de trabalho que emprega todo o suor do seu corpo e todos os dias da sua
existencia no roçar das charnecas, no arroteamento dos latifundios, nos
perigos e labores das officinas, sobrecarregado sempre de gabellas e
desfavores, ganhando apenas os meios pecuniarios de não morrer de fome e
não conseguindo nunca abandonar a sua condição servil. É o contrario de
essa classe que se chama a nobresa e de essa oligarchia que se chama o
clero. O nobre e o padre, favorecidos por uma legislação de isenções e
privilegios, são homens livres que deixam de contribuir para as despesas
do estado, que tudo á larga possuem e que desconhecem os suores do
trabalho. Gosam e mandam a seu alvedrio... O povo, todavia, constitue a
maxima parte, a grande porção do estado. Do seu braço, das suas forças e
da sua actividade provém a riquesa publica, a defesa das monarchias ou
das republicas, a manutenção da ordem e da paz, o desenvolvimento do
commercio e das industrias. O povo é o elemento mais forte das
instituições politicas e da ordem social: o eixo e as rodas da machina
social. Seria preciso conseguintemente não despojal-o da sua
personalidade e da sua liberdade... Mas quando irromperá a fulgorosa
alvorada em que esse rebanho de ilotas ou escravos desperte ao grito
heroico e triunfal de um novo Spartaco, o libertador dos povos? Quando,
proclamado o advento da igualdade e da justiça, surgirá a epocha
redemptora em que a essa _cohorte renegada de hebreus_ se concedam pelas
prescripções de uma legislação benefica e humana os foros de cidadãos e
os direitos de homens livres, a sua alforria politica e social emfim? Eu
erguerei sempre a minha voz contra os excessos da tyrannia feudal,
inquisitorial ou real que fasem do povo uma besta de carga. O systema
pagão ainda prevalece nas hodiernas sociedades, apesar de já decorrerem
mais de quinze seculos de christianismo[18]: isto é do reinado da
igualdade, da liberdade, da fraternidade humana. Porque se não ha de
abolir este nefando systema aperfeiçoando as coisas existentes, dando ás
ideias diversa direcção, melhorando as leis e os habitos e os costumes?
Vós, provincial Simão Rodrigues, confiaes que, submettendo o povo ao
jugo da escravidão e roubando-lhe a luz do sol nas abobadas dos
carceres, conseguis a regeneração da sociedade civil e a grandesa da
igreja catholica. Mas por acaso ignoraes que a consciencia publica e o
senso universal reprovam com vehemencia as traças e ardis empregados
pelo vosso systema estacionario e fanatico, systema vergonhoso que
directamente conduz á anniquilação e ao opprobrio? As nações não podem
viver sem leis de egualdade na distribuição dos bens e dos males, dos
cargos e beneficios. Não podem os homens coexistir e prosperar sem as
vantagens de uma associação commum. Como é pois que a vossa corporação
de jesuitas ambiciona dispor de todas as forças e riquesas, de todos os
elementos de soberania e de todos os graus de despotismo? Não
comprehendeis o grande pensamento do dever--que é a lei da vida, a
grandiosa ideia do bem--que é o dever da humanidade! Conheço que debalde
cairei sem nome nem gloria como o soldado ferido no fragor dos combates.
Mas eu vos profetiso, Simão Rodrigues, eu vos profetiso que ainda um
dia, ao grito de triunfo dos meus irmãos, ha de sobre as cinzas frias do
jesuitismo e dos Cains do Santo Officio erguer-se em canticos de alegria
o altar da liberdade!
Logo Simão Rodrigues se dispunha a esfriar a impressão do democratico
discurso do badage; mas Catharina de Austria, com a fronte radiosa de
firmesa e coragem, apressou-se a diser para seu esposo:
--Não approvaes, senhor, os gentis e nobres sentimentos d'este mancebo?
Por Deus vos declaro que não conheço em nossos reinos mais generoso
fidalgo nem mais leal vassallo!
--Assim o creio, concordou o monarcha impressionado por um estranho
sentimento de generosidade. Tanto que resolvo mostrar-lhe a minha
gratidão e a minha graça. Ficas satisfeito, proseguiu ao dirigir-se
affavelmente ao badage, em aceitar a commissão com que me apraz
honrar-vos? Quero provar-vos com animo generoso que sei premiar as
virtudes e serviços dos meus vassallos...
--Senhor, atalhou com um olhar de fogo o jesuita Simão Rodrigues, por
Deus que vos não pertence premiar os herejes nem os criminosos!
--Jamais um monarcha de Portugal deixará de cumprir quanto prometteu...
Pagem! mando-vos substituir nos meus dominios da India com os
mesmos foros e jurisdicção o viso-rei Dom Affonso de Noronha.
Seguidamente fôra o badage abraçado com espontaneas manifestações de
contentamento pelo seu sincero amigo o duque de Beja.
--Fez-se justiça, fez-se justiça por fim! exclama a rainha com viva
explosão de enthusiasmo.
Experimentaram os nervos do badage uma passageira commoção, humildemente
recurvou elle pela primeira vez a sua cabeça altiva e com brandura
ajoelhou aos pés do sombrio monarcha:
--Muito agradeço a vossa altesa, lhe disse, as honrarias e os louvores;
mas consinta-me que não aceite.
--Puf! meu rapaz. Pareces bem orgulhoso e bem louco. Pois já te não
convem o viso-reinado das Indias?
