitanda

fóra, ainda para o lado esquerdo.

Como tivesse algum tempo ante mim (pouco menos de trinta minutos),

dei-me a andar atraz de Maria Cora. Não digo que uma força violenta

me levasse já, mas não posso esconder que cedia a qualquer impulso de

curiosidade e desejo; era tambem um resto da juventude passada. Na rua,

andando, vestida de escuro, como na vespera, Maria Cora pareceu-me

ainda melhor. Pisava forte, não apressada nem lenta, o bastante

para deixar ver e admirar as bellas fórmas, mui mais correctas que

as linhas do rosto. Subiu a rua do Hospicio, até uma officina de

ocularista, onde entrou e ficou dez minutos ou mais. Deixei-me estar

a distancia, fitando a porta disfarçadamente. Depois saiu, arrepiou

caminho, e dobrou a rua dos Ourives, até á do Rosario, por onde subiu

até ao largo da Sé; dahi passou ao de S. Francisco de Paula. Todas

essas reminiscencias parecerão escusadas, senão aborreciveis; a mim

dão-me uma sensação intensa e particular, são os primeiros passos de

uma carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ella evitava

subir a rua do Ouvidor, que todos e todas buscariam áquella ou a outra

hora para ir ao largo de S. Francisco de Paula. Foi atravessando o

largo, na direcção da Escola Polytechnica, mas a meio caminho veiu

ter com ella um carro que estava parado defronte da Escola; metteu-se

nelle, e o carro partiu.

A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquelle

momento achei-me deante de uma assaz complicada, mas não tive tempo de

escolher direcção,--nem tempo nem liberdade. Ainda agora não sei como

é que me vi dentro de um tilbury; é certo que me vi nelle, dizendo ao

cocheiro que fosse atraz do carro.

Maria Cora morava no Engenho Velho; era uma boa casa, solida, posto

que antiga, dentro de uma chacara. Vi que morava alli, porque a tia

estava a uma das janellas. Demais, saindo do carro, Maria Cora disse ao

cocheiro (o meu tilbury ia passando adeante) que naquella semana não

sairia mais, e que apparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida,

entrou pela chacara, como dona della, e parou a falar ao feitor, que

lhe explicava alguma cousa com o gesto.

Voltei depois que ella entrou em casa, e só muito abaixo é que me

lembrou de ver as horas; era quasi uma e meia. Vim a trote largo até á

rua da Quitanda, onde me apeei á porta do advogado.

--Pensei que não vinha, disse-me elle.

--Desculpe, doutor, encontrei um amigo que me deu uma massada.

Não era a primeira vez que mentia na minha vida, nem seria a ultima.

III

Fiz-me encontradiço com Maria Cora, na casa do commendador, primeiro,

e depois em outras. Maria Cora não vivia absolutamente reclusa, dava

alguns passeios e fazia visitas. Tambem recebia, mas sem dia certo,

uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da intimidade. O

sentimento geral é que era pessoa de fortes sentimentos e austeros

costumes. Accrescentae a isto o espirito, um espirito agudo, brilhante

e viril. Capaz de resistencias e fadigas, não menos que de violencias e

combates, era feita, como dizia um poeta que lá ia á casa della, «de um

pedaço de pampa e outro de pampeiro.» A imagem era um verso e rima, mas

a mim só me ficou a idéa e o principal das palavras. Maria Cora gostava

de ouvir definir-se assim, posto não andasse mostrando aquellas forças

a cada passo, nem contando as suas memorias da adolescencia. A tia é

que contava algumas, com amor, para concluir que lhe saia a ella, que

tambem fôra assim na mocidade. A justiça pede que se diga que, ainda

agora, apezar de doente, a tia era pessoa de muita vida e robustez.

Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha. Não me pesa confessal-o, pois

foi a occasião da unica pagina da minha vida que merece attenção

particular. Vou narral-a brevemente; não conto novella nem direi

mentiras.

