aos bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do
povo, uma vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança.
O governo passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho
e prova de sua torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e
póde dizer-se que o escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida
taberna, ou no ergastulo do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais
indomita fera; por que estes reis sempre andaram presos, e a que chamam
casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e
conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de
julgar que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada
individuo é obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para
ficar doudo e bem sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus
verdadeiros senhores e tyrannos.
Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou
de má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a
lingua do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo
pretenderam fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula,
nem suscitaram as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o
ingresso e a influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não
ouvir verdades amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão
inauditas usurpações e falsidades, e de tão grande subserviencia aos
estrangeiros e a todos os inimigos da nossa fé e da nossa gloria e
renome.
João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um
fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam
entre nós; os seus dogmas proprios da mais abjecta demagogia podiam
apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, dos Neros e
dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes á lei
regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os
Tusculanos de Cicero e de sua REPUBLICA, só para a posteridade; e
estaria em algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar
e apparecer sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e
eterno d'el-rei o snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades
causam tedio e nojo. D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento
de magestade, sem lhe competir e por heresia de infame e vil
protestante. Agora dizem os apologistas da mesma seita que Portugal
sempre foi protestante; mas não dizem como se retractou a viuva, nem diz
como precisou a ignobil memoria de D. João IV de ser absolvida como
contrita á hora da morte para ter sepultura de corpo.
Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel
cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa
e por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o
titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava
esta rosa d'ouro só para um rei ou imperador que acontecia ser o que
confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; e jámais o
pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o
mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como
vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que
não estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias,
nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons
catholicos e fieis. Durante a usurpação sempre procuraram os herejes
tomar lugar e assento, e á medida que fugia a fé da sua pureza invadiam
as raças, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir
as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar
pasto á luxuria dos maiores desvarios e ameaças. E seria só pela
necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia? É certo que
o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas o principio de
desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus
antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas
successões estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte
e pensamento do desprezo da santa lei e fé.
Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen
cujos artigos secretos são da infame propaganda protestante que invadiu
o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este
com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragança a seguir o
falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame
ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como
Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e já os
protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus
superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da
injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario,
e no odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez
com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de
heresia, cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da
Bretanha e de Londres, como é sabido e se estendia por meio de
ramificações secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idéas da
santa acclamação de D. João I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo
mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truão e ridiculo para depôr
o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como então se dizia ao
mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e
para resuscitar os immortaes.
Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas
iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter
verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e
protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior
astucia progrediam e illudiam sempre até o grau de maior engano, a este
como simples mação, áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos
mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os
maiores segredos dos outros graus, em quanto não obtinha os verdadeiros
da maior abominação de seu secreto esconjuro.
Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta
revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz
calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que
nasce sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar
dos que só podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do
seu elemento; porque as claridades da sua existencia não o habilitavam
para conviver no espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza, e
por isso o precipitam mais depressa para que conheça o que é e o que
póde valer como energumeno. Alguem julga que o meteóro póde fazer-se
cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou estrella sem que o
Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita mais cedo este
rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu catholico
reinado e se lhe põe o nome de _mechas_, ou de _põe mais_..., mais
adiante o fazem _José do nabo_, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a
subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os
inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do
crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior
attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os
seus sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade
de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso.
O sophisma é a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o
incenso podre ao demonio, são despojados da propria pelle, e victimas da
nova crueldade dos monstros.
Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos
milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre santo, se
a sua tentação inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que
fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do
desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razão S. Pedro condemnou
o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas
foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e ostensivo, já era
escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para
a sua ruina e perdição.
A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro.
Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos
e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais
damnada chorêa da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter
n'este mundo e no outro a mesma sorte--a catastrophe--e o mesmo exito e
cruel engano.
RENAN
O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar
juizo e prudencia a questão da academia real das sciencias e Ernesto
Renan. Estas linhas do _Jornal da Noite_ compendiam todos os argumentos
do esclarecido publicista: _Merecem respeito as convicções. Mas a
consciencia dos outros é tão d'elles como a nossa, igualmente livre, de
todo o ponto respeitavel._
É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da
Republica: _nós, que de tolerantes nos desvanecemos, somos
intolerantissimos como frades_.
O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica
as diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão
do author da _Vida de Jesus_. Os adaís da liberdade forjam golilhas de
phrases para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia.
Offendem e injuriam.
O author do romance intitulado _Vida de Jesus_ é malquisto dos seis
academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o
indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista
indiscreto que enreda as suas novellas com o sacratissimo nome de Jesus
Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes um livro mui dilecto
do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é motivo bastante a que
as almas profundamente christãs se devotem á apotheose do depreciador de
Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do romance nos
descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do chaldeu.
Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no
ulterior protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia,
mórmente quando, á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de
Vasconcellos, declaram que estremam entre o author da _Vida de Jesus_, e
o author da _Historia geral das linguas semitas_.
Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que
afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao
coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um
incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de
Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de
Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e
receosos das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que
Renan recebesse publicamente em Portugal a consideração que o snr.
Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que
temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns
escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de
civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente.
CORRECÇÕES
Convém fazer algumas ao artigo _O Decepado_ (n.º 4, pag. 71).
Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á
gratidão o contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas
tão remotas e alheias das _novissimas_ charadas, das _capitações_, do
_don-juanismo_ e dos bancos.
Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e,
se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o
appellido que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que
levante turbilhões de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal.
Eis a carta do snr. J. F. Torres:
.........................................................................
«Deliciei-me com a leitura das veridicas noticias historicas do meu
conterraneo Duarte d'Almeida, _o Decepado_. Ora, v. incansavel em
revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em tão gloriosa e
ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o arrojo de
lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a
verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu
author.
«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de
Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella[4];
mas sim um castello ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado
demolir pelo fallecido procurador da casa Penalva, Martinho do Banho,
para com a pedra mandar fazer escadas e outras toscas obras que conduzem
á capellinha de Santo Amaro, pertenças da mesma casa Penalva. Existe
outro igual monumento no lugar de Bandavizes, freguezia de Fataunços.
«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia
ter sido uma vivenda ostentosa, como se vê do que ainda hoje existe,
pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa d'Oliveira.
«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada
alli existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil[5]. Ha
porém na villa uma elegante capella do santo, onde se celebra missa
todas as segundas feiras; e onde se conserva a pia em que se baptisou o
santo; e bem assim o queixo inferior do mesmo, reliquia muito venerada
pelos habitantes da villa. O corpo, como v. sabe, jaz enterrado em S.
Francisco de Santarem.»
Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como
fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: _A exc.^ma madrasta
d'el-rei D. Luiz I calumniada_.
O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro
opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus
admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais
eloquente de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra
biblica.
João de Deus, o excellente poeta, cantava d'est'arte, ha 15 annos, em
Coimbra o dadivoso prestigiador:
Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo
Nos prodigios da milagrosa vara
Que o Senhor Deus te deu:
Teu coração, Moysés do christianismo,
Tua alma é que eu admiro, e te invejára,
Se o que é teu fosse teu.
Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus,
que tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava
a varinha que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita,
ainda não é banqueiro, segundo me consta.
Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha
talento. Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras,
sobrevivem ao prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do _Instituto_:
Le coeur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait
On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait.
Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel
Une promesse sainte, dans un voex solennel!
Si, par lui, mon talent me donne la richesse,
J'ai ma mission aussi, soulager la détresse,
Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi,
Pour ramener enfin le calme en mon esprit.
N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da
sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára
n'aquelle recinto da _charmante jeunesse_. Queixava-se outro sim, de
ingratidões que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado
no Porto, romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á
orla de um throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria
em Vienna d'Austria. Brilhantes desenlaces!
E foram os rapazes de Coimbra--aquelles viventissimos rapazes de 1859,
Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e
dezenas de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração
retranzido. _Gloire à vous!_ exclamava Herrmann.
[4] Existia no seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto
nobiliario de testemunha coeva e ocular.
[5] Em 1780 ainda se via n'esta casa a capella, no local onde
nascera S. fr. Gil.
MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS
... Une femme prudente y doit regarder à deux fois avant d'épouser
un poete!
J. JANIN, _Le livre_.
Se o fino amor não é condão dos poetas, é escusado esgaravatar essa rara
perola em outra concha. O amor duradouro é incompativel com a creatura
sujeita á decomposição e á morte. As recomposições interiores são
incessantes, até ao momento em que o espirito vital se evóla, e a
podridão começa.
As reformações da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo.
Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o graváme e a
melancolia da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso
d'isto. Almas floridas em corpos devastados. Os primeiros tem auréola de
poesia lugubre. Os segundos são lastimaveis quando, em honra de suas
cãs, arrancam um a um os renovos da alma, ou os vão delindo com secretas
lagrimas; e são irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice, dando
resplendor á calva com um nimbo de namorados.
Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII,
_Marcial portuguez_. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem
ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar
foi anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava
pela côrte diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a
consorte, cuidando dos trigaes e dos parrécos.
Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais
desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi
pelos cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao
santuario da familia com a lyra e com o rheumatismo.
Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se
bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa
senhora!
O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de
a ter mofado na prosa caseira--a prosa de marido enfastiado, que é o
vasconso mais barbaro da glottica humana.
Aqui está um dos cantares com que o sobredito _Marcial_
desprimorosamente chasqueava as caricias, os vernizes, as tranças
retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e arqueavam as ancas
da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa inventára, á
custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos vestigios da
belleza perdida. E observem que o cruel a denomina _Sara_, equiparando-a
á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes poetas no coração:
Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho
para vêr tuas faltas,
não quero que te falte meu conselho
em presumpções tão altas.
Lembre-te agora só que és terra e lôdo
e terra te has-de vêr do mesmo modo;
mas não te digo nem te lembro nada
porque ha muito que em terra estás tornada.
