--Mais do que el-rei?
--Muito mais, muito mais!
--Aposto, aposto! Em nossos reinos juro e aposto que não ha quem valha
mais do que el-rei nosso amo e senhor!
--Vaes sabel-o já...
--Pois quem é, quem é?
--Alguem é.
--Mas quem?
--Simão Rodrigues!
O carcereiro poz-se a matutar por alguns momentos. Depois aventurou dous
passos ao longo do calabouço, estalejou emfim com a mão direita uma
palmada na testa e disse pausadamente:
--Na verdade o jesuita é poderoso. Vale mais em forças e poderio do que
um duque...
--Mais que o monarcha. O monarcha tem a corôa na cabeça e o sceptro na
dextra; mas isso tudo não passa das vans insignias da realesa. Vale
menos o manto de terciopello do que o saio de estamenha. Perante a
vontade inquebrantavel de Simão Rodrigues tudo averga e affrouxa como o
vime, se quebra e desfaz como o vidro. Elle governa o estado em nome da
igreja; em nome da religião escravisa a nobresa e o povo, essa cohorte
de hebreus sempre amaldiçoada pela igreja. Tudo lhe obedece piamente e é
el-rei o primeiro escravo que lhe obedece...
--Assim é, assim é.
--Todavia Simão Rodrigues teme e reconhece a força e as traças de alguem...
--O papa?
--Não.
--O snr. Conde da Castanheira, que vale tanto como o papa?
--Tambem não.
--Pois quem é?
--Eu!
--Vossa senhoria, meu fidalgo, sempre me parecera muito rico e muito
poderoso...
--Em verdade sou e não sou. Mas nada mais te digo. Se queres saber quem
sou, experimenta, experimenta...
--Que devo faser então?
--Deves desaferrolhar-me a porta do carcere...
--Perco o meu emprego.
--Quanto vale o teu emprego?
--Vale mais de 100 escudos.
--Terás 500 escudos, terás 1:000 escudos. Queres vender a minha
liberdade por 1:000 escudos em boas moedas de ouro?
O carcereiro esgaseou attonitamente os olhos e respondeu com firmesa:
--Por 1:000 escudos vende-se a alma ao diabo. Quero, meu fidalgo!
--Fases bem, fases bem. Estas abobadas cheiram a vermes podres e a
cadaveres queimados!
[13] Vasco da Gama aportou ao reino de Calicut em 20 de maio de
1499.
[14] Conde da Ericeira. _Portug. restaurado._
[15] D. João de Castro. Carta da India a D. João III.
X
VANTAGEM DE DOUS CONTRA UM
Preparava-se o badage para se escapulir do carcere quando o
homunculo, em attitude de lhe embargar a passagem, desfechou das suas
guelas herculeas uma estridente cascalhada de riso.
--Meu fidalgo, regougou elle, julga que eu seja de animo tam simplorio
que lhe favoreça a escapula sem primeiro arrecadar no bolso os mil
ducados promettidos por vossa senhoria? Pardés que me rio com vontade,
meu fidalgo!
--Fallas com prudencia e siso. Quem deve, paga. Eu, em troca da minha
liberdade, devo dar-te 1:000 escudos. Devo-te portanto 1:000
escudos em ouro ou prata. Mas esse dinheiro, embora seja em perolas de
Ceylão ou em ouro de Ophir, difficilmente se arrecada no bolso do gibão.
--Pois, meu fidalgo, teremos o contracto desmanchado... Demais, quasi
estou repeso do que fiz. As más acções produsem o effeito da ferrugem
nos metaes: fasem mossa na consciencia. Porventura merecem os meus amos
que os atraiçoe? Pagam pouco, é verdade. De que valem 150 crusados? De
que valem elles? Uma ninharia que não chega para a cova de um dente e
não é preciso que o dente seja de elefante. Mas emfim sempre me pagam...
--Percebo, percebo. Sabes que mais val um passaro na mão do que dous a
voar. Dá cá, toma lá. Não é isso? Pois eu vou satisfaser os teus desejos.
O badage pediu um tinteiro e sobre meia folha de papel escreveu com
letra maiscula o seguinte bilhete:
«Dona Catharina de Austria, rainha de Portugal, entregará ao portador a
quantia de mil ducados em ouro ou prata. Do cárcere da inquisição
do Rocio, aos 29 de desembro de 1553. Pedro, o pagem.»
--Toma, disse depois ao homunculo. Este bilhete vale bem o teu dinheiro.
Ficas satisfeito?
O carcereiro empolgou a meia folha de papel e com soffreguidão o
perpassa duas veses em frente dos olhos. Quando lhe cresceu tempo de o
ler, curvou a cabeça em testemunho de respeito e contrictamente resmoneou:
--Meu fidalgo, bem adivinhava eu a estirpe de vossa senhoria! Tem
relações com sua altesa serenissima Dona Catharina de Austria, um
coração de bondade como não ha outro mais protector dos pobres e dos
infelises. Que immensa gloria, que felicidade a minha em topar com tam
boa e poderosa gente! Beijo-lhe as mãos, meu rico infantão. Agora sim.
Para tudo quanto precise tem ás suas disposições o servo mais humilde e
mais dedicado. Prompto, meu amo! Logo ou ámanhan, agora e já, sempre e
sempre me disponho a servil-o. Palavra de homem honrado: quer partir já?
quer que se bote o fogo a esta casa maldita? quer que se espatife
com um cutelo a cabeça do snr. Simão Rodrigues? Eu obedeço como deve
sempre obedecer o servo, o escravo. Ordene, meu fidalgo!
--Muitas veses nos arrependemos da maxima confiança. Sou de aviso que
primeiramente recebas o premio dos teus serviços. Vai e volta depois.
Porventura não receias que te engane?
--Meu amo, replicou o alcaide ao mesmo tempo que rasgava com nobre
desinteresse o seu papel de 1:000 escudos, de hoje por diante ficarei
sempre ás ordens de vossa senhoria illustrissima. Ja pouco me importam
os meus ducados. Podemos partir quando queira, meu nobre senhor...
Ouviu-se então uma voz dissonora como a furia do vendaval.
--Não partireis! trovejou Simão Rodrigues ao assomar com passo grave no
portal do sombrio ergastulo.
Infelizmente para elle, o jesuita commettera um acto de rara
imprudencia. Vinha só. Affeito á cega obediencia de um numeroso exercito
de clerigos e alabardeiros, confiadamente se apresentou á porta do
carcere sem soldados nem sequito.
O badage e o carcereiro ficaram com o espirito indeciso. Ambos conheciam
até que ponto alcançavam a sagacidade e jurisdicção do jesuita.
Bastar-lhe-hia um gesto ou uma palavra para todos á porfia executarem
immediatamente as suas ordens. Por isso não deixava de ser melindrosa a
situação. Mas depressa o badage e o carcereiro comprehenderam a vantagem
que levavam ao jesuita: dois contra um é sempre uma vantagem.
Simão Rodrigues entrou no carcere e o homunculo adiantou-se para a
umbreira da porta. A porta era solida e perra; mas o pulso vigoroso do
homunculo fel-a girar nos gonzos sem difficuldade e logo em um abrir e
fechar de olhos lhe correu com a chave a lingueta da fechadura. Depois,
tomando a prevenção de esconder a chave no bolso das calças, foi
augmentar o grupo do jesuita e do badage.
O jesuita fallava assim:
--Pagem, quiz ganhar de el-rei o vosso perdão. Mas el-rei nosso amo não
quiz perdoar os vossos crimes e vós, convicto do crime de heresia,
no primeiro domingo do Advento padecereis como christão novo o supplicio
da fogueira. Encommendai a vossa alma a Deus...
O badage, desfechando uma risada, em bom genio redarguiu:
--Não careço do teu perdão, meu padre. Agora na minha presença deixarás
de ser o provincial Simão Rodrigues: és simplesmente um reptil, um
covarde, um malvado... Queres ainda lutar comigo? Braço a braço, esmago-te!
--Assim, assim, meu valente! Esmague-me essa vibora! jarrete-me esse
verdugo!
Apenas o carcereiro desprendera das fauces tam rudes imprecações, o
jesuita impallideceu como um cadaver. Comprehendeu o conluio; adivinhou
que se trocaram os papeis. Em vez de mandar e ser obedecido, restava a
Simão Rodrigues o papel de obedecer como escravo. Lance desesperado para
o seu orgulho!
--Estranho o vosso procedimento, desabafou emfim. Insensatos que sois!
Por ventura me faltareis á obediencia? Por acaso attentareis contra a
minha vida? A minha vida pertence á igreja e a Deus. Cautela com a
maldição de Deus!
De nada, porém, valeram os argumentos. Carcereiro e encarcerado abafaram
com um lenço a boca de Simão Rodrigues, por detraz das costas
amarraram-lhe os braços com um pedaço do sambenito despido pelo badage
e, como se faz a uma rez no matadouro, jungiram-no pela gorja a uma das
argolas do carcere.