Gostei de Maria Cora. Não lhe confiei logo o que sentia, mas é provavel

que ella o percebesse ou adivinhasse, como todas as mulheres. Se a

descoberta ou adivinhação foi anterior á minha ida á casa do Engenho

Velho, nem assim deveis censural-a por me haver convidado a ir alli uma

noite. Podia ser-lhe então indifferente a minha disposição moral; podia

tambem gostar de se sentir querida, sem a menor idéa de retribuição. A

verdade é que fui essa noite e tornei outras; a tia gostava de mim e

dos meus modos. O poeta que lá ia, tagarella e tonto, disse uma vez que

estava afinando a lyra para o casamento da tia commigo. A tia riu-se;

eu, que queria as boas graças della, não podia deixar de rir tambem, e

o caso foi materia de conversação por uma semana; mas já então o meu

amor á outra tinha attingido ao cume.

Soube, pouco depois, que Maria Cora vivia separada do marido. Tinham

casado oito annos antes, por verdadeira paixão. Viveram felizes cinco.

Um dia, sobreveiu uma aventura do marido que destruiu a paz do casal.

João da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo, uma chilena que

voava em cima do cavallo, Dolores, e deixou a estancia para ir atraz

della. Voltou seis mezes depois, curado do amor, mas curado á força,

porque a aventureira se namorou do redactor de um jornal, que não tinha

vintem, e por elle abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha

jurado não acceitar mais o esposo, e tal foi a declaração que lhe fez

quando elle appareceu na estancia.

--Tudo está acabado entre nós; vamos desquitar-nos.

João da Fonseca teve um primeiro gesto de accordo; era um quadragenario

orgulhoso, para quem tal proposta era de si mesma uma offensa. Durante

uma noite tratou dos preparativos para o desquite; mas, na seguinte

manhã, a vista das graças da esposa novamente o commoveram. Então, sem

tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe que

deixasse passar uns seis mezes. Se ao fim de seis mezes, persistisse o

sentimento actual que inspirava a proposta do desquite, este se faria.

Maria Cora não queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto

Alegre e fôra passar algumas semanas na estancia, interveiu com boas

palavras. Antes de tres mezes estavam reconciliados.

--João, disse-lhe a mulher no dia seguinte ao da reconciliação, você

deve ver que o meu amor é maior que o meu ciume, mais fica entendido

que este caso da nossa vida é unico. Nem você me fará outra, nem eu lhe

perdoarei nada mais.

João da Fonseca achava-se então em um renascimento do delirio conjugal;

respondeu á mulher jurando tudo e mais alguma cousa. Aos quarenta

annos, concluiu elle, não se fazem duas aventuras daquellas, e a minha

foi de doer. Você verá, agora é para sempre.

A vida recomeçou tão feliz, como d'antes,--elle dizia que mais. Com

effeito, a paixão da esposa era violenta, e o marido tornou a amal-a

como outr'ora. Viveram assim dous annos. Ao fim desse tempo, os ardores

do marido haviam diminuido, alguns amores passageiros vieram metter-se

entre ambos. Maria Cora, ao contrario do que lhe dissera, perdoou

essas faltas, que aliás não tiveram a extensão nem o vulto da aventura

Dolores. Os desgostos, entretanto, appareceram e grandes. Houve scenas

violentas. Ella parece que chegou mais de uma vez a ameaçar que se

mataria; mas, posto não lhe faltasse o preciso animo, não fez tentativa

nenhuma, a tal ponto lhe doia deixar a propria causa do mal, que era

o marido. João da Fonseca percebeu isto mesmo, e acaso explorou a

fascinação que exercia na mulher.

Uma circumstancia politica veiu complicar esta situação moral. João da

Fonseca era pelo lado da revolução, dava-se com varios dos seus chefes,

e pessoalmente detestava alguns dos contrarios. Maria Cora, por laços

de familia, era adversa aos federalistas. Esta opposição de sentimentos

não seria bastante para separal-os, nem se póde dizer que, por si

mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em tudo,

não o fosse menos em condemnar a revolução, chamando nomes crús aos

seus chefes e officiaes; embora o marido, tambem excessivo, replicasse

com egual odio, os seus arrufos politicos apenas augmentariam os

domesticos, e provavelmente não passariam dessa troca de conceitos, se

uma nova Dolores, desta vez Prazeres, e não chilena nem saltimbanca,

não revivesse os dias amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao

partido da revolução, não só pelos sentimentos, como pelas relações da

vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era bella e airosa;

João da Fonseca era tambem um homem gentil e seductor. Podiam amar-se

fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, até

que um decisivo determinou a separação do casal.