Ao successor de Dom Manoel, o glorioso principe que tam respeitado e
temido fisera no Oriente o nome portuguez, retrucou o indio com
magestosa serenidade:
--Parto para as agras e florestas do meu paiz; mas deixe-me vossa
altesa partir sem honrarias nem proveito. Não me sedusem as grandesas da
vida nem os avellorios do mundo. Christão velho ou christão novo,
deveras ficarei contente com dar a Simão Rodrigues um exemplo de
modestia e uma lição de humildade!
[18] Lamennais. _Du passé et de l'avenir du peuple._
XVI
A VINGANÇA
Foi annunciado o almoço e então suas altesas as pessoas reaes,
acompanhadas de suas senhorias os conselheiros e o celebre provincial,
poseram logo termo á audiencia.
Apenas se conservou na sala o badage.
--Talvez me chamem desassisado, scismou elle. Regeitar assim riquesas e
titulos!... Grande virtude e grande proesa, na verdade... Quem não gosta
de elevar-se e engrandecer-se, quem não deseja passar de braço erguido
por cima da cabeça dos outros, embora á custa da sua consciencia e da
sua dignidade? Todavia do meu procedimento não me arrependerei
nunca. As Indias são emporio de riquesas e eu depressa possuiria
armasens de fasendas e especiarias, cofres de joias e de barras de
ouro... Mas quem me dava todos esses bens? Porventura sua altesa
serenissima? O rei, no seu officio inalteravel de gastar, dispõe dos
haveres e dos suores do povo, a massa que produz e trabalha. De certo
deveria a minha fortuna ás generosidades do rei... Mas não és tu--a
maior, a grande porção da humanidade--que trabalhas e que produses e que
tudo vaes pagando?... Povo, das bagas do teu suor é que nascem as
perolas das coroas regias. Eu comprehendo isso, comprehendo! Havia pois
de enriquecer-me á vossa custa, meus irmãos?
O badage sentou-se na luxuosa estadella do monarcha, dobrou a cabeça
sobre os braços crusados na beira da mesa e assim por alguns momentos
permaneceu como adormecido pelo cansaço. Entregava o seu espirito á
meditação, porque logo alteou a sua cabeça esbelta e se dispoz
lentamente a escrever.
Todos os mais intimos e sinceros sentimentos do seu coração
transmittia-os agora a meia folha de papel. Estava confiando por meio
das letras alfabeticas de uma carta dirigida a Catharina de Austria os
seus fervorosos affectos e as suas saudosas despedidas.
--Amei-a com dedicação! monologava elle quando acabou de escrever. Mais
pelas prendas do seu espirito que pelas bellesas do seu corpo...
Conheci-a sempre bondosa e casta como os anjos. O orgulho, a soberba e a
impudicicia de uma rainha são vicios que jamais lhe empanaram o brilho
das suas virtudes. Não me esquecerei nunca de abençoar o seu nome e de
estremecer a sua imagem. Nobre e gentil senhora! quem soffreria os
impetos e cruesas de vosso esposo, o lobo sombrio e fanatico, se não
fossem as vossas caricias e os vossos conselhos de ovelha paciente e
delicada?
Leu a carta seguidamente, reflectiu ainda por alguns minutos e rasgou-a
em varios pedaços a final.
--Não! reconsidera com altivez. Não darei eu esta prova de fraquesa.
Coragem, coragem!... Sempre, como perola escondida na clausura da
concha, apertarei nos meus seios de alma o segredo dos meus amores. Quem
sabe se lhe causaria despreso em vez de saudade, riso em vez de compaixão?
O badage levantou-se bruscamente da estadella, correu as vistas pelas
douradas paredes da sala e dirigiu os passos para o lumiar da porta.
Aquelle palacio escaldava-lhe a cabeça como se o abrasasse a cratera de
um volcão.
Resolvera abandonal-o para sempre e já caminhava ao longo do corredor
quando um magro personagem de semblante pallido como o de um cadaver e
de vestes negras á semelhança de um fantasma o obriga a parar
improvisamente.
Em repasto da sua vingança, não se recusara Simão Rodrigues a
ensanguentar o seu punhal traiçoeiro. Elle em carne e osso, com o punhal
escondido na manga da roupeta, aguardava o pagem na penumbra solitaria
do corredor.
O pagem cahiu, com effeito, ao borbulhar do seio um jorro de sangue. Não
acodiria braço que o protegesse nem medicina que o salvasse.
Crisparam-se-lhe os dedos, arroxearam-se-lhe os beiços,
empallideceram-lhe as faces e entregou a Deus o derradeiro alento da sua
juvenil existencia depois de articular esta crudelissima ironia:
--É assim... que se vingam... os filhos de... Ignacio de... Loyola!
FIM.
INDICE
Algumas palavras 5
I--Ciumes de um rei 11
II--Os reis não costumam perdoar as offensas recebidas 23
III--Recompensa do crime 35
IV--O festim de Balthasar 53
V--Orações e jejuns redimem todas as culpas 65
VI--A caçada 75
VII--A luta 85
VIII--Os estaus 95
IX--O carcereiro 105
X--Vantagem de dous contra um 115
XI--A taverna 123
XII--Referta de tigres e leões 139
XIII--O leito da dor 145
XIV--Effeitos do veneno 155
XV--O perdão 165
XVI--A vingança 175
PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA