com todas as demonstrações de respeito, ergueu-se o grito geral
de--_viva sua altesa! viva o senhor infante!_
O infante Dom Luiz desembuçou a capa de veludo, mostrou ao povo o seu
rosto sympathico e com serenidade lhe fallou assim:
--Ordem, ordem! El-rei deseja e estima a vida dos seus vassallos. Não
quer que elles vertam o seu sangue de tal sorte. Cobrai tento e socego,
meus amigos!
Entretanto um dos mais inquietos e terriveis contendores foi pouco a
pouco recuando com a espada em punho até se aproximar do infante. Não
recuava de susto ou por impulsos de fraquesa, que nunca o seu espirito
fôra abalado pelo medo nem os nervos do seu braço jámais affrouxaram nas
conjuncturas do perigo.
--Debalde gastaes a paciencia e o tempo, lhe segreda. Esta corja infrene
e rebelde que nem de filhos de Satanaz, decerto vos não obedece nem
respeita.
Não lhe sobejou ensejo de alongar o discurso. Um troço de aggressores
armados de alabardas e espadas, de picos e ascunhas investiu contra elle
ao grito diabolico de--_morram os hereges, morram os traidores!_
--Morram, morram os judeus e os hereges! conclamaram logo de todas as
partes.
O infante, desnudando a espada, enrostou com a massa dos aggressores.
Elles porém, demovidos pelo respeito e pela estima que todos professavam
pelo irmão de el-rei, suspenderam o passo.
--Ousareis porventura, lhes disse, erguer armas contra o irmão de el-rei?
--Não queremos offender vossa altesa, responderam do meio dos
aggressores. Queremos só esse herege e esse criminoso que ahi está. Esse
buscamos, buscamos esse só.
--Que me quereis então? proferiu com sobrecenho e desassombro aquelle
que indigitavam.
--A vossa cabeça. A vossa cabeça de traidor para a ponta das nossas
lanças e o vosso corpo de herege para a fogueira do Santo Officio.
--Rapases, retorquiu o infante com asedume, a el-rei sómente incumbe o
castigo. Não vos é dado justiçar por vossas mãos. Se ha ahi algum
criminoso, os juises de el-rei o tem de punir segundo as leis e usos do
reino.
--Diz bem o senhor infante, concordaram alguns dos representantes da
populaça.
--Ide-vos em boa paz então. Restabeleça-se a ordem e haja por toda a
parte socego.
--Mas quem nos responde pelo herege? Quem nos responde por elle?
A estas interrogações dos mais exigentes, accrescentaram ainda algumas
voses:
--Sem castigo não deve ficar. É de justiça, é de justiça que seja punido...
--Será feita justiça, retorquiu o infante. Prometto-vos debaixo de minha
palavra de Prior do Crato e, o que não vale menos, de leal cavalleiro,
que o levarei á presença de el-rei para que se faça justiça rigorosa.
Seguidamente pela Bitesga e outras ruas dispersou-se pouco a pouco a
sediciosa turba. O infante Dom Luiz acompanhado pelo badage, esses
meteram pela rua da Palha em direcção aos paços da Ribeira.
--Decerto cumprirá vossa altesa a sua palavra? inquire o badage a meio
do caminho.
--Sinto, meu amigo, que me reservasses o officio de carcereiro. Mas
confio que meu irmão e senhor não deixará de vos tratar bem.
--Alimenta vossa altesa mais esperanças do que as que eu nutro. Do animo
generoso de el-rei pouco espero. Desconfio que precisa a guela d'aquelle
serenissimo sapo de mais uma doninha...
XIII
O LEITO DA DOR
As festas e os folgares não se interrompiam nos alegres paços da
Ribeira. Comtudo não havia remedios nem divertimentos que
restabelecessem a saude do joven herdeiro da coroa.
A maior parte dos dias passava-os elle de cama. Acommettera-o grave
enfermidade. Queixava-se continuamente de dores de entranhas e
revoluções de estomago. Emmagrecia a olhos vistos e a cada hora mais se
lhe pronunciava a debilidade do corpo.
Á sciencia medica os symptomas e o caracter do mal não despertavam
todavia os minimos cuidados. Effeitos do fastio e consequencias de
debilidade, eis a opinião uniforme de todos os Esculapios e Galenos da
côrte. Mas é certo que sua altesa peorava de dia para dia. Pouco a pouco
encovavam-se-lhe os olhos, entesavam-se-lhe os dedos, empallideciam-lhe
as faces, afilava-se-lhe o nariz, destingiam-se-lhe os beiços e
enfraqueciam emfim todas as carnes e todos os musculos.
Nada o entretinha nem consolava. Até os seus dilectos livros e os seus
estimados trovadores lhe enfastiavam agora. Já não dava apreço ás
quintilhas de Francisco de Sá, á _Diana_ de Souto Mayor nem aos autos de
Gil Vicente. Consumia todo o seu tempo em suspiros e lamentações. Á
proporção que lhe desfalleciam as forças do corpo, iam-lhe fugindo do
espirito a coragem, a resignação e a paciencia.
Scena enternecedora em verdade era vel-o carpir as desditas da sua
mocidade quando a esposa delicada e nervosa o procurava alentar com o
balsamo das esperanças e dos carinhos! Era o seu anjo tutelar a fiel e
amoravel esposa. Jamais lhe abandonou o leito da dor e todos seus
thesouros de ternura com elle os gastava generosamente. Nunca seios de
mulher compartilharam assim das amarguras alheias.
A alcova e os aposentos do principe ficavam no segundo andar dos paços
regios. Ali de canto a canto reinava um luxo oriental nas rendas e nas
tapeçarias, em todos os ornamentos e em toda a mobilia. Mas de que
valiam esses brocados e essas riquesas? Faltava ali uma coisa vulgar: a
alegria. A saude não se póde comprar com ouro e sem o dom precioso da
saude não existem as alegrias domesticas, os risos da existencia.
El-rei seu pai, talvez porque o excesso da sua augusta sensibilidade lhe
não permittia espectaculos de tristesa, raras visitas se dignava
faser-lhe. Em compensação a rainha sua mãe todas as manhans se lhe
dirigia á cabeceira do leito e a todas as horas mandava perguntar por
suas damas se o principe melhorava.
Pela saude do joven principe todas as damas, fidalgos e poetas da corte
simultaneamente se interessavam. Muitas noites estava a sua alcova
liberalmente cheia de amigos e aduladores. Como se não julgava de
gravidade a molestia, facilitava-se a honra da entrada a todas as
pessoas do tracto e das relações do paço.
Vai correndo o dia dous de janeiro de 1554 e são quasi dez horas da
manhan. Sua altesa parece dormir a somno solto e na sala contigua estão
esperando que estremunhe e acorde duas dusias de poetas e fidalgos, de
damas e criados. As damas chamam-se Dona Francisca de Aragão, Dona
Catharina de Athayde e Dona Leonor Mascarenhas. Os poetas, contando os
de maior nota, são Dom Manoel de Portugal, João Rodrigues de Sá, Frei
Paulo da Cruz, Dom Simão da Silveira, João Lopes Leitão, Jorge Souto
Mayor e Antonio Ribeiro Chiado.
Conversam uns com os outros em voz desanimada e confrangida. A todos
parece faltar assumpto e liberdade. Está reinando certamente um quarto
de hora de monotonia. Mas eis que entra ainda um homemzinho magro e
pletorico, de barbas louras e cabellos compridos. Tem o nariz afilado,
os olhos vivos e as faces pallidas. A boca mostra-a de exiguas
dimensões, mas, segundo a fama que em Lisboa corria, no comprimento
da lingua ninguem se lhe avantajava.
Vem todo aparaltado e nedio com sua gargantilha encanudada e seus punhos
de alvas rendas. Traz na mão esquerda um chapeu de feltro enfeitado com
sua pluma branca. Dos hombros pende-lhe um farto capirote de panno
preto. Calção e gibão foram talhados de veludo verde. As meias eram de
fina seda cor de carne.