Já cuidavam disto desde algum tempo, mas a reconciliação não seria

impossivel, apesar da palavra de Maria Cora, graças á intervenção da

tia; esta havia insinuado á sobrinha que residisse tres ou quatro mezes

no Rio de Janeiro ou em S. Paulo. Succedeu, porém, uma cousa triste

de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaçou a mulher com o

rebenque. Outra versão diz que elle tentára esganal-a. Quero crer que

a veridica é a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar á

violencia de João da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar.

Maria Cora não disse mais uma só palavra ao marido. A separação foi

immediata; a mulher veiu com a tia para o Rio de Janeiro, depois de

arranjados amigavelmente os interesses pecuniarios. Demais, a tia era

rica.

João da Fonseca e Prazeres ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras

que não importa escrever aqui. Só uma cousa interessa directamente á

minha narração. Tempos depois da separação do casal, João da Fonseca

estava alistado entre os revolucionarios. A paixão politica, posto

que forte, não o levaria a pegar em armas, se não fosse uma especie

de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos delle,

mas ainda este ponto é obscuro. A versão é que ella, exasperada com o

resultado de alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarçada

em homem, vestir farda de soldado e bater-se pela revolução. Era capaz

disto; o amante disse-lhe que era uma loucura, ella acabou propondo-lhe

que, nesse caso, fosse elle bater-se em vez della; era uma grande prova

de amor que lhe daria.

--Não te tenho dado tantas?

--Tem, sim; mas esta é a maior de todas, esta me fará captiva até á

morte.

--Então agora ainda não é até á morte? perguntou elle rindo.

--Não.

Póde ser que as cousas se passassem assim. Prazeres era, com effeito,

uma mulher caprichosa e imperiosa, e sabia prender um homem por laços

de ferro. O federalista, de quem se separou para acompanhar João

da Fonseca, depois de fazer tudo para rehavel-a, passou á campanha

oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido

vinte annos, sem querer saber de mulheres nem de politica. João da

Fonseca acabou cedendo; ella pediu para acompanhal-o, e até bater-se,

se fosse preciso; elle negou-lh'o. A revolução triumpharia em breve,

disse; vencidas as forças do governo, tornaria á estancia, onde ella o

esperaria.

--Na estancia, não, respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre.

IV

Não importa dizer o tempo que despendi nos inicios da minha paixão,

mas não foi grande. A paixão cresceu rapida e forte. Afinal senti-me

tão tomado della que não pude mais guardal-a commigo, e resolvi

declarar-lh'a uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove

horas (accordava ás quatro) d'aquella vez não pregou olho, e, ainda que

o fizesse, é provavel que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e

na rua senti uma vertigem egual á que me deu a primeira paixão da minha

vida.

--Sr. Corrêa, não vá cair, disse a tia quando eu passei á varanda,

despedindo-me.

--Deixe estar, não caio.

Passei mal a noite; não pude dormir mais de duas horas, aos pedaços, e

antes das cinco estava em pé.

--É preciso acabar com isto! exclamei.

De facto, não parecia achar em Maria Cora mais que benevolencia e

perdão, mas era isso mesmo que a tornava appetecivel. Todos os amores

da minha vida tinham sido faceis; em nenhuma encontrei resistencia,

a nenhuma deixei com dôr; alguma pena, é possivel, e um pouco de

recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora

era toda vida; parece que, ao pé della, as proprias cadeiras andavam

e as figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de

meiguice e graça; finalmente, a ternura da tia fazia d'aquella creatura

um anjo. É banal a comparação, mas não tenho outra.

