abundancia se inundaram as algas e folhas do chão com um lago de sangue.
A força da fera cedeu por fim ao esforço do homem. O lobo cahiu,
estrabuxou e contorceu-se. Depois atroou as selvas com dous uivos
medonhos e perdeu os últimos alentos de vida.
Quasi ao mesmo tempo resoa nos espaços a buzina do monteiro-mór e é
então que no estadio da contenda se apresentam de facas e carabinas os
arredios caçadores.
--Que novidades houve? inquire o monarcha ao passo que descança o cano
da espingarda ao tronco de um carvalho.
--Pardés que não nos faltou susto! apostrofou o timido cardeal ao mesmo
tempo que se aventurava a sair da toca d'essa mesma arvore.
El-rei não pôde conter a explosão de uma risada e todos, sem distincção
de gerarchias, expansivamente lhe seguiram o exemplo.
--É bom signal, affoutou-se a diser o pagem, que sua altesa esteja de
agradavel humor.
--Signal é de boa caçada. Não achas, pagem?
--Assim me parece, meu senhor.
--Mas que tens ahi? Que animal é esse?
--Meu senhor, são os despojos da caçada.
Em seguida contou a princesa Dona Joanna as peripecias do fatal
acontecimento e logo de todos fôra o pagem felicitado por sua valentia e
dedicação.
[12] Cesar Cantu. _Hist. universal._ Edição francesa, tomo 1, pag.
305.
VII
A LUTA
A rainha, forcejando por esquecer as extraordinarias impressões da
caçada, recreava-se momentos depois na sua recamara dos paços de
Almeirim com a leitura das trovas populares do celebre Juan de Encina.
A tristesa empanava-lhe levemente o brilho dos olhos feiticeiros e a
cada minuto lhe assaltava o espirito de ideias desconsoladoras. Parecia
inquieta do animo como se adivinhasse alguma funesta novidade.
Entrou o pagem n'esta occasião e pé ante pé dirigindo-se para o lado
esquerdo da rainha, fitou-a com olhares de poetica melancolia.
--Estimo ver-te, pagem. Tenho passado aborrecida e será muito do meu
gosto ouvir contar alguma façanha alegre. Sempre me dirás o que tens
feito...
--Nem tudo se diz, senhora.
--Sempre te conheci mysterioso. Mas agora, meu pagem, lembra-te de que
estás ao pé de quem deveras te estima...
--Sei reconhecer a vossa amisade, senhora. O pobre pagem deixar-se-hia
estrangular pelas garras de um tigre só para vos compraser. Não faseis
ideia da minha dedicação, não podeis medir a grandesa do meu amor!
A rainha estremeceu levemente como se a ferisse a ponta de um alfinete.
--Por ventura me tens amor? assim o interrogou com um sorriso jovial.
--Juro-o pelos Vedas.
--Mas não reparas nos meus annos? Não vês claramente que já sou velha!
--Uma rainha nunca envelhece. É uma eterna primavera de florescencia e
de perfumes.
--Sendo verdade o que dises, reconheço que sou uma excepção.
--Senhora, esplendem em vós todas as graças e possuis todos os encantos!
--Ousado mancebo, não saberei regeitar as tuas galanterias; mas emfim
não sabes que uma rainha não deve amar ninguem? Contenta-te com a minha
estima. Dou-te a minha amisade e isso é bastante.
--Sabei que para vos amar, confidenciou o badage com a selvagem entoação
do seu paiz natal, pouco me foi preciso. Senhora, bastou o vosso
olhar... Mas para odiar-vos ainda será preciso menos. Escolhei...
--Escolhe tu, pagem.
--Escolho o vosso amor!
--Comprehendo; mas que provas queres tu que eu te dê, que exigencias por
acaso imaginas impor-me?
--Concedei-me tudo quanto vos peça.
--Com algumas condições...
--Sou orgulhoso. Não admitto condições. Disei se sim ou não.
--Pois bem, prometto.
O pagem, com o enternecimento de Othello ouvindo a Desdemona a primeira
revelação de affecto, estremeceu fibra a fibra de alegria.
--Obrigado, lhe agradece com enthusiasmo. Ides faser a felicidade do
pobre pagem. Mil veses obrigado, senhora!
--Mas então que pretendes de mim? volveu-lhe a rainha com uma espontanea
expressão de carinho.
--Quasi nada e todavia pretendo tudo.
--Dize...
--Quem sabe se vos offendo! Talvez me não atreva...