--Vamos deixar-te agora, proferiu o badage. Ficarás ahi, filho de
Torquemada, entregue ao arrependimento e ao remorso dos teus crimes. Não
teve força nem coragem el-rei Dom João III para reprimir as tuas
ambições e castigar os teus delictos. Pois desempenho eu os deveres do
rei! Para bem do povo e desaggravo da humanidade faz-se mister que
desappareças da face do mundo e que tambem desappareça comtigo essa
ordem de viboras e de tigres que para desdita nossa introdusiste de Roma
nos reinos de Portugal. Adivinhas o que te vai succeder? Adivinhas por
acaso? Desapparecerás para sempre, Simão Rodrigues. Antes de meia
hora será o teu corpo um esqueleto e esse esqueleto se redusirá a um
punhado de cinzas!
Em seguida desprendeu dos pilares da abobada uma lanterna e com a chamma
do pavio incendiou as roupas talares do jesuita.
Começando então de atear-se uma labareda fumegante, logo os dous
companheiros a passo lesto se dirigiram para o umbral da porta e assim
sem saudades abandonaram aquella horrenda masmorra.
XI
A TAVERNA
O carcereiro e o pagem toparam-se defronte do sombrio edificio de
San Domingos por altas horas de uma noite escura como breu e sem ideias
determinadas sobre a melhor direcção que lhes convinha aproveitar.
Era certo que por longos momentos não podiam ali permanecer sem o risco
de serem percebidos e presos. Mas, em conjuncturas de indecisão, quem se
lembra de acodir convenientemente pela propria segurança? Viam-se em
liberdade e esse unico bem lhes parecia a suprema fortuna. A largos
sorvos aspiravam as emanações puras da noite e com as vistas
abrangiam o espaço immenso onde volitam os astros. Pisavam aquelle chão
por cem veses trilhado pelas doloridas plantas das victimas
inquisitoriaes. Por ali passaram em companhia do carrasco e dos
defensores da cruz algumas dusias de martyres envolvidos na samarra e
cobertos das terriveis carochas sarapintadas de chammas e demonios. Mas,
ainda assim, que feliz differença se se comparava a sombria praça de San
Domingos com as estreitas e miasmaticas gemonias onde o corpo se
esquartejava no excesso das torturas e a consciencia desfallecia á
mingoa do ambiente da liberdade? Entretanto os dous foragidos, como
julgando-se proximos de um foco de miasmas e de peste, reconheciam a
necessidade instinctiva de se desviarem para longe. Não tinham pensado
ainda na escolha do refugio. Lisboa, essa decantada sultana de marmore e
granito a não invejar bellesas a Stambul, era cidade grandiosa e
opulenta, era então, como a soube descrever um dos mais sympathicos
engenhos da moderna geração, a «perola das cidades do mundo, a Phryné
das capitaes da Europa, a terra do luxo, dos praseres, das
ostentações e das grandesas.»[16] Não lhe faltavam palacios
nem choupanas, igrejas nem tavernas. Mas o olho dos activos
inquisidores, Argos da peor especie conhecida, com tanta facilidade se
estendia aos santuarios de Christo como sobre os santuarios das
familias. Nada aos filhos de Loyola e aos discipulos de Torquemada lhes
era vedado nem recondito: o seu fim predilecto e a sua ambição natural
eram avassallar o mundo, eram enroscar-se como serpente gigantesca,
desde as raises ao vertice da ramada, na arvore do universo!
Por fim os miseros foragidos tomaram uma subita deliberação.
Dirigiram-se para o palacio hospitaleiro de Violante Gomes.
Apesar do prolongado e tardio da noite, ainda a formosa dama não se
entregara aos dominios do somno. Entretinha-se a desferir da sua harpa
de ebano e marfim alguns ligeiros acordes repassados de ternura e
melancolia.
A principio sobresaltou-se e estremeceu com a presença dos
estranhos hospedes; mas logo com um sorriso feiticeiro de meiguice e
suavidade se dirigiu ao indio:
--Por acaso, meu esforçado amigo, tendes algumas aventuras mais?
--Aventuras sérias, respondeu o badage com signaes de desanimo e tristesa.
--Não percebeis quanto sinto os vossos desgostos. Mas a culpa não será
vossa? Porque não gosaes a vida em socego, sem vos importarem os
negocios do estado e os interesses alheios? Vós, os homens, tendes todos
o espirito mordido pelo sarcopto das ambições. Nada vos contenta.