Que importa que, alguma hora, a prata pura
de tuas mãos nascesse,
e que de teus cabellos a espessura
as minas de ouro désse!
Se o tempo vil, que tudo troca e muda,
sómente do ouro poz, por mais ajuda,
em tuas mãos de prata o amarello,
e a prata, de tuas mãos em teu cabello!
se um tempo, foram de marfim brunido
no seculo dourado,
não vês que o tempo as tem já consumido,
não vês que as tem gastado?
Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos;
que eu, quando toco teus nodosos dedos,
me parece que apalpo, e não me engano,
cinco cordões de frade franciscano.
Viciando a natureza com taes tintas,
com pinceis delicados,
jasmins e rosas em teu rosto pintas.
Deixa esses vãos cuidados;
pois quando tua cara me alvorota,
mascara me parece de chacota;
e, se é das tintas, digo n'este passo
que a mascara está inda em calhamaço.
Como pretendes, pois, com mil enganos,
vestir mil primaveras
sem ter a primavera de teus annos!
Como não desesperas!
que o tempo chegou já ao seu estio,
aonde toda a fruta perde o brio;
parecendo tua cara desmedrada
fruta que se seccou, noz arrugada.
Se feitura de Deus Eva não fôra,
dissera, sem porfias,
que de Eva foste mãi, velha senhora,
pois te sobejam dias
para esta presumpção que agora tenho;
e, concluindo em fim, a alcançar venho,
pois alcançar não posso tua idade,
que deves ser a mãi da Eternidade.
Teus olhos, por descargo da consciencia,
a idade os tem mettidos
em duas lapas, fazendo penitencia;
e estão tão escondidos,
que, quando os vou buscar porque me choram,
não acerto co' bêco aonde moram;
porque o tempo os mudou, seu passo a passo,
da flor do rosto lá para o cachaço[6].
............................................
............................................
Em fim, senhora, se te vejo em osso,
com essa cara posta em tal pescoço,
me parece, tirada a cabelleira,
em cima de um bordão uma caveira.
.............................................
Sabe que sei, e d'isto me não gabo,
que te alugou sem duvida o diabo,
invejando teu corpo, cara e dedos
para a Santo Antão fazer maiores medos[7]
E deixa, em fim, tanto vão cuidado;
e ao sagrado te acolhe
primeiro que te ponham em sagrado.
Este conselho colhe;
admitte o que te digo sem desgosto;
que eu, quando vejo teu funesto rosto,
d'elle tambem o seu conselho tomo,
pois cuido que me diz: _Memento, homo!_
Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D.
Catharina, abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e
impenitente, por aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade
provecta com poemas sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á
circulação dos enxurros. Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no _Elogio de
poetas lusitanos_, conceitua n'esta altura o descaroado marido:
D. Thomaz de Noronha em tanto augmento
Confirma de sus versos la escellencia
Que admirando sutil su entendimiento
Puede hazerle a Quevedo conpetencia:
Alma de tan ayroso movimiento,
Luz parece de sol de su presencia
Y sol a cuya luz crecen desmayos,
Aguila no soy yo de tantos rayos...
Que te fulminem, Jacintho!--diria um leitor circumspecto. Achou-lhe
airoso movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez
e cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um
trovista de tasca.
A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre
missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque
metrifica a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do
talento, é enfermidade repugnante.
[6] Segue uma estrophe cuja nudeza, posto que não envergonhe o
realismo hodierno, nos pareceu propriedade dos livros escriptos
para _homens_, cuja deshonestidade os authores lisonjeam com as
dedicatorias dos seus romances.
[7] _Metter medo aos medos de Santo Antão_, era adagio do tempo,
que teve a seguinte origem: No terceiro domingo de agosto de 1577
sahiu uma procissão da antiga parochia de S. Julião. Entre varias
figuras e carros triumphaes ia um homem representando Santo Antão
no deserto, e á volta d'elle varios demonios com feitio de monos o
aterravam com caretas e tregeitos medonhos.
A CASA DE BRAGANÇA «AB OVO»
D. Gonçalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava
as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus
com as curiosidades philoginias, gregamente faltando.
D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte,
chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um
menino robusto, como os recem-nascidos do _high-life_, o qual se chamou
Antoninho.
Este D. Antonio Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai
de 32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mães d'este rapazio
todo chamou-se Eyria de Carvalhal, e das predestinadas entranhas d'esta
menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da primeira duqueza de
Bragança, casada com o bastardo de D. João I.
D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos
veio a redempção em 1640.
Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles
fossem castos ou infecundos, não teriamos Braganças, e gemeriamos ainda
hoje captivos de Hespanha.
O arcebispo descança ha 526 annos, em uma capella contigua á porta
travessa da sé de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida
no mausoléo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se
apaixonasse por hespanholas. O coração não tem _ubi_. O escolar de
Salamanca lêra talvez o philosopho grego que dissera serem todas as
mulheres uma. Se a natureza as não discriminára, como estremal-as por
fronteiras?