--Fases mal. Eu gosto das pessoas temerarias...
--Deixai-me, senhora, dar-vos na face... na, face de rosa... um beijo...
um beijo unico!
--Mancebo, retorquiu Dona Catharina com accento grave e de rosto em
plena calma, saberás que a palavra de uma rainha não falta ao que
promette. Aqui tens a minha face! O pagem com a rapidez de uma frecha
aproximou-lhe do rosto os labios cubiçosos e ali imprimiu com
soffreguidão um beijo escandecente como as lavas do Etna.
Immediatamente, como possuindo-se de vergonha e respeito, fugiu com
prestesa da recamara.
--É certo que tambem lhe consagro eu alguma coisa mais do que amisade,
ficou a rainha pensando agora. Grande coração aquelle! É capaz de todos
os heroismos e todavia diante de mim parece uma criança cheia de
timidez. Parece decerto uma criança. Mas quem o não é em taes
circumstancias de enleio e talvez de demencia? Amor, amor! és o mobil de
todas as acções esquisitas, porque és o germen de todos os pensamentos
humanos. Jamais se realisam os teus desejos e todavia ninguem deixa de
sujeitar-se de boa vontade ao teu jugo. Queres e não queres, acaricias e
odeias, confias e desconfias de tudo ao mesmo tempo. Foi sempre voluvel
o teu caracter como voluveis costumam ser as ondas do mar. És a gota de
agua que fertilisa a aridez da vida, és ainda uma redoma de perfumes e
um sacrario de virtudes; mas tambem és um elemento de odios e um
antro de vicios. Socrates não saberia definir as tuas virtudes; Hercules
não poderia medir-se com a tua força. Homens e mulheres egualmente
abrigam e sentem nas fibras dos seios as tuas chammas e os teus
effeitos; porém quem logrou ainda sondar os teus arcanos, quem
porventura conseguiu explicar os teus mysterios?
N'este comenos transpunha o pagem uma sala immediata á luxuosa recamara.
Depois, abrindo uma porta gigantesca, predispunha-se a entrar no vasto
corredor do palacio quando quatro alabardeiros do serviço particular de
el-rei lhe impedem a passagem.
--Acompanha-nos, meu caro.
A esta desceremoniosa intimação de um dos quatro soldados o badage
retorquiu orgulhosamente:
--Á ordem de quem?
--Manda el-rei nosso amo e senhor. Obedece!
--Preciso primeiramente conhecer-vos. Em guarda, belleguins!
O pagem desnudou a fiel espada com a ligeiresa de quem d'ella se
sabia servir a tempo e horas e, recuando tres passos, aguarda com animo
frio a aggressão dos alabardeiros.
--Mãos á obra! ordena um d'elles. Faça-se por mal o que se não póde
faser por bem. Pagarás cara a temeridade, meu criancelho!
Á luz baça do corredor montantes e alabardas em poucos momentos se
disposeram a começar o seu officio.
Era vasto o corredor; mas todos conservavam as mesmas posições. O
badage, mestre consummado no jogo da espada, não deixava adiantar uma
polegada aos quatro contendores. Ninguem, resuscitando o pomposo estylo
do padre Vieira, soube ainda com mais garbo e valentia brandir a lança,
erguer a espada e fulminar o montante. Crusavam-se as armas, acachoavam
diabolicas imprecações, empregavam-se titanicos esforços para se decidir
da contenda; mas o badage parecia sustentar nas mãos de bronze a clava
de Hercules.
--Com mil demos! rugiu um dos alabardeiros ao cambalear no soalho com o
desiquilibrio de um ebrio.
--Sinto-me ferido! regougou o segundo camarada ao largar a alabarda com
desanimo de uma vez para sempre.
Eram agora sómente dous os inimigos do badage. Mas um d'elles
principalmente não affrouxava os golpes. Era de todos o mais alentado e
o mais temerario.
--Aposto que me não conheceste ainda, meu criançola!
O badage retorquiu-lhe:
--Parece-me que já nos encontramos, sicario.
--Por signal que te acompanhava um alto personagem. Bella noite aquella!
--Covarde! Eras tu quem de emboscada queria assassinar o infante Dom Luiz?
--Tens memoria, meu fidalgote. Nem mais nem menos... Olha bem para mim:
sou o teu conhecido Jacobo.