--O destino assim é. Arrasta o nosso espirito para o bem ou para o mal
do mesmo modo que succede a uma lasca de taboa ou a um pedaço de cortiça
dominado pelas ondas do mar. Fica-me porém a consolação de que nunca a
minha consciencia se encaminhou para o mal.
Inesperadamente sentiu-se um alteroso arruido. Algum serio acontecimento
se passava no largo do Rocio. Nem mais nem menos: o palacio de Violante
Gomes fora assediado por uma turba sediciosa e infrene de
alabardeiros e familiares do Santo Officio.
Não era agradavel nem segura a posição dos foragidos das gemonias
inquisitoriaes. Escapar, seria negocio difficil. Combater, seria
temeridade com todos os visos de loucura. Sem embargo o indio não
desanimou nem tremeu.
--Senhora, disse para Violante Gomes, os vossos hospedes são incommodos
e perigosos. Por isso vos disemos adeus até melhor occasião. Vamos ao
encontro dos inimigos...
--Loucos! acodiu a esbelta dama. Deixai as escadas e vinde por este
sitio. Segui-me depressa!
Violante Gomes, allumiada por um castiçal de prata, adiantou-se por um
corredor estreito, subiu os degraus de umas escadas mais estreitas ainda
e chegou ao recanto de uma saleta desguarnecida.
--Já, já! Apressai-vos a abrir essa janella. Deita para os telhados
visinhos e, tres ou quatro varas além, podeis escapulir-vos com
segurança. Não afianço que não haja perigo...
--Podemos cair dos telhados á rua como dous gatos ou dous perros, então
regougou pela primeira vez o ex-carcereiro. Mas nada de sustos.
D'entre dous perigos escolhe-se o menor.
Alguns momentos depois a janella tornara-se a fechar e Violante Gomes
desceu com animo desassocegado aos primeiros aposentos.
O borborinho e a algasarra não affrouxavam. Pareciam o preludio de uma
d'essas tremendas tempestades que se chamam revoluções populares.
--Abram a porta, abram a porta!
A estes rugidos de panthera ninguem respondia do palacio. As voses
proseguiam entretanto:
--Abram, senão arromba-se!
--Arrombe-se a porta!
--Á ordem de el-rei! Manda el-rei!
--Abram! abram, sôs fidalgos!
Como a porta não cedesse á intimação, as coronhadas principiaram de
desempenhar o seu papel destruidor. Grito infernal, desacato immenso!
De longe a longe uma voz robusta e vibrante forcejava por dominar a
gritaria.
--Basta, basta! bociferava..
Esforços baldados, porém. O barulho, em vez de esmorecer, augmentava
pouco a pouco. Scenas de sangue e horror iam começar ainda.
Entretanto os evasores dos ergastulos inquisitoriaes conseguiram chegar
ao meio da rua da Bitesga e ali resolveram parar á porta da taverna de
um parente do carcereiro.
Em derredor de comprida e nodoenta banca de pinho bebiam, gesticulavam e
rosnavam em selvatica liberdade uns quinze homens de esqualida catadura
e trajos andrajosos que logo á primeira vista se consideravam relé de
virtudes duvidosas.
Ainda mais seis ou oito colossos de eguaes trajos e costumes resonavam a
fartos folegos aos recantos da baiuca, uns acocorados indolentemente no
chão e outros encostados sem a minima ceremonia a escabellos e tamboretes.
Se aquella turba esqualida não denunciava um covil de feras, certamente
não parecia um grupo de seres humanos. Eram homens todavia; mas
homenzarrões de côr macilenta, voz cavernosa e cabeça guedelhuda e
cerdosa como de juba de leão.
--Leve o diacho, rugia um d'elles, que leve o diacho tanto a zurrapa
como quem nol-a vende. Esse filho da breca jamais nos deu cousa com
geito. O vinho... que peste! O vinho é sempre do peor e do mais caro
como se o vendesse a mastins da igualha d'esse bisneto de Judas.
--Pois andas mal, pedaço de asno, acodiu segundo bebedor dirigindo-se do
mesmo modo ao taverneiro. Se te não emendas e não cobras tento, nós
ensinamos-te deveras. A freguesia, meu lorpa, deixa-te ás moscas o
presepio...
--Por isso, redarguiu de mau humor o dono da taverna, não me ha de
ferver o miolo. Fregueses como tu, Chico, ou tambem como tu, Miguel
Farçante, juro que os tomara ver a cem leguas do bairro. Sempre traseis
os bolsos mais cheios de sarna e cotão que de chelpa. De calotes estou
eu farto dês que vos aturo.