--Seja bem vindo vossa mercê, meu illustre coripheu da _Castalidum turba_!
A esta jovial saudação de Souto Mayor o recem-chegado estendeu a dextra
e apertou com extremos de delicadesa a robusta mão do cantor da _Diana_.
Todos os outros cavalheiros procedem por sua vez a eguaes manifestações
de amisade e seguidamente se dirige o recem-chegado para a alcova do
principe. Depressa porém reapparece na ante-camara.
--Está descançando no regaço de Morpheu, murmurou elle com um sorriso
prasenteiro.
--É certo que sua altesa está a dormir, confirma prosaicamente a
celebrada e formosa Natercia. Mas por isso não nos ha de deixar o
nosso amigo Pedro Caminha. Estou anciosa por ouvir as suas poesias, meu
caro Apollo.
--A musa tem andado constipada, minha gentil Galatea.
--Os numes não se constipam, acode o faceto Chiado.
--Não o deixamos partir sem nos recitar algum poema, accrescenta Dona
Francisca de Aragão.
--Assim rogam tanto! Estou plebeamente envergonhado por não traser peça
de valor; mas não sei se lhes mostre...
--Mostre, mostre, senhor Caminha! rogaram com alegria tres voses de
guelas feminis.
--Mas que lhes hei de eu mostrar, pobre versificador de eglogas e elegias!
--Quer mote?
--Metem-me em trabalhos, metem-me em trabalhos de Hercules; mas venha de
lá...
--Deixemo-nos de mote, replica Souto Mayor. Ouvi diser que é maravilhoso
o ultimo parto do engenho de vossa mercê. Recite-o antes vossa mercê.
--Votos, pedimos votos! regougam a um tempo dous divergentes cavalheiros.
Entretanto uma das travessas damas atreve-se a introdusir os ageis dedos
no bolso do collete de Pedro Caminha e logo com expansivo contentamento
desembrulha uma pequenina folha de papel amarrotado.
--Eureka! exclamou ella com enthusiasmo.
--Leia lá, senhora Dona Francisca.
--Eu leio, eu leio!
Pegou Pedro Caminha no precioso autographo[17] e com entono
magestatico se dispoz a recitar:
Muitas veses meus versos me pediste
Que t'os mostrasse e nunca te mostrei;
Em não pedir-te os teus, se bem sentiste,
Entenderias porque t'os neguei:
Da paga me temi; se a não tivera
Muitas veses meus versos já te lera.
Subito rubor purpurea as faces de Souto Mayor. Julga que elle mesmo fôra
o alvo do epigramma e vai certamente dar o troco em egual moeda
quando o auctor do _Olyssipo_ requer explicações.
--Diga-nos vossa mercê, acodiu Jorge Ferreira, que allusões cavillosas
são essas as do seu epigramma, senhor Caminha?
Caminha virou nas mãos a folha de papel e em voz mais elevada continua
de ler:
Um tem dois olhos e com vista clara,
Outro um só tem e esse co'a vista estreita.
Diz este áquelle: «Amigo, eu apostara
A qual de nós tem vista mais perfeita?»
Quem houvera que a si não se enganara
Como o outro que enganado a aposta aceita?
Diz-lhe este: «Vê que vejo mais que ti,
Pois dois olhos te vejo, um só tu a mi!»
--Bravo, excellente! exclamara João Rodrigues de Sá quando comprehendeu
que os epigrammas se dirigiam a esse misero poeta que valia mais que
todos elles porque se chamava Luiz de Camões e porque era talvez o
primeiro, o ultimo, o maior portuguez do seculo deseseis.
--Deveras excellente! Excedeis Horacio e Marcial, meu illustre e
grandioso vate! com estudado sorriso e com excesso de lisonjaria
acrescentou ainda Jorge de Souto Mayor.
A este pomposo elogio immediatamente replica o padre-mestre dos epigrammas:
--Agradeço as vossas finesas, meu Petrarcha. Um frouxo de tosse fez por
esta occasião acorrer as damas ao quarto do principe.