O badage retrocedeu meio passo e por dous momentos apresentou a
descoberto a arca do peito. Aproveitou este arriscado estratagema para
triunfar do seu terrivel adversario, porque Jacobo, julgando certeiro e
infallivel o golpe, resolveu apenas valer-se da vantagem de ferir o
pagem. Todavia o denodado mancebo, por meio de uma rapida manobra,
desviou o corpo e arremessa a ponta da espada em direitura do contendor.
Em um abrir e fechar de olhos rasga-lhe a carotida e completamente lhe
atravessa o pescoço de lado a lado!
Ouve-se então um clamor horrendo. Á testa de uma dusia de archeiros e
familiares do Santo Officio com ascumas e espadas acode tumultuariamente
o jesuita Simão Rodrigues, o qual, primeiro que o pagem aproveitasse
ensejo de evasão, com arrogancia o intima a render-se por ordem de
el-rei.
VIII
OS ESTAUS
Ao indio amarraram os pulsos com rijas cordas e violentamente o
conduziram dos paços de Almeirim á residencia inquisitorial do Rocio.
Aqui foi, sempre debaixo de uma orchestra de apupos, introduzido na
abobada subterranea que servia de encerro, onde lhe vestiram uma casula
ou escapulario de panno amarello com cruses de Santo André pintadas de
vermelho assim por diante como por detraz.
Era o carcere um espaçoso quadrilongo lageado de tijolos, sustentado por
vastas arcadas e com paredes lavradas de cantaria. A humidade, o
frio e todas as inclemencias da invernosa estação ali contrariavam
sobremodo todos os elementos de hygiene. Ausencia radical de mobilia, de
conforto e ambiente puro. Á propria luz do dia, que é propriedade que
Deus reparte sem restricção por todos os seres racionaes ou irracionaes,
era quasi totalmente prohibido o accesso. Para bem se descrever
precisava-se do estylo de Victor Hugo: era, em frase do grandioso poeta,
morada onde não havia ar no verão, onde não havia fogo no inverno, onde
não havia pão nem de inverno nem de verão. Morada lugubre do mysterio e
do crime, áquella especie de catacumbas romanas de proposito se
imprimira o caracter de infecta e lobrega sepultura a que faltava apenas
a terrivel inscripção do inferno do Dante: _lasciate ogni speranza!_
Tres dias successivos viveu o pagem a codeas de pão e a goles de agua
sem que lhe indicassem a sorte de supplicios que lhe cumpria padecer.
Unicamente communicava com o alcaide ou carcereiro, cerbéro de aspecto
extremamente alvar e discreto de lingua como um rochedo. Todavia o pagem
não se incommodou com o seu estranho encerro. Naturesa moldada a
todos os vaivens da fortuna, a transição da ventura para o infortunio
era quasi para elle um phenomeno insensivel. Sempre se dispunha com
animo inquebrantavel a experimentar quaesquer acontecimentos por mais
extraordinarios que fossem.
--Na verdade, monologava elle em maré de maior expansão, tem suas rasões
o procedimento de Simão Rodrigues. Confesso que a sua senhoria não era
affecto nem adstricto de maneira que podesse facilmente dispor dos meus
serviços e, juro-o pelos Vedas, não se enganou de todo o ladino jesuita.
Mas eu prometto ainda, meu padre, prometto ainda pagar-te juros e
capital na mesma moeda. Pardés que havemos de saldar contas!
Só ao entardecer do quarto dia é que foi o pagem visitado. O proprio
Simão Rodrigues lhe appareceu disfarçado nos trajos de familiar do santo
officio.
--Não ignoras, lhe disse depois de algumas palavras de comprimento, não
ignoras, meu filho, que peccados te condusiram a estes lugares. Escuso
de avisar-te que, por teu mal, és accusado, na qualidade de christão
novo, de rebelde ás praticas da religião e de Deus...
--Quando se não póde esmagar a vibora, respondeu-lhe corajosamente o
pagem, foge-se pelo menos da sua presença. Eu devera fugir para longe,
embora procurasse nas brenhas dos sertões do Mandovy a companhia das
onças e dos tigres. Mas sem cautela me deixei quedar n'este paiz de
fanatismo e de crimes. Por isso me não reconheço justiça de queixar-me.
Aqui me tens agora, bem disposto de alma e corpo a escutar as tuas
fallas e á espera dos teus castigos. Adivinho o que me espera: antes do
baraço da forca o soffrimento da masmorra, ou talvez, para mais demora
das derradeiras agonias, a tortura da fogueira...