--Cala-te ahi, volveu-lhe o bebedor Miguel Farçante. Bem sabes que não
sou de genio talhado para lerias...
--Puf, meu valentão das dusias! Lerias tuas é que pouco me importam. O
que mais quero é que me paguem e tu, se herdasses a vergonha dos
homens honrados, não me punhas mais as patas de portas a dentro.
--Uum, uum! Pois isso vai assim, grande lorpa! Toma lá pela injuria...
Logo na face cadaverica do vendeiro estalou uma punhada gigantesca. O
vendeiro quedara a principio silencioso e soffredor como uma estatua;
mas depois com a ligeiresa de um tigre pegou pelo bojo de um cangirão
quasi cheio de vinho e, ministrando-lhe a força de um punho de Sansão,
em um apice o arremessou á cabeça do aggressor. O barro quebrou-se em
pedaços e dous jorros de sangue borbulharam da testa em que elle bateu.
Immediatamente, em guisa de campo de batalha, se estremaram dous
partidos. Em todas as mãos luziam aos reflexos das candeias facas e
punhaes. Metade dos fregueses predispunha-se para a defesa e outra
metade para a investida.
--Vaes levar a tua conta, meliante!
--O vendeiro teve rasão...
--Rasão vamos ver quem a teve! Trocaram-se estas rudes ameaças em
um abrir e fechar de olhos. Eram o preludio de uma contenda furiosa
entre dusia e meia de ebrios e malvados, homunculos sem consciencia do
bem e do mal, tam lestos em derramarem o sangue das veias de seus irmãos
como em beberem até aos bordos um cangirão dos saborosos liquidos
extrahidos das parras do Seixal.
Foi então que o ex-carcereiro e o badage reconheceram a necessidade de
entrar na taverna.
--Meus rapases, fallou-lhes o badage, não estamos em maré de bulhas e
rixas com amigos. O valor e a coragem podem experimentar-se em outra
liça. Quereis mostrar-me agora que sois valentes, meus rapases?
--Topa-nos ás ordens, fidalgo! Mas primeiro deixe-nos dar uma tosquia a
taverneiros desaforados.
O vendeiro estava já bem seguro pela gola da jaqueta. Miguel, querendo
vingar-se da ferida, ergueu o braço musculoso e ia sem clemencia
descarregar-lhe sobre o peito a lamina do seu punhal. Mas o golpe
falhou. O badage segurou com força extraordinaria o braço que
sustentava o punhal.
Então o barulho arrefeceu e aquella corja de ebrios, baixando as facas e
os punhaes, pediu e celebrou tregoas.
--Disei-me pois, dirigiu-se-lhes novamente o badage, se quereis ou não
quereis provar o vosso valor e a vossa força. Preciso do serviço dos
vossos braços, meus rapases.
--Fidalgo, responderam logo, diga lá o que nos quer.
--Toca a beber primeiro, volveu o badage. Quem paga é a minha bolsa.
Venha lá do melhor e do mais caro: Seixal ou Caparica do mais velho.
O vendeiro apresentou seguidamente seis garrafas cobertas de pó e foi
despejando as primeiras duas no bojudo cangirão.
O badage pegou da vasilha e dispôz-se a offerecel-a a cada um dos
homunculos. Cada cangirão mal chegava para quatro bebedores, mas á
medida que se esvasiava não se esquecia o taverneiro de o reencher até
aos bordos.
Todos beberam á vontade em menos de meio quarto de hora e como o
badage tivesse pressa de lhes aproveitar os serviços tratou de
conduzil-os em direitura do Rocio.
--Adeus e obrigado, disse para o taverneiro. Ahi tens um ducado de ouro
de lei. Guarda-o em paga do teu vinho.
--Obrigado lhe digo eu, fidalgo. A despesa está paga. Não aceito o
dinheiro de vossa senhoria e ainda lhe fico devedor de muito mais.
--O taverneiro é generoso, é generoso! conclamou a maioria dos fregueses.
Preparavam-se todos para sair quando se lhes dirige ainda o taverneiro:
--Mas para onde vades assim, papalvos?
--Nós te diremos depois para onde vamos, retrucou o ex-carcereiro. Quem
fôr peco e desanimoso que fique para ahi como um perro. Pela nossa banda
queremos só gente de animo decidido e braço alentado.
--Bofé que ninguem dirá que o taverneiro da Bitesga foi algum dia peco!
