titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua
primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de
toda a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias
atrocissimas d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram
bem conhecidas dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque
não souberam, ou porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram
ao successo o nome de «catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar
o que era patente e publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e
enredo occulto, nada explicaram na sua «anti-catastrophe», documento
mediano e mal traçado para o fim, e para o grande empenho da causa e da
questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e degrada apoucando o
assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e desviar a
attenção do horror da catastrophe.
Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta
vergonhosa historia da usurpação; as suas monographias são como memorias
de encommenda que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar
algum erro ou para afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim
da historia não curam nem tratam: porque a prevenção da historia é o
erro, e com este rumo ninguem póde navegar nem progredir. Attribuem
geralmente os protestantes aquelle sinistro ao partido cardinalicio de
Roma, segundo o seu costume e petulante ousadia de calumniadores, que
commetteu o delicto para o assoalhar e publicar por um lado
attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro lado
desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma
imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso
empenho confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é
como a luz mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em
toda a parte onde estiver encerrado o homem pela maior tyrannia para
alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme debaixo da
lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto não
revela o enigma da sua escura sepultura.
A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da
historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a
boa critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e
verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A
Divina Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da
injuria; o demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o
facto permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes
só no echo até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir
no decurso dos seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e
medonho ou funesto e assustador até para o demonio que o gera e produz.
Sôa do orgão a tuba, e não é a mão do homem que fere a tecla, nem a
musica e pensamento do seu compositor que produz a melodia. Devia o
homem vêr no arcano a sciencia divina, que deu ao ar modulado pelo
instrumento a euphonica sympathia dos sons e o gentil devaneio do mais
accorde accento.
O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que
julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito
verdadeiro da sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo
catholico; porque só n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos
de maior vergonha apenas cabe a profana chula de tabernal comedia, e a
ironia da musica. A arpa é instrumento real, a lira só a tange a poesia
e a verdadeira inspiração que o Senhor concede ou nega ao cantor pelo
moto da trova e pelo pensamento da sua religião e virtude. A historia
verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e pedinte--eis o dilemma unico
da sciencia, e o programma que o escriptor competente sempre encontra
diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a que se propõe e
persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do canto pelo
sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as suas
abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem
possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa
catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple
do seu desenfado sem sonhar com opiparo e somnolento banquete; e por
isso todas as suas lôas acabam em comer.
O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os
homens do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e
profissões só pelo benigno e precioso metal que auferem e adoram--e
d'estes é sempre o maior numero; o actual enche de eunuchos todos os
theatros e d'histriões a comedia d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco.
Que mais diremos d'este reprobo e amphibio meteoro, senão que jámais
deixa de se converter contra o inventor e mais obstinado sectario? o
ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, ou machina de pura
digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho herdeiro dispor o
cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos eunuchos sempre a
mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem proletario.
Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões
para aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo
ha de rir do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos,
e fazer duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter
necessidade de fugir da sua sanha, e sem accelerar o passo do seu
domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil e
desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da
sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e
decifrai os signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do
que as memorias que deviam retratar os seus pensamentos de historiador,
e apenas contém a sombra da sua ignominia e proterva hediondez e
peçonha.
Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi
synonymo de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o
direito é dar pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é
o mesmo que entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais
desleal e traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido
que póde formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a
usurpação; os seus meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais
desleal e machiavelica, e o perpetuo enredo do engano; o estribilho
protestante, o punhal do forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega
da patria perdida ao mais ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do
demonio. A sua authoridade sempre falsa não impera, pactua em toda a
parte com os maiores scelerados, e consegue fins mediocres e resultados
de dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina
roubam-se uns aos outros.
Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais
negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas
primeiramente o rei não pôde usurpar, nas provincias nem em
Traz-os-Montes, em segundo lugar a usurpação veio toda a pertencer aos
caudilhos, que o governaram e dominaram e á sua lei mental e miseravel
recurso; que só pôde communicar a seu filho com o mais tetrico e
deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor pela abominavel
traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o cardeal
romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o
escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa
de Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza
faziam entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia
real, que era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado
deixava-se vencer, e cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado
pelo melhor tabaco e café de Moca, e pelos prazeres reunidos do seu
abominavel harem.
A lei mental foi uma medida deficientissima para o seu fim, mas prova
até que ponto é verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O
padre santo durante o interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens
á casa de Bragança;--disse então a abominavel facção: entregar os bens é
o mesmo que entregar a corôa;--e logo faziam um processo com grande
numero de testemunhas para provar que não havia successor á corôa, e que
D. João I por esta falta de successor fôra justamente acclamado.
Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria protestante, que aitribuiam a João
das Regras, e davam ao falso documento o cunho das côrtes de Coimbra,
aonde não foi nem podia ser apresentada sem grande irrisão e escarneo de
todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque de Bragança para
desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os herejes e
fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa fundar-se na
apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é de um
anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou,
irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que
usurpava os bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta
figura só para desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os
histriões do torpe magnetismo das façanhas da estrada orçam pelo mesmo
vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia
proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa
tyrannia. Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes
serviços que fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr
obeliscos devidos ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os
francezes, foi para entregar e vender a patria e os penates, os templos
e a sua santidade, as mulheres e todo o verniz do rosto vil e infame do
idolo das suas abjectas heresias e traições: se algum militar brioso e
valente do exercito appareceu no Brazil foi vendido tres vezes,
ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não assignava os mais
falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos que preparavam
e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do nosso
exercito peninsular.
Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da
usurpação? porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos
seculos modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao
Senhor a menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente
sombra de galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o
rei gemeu na sua escravidão de toda a vida, os usurpadores conspiraram,
escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o principio Divino
triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e não ha
obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que calou
na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do
novilho.
A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel,
e deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar
no decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido
usurpador é como a familia dos flamengos e dos ciganos--prova e reprova
todas gerações e partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas
pela ultima arma do veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida
estava como o condestavel atormentado pelos remorsos; este deixou os
bens usurpados aos outros aventureiros, e pediu esmola á porta do
convento com bastante industria e sagacidade; aquelle seria morto na
mesma possilga em que vivia, se tentasse restituir a corôa; porque a
verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos ministros da sua historica
realeza.
A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no
banco dos réos, no ultimo transe de vida, ou no meio da mais funesta
desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe como o furacão através
dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca as arvores com a
sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e morreu;--quem
estrangulou o monarcha? o processo começado das provas evidentes de
testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são estes
em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para
descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os
males da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em
virtude de uma queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a
dirigir ao cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia
vergava debaixo do peso de invenciveis remorsos, mas que não podia
entregar á casa de Bragança uma corôa sem entregar a vida aos seus
tyrannos e crueis usurpadores, e algozes, e d'estes tirava o seu seguro
e pedia desaggravo e redempção.
D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção
e um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança
não contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da
esterilidade. O que D. Duarte pedia para os falsos donatarios, e
verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de aleive e da
calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as successões
são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de
familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo--o seu castigo providencial
vai sendo identico da mesma catastrophe e represalia.
Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a
sua verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem
a virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o
horror das suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa
mordacidade e peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de
Diu, Barros e Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre
Cesar das suas façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque
temia mais a calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que
tomava pela frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem
estremecer do vulcão.
Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta
memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples
academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e acreditasse na Divina
Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os herejes attribuem
ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos recursos. Em regra,
moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e pelo signal da
sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior desprezo para
fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe veniaga.
D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque;
todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e
brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os
dous primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos
mesmos meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a
excommunhão e o interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo
desenlace, e a mesma reprovação e condemnação divina. O conde da
Ericeira escreveu n'esta era a sua vergonhosa historia; o conde era
verdadeiro sandeu; o author de «Portugal Restaurado» recebeu a falsa
herança de uma casa; e trabalhoso no appetite fazendo do conde o fundo
da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela astucia mais que
diabolica de que se servia no empenho. Apenas concluiu o seu trabalho,
disse: Dai-me o premio;--e apenas se viu senhor do falso titulo e casa,
disse: Dai-me o preço da obra;--e fez d'esta outra historia um thesouro
para se enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João
das Regras; porque a sua original possilga nunca se descobriu nem
annunciou, e dizia-se que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao
pé da feira da Ladra de uma mulher, que vendia a chanfana do açougue
pelas portas de Lisboa, e que apregoava pelas ruas maior engano.
Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de
Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição
em Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de
sustentar a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar
e sem horror o monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se
recreava com o vil officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I
principiou a considerar como proprios da corôa todos os bens da casa
real de Bragança; D. João dispunha como duque e como senhor de todos os
bens para imitar ou produzir a realeza e invicta memoria do senhor D.
Manoel I. Esta questão tinha sido tratada e muito debatida na primeira
época; todos se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus
bens como prova heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João
professou o erro em Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de
Calvino semelhante ao que foi expulso das Necessidades em nossos dias
pelo clamor do povo e pela justa queixa da parte sensata e catholica do
reino. Todos os herejes são monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu
preito o juramento da loja que o falso rei presta ao veneravel, e se o
rei tem o falso cargo jura como rei ao immediato sujeição e obediencia
ás decisões maçonicas, e como são muitas as lojas, a cada passo se vê
partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a sua monarchia pelas
seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o vislumbre do poder.
Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e
brigantino de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é
o dos bens da casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais
feroz engano. As seitas e os corrilhos, que se formam das fezes de todos
os partidos estrangeiros e execraveis contam como elemento uma vez que o
lisonjeie e afoute para maior roubo e façanha da contribuição e da
injuria que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas
todas sobem, e todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o
que nos resta a provar para complemento da catastrophe e para sua prova
real e exuberante.
Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes
recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns
valentões, que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e não podia ser
esta força angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o
rei se fazia forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragança
a cuja frente estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta
difficuldade em conceder as redeas do governo ao presumido successor.
Este conflicto nasceu e cresceu da mesma antiga causa de todas as
discordias da usurpação, e pelo motivo da injuria que tinham feito á
casa de Bragança e ao seu popular e heroico senhorio. D'esta vez o
governo pontificio ainda não estava resolvido a ceder; não faria a menor
concessão de reconhecimento sem a absoluta e total entrega dos bens de
Bragança ou dos bens da corôa, e D. Affonso estava resolvido a todos os
sacrificios, uma vez que achasse uma collocação em Roma e um modo de
viver ou uma absolvição vantajosa para o seu arrumo e fim. Esta deve ser
a ambição do usurpador que nasce; o seu throno não offerece encantos,
nem póde servir de balisa para a gloria verdadeira e santa que se embebe
na felicidade do povo e no heroismo e façanha.
N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que
fosse tão corajoso e tão absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir
ou sahir do reino para não soffrer a perda da liberdade; tentou o
impossivel, e quebrou pela reconhecida prevaricação e má fé da nova e
falsa casa de Bragança, que seu pai organisou em Lisboa como partido
protestante para sustentar a negra e atroz usurpação: estes factos são
innegaveis. O _Joannes à regulis_ da primeira usurpação era um hereje
estrangeiro semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. João
IV tinha na sua côrte um ministro protestante da convenção de Cromwell,
e todos os usurpadores dos bens da casa de Bragança deviam ser da mesma
seita e falso cunho: D. Affonso VI abraçava a doutrina catholica, e,
consoante os bons principios de direito, devia perder o titulo de rei;
e, se em vez de casar em França, fosse ao reino ceder da corôa,
lisonjearia o reino catholico, e podia obter a liberdade, que outro
Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso conservou a corôa e por esta
razão o povo portuguez não podia ingerir-se na questão para defender o
preso; D. Pedro, seu irmão, era nimiamente cruel, mas não temia o
partido de seu irmão, porque não o tinha: D. Pedro tambem não tinha o
partido da nação, e por isso affectava grande humanidade para com seu
irmão, e grande respeito pelas côrtes, que sempre o repelliram e
despeitaram amargamente.
D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmão para o privar de
todos os seus estados até o dar por demente e por impotente, aceitou a
mesma mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de
rainha, D. Pedro julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo
de rei; e parecia logico que a deposição perpetua de Affonso o
investisse na authoridade real, e o coroasse rei em vez de regente; o
titulo de principe não lhe podia competir, nem o de infante, que pouco
tempo depois começaram a usar por inaudita usurpação e roubo, e pelo
mais atroz anachronismo os filhos segundos d'esta familia de D. João IV.
Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragança D. João
IV e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho
segundo para prevenir a falta de successor pelo receio da morte do
principe, e uma supposição e um embuste indigno, ou um meio de que se
servia a atroz calumnia da usurpação dos bens para tirar a D. Affonso VI
o que lhe tinha ficado da casa de Bragança e para os dar ao seu
predilecto: e por esta razão veio a D. Affonso o desejo de restituir, e
occorreu á facção o pensamento de depôr o insensato. Assim manejou a
perfida intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas
as eras procura colher e alcançar o seu unico fim que é o roubo pela
pertinaz heresia e pelo mais atroz engano e enredo.
D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe
negou o tratamento; as nações não cessavam de o responsabilisar pela
vida do infeliz e proscripto; e já se julgava que fazia guardar como rei
um homem estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez
prender e reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do
tumulto dos seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido
d'aquella supposta revolução para declarar novamente como doudo o triste
que se deixou cahir no laço. D. Pedro a cada passo reunia as côrtes do
reino sempre na esperança de que o reconhecessem rei, mas jámais o
conseguiu pela grande desaffeição e justo odio que tinha merecido e
grangeado.
A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se
assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os
bens de Bragança e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por
almoxarifes que nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as
terras juizes, e assalariava por todo o genero de engano os cobradores
da falsa e aleivosa renda, e por esta fórma constituiu as suas
instituições e morgados: o povo reagia contra a usurpação, mas o rei e o
governo, o infante e os seus almoxarifes conspiravam, e apesar do odio
do povo que não podia ser mais justo nem mais bem merecido colhiam e
recolhiam do roubo grandes interesses e mortificavam o povo com exacções
de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam do seu fim primordial e
applicavam para outro de maior escandalo e torpeza.
O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas
jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a
figurar por alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua
mudança para a ilha é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam
abaixo de toda a critica: D. Affonso VI não era admittido a escrever; o
mesmo governo de D. Pedro fingiu ou suppôz as cartas para dar ao preso a
laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido
se temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e
como existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro.
Com effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por
morto na ilha para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D.
Pedro em côrtes a pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que
tomasse o titulo e o tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador
hereje, e injusto possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com
isto se houve por acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha
realeza.