--Estranha linguagem é essa, volveu-lhe com brandura o jesuita. De
certo, pobre mancebo, o teu cerebro não regula assisadamente. A falta de
crenças e de fé estiolara o vigor do teu espirito. Quem te manda ser tam
orgulhoso? Lembra-te que é virtude evangelica a humildade. Os humildes
serão exaltados e os orgulhosos abatidos conforme a palavra infallivel
do Evangelho.
--Meu padre, embora me chames hereje ou christão novo, aprecio as
bellesas e virtudes da religião catholica. Por ella abandonei as crenças
de meus paes e as tradições seculares da minha raça. Voluntariamente
recebi o baptismo das mãos de Antonio Criminal e desde então para sempre
se inflammou no meu espirito o amor acrisolado do Deus dos christãos. De
bom grado lidarei por toda a vida em defensão da cruz e da fé. Porém não
quero, meu padre, seguir os teus preceitos e abraçar as tuas doutrinas,
Não quero que me obrigues a pensar a teu sabor, repugnam-me todas as
peias impostas á liberdade de consciencia, abomino emfim o jugo atroz a
que a vossa oligarchia clerical reduz o espirito humano. De outro modo
bem diverso comprehendo os deveres do homem. Não basta a Deus que o
amemos sobre todas as coisas? Não basta ao rei que se seja bom cidadão?
Obedecer ás leis, dar exemplos de bons costumes, estimar a familia e
defender a patria: eis tudo!
--Fallas bem, mas não convences. Amor de Deus e obediencia ao rei não
bastam.
--Dize-me então quaes são as leis que governam o mundo. Explica-me
todos os mysterios do teu governo e da ordem inquisitorial.
--Em duas palavras se resumem, criança: _mandar e obedecer_.
--Mas a quem se obedece, meu padre? A Deus, ou aos seus missionarios na
terra? ao nosso rei, ou aos aulicos miseraveis que, usurpando-lhe o
sceptro, abusam da indole e fraquesa do rei?
--Vou mostrar-te a quem é.
A esta laconica e mysteriosa ameaça chamou o jesuita pelo silencioso
carcereiro, a quem ordenou, ainda com maior laconismo, estatelasse o
pagem no segredo.
O carcereiro puchou por uma das argolas de ferro pregadas na parede e,
mediante um alentado esforço, depressa fez sobresair uma abertura da
capacidade de tres palmos de largo e uns sete palmos de alto.
Guardando sempre o mesmo silencio, pegou do corpo do badage como se
lidasse com uma pluma de ave e, começando de lhe introduzir os pés e as
pernas, fechou-o com celeridade na mysteriosa crypta.
A nova prisão era uma especie de armario de granito cuja parte superior,
á semelhança de um enorme funil, apresentava geometricamente o desenho
de uma figura conica.
Sendo armario como parecia, abundava em estantes ou prateleiras, mas
prateleiras de gosto e feitio a darem ideia aproximada das divisões
funerarias de que se formam as capellas dos nossos cemiterios.
--Sepultam-me vivo estes sacerdotes do Senhor, pensou o pagem. Está
decidido que de aqui só se vae para o ceu ou para o inferno.
Mas o pagem, mal se lhe proporcionava ensejo de criar este lugubre
pensamento, viu escancarar-se de novo a tampa do seu sepulchro.
--Podes sair, ordena o jesuita.
--Bem ruim gracejo, meu padre. Julguei asphixiar como se fosse um perro.
Nem luz nem ar e sobretudo um cheiro, a vermes podres que deveras me
incommodava o nariz.
--Pois arrepende-te dos teus erros. Os bens da terra não os merecem os
peccadores que a todos os momentos offendem a vontade de Deus.
Reconhecendo as leis e o dominio da nossa ordem, terás para sempre
o socego do teu corpo e a ventura do teu espirito. Os filhos de Jesus
Christo, a despeito de parecerem os ultimos pela modestia do habito, são
hoje por todas as partes do mundo os primeiros na força e no poderio. Ai
do insensato que julga encravar com um dedo a roda dos seus triunfos!
Por isso, meu filho, expulsa quanto antes do teu seio as glorias vans do
mundo secular. Em vez do gibão de velludo ou do cossolete de aço polido,
enverga o saio de estamenha e abraça o lenho sagrado de Jesus Christo.
O jesuita, deixando novamente a sós o badage, retirou-se a passo lento.
Vendo-se agora o badage n'quella solidão tremenda, por mais uma vez
relanceou as vistas em redor do carcere.
A argola puchada pelo carcereiro inflammou-lhe a imaginação e, querendo
descobrir o segredo de outras argolas identicas, adiantou-se em
direitura da parede.