Acordara sua altesa com a indiscreta algasarra e a meio corpo se erguera
sobre os macios travesseiros do leito. Parecia mais alliviado da
enfermidade, mais jovial do olhar e menos cadaverico do gesto.
--Vossa altesa dormiu bem? pergunta-lhe Dom Jorge de Moura
aconchegando-se do leito.
--Sinto-me com mais animo e parece-me que vou melhorando...
--Não tardará que vossa altesa esteja restabelecido. Isso não ha de ser
nada, querendo Deus.
--Assim espero que aconteça; mas não sei, meu amigo, não sei o que sinto
nem o que padeço. Ha tantos dias na cama sem forças nem saude!
--Disem os medicos que não passam de debilidade os achaques de vossa
altesa...
--Os medicos sabem tudo, sabem tudo... Só não sabem dar-me cura!
Abriu-se o reposteiro da alcova e a comprimentar o principe entrou agora
a colmea dos admiradores do poeta Caminha.
[17] Veja-se a _Vida de Camões_, por Theoph. Braga.
XIV
EFFEITOS DO VENENO
Respeitosamente foi comprimentado o herdeiro da coroa por todos os
poetas e cortesãos que de improviso assaltaram a alcova. Mas o joven Dom
João não se encontrava em maré de paciencia para aturar importunidades e
por isso a numerosa colmea dos nobres aduladores cuidou logo de se
despedir.
A alcova permaneceu deserta; mas soou depressa o estalido de uma secreta
mola e a um dos cantos sahiu vagarosamente por uma porta escondida na
parede o aventuroso pagem.
--Bom pagem, fallou-lhe o principe decorridos alguns momentos,
sinto que me vão affrouxando o animo e a paciencia. O badage
aproximou-se do leito.
--São effeitos da doença, respondeu pausadamente.
--Disem-me todos que isto nada é. Todos me enganam... Só tu me dises que
estou doente... Sabes que doença padeço?
--Sei, meu principe.
--Que doença é?
--Francisco Lopes que vos responda, senhor.
--Não és sincero. Tambem tu me enganas, pagem.
--Receio declarar-vos a verdade.
--Tenho coragem para a ouvir. Falla, falla...
--Vós todos, principes e monarchas, só tendes abertos os ouvidos á
adulação e á mentira. A verdade é amarga e severa. Seria para as vossas
organisaçoes anemicas e sedentarias um eleboro violento em demasia. Mas
podesseis comprehender as bellesas e vantagens da verdade que seria mais
tranquilla a vossa consciencia e mais duradoura a vossa saude. Então
saberieis ler no livro mysterioso do destino os deveres que vos
determina a Providencia. Serieis então os amigos e os protectores do
povo...
O enfermo escutava pela primeira vez tam dura e irreverente linguagem;
mas, como se tivesse o espirito fascinado pelo canto de uma sereia, não
ousava interrompel-a.
Com mais valentia de voz o badage proseguiu:
--Abençoados os monarchas que são os amigos e protectores do povo!
Abençoados sejam! Mas a maioria d'elles entrega-se noite e dia ao
turbilhão vertiginoso dos praseres e das orgias em menoscabo dos
interesses publicos e em prejuiso da ventura das nações. Não é grande o
numero dos monarchas, por mais ricos e poderosos que sejam, que morrem
com a consciencia de haverem feito a felicidade dos seus vassallos.
Parece que teem os olhos vendados para o bem...
--Cala-te, que és injusto e severo. Que mal te fez meu pai ou tenho
feito eu para seres assim tam rigoroso de palavras?
--Sois christão e mostraes ignorancia da leitura do Evangelho. Pois
sabei que pelas culpas dos paes respondem os filhos até á quinta
geração...
--Eu sei o que disem as escripturas santas; mas de que mal e de que
peccados accusas meu pai?