Resolvi cortar o mal pela raiz, não tornando ao Engenho Velho, e assim

fiz por alguns dias largos, duas ou tres semanas. Busquei distrair-me

e esquecel-a, mas foi em vão. Comecei a sentir a ausencia como de um

bem querido; apesar d'isso, resisti e não tornei logo. Mas, crescendo

a ausencia, cresceu o mal, e emfim resolvi tornar lá uma noite. Ainda

assim póde ser que não fosse, a não achar Maria Cora na mesma officina

da rua da Quitanda, aonde eu fôra acertar o relogio parado.

--É freguez tambem? perguntou-me ao entrar.

--Sou.

--Vim acertar o meu. Mas, porque não tem apparecido?

--É verdade, porque não voltou lá á casa? completou a tia.

--Uns negocios, murmurei; mas, hoje mesmo contava ir lá.

--Hoje não; vá amanhã, disse a sobrinha. Hoje vamos passar a noite

fóra.

Pareceu-me ler naquella palavra um convite a amal-a de vez, assim como

a primeira trouxera um tom que presumi ser de saudade. Realmente,

no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora acolheu-me com a

mesma boa vontade de antes. O poeta lá estava e contou-me em verso os

suspiros que a tia dera por mim. Entrei a frequental-as novamente e

resolvi declarar tudo.

Já acima disse que ella provavelmente percebera ou adivinhára o que eu

sentia, como todas as mulheres; referi-me aos primeiros dias. D'esta

vez com certeza percebeu, nem por isso me repelliu. Ao contrario,

parecia gostar de se ver querida, muito e bem.

Pouco depois d'aquella noite escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho

Velho. Achei-a um pouco retrahida; a tia explicou-me que recebera

noticias do Rio Grande que a affligiram. Não liguei isto ao casamento,

e busquei alegral-a; apenas consegui vel-a cortez. Antes de sair,

perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: «Peço-lhe que

leia», mas a voz não saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar

dizer o que melhor ia escripto, comprimentei-a e enfiei pelo jardim.

Póde imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente

egual, á medida que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, não tornei

á casa d'ella; resolvi esperar tres ou quatro dias, não que ella me

escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da resposta. Que estes

haviam de ser sympathicos, era certeza minha; as maneiras della, nos

ultimos tempos, eram mais que affaveis, pareciam-me convidativas.

Não cheguei, porém, aos quatro dias; mal pude esperar tres. Na noite

do terceiro fui ao Engenho Velho. Se disser que entrei tremulo da

primeira commoção, não minto. Achei-a ao piano, tocando para o poeta

ouvir; a tia, na poltrona, pensava em não sei qué, mas eu quasi não a

vi, tal a minha primeira allucinação.

--Entre, Sr. Correia, disse esta; não caia em cima de mim.

--Perdão...

Maria Cora não interrompeu a musica; ao ver-me chegar, disse:

--Desculpe, se lhe não dou a mão, estou aqui servindo de musa a este

senhor.

Minutos depois, veiu a mim, e estendeu-me a mão com tanta galhardia,

que li nella a resposta, e estive quasi a dar-lhe um agradecimento.

Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim desse tempo, ella

pretextou um livro, que estava em cima das musicas, e pediu-me para

dizer se o conhecia; fomos alli ambos, e ella abriu-m'o; entre as duas

folhas estava um papel.

--Na outra noite, quando aqui esteve, deu-me esta carta; não podia

dizer-me o que tem dentro?

--Não adivinha?

--Posso errar na adivinhação.

--É isso mesmo.

--Bem, mas eu sou uma senhora casada, e nem por estar separada do meu

marido deixo de estar casada. O senhor ama-me, não é? Supponha, pelo

melhor, que eu tambem o amo; nem por isso deixo de estar casada.

Dizendo isto, entregou-me a carta; não fôra aberta. Se estivessemos

sós, é possivel que eu lh'a lesse, mas a presença de extranhos

impedia-me este recurso. Demais, era desnecessario; a resposta de Maria

Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e antes de a

guardar commigo:

--Não quer então ler?