Á imitação do homunculo, puchou com força. Era uma argola de ferro
carcomida pela ferrugem de alguns annos. Ella parecia ceder ao
primeiro empuxão; mas ficou segura e fixa como se a pretendesse
abalar o pulso de uma criança. Novo empuxão com maior violencia e ainda,
todavia, se não obteve mais feliz resultado.
--A questão é de geito, considerou o pagem.
Com effeito, sem exigir metade do esforço a argola cedeu á sexta ou
setima tentativa.
No bojo da parede, ainda que de fórma differente do armario de granito
onde fôra introduzido o badage, manifestou-se uma crypta de genero
egualmente lugubre. Formavam-na quatro paredes escuras de dez ou doze
palmos de largo e deseseis ou desoito palmos de altura. Nada inculcaria
de notavel a não ser uma especie de feretro levantado no centro do
pavimento. O feretro, que era fabricado de pedra tosca em harmonia com
todo o escondrijo, servia de asylo a um esqueleto de mulher. Os braços e
tronco, as pernas e a caveira ali se viam com a pelle arroxeada e os
ossos amarellecidos pelos effeitos da podridão.
O badage, pensando na sorte das malaventuradas creaturas, sentiu ainda
mais activa a prurigem da curiosidade. Não cuidando de fechar a
porta do escondrijo, lembra-se de percorrer a trechos a parede. Lançou
as mãos a segunda argola e eis que lhe apparece novo escondedouro. Não
tem sarcophagos, nem feretros, nem prateleiras, nem divisões. Menos alto
do que largo, é simplesmente uma grande caixa de pedra. No pavimento
amontoam-se braços encrusados, pernas desconjuntadas e caveiras ás
duzias. Era uma pilha putrefacta e immunda de caveiras e esqueletos
humanos: um repulsivo e fetido ossario emfim.
Nuvens de fumo espesso e acre vieram entretanto invadir pouco a pouco o
espaço do carcere. Cada vez se pronuncia mais um cheiro violento de
substancias asphixiadoras. Ficam por todo o espaço predominando esses
dous inimigos dos pulmões: o acido carbonico e o acido sulphydrico.
Esta horrivel atmosphera devia naturalmente influir nos sentidos e na
organisação do badage. Influiu. A cabeça entonteceu-lhe e, cambaleando
como um ebrio, cahiu na distancia de algumas polegadas das caveiras e
esqueletos do ossario!
IX
O CARCEREIRO
O badage irremediavelmente morreria asphixiado pela acção dos
vapores deleterios se o carcereiro, cuidando de abrir uma larga janella
situada ao fundo do calabouço, não permittisse rapido ingresso a uma
camada violenta de ar.
Abertas as portas da janella, os fluidos atmosphericos vieram
naturalmente substituir os vapores do enxofre e assim em poucos momentos
se restabeleceu nas gemonias inquisitoriaes um ambiente mais ou menos
salutar.
O badage acreditou na sua ressurreição.
--Obrigado, obrigado. Antes estourar de uma cutilada de mouro de Asamor
do que morrer abafado como um perro. Com mil brecas!
--Poupe os seus agradecimentos, resmoneou o carcereiro. Fiz apenas a
minha obrigação. Mandaram-me que o não deixasse morrer e eu obstei a que
morresse. Mandassem-me o contrario, eu o contrario teria feito sem tugir
nem mugir e vossa mercê, fóra de duvida, morreria sem remissão nem aggravo.
--Comprehendo, observa-lhe o badage, que influa mais no teu espirito a
religião do dever do que a da misericordia. Mas tambem é certo que
debaixo d'esse pello de perro austero e selvagem tens ou deves ter uma
alma. Por ventura deixarias morrer, á guisa de fera estorcida na jaula,
um pobre homem nascido e criado á semelhança de Deus?
--Desempenho á risca as ordens que me dão. Para isso me sustentam e pagam.
--Então se te dissessem--_estrangula tua irman e assassina tua mãe!_ tu,
em obediencia á malvadez do amo, julgarias cumprir com o teu dever?
--Por Deus que ninguem me obrigava a tirar a vida a meus irmãos ou a
meus paes!
--Mas supponhamos que assim acontecia...
O carcereiro experimentou uma ligeira contracção de nervos, estendeu com
gestos de ameaça terrivel os braços musculosos e regougou em bruscos
termos como se disposesse da voz do trovão:
--Eu, escravo, em caso tal arrancaria com estas garras de hyena a lingua
do meu amo!