--Rio-me da vossa innocencia, meu principe. Por ventura ignoraes os
descreditos e vexames que todos vamos soffrendo cada dia? Quantos
desacertos e que torturas se não commettem ao sabor de Simão Rodrigues e
só por interesse do tribunal da inquisição? Bastará o _Santo Officio_
para causar maiores damnos do que a peste e mais opprobrio do que a
forca. Nas mãos dos seus ministros flammeja o cutelo do carrasco, que é
o mesmo que o estilete do assassino. Confisca-se a propriedade,
assassina-se o fidalgo, rouba-se com a riquesa a honra alheia e
queima-se nas labaredas da fogueira o servo da gleba para que se accenda
mais uma lampada no altar da tirannia e se fortifique ainda com mais uma
columna o templo da igreja!
--Não blasfemes assim, hereje. Lembra-te que fallas diante de um
principe de sangue.
--Principes e monarchas não os respeito nem acato senão pelo
esplendor das suas virtudes. Onde está o rol das vossas virtudes? Foi
benefica a missão de que vos encarregou o Deus que sempre tendes á flor
dos labios e a que nunca ergueu altares o vosso coração. Deus mandou-vos
amar o proximo. Devieis ser o auxilio e não o latego do povo. Mas vós,
que tendes para tudo ministros e conselheiros, só os não tendes para vos
aconselharem a minorar os infortunios do pobre e obrigarem a repartir
com as crianças que padecem fome as iguarias superfluas dos lautos e
magnificos banquetes...
--Não te quero ouvir mais, não te quero ouvir mais. Lembra-te que ainda
te posso punir e esmagar, villão!
--Tendes o poder e a riquesa, herdeiro do throno de Portugal. Sei que
sempre a vossos pés se rojaram desenas e dusias de cortesãos ambiciosos,
cortesãos que se habituam a procurar o esplendor das gemmas preciosas
das coroas regias para encobrirem a baixesa da sua consciencia e a lepra
do seu espirito. Sei que todos os vossos caprichos e devaneios, embora
custem milhares de crusados, serão satisfeitos mais depressa, do
que se enxuga o pranto do desvalido que, relado pela fome, se vê
estrebuchando na enxerga pestilenta da miseria... Mas vejo tambem que se
offusca o nimbo da vossa gloria e declina a estrella da vossa grandesa!
Em vez de ser de perolas e rubis, será logo de terra e de cinzas a vossa
coroa. Depressa se desfará em pó o vosso sceptro e, em vez de recamarem
o vosso corpo o ouropel e os avellorios do throno, será entregue o vosso
corpo aos vermes e á podridão do sepulchro!
--Basta, basta! São de fogo as tuas palavras. Sinto que me requeimam as
entranhas, pagem!
N'este comenos entrou Francisco Lopes a satisfaser a sua visita ordinaria.
O medico aproximou-se do principe, ausculta-lhe o peito com a maior
observação e em seguida com todo o cuidado lhe tatea o pulso.
Não proferiu um monosyllabo e jámais denunciou pelas impressões do rosto
ou por outros quaesquer signaes exteriores a gravidade ou as melhoras do
enfermo.
Sempre com a mesma austeridade aproximou-se de um dos angulos da
alcova, recurvou-se de vagar sobre uma elegante mesa de jacarandá,
serviu-se de uma penna de pato collocada ao longo de um precioso
tinteiro de prata e com rapidez formula em meia folha de papel o recipe
do costume.
Em seguida o medico ergueu com dous dedos a receita, baixou com gesto
comprimentador a cabeça em direcção do leito e logo com inalteravel
silencio transpoz os umbraes da porta.
No centro da sala contigua esperava-o uma pessoa vestida completamente
de roupas negras que ninguem mais era senão o jesuita Simão Rodrigues.
A meia voz segredou-lhe o medico:
--Está moribundo. Está sem vida. Morre antes de meia hora.
O jesuita laconicamente accrescentou:
--_Requiescat in pace!_
Entretanto não abandonara o badage o leito do principe. Ninguem mais se
conservava ali. Talvez porque se quisesse poupar a organisação debil do
principe ás fadigas das conversações e ao constrangimento das visitas,
ou então por que o quadro pavoroso da morte não é espectaculo que
deleite as vistas e atraia a presença dos cortesãos.