Mas ouvi rosnar por ahi que era preciso combater e brigar. Se a coisa é
séria, unicamente facas e punhaes são armas de pouca monta.
--Fallas com a prudencia de Dom Vasco da Gama, apoiou o indio. Mas não
temos horas a perder e, na falta de outras armaduras, todas as que se
encontram á mão nos parecem de boa tempera.
--Serão. Mas devem concordar que as ha bem melhores de tempera e de
alcance. Uma espada alcança mais longe do que um punhal e os pelouros de
um bacamarte vão mais longe ainda...
--É certo. Mas onde ha por ahi perto algum arsenal?
--Um fiel vassallo de sua altesa serenissima deve estar sempre bem
apercebido e armado. Esperem um bocado, esperem que eu venho já.
Subiu o taverneiro ao primeiro andar da escura baiuca e momentos depois
se apresentou no meio dos seus fregueses com um braçado respeitavel de
bacamartes e de pistolas e machados, ascunhas e espadas. Para
complemento da collecção de armaduras de que falla o cantor dos
_Lusiadas_ faltavam ainda
_Os_ arneses e peitos relusentes,
Malhas finas e laminas seguras,
Escudos de pinturas differentes,
mas certamente sobejavam
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos e sagittiferas aljavas,
Partasanas agudas, chuças bravas.
--Para meia dusia de amigos, regougou o taverneiro, aqui temos pão e
queijo. Escolham á vontade...
Ficaram logo apercebidos e apetrechados seis ou oito dos mais robustos e
decididos. O numero restante julgou-se egualmente bem armado com os seus
punhaes de fina lamina e as suas facas de ponta cuidadosamente afiada.
--Agora, ordena o badage, cuidemos da partida. Alma alegre e caras á
frente. Vamos combater nada mais e nada menos que os serventes e
soldados do Santo Officio...
--Do Santo Officio! exclamaram com espanto.
Houve um momento de indecisão. Aquella palavra terrivel incutiu deveras
o terror nos espiritos mais varonis e affrouxava de medo o braço
mais possante. O tribunal do Santo Officio ou da _Santa Casa_, segundo o
conceito de um escriptor, comparava-se então pouco mais ou menos com a
arca de Noé, observando-se unicamente a differença de que os animaes que
entraram na arca sairam como tinham entrado e de todos os que eram
encerrados nos carceres da inquisição se viam sair mansos como cordeiros
aquelles que á entrada tinham a crueldade dos lobos e a feresa dos leões!
--Vejo, rosnou o ex-carcereiro, que não sois homens para empresas
serias. Tanto medo para nada! Eu, que servi por alguns annos essa corja
de inquisidores, confesso-vos que não recuo nem me arreceio.
--Aqui ninguem confessa medo! interferiu o vendeiro com heroica
resolução. A vida é uma ninharia e a mim tanto se me dá morrer hoje na
praça como ámanhan na cama. Vamos ou não vamos, rapases?
Momentos mais tarde a baiuca ficou permanecendo silenciosa e vasia.
[16] Arnaldo Gama. _O segredo do abbade._
XII
REFERTA DE TIGRES E LEÕES
Este arrojado troço de feras humanas premunidas com lanças e
espadões, ascunhas e alabardas, facas e mosquetes investiu no Rocio com
rude e selvagem ousia contra a infrene multidão. Ia travar-se agora uma
luta de tigres e leões.
Nem a surpresa nem o medo conseguiram afugentar as mulheres ou as
crianças. As mulheres gritavam e rugiam como pantheras, as crianças, em
corridas vertiginosas arremessavam pedras e calhaus, os velhos sentiam
refluir-lhes o sangue da juventude e serviam para animar os brios
dos mais novos. Uma destemida populaça e uma horda fanatica de soldados
lidavam e combatiam, como em liça de musulmanos contra christãos, com
egual coragem e com o mesmo furor.
Decorreram breves minutos e já se via, como na manhã seguinte de uma
noite de batalha, o chão alastrado de corpos ensanguentados e
moribundos. Mais de quinze cadaveres, não memorando a desastrada
hecatombe dos feridos e contusos, eram já os tristes despojos e as
victimas infelises da contenda.
O ruge-ruge, a voseria, a confusão e as cutiladas pareciam todavia cada
vez mais longe do seu fecho. Mas, predispondo-se a restabelecer o
socego, um personagem de altivo porte e animo resoluto á semelhança dos
paladinos da idade media, rompeu com bravura por entre o populacho e a
soldadesca proferindo em voz sonora: _basta, basta!_