--Não.

--Nem para ver os termos?

--Não.

--Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, matal-o e

voltar, disse eu cada vez mais tonto.

--Propõe isto?

--Imagine.

--Não creio que ninguem me ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe,

que estão reparando em nós.

Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu

fiquei ainda alguns segundos com o livro na mão, como se devéras o

examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte della. Os tres

conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas

e legalistas, e da varia sorte delles. O que eu então senti não se

escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi

uma especie de vertigem, um delirio, uma scena pavorosa e lucida,

um combate e uma gloria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros,

combatendo os federalistas, e afinal matando João da Fonseca, voltando

e casando-me com a viuva. Maria Cora contribuia para esta visão

seductora; agora, que me recusára a carta, parecia-me mais bella que

nunca, e a isto accrescia que se não mostrava zangada nem offendida,

tratava-me com egual carinho que antes, creio até que maior. Disto

podia sair uma impressão dupla e contraria,--uma de acquiescencia

tacita, outra de indifferença, mas eu só via a primeira, e sai de lá

completamente louco.

O que então resolvi foi realmente de louco. As palavras de Maria Cora:

«Não creio que ninguem me ame com tal força»--soavam-me aos ouvidos,

como um desafio. Pensei nellas toda a noite, e no dia seguinte fui ao

Engenho Velho; logo que tive occasião de jurar-lhe a prova, fil-o.

--Deixo tudo o que me interessa, a começar pela paz, com o unico fim de

lhe mostrar que a amo, e a quero só e santamente para mim. Vou combater

a revolta.

Maria Cora fez um gesto de deslumbramento. Daquella vez percebi que

realmente gostava de mim, verdadeira paixão, e se fosse viuva, não

casava com outro. Jurei novamente que ia para o Sul. Ella commovida,

estendeu-me a mão. Estavamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os

meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me

os romances em versos de cavalleiros andantes que iam á Terra-Santa

libertar o sepulcro de Christo por amor da fé e da sua dama. Estavamos

em pleno romantismo.

V

Fui para o Sul. Os combates entre legalistas e revolucionarios eram

continuos e sangrentos, e a noticia d'elles contribuiu a animar-me.

Entretanto, como nenhuma paixão politica me levava a entrar na luta,

força é confessar que por um instante me senti abatido e hesitei. Não

era medo da morte, podia ser amor da vida, que é um synonymo; mas, uma

ou outra cousa, não foi tal nem tamanha que fizesse durar por muito

tempo a hesitação. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem

eu por carta do Rio de Janeiro dissera muito reservadamente que ia lá

por motivos politicos. Quiz saber quaes.

--Naturalmente são reservados, respondi tentando sorrir.

--Bem; mas uma cousa creio que posso saber, uma só, porque não sei

absolutamente o que pense a tal respeito, nada havendo antes que me

instrua. De que lado estás, legalistas ou revoltosos?

--É boa! Se não fosse dos legalistas, não te mandaria dizer nada; viria

ás escondidas.

--Vens com alguma commissão secreta do marechal?

--Não.

Não me arrancou então mais nada, mas eu não pude deixar de lhe

confiar os meus projectos, ainda que sem os seus motivos. Quando

elle soube que aquelles eram alistar-me entre os voluntarios que

combatiam a revolução, não poude crer em mim, e talvez desconfiasse

que effectivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca

da minha parte ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo.

Entretanto, não perdeu tempo em despersuadir-me; pessoalmente era

legalista e falava dos adversarios com odio e furor. Passado o espanto,

acceitou o meu acto, tanto mais nobre quanto não era inspirado por

sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bella e

heroica, propria a levantar o animo de quem já tivesse tendencia para a

luta. Eu não tinha nenhuma, fóra das razões particulares; estas, porém,

eram agora maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de

Maria Cora, dando-me noticias dellas, e recommendações da sobrinha,

tudo com alguma generalidade e certa sympathia verdadeira.

Reliquias de Casa Velha · 第 1 / 11 段