El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os

hombros alentados uma opa roçagante de lhama de ouro e prata. Por cima

da curta cabelleira pousava-lhe na cabeça um chapeu enfeitado com plumas

brancas, de aba erguida de um lado e presilha recamada de vistosa

pedraria. Emfim as bellas insignias do Tosão de Ouro assoberbavam-lhe o

peito e da cinta pendia-lhe um dourado espadim em que relusiam meia

duzia das mais preciosas gemmas da colonia do Brasil.

Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes

conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que

entravam na lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.

De direito fez as honras da mesa el-rei Dom João III, ficando-lhe á

dextra a princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso

valido Antonio de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a

rainha Dona Catharina de Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho

o principe Dom João e a esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.

Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se

poderá notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raças aristocraticas

de Portugal.

Não faltavam ao banquete, além dos principes e mais pessoas da familia

real, o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato

jesuita Simão Rodrigues, o illustre Dom João de Lencastre, o chanceler

doutor João Monteiro, o desembargador Dom Gonçalo Pinheiro, o nobre

Marquez de Villareal, o prudente Duque de Bragança e ainda tres dusias

de lusidos personagens que na maior parte representavam a curia de Roma

e as côrtes estrangeiras.

Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores e as mais

esquisitas iguarias serviam-se com profusão. Os vinhos eram de

excellente paladar e por isso motivaram algumas alegres modificações no

rigoroso codigo das etiquetas.

Foi Dom João III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na

dextra. Já não era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se

de faces rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu

espirito se abrira com tanta expansão e tanta liberdade. Sorrindo com

alegria, olhou por um momento em derredor da mesa e proferiu

pausadamente as palavras seguintes:

--Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da

mui alta e excellente esposa de meu presado filho Dom João todas as

graças e mais prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para

goso e ventura de todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a

preciosa vida por muitos annos. Sempre lhe tributarei n'esta côrte as

mais ternas affeições como filha a quem muito amo e todas as homenagens

como princesa das mais excelsas virtudes. Por isso é, fidalgos e

prelados da minha côrte, que eu com summa alegria do meu coração

brindo agora á saude da nobre princesa Dona Joanna!

Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras

espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de pé e em

reverente postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas

cabeças.

De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e

novamente se dispoz a abrir os diques á sua expansiva loquela.

--Grandes e senhores da minha côrte, principiou elle, não deixarei

tambem de faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu

throno. Piamente confio em que Deus lhe inspirará amor pela justiça,

respeito ás leis do reino e obediencia ás doutrinas da nossa santa

religião. Firmam-se n'elle as esperanças dos leaes portugueses e

certamente meu filho se tornará digno por seus talentos e virtudes do

amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeições do meu

seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei

sempre aos céus nas minhas orações lhe prospere Deus a preciosa

existencia... Que Deus lh'a prospere e viva por muitos annos o glorioso

principe Dom João! Meus senhores, perorou erguendo mais a copa e a voz,

viva meu filho o principe Dom João!

Um coro dissono e rapido de vivas eccoou pelos recantos do vasto salão

do festim. Principes e embaixadores, fidalgos e prelados ouviram com

enthusiasmo as ultimas voses de el-rei e todos a um tempo, levando á

altura dos beiços as copas cheias d'esse valente liquido que _o peito

accende e a cor ao gesto muda_, soltaram o grito fremente de _viva o

principe Dom João! Viva o principe Dom João!_

Sentaram-se depois e por um pouco arrefeceram os gastronomicos delirios.

Apenas se escutavam o rangido frouxo dos talheres e as brandas passadas

dos criados. Foi porém de breve duração esta calmaria. Levantou-se o

Conde da Castanheira e, com fallas adamadas e gestos em demasia

palacianos, dispoz-se a discursar.

--Pedindo venia a vossas altesas serenissimas--começou o poderoso

valido, cortejando com a cabeça o monarcha e Dona Catharina--ouso

tambem manifestar a grande satisfação que me desperta o glorioso dia que

em tam esplendido banquete se commemora. O feliz consorcio do nosso

principe real é para todos os leaes portugueses motivo de felicitações e

regosijos. Quem não ha de exultar com as virtudes varonis e prendas

naturaes dos augustos noivos? Permitti que vos saude, excelsa princesa!

Dae-me a liberdade de brindar á vossa ventura, augusto principe!

Dom Antonio de Athayde bebeo de um trago o vinho do seu calix e a tam

palaciano brinde logo corresponderam em coro todos os convivas.

Por seu turno ergueram-se ainda com os calices na mão o inquisidor geral

D. Henrique, o velho arcebispo de Braga e tambem Dom João de Lencastre.

Entresachados de latim e de textos theologicos se desenvolveram os dous

primeiros discursos, mostrando-se assim a erudição e sabedoria dos

respeitabilissimos varões que os proferiram. O de Dom João de Lencastre,

esse foi declamado na lingua espanhola em frase singela e correntia como

sendo de pessoa mais adestrada no jogo das armas que em torneios de

palavras.

Como nas marés dos oceanos, dá-se tambem o fluxo e o refluxo nas marés

do enthusiasmo. Nem tudo, por esta rasão, era delirio e voseria. O

silencio reinava tambem de longe a longe.

Silencio profundo reinava no salão do banquete quando, emfim, de um dos

recantos da mesa se levanta um mancebo de tez morena e bronzeada como a

dos povos da India.

Era o joven amigo do infante Dom Luiz de Beja.

--Monarcha Dom João, prologou elle com voz clara e rosto sereno, eu

venho como o profeta Daniel vaticinar-vos a sorte de Balthasar!

Mal fôra proferida esta ameaça terrivel e já duas duzias dos mais

esforçados fidalgos se adiantaram com o punho nos copos dos dourados

chifarotes.

O pagem não se intimidou, porém. Deu maior volume á voz e com o seu

placido gesto exprimiu-se ainda:

--Não encareço as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha

Dom João; mas sempre vos imputarei a responsabilidade dos tremendos

crimes que se commettem na vossa côrte...

--Crimes na minha côrte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da

cadeira como impellido por uma secreta mola.

--Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda não

vos dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmão o infante D. Luiz.

Á inesperada revelação succedeo um momento de espanto e alvoroço. Quem

não presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim

fidalgos como peões e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes

que se não sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja

correra imminente risco.

--Fallae agora vós, meu irmão. Por acaso premeditaram alguns sicarios

contra a vossa vida?

--Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom

Luiz. Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos e

de certo dos seus punhaes seria victima innocente se me não acode

aquelle generoso pagem.

--Graças dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas

que foi feito dos assassinos? Justiça rigorosa se fará, meu presado irmão.

--Justiça rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.

--Justiça! justiça! conclamaram todos os convivas.

Gradualmente foram esmorