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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 5--MAIO
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
Petronilla, Gamarra, Zamperini--Entrada para os salões--Os salões,
introducção, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Ecce iterum
«Silva» Chrispinus--Santos-Silva--Doudo Illustre--A
catastrophe--Renan--Correcções--Mau exemplo de poetas casados--A casa de
Bragança «ab ovo»--Um inquisidor portuguez e o principe de
Gales--Trilogia da «Actualidade»
PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI
Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos
argentarios portuguezes no seculo XVIII.
Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745.
Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros
diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas
cabeças, sem respeitar as testas coroadas.
Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta.
Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com
as «princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye
denomina as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso
Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas não esbanjava em
galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas
transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as
actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O
fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia
hombrear em proezas de galã com algum frade bernardo de costumes
suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu
camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor
platonico. Havia no theatro o _camarote dos frades_, collocado por baixo
do camarote das açafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os
monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas
não passavam d'estes resfolegos os frades.
A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos
fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, _morceau
friand_,--dizia o cavalheiro de Oliveira--que só aos grandes senhores
competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante.
D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se
illaquear n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de
ouro e pedras.
Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras
carregadas de riquezas--diz Francisco Xavier de Oliveira--e acrescenta
que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou
eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja.
(_OEuvres mêlées..._ Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a
enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a ternura. A
final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte
menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se
capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo
passo que o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos
comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio.
* * * * *
Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos
antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano
Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e
cortezão--assevera Francisco Xavier de Oliveira.--D. João V dava-lhe uma
pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina
tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados
como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com
as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a boa philosophia, a
boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E assim viveu e
medrou longos annos em Lisboa.
Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e
algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada
dançarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra,
quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de
grande fôlego.
Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro,
justiçado como regicida em 1758.
Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados;
e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade
matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.
Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o
descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a
instar com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da
ordem de Santo Agostinho.
E professou.
O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como
mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D.
Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que
tragico destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo
da libertinagem, com cabellos brancos.
E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias,
instillando-lhe no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral.
O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao
paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos
quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa
Monica.
--Vês tu quanto te amo?--disse o marquez--dei-te a preferencia, entre ti
e o rei.
--Se fizesses outra cousa nunca mais me verias--replicou ella
abespinhando-se.
--Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!...
--O teu dever é esse... _Antes que todo es mi dama_, diz Calderon de la
Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco
amor me tens.
_J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul
mot de ma façon_, diz o cavalheiro de Oliveira, (_OEuvres mêlées_, t.
3.º p. 34).
Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má
digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns
merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim
da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira
alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de
Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o
velho marquez á cova:
«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o
Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a,
e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella
quanto cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz
monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa,
o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos,
socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances á
vingança do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques
de encontro á coragem intrepida de Noronha... Era elle, porém, o
possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas
vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o
aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez,
authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve
nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do
marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto
pôde por demorar tão injusta prisão, vingando d'est'arte os manes do
marquez, seu sobrinho.» (_Obra cit._, pag. 34 e 35).
O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões
atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a
sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e
escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, _maus bichos os
comem_, como disse o Sá de Miranda.
Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra,
d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto
conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no
dia 9 de março de 1723.
O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a
Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de
brilhantes... _Il me fit voir_ (diz o amigo de Noronha) _entre ses
propres mains ce même portrait du marquis, le même jour qu'il en avail
fait présent à son infidele Gamarra._
Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a
preceito, _mieux que personne_:
«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era
moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em
todos os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava
igualmente o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente
estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha.» (_Obra cit._, pag.
35).
Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir
do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada
oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda não era frade.
Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio
de seu homem, como era de justiça. O marido sondou a profundidade do seu
direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao
patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos á annullação
dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com
o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao
marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro,
metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de
Madrid. (_Obra cit._, pag. 33, nota _A_).
Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar
como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro
visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a
quem o rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o
nome de _carvoeiro da Rosa_. Ao proposito d'esta perigosa cigana,
escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:
«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da
astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos
desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu
enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos.
Este pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo.
Induziu ella um galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o
desgraçado; foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» (_Obra
cit._, pag. 66).
O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de
cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram
pela catastrophe da forca.
Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida
do Monte contra o desembargador aguazil do _carvoeiro_. Diziam assim:
Oh! descahido te vejam
Estes olhos peccadores:
Arrastado e perseguido
Já que perco os meus amores.
Todas nós, as freiras juntas
Te havemos de praguejar
Pois por caber com el-rei
Nos vaes desacreditar!
Justiça de Deus te cáia,
E com todo o seu poder;
Na bocca de um bacamarte
Te vejamos padecer.
Homem, deixa-nos viver,
Não sejas tão turbulento;
Deixa divertir as tristes
Que não sahem do convento.
Etc.
Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII,
perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.
--Que livros?
--A _Historia do theatro portuguez_, onde elle conta pouco mais ou menos
essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do actor
hespanhol Antonio Ruiz.
Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio.
Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como
o leitor vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a
culpa, confrontando o original e o plagiato.
ELLE
(EM 1871)
_Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos
annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho,
historiador e palaciano._ Era homem de bem tanto ás direitas como
actor de merito. _Do seu_ porte _honrado_ redundou-lhe _uma pensão
annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido
das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos
prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._
HIST. DO THEATRO PORT.
EU
(EM 1866)
_Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos
annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho,
historiador e palaciano._ Era tão homem de bem quanto actor de
merecimento. _Do seu_ proceder _honrado_ resultou-lhe _uma pensão
annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido
das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos
prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._
O JUDEU (romance).
Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco
Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca
viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porém, no acto da copia,
deslisei da versão do professor de litteratura em tres pontos. 1.º Elle
escreveu em 1871: _Era homem de bem tanto ás direitas como auctor de
merito_; e eu escrevi em 1866: _Era tão homem de bem quanto author de
merecimento._ E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: _Il étoit aussi
homme de bien qu'il etoit Acteur de mérite._ O _tanto ás direitas_ do
snr. Theophilo é uma perola de estylo de que eu não quiz defraudal-o nem
_ás tortas_. 2.º ponto: Elle disse: _do seu porte honrado_. E eu,
gafando a phrase de francezia, puz _proceder_ em lugar de _porte_. Foi
ignorancia que me pesa como _porte_ ou carreto; mas ainda me fica
_porte_ ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me
quero dar _porte_ ou importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando
em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pôz
_redundou-lhe_, e eu _resultou-lhe_. Do feitio que elle escreveu a idéa
fica mais aceada. Na nova edição do _Judeu_ hei de apanhar-lhe o
_redundou-lhe_ que é bom.
No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes
lhe armei a sancadilha de chamar Antonio _Rodrigues_ ao actor hespanhol
que nunca foi _Rodrigues_; mas sim _Ruiz_. Faz-se mister sestro de muito
mentir para enganar um homem, de quem se copía o engano cinco annos
depois! Parece enguiço! O cavalheiro de Oliveira escreveu _Ruiz_. Cuidei
que era abreviatura de _Rodrigues_, e lá vai a peta de recochête lograr
o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me
desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor
como e quando, se é que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do
doutor Theophilo.
Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em
casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto
d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes
decimas:
Victor! já chegou a gente
de Madrid, tão esperada,
e já foi agasalhada
do seu superintendente.
Este padre impertinente
se intitula em Portugal
Dom Hieronomio de tal,
e _Cancer_ tambem seria,
pois á sua enfermaria
puxa as damas do hospital.
Porém, viva o tal padrinho!
só a taes afilhadas chega;
que á Undarro, e á gallega
abençôa o seu carinho.
E baptisa de caminho
com fé pia e fervorosa
a dama em flôr magestosa,
confirmada no primor;
porém, se a Undarro é flôr
tombem a gallega é Rosa.
..............................
..............................
Com que já por uma vez,
temos boa companhia,
graças ao nosso Atouguia
que tal companhia fez,
Em fim, já chegou Garcez,[1]
galan de primeira classe,
que eu não cuidei que chegasse;
e já muita gente diz
que morreu Antonio Ruiz;
mas _requiescat in pace_.
_Amen._
Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de
traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me
d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasião de
recommendar certo livro escripto portuguezmente:
.........................................................................
«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio
dos sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues!
Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna
letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as
suas cousas originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua
ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar
com linguas teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas
fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos
latrocinios que elles cá nos fizeram em 1808. Se os não citava, tambem
elles lá não disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos
arrebanharam nas igrejas. Retaliação justa.
«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo,
não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a
ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e
cimentados na singularidade bordalenga com que transpõe idéas
peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, coxas,
esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados
d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas
desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre
sobrepuja o phosphoro.
«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas
para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a
furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a
flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim!
«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações
atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E
prometto lembrar-lh'as.
«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas
negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de
viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais
intelligente e manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo
que, lá ao diante, se saiba quo morri na desconfiança de que o snr.
Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os
applausos do gentio lôrpa.»
Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui
apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me
capaz de copiar de toda a gente.
* * * * *
Agora, direi da Zamperini.
Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das
forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos
documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano.
Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em
quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro
para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um
systema que não é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela
mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de
espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graça.
Iam então dous quadrilheiros trazêl-o da enfermaria dos orates em
direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado até ao palco.
Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um
desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava
gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a
epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam
ao seu cubiculo no hospital de S. José.
Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I,
condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres
illustres que capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei
nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras,
filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.
Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no
holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise
da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos
capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por
ordem do ministro.
Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura,
figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma
banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:
Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout,
puis que vous êtes dans un país de fous.
Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que
ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe
beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em
inglez:
The true property of an englishman
T'is to pay and despise.........[2]
E mais abaixo:
Mylord, dont kiss her hand,
Because she has no face,
But kiss her... her... her...
Kiss her elsewhere[3]
Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que
figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos:
A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime;
allons, prenez l'exemple, et vous serez de même.
Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça mette a bolsa na algibeira, e dá
visos de safar-se, com estes versos:
Lasciate agli altri, amico, la campagna,
questa sol con quatrini si guadagna.
A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode
á cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra:
Macedo, não te cances,
Pois os gostos são diversos;
Zamperini estima o ouro,
E nada entende de versos.
E assim termina a relamboria semsaboria.
Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla
nota de Verdier _Hyssope_. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, hoje
em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras
glaciaes em ternuras de camarins.
[1] O snr. Theophilo a pag. 151 e 152 do tom. 3.º do seu _Theatro
portuguez_ desmente o Pinto Brandão, dizendo que o _Garcez não
veio_. O doutor, 141 annos depois, estava mais em dia que o poeta,
redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. Theophilo
é unico!
[2] O que bem caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar.
[3] Mylord, talvez vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a
mão, etc.
ENTRADA PARA OS SALÕES
Eu não contava com a gloria e o contentamento de estampar nas _Noites de
insomnia_ o livro completo de physiologia social, intitulado--OS SALÕES.
Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde
tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra.
Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão
benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença
de 1:000 subscriptores.
E, pois que a publicação dos SALÕES principiou aqui desacompanhada da
introducção indispensavel ao complexo dos capitulos, forçoso é que se
interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado irá ao
entendimento dos trechos que já leu e dos outros que advierem.
Este livro dos SALÕES será a porção mais para durar e sobreviver ás
futilidades das _Noites de insomnia_. O visconde de Ouguella, ainda em
annos florentes e vigorosos, póde dizer com o velho e experimentado
Rousseau: _Je sens mon coeur et je connais les hommes_. O seu livro
esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas
e pungentes ironias de Proudhon--aquelle vidente que Deus mandou
apregoar a prophecia da destruição debaixo dos muros da segunda
Jerusalem derruida.
A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os
SALÕES, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, vê pelos olhos da
historia--a Fatalidade inflexa--; e emerge á flôr d'estes parceis, que
nos atormentam, as evoluções da Providencia.
Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O
melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma
balbuciação em linguagem nova.
A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de
Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de
Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes
em que o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não
se compadece com uns corações que nasceram velhos.
Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do
passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos
pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que
moralisemos as _massas_. Mas sejamos todos _massas_ em quanto o povo--a
arraia das hortas e das galerias parlamentares--desconfiar que lhe desce
do alto o exemplo que a dissolve e acanalha.
O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á
feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em _palavras de
crente_, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay.
Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se
alguma hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a
infamia assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho
José Freire. Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das
casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis
seus Pansas.
E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras
da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos SALÕES, e peço ao
visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto
lhe deparou o manuscripto do desembargador.
OS SALÕES
INTRODUCÇÃO
... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir
pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière
sous le ténébreux manteau de l'océan.
THEOPHILE GAUTIER.
Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri
o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei
o seguinte:
«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do
hospital de S. José.»
Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o
espirito.
Resolvi ir á feira da Ladra.
Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano,
na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado.
Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada
passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das
inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e
sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros,
aprendem-se nas _Mil e uma noites_, adivinham-se nas chronicas dos
nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das
casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um
mytho. Para nós--pobre povo--empurrado para as vagas espumosas do
oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem
sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os
numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas.
E o que somos nós? Deus o sabe.
Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico,
devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente
constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam
thronos e proclamam republicas.
«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana,
n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das
raças e linguas orientaes.
As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa
grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que
afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das
escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A
_graça_, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para
apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de
reminiscencias tão pagãs.
E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente
reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da
corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.
Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal
francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal
artigo--esculpido hoje nos bronzes da historia--com esta phrase singela
e prophetica: _Pobre França, pobre rei!_...
Se eu dissera aqui: _pobre_ Portugal!--Não digo.
Entrei na feira da Ladra.
Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna,
levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais
ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.
Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua
tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo
buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das
possessões indo-britannicas.
Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de
pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os
residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.
Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:
«Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»
Achava-me em presença do inventario de uma capital.
Examinei:
Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas
elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina
de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um
sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de
prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais
longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de _parvenu_, um saleiro da
modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso
etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o
expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os
amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por
mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura
e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em
prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos
devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos
delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro
do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de
boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no
primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um
prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão
equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia
a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos
embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos,
com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.
Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras
quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados
de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a
óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados,
no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um
candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da
lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de
direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma
fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas,
tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha,
talvez a ultima illusão dos seus possuidores. _Sic transit gloria
mundi_, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros
dourados dos triumphadores romanos.
Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do
atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se
expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das
gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e
proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as
civilisações.
Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente
lustrosa--despojo venerando de algum desembargador da casa da
supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã
mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de
lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em
variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em
arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte,
abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e
hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de
charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados
surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através
de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres
do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e
envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador
de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre
dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do
desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes
inspirações de Benvenuto Cellini.
Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no
seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras,
formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever
por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e
ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada
por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor
inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth.
Envolvia-se n'um cafran ou burnus--uma especie de farrapo de panno, que
lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um
lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos
negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um
pedaço de cera amollecido entre os dedos.
Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do
despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um
movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe,
uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das
pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação
feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!
A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas
allucinações e devaneios acusticos.
Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?
A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre
os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas
phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal,
algum preito a Satanaz,--e depois accentuou em voz clara e cadenciada as
seguintes palavras:
--Dê-me dez libras, e leva-o de graça.
--E a chave?
--A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha.
São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O
desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito
nos ultimos annos da sua vida.
--Conheceu-o?
A velha sorriu-se.
A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo
infernal.
--Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em
Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu
vendo os moveis para comer.
Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta
amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua
curta narração.
Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou
as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa
como um mysterio.
Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei
nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:
AO LEITOR
Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove.
Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu
tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes
elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época,
que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei
do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto
horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho
pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth,
nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de
Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de
Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes
nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs,
Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de
enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com
ellas povoar
OS SALÕES
Segue-se o livro.
Vou publical-o.
VISCONDE DE OUGUELLA.
ECCE ITERUM «SILVA» CRÍSPINUS
Escreve elle no n.º 69 da _Actualidade_:
«Publicou-se o n.º 17 da _Tribuna_. Insere artigos e versos dos snrs.
Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece
dos numeros _ulteriores_.»
_Ulterior_ quer dizer _que vem depois_, ou _que tem data posterior_.
Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou _ulterior_ ao n.º
18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o _depois_ está primeiro
que _antes_, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem primeiro que os
seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.^os 18, 19, etc., da
_Tribuna_ promettiam ser iguaes aos seus precedentes, escreveria: «Tudo
nos assegura que os numeros, que hão de sahir anteriormente, serão
dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.»
Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores e ulteriores furunculos de
aposthema intellectual, proponho á academia real das sciencias este snr.
Silva... para varredor.
SANTOS-SILVA
Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e
os sete orphãos do egregio orador!
Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos
filhos!
Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de
Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a
pobreza, ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos
banhados das ultimas lagrimas de seu pai.
Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto
da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.
João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito
imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado
grupo de crianças que punham as mãos--expressão unica das agonias
inexprimiveis.
A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do
Altissimo.
* * * * *
Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus
discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e
energico orador parlamentar.
Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei
nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o
meditativamente, sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os
seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria,
pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram,
o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem.
Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo
honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos
lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome
iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo
adeus.
E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o coração cheio das
presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle que lhes seria
protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis
criancinhas.
Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!...
Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem
filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia
de Santos-Silva?
Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.
«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa
duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã
consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a
tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos.
Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma
regra que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral.
Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente
faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da
sua molestia. Os proprios medicos são os que, n'este ponto, mais se
enganam, por que são os que mais exageram.
«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não
descure restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento
hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe
regularise qualquer desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito,
ou o levante de qualquer ligeira prostração. Creia tambem na sua idade,
e na força medicatriz da natureza, que, quando é bem dirigida e
auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres.
«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de
um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as
mais vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem
sel-o. De todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma,
e mais me angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em
infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus
esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do
santo amor de seus filhos.
«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que
os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei aos meus.
Repartirei com elles o meu prestimo, se então o tiver. Estas palavras
não são só de consolação: são compromissos solemnes, que espero não
desmentir.
.........................................................................
«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de
seus antecessores.
.........................................................................
«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que
Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a
vida de seus filhos.»
Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina,
posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias
proprias que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus,
quando sentiu na garganta a constricção da asphyxia.
O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella
alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: _A
posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus
antecessores_.
Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete
filhos.
DOUDO ILLUSTRE
O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José de Sousa Magalhães, doutor em
canones, jurisconsulto eminente, orador esclarecido tanto no magisterio
universitario como no parlamento, ensandeceu em 1858, quando contava
quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em Villa Pouca de
Aguiar, na casa onde havia nascido.
Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de
provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D.
Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do
arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que
denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta
pugna um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e
em variada litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do
arcebispo, e contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por
parte do patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo
academico Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores.
Como quer que fosse, o arcebispo de Mitylene perdeu na brava luta a
razão; e, ao parecer de illustrados juizes da sua justiça, foi a
iniquidade que matou o robusto athleta.
Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a
esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva
condensação da escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica,
absorta na contemplação estupida das lagrimas dos parentes e amigos.
Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do
delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze
annos, nas suas escuridões interiores.
Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o
taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua
familia.
Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de
anno, mez e dia.
Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de
Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em
jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com
os dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que
fôra um dos mais alumiados da sua época, admiraveis lanços de linguagem,
de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso! É que tambem nos
delirios ha raptos de luminosas visões.
Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu
titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia.
Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da
desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas.
Eis-aqui os titulos: _O gigante--Os privilegios da corôa dynastica--As
cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito
na universidade--A missão divina--A chronica real--Da santidade do
direito--Cemiterio protestante--A tyrannia impossivel--O mesmo Senhor
fez os seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia--O
impassivel--O erro commum--Os tres fundadores--O cordeiro--A surpreza--O
burrinho e o menino dos protestantes--O templo--O penhor e a hypotheca,
ou o juro e a herdade--O titulo da realeza--O parocho--O demonio
tentador--A espada de S. Bruno--O enigma--Mascara de ferro--O sonho--D.
Maria Caraça Bonaparte ou a burrinha protestante--O viatico da
eternidade--A estrella do norte ou a misericordia dos mares--A
vacca--Apologo--A catastrophe_.
Estes manuscriptos comprehendem sessenta cadernos em folha. Em poder da
familia do finado arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto
de doze annos. Tirando ao acaso um de entre os cadernos cosidos com
algodão verde e escarlate--para dar ao leitor a manifestação escripta de
uma alma que esvoaça á volta dos residuos ainda bruxuleantes da sua
razão---aqui vai a
CATASTROPHE