--Não te fallece por tanto uma certa intuição do bem e do mal. Por
instincto ou rasão natural, sempre dispões de uma certa faculdade
pensante que te diz não ser infinita a orbita dos teus deveres servis.
Reconheces em summa que o universo é maior...
--Não comprehendo bem. Um desastrado carcereiro não póde saber de letras
nem sabe o que são ideias. É um cão de fila a quem disseram: _guarda
esse rebanho e no fim de cada mez receberás as gorduras de uns tantos
ossos_. O cão desempenha cada dia o seu serviço de guardar e jámais se
importa que o rebanho seja de ovelhas limpas e alfeiras ou bravias e
tinhosas. Obedece á voz de quem manda.
--Mas porque obedeces tu?
--Porque me pagam.
--Logo, obedeces a quem te paga...
--Está visto.
--Logo, o serviço está em relação com a paga: maior paga, melhor serviço.
--Naturalmente.
--Logo se eu te pagar maior quantia do que a que tu percebes como
carcereiro, depressa abandonarás a profissão de carcereiro...
--Nem mais nem menos, meu fidalgo!
--Dize-me então: quanto ganhas n'esta enxovia?
--Conta redonda: 150 crusados por anno.
--150 crusados por anno correspondem a pouco mais de 12 crusados por mez
e a menos de 200 reis por dia. Julgas que não é pouco?
--Deveras é muito pouco para quem se vê obrigado a sustentar mulher e
filhos...
--Ah, tambem tens familia?
--Quem não tem familia, meu fidalgo?
--De certo não sabes quem eu sou. Eu vivo sem paes, sem irmãos e sem
parentes. Disem que sou um christão novo! Sou talvez um apostata,
um reprobo, um paria! Vivi por longo tempo na innocencia e no socego dos
sertões. Meus paes e meus parentes nutriam-se dos cachos das palmeiras,
com todo o fervor das suas almas fasiam as suas orações no templo de
Trichandur e as tempestades da desgraça jámais varreram tanto o repouso
do seu corpo como as crenças do seu espirito. Mas um dia[13]
nos mastareus de enormes galeões appareceu arvorada a bandeira lusitana
n'esse grandioso imperio onde[14] _as plantas são fructos,
as aguas perolas e as pedras preciosas_. Esta bandeira significava o
symbolo da fé; era o labaro da paz e da fraternidade. Por isso de todas
as cidades e aldeias se receberam os companheiros de Vasco da Gama como
irmãos e amigos. Estabeleceu-se a troca dos generos, entabolaram-se
todas as transacções commerciaes, vendiam-se pelos brocados de seda e
pelos tecidos de lan ou de algodão o coral e o marfim, as perolas e o
ouro, a canella e toda a casta de especiarias. Mas, ah, depressa a
cobiça das riquesas transtornou a paz e a ventura das Indias! Em vez da
troca e dos contractos mercantis, os portugueses foram preferindo
as dadivas e a vassalagem por não desmentirem que chegavam _tam mortos
de fome como vivos de cobiça_[15]. Accendeu-se então por
toda a parte o facho da guerra e da discordia. Familias inteiras
perderam a fasenda e a liberdade, povos inteiros perderam a familia e a
existencia. Não te farei a resenha dos roubos e das violencias, dos
combates e dos incendios. Basta saberes que foi assim que eu fiquei só
no mundo: sem patria, sem dinheiro e sem amparo...
--Uum, uum! Não sei se acredite o que me diz, atalhou o carcereiro. Não
acredito de certo. Vossa mercê ou vossa senhoria é mais do que inculca
ou inculca mais do que é.
--Então que favoravel ou ruim ideia fases de mim?
--Imagino que seja algum fidalgo poderoso.
--Não sou fidalgo.
--Pelo menos algum conde...
--Enganas-te.
--Meu senhor, ninguem, sem que seja de altas hierarchias e de
singular poderio, gosa da honra de entrar aqui. Para simples peões não
foram feitas as seguras grades e as grossas paredes que sustentam estas
abobadas.
--Tens rasão. Nada sou do que dises e sou todavia muito mais que tudo isso.
--Algum marquez?
--Mais!
--Algum duque?... O snr. duque de Lencastre, o snr. duque de Bragança, o
snr. duque de Viseu?...
--Mais, muito mais!
--Acima de um duque nada conheço. São os maiores fidalgos do reino.
Ninguem acima d'elles a não ser sua altesa serenissima o senhor Dom João
III.