O espirito de sua altesa estorcia-se nos derradeiros paroxismos. Poucos
momentos de vida lhe restavam já e que severos momentos de tortura não
deviam de ser aquelles! Affligiam-no contorsões horrendas; o fogo
violento de um vulcão abrasava-lhe as entranhas; os musculos e tendões
dos braços pareciam fios de arame agitados por uma descarga electrica.
Elle todavia prestava segura e ininterrompida attenção ás palavras
mysteriosas do badage. Sobresaltava-se, contorcia-se, desesperava-se
como se lhe ardessem as carnes no brasido infernal de uma fornalha; mas
ainda nutria alentos e voz para de quando em quando diser ao badage:
--Contai-me tudo, contai-me tudo o que sabeis...
O badage continuou a revelar-lhe:
--Vou por fim denunciar-vos tudo o que sei. É caso incrivel, mas é
verdade. Foi crime horrendo, mas aconteceu. Está soffrendo vossa
altesa os effeitos do veneno e é el-rei, acredite-me vossa altesa,
é el-rei Dom João III a causa da sua morte!
A tam inesperada e tremenda revelação o corpo do principe contorceu-se
com maior violencia. Quiz erguer-se do leito, gritar logo por soccorro e
despedaçar as carnes com as unhas como se o dominassem os instinctos de
um abutre. Porém a alcova nupcial tornara-se depressa a habitação
lugubre da morte. Agora a voz e as forças abandonaram de vez o corpo
franzino do principe. Era elle apenas um cadaver!
XV
O PERDÃO
Com o espirito entregue aos dominios de uma vaga melancolia desceu
seguidamente o badage ao primeiro andar dos Paços da Ribeira, onde, ao
derredor de uma luxuosa banca pejada de papeis, meia dusia dos mais
altos personagens se debatiam em calorosa conversação nos aposentos
particulares de el-rei.
O badage, predispondo-se a colher o fio da conversação, cautelosamente
applicou o ouvido ao ralo da porta dos regios aposentos.
--É mister, continuava de expor ao monarcha o beato provincial, um
tremendo e exemplar castigo. Aquelle herege não póde ser absolvido
nem perdoado. Sabeis, senhor, até onde alcançam o grau dos seus crimes,
o excesso das suas heresias, o numero dos seus peccados?
--Já me contaste, meu padre, o que por desfortuna vos aconteceu.
Confesso que foi horrivel a vossa posição. Atrever-se aquelle herege a
martyrisar-vos com o fogo! Presumo que não foram os vossos tormentos
inferiores aos de San Lourenço, o martyr das grelhas.
--Pela minha parte lhe perdôo tudo. Encontro-me salvo e livre de perigo.
Agora só me resta esquecer de boamente o mal que me fez. Mas os
desacatos á religião catholica, as offensas dirigidas a Deus...
--Perdoae-lhe vós, observou a rainha, que Deus tudo perdoa como pai de
misericordia.
--Vejo que minha presada esposa, accrescenta o monarcha, se interessa
generosamente pelo seu pagem. Cá de mim não tenho resentimentos nem
gostei nunca de vindictas. Em boa fé, meu padre, vos declaro que tudo
esqueço. Mas que diseis, Simão Rodrigues? De vós depende o perdão ou o
castigo!
Dispunha-se a retorquir o provincial quando o badage se apresenta de
improviso.
--Recuso, disse com firmesa, todo o perdão e todo o favor. Simão
Rodrigues, Simão Rodrigues, sois vós que precisaes da graça de el-rei!
--Não comprehendo bem o teu orgulho, meu amigo! acodiu o nobre Duque de
Beja.
--É o orgulho de quem estima e defende uma boa causa: a causa do povo.
--O povo, sempre o povo! exclama com asedume o terrivel jesuita.
Dize-me: que entendes tu por essa massa enorme e infrene, esse corpo sem
entendimento nem consciencia que apedreja hoje o idolo da vespera, essa
cabeça desvairada que nunca soube comprehender as doçuras da paz nem
respeitar as glorias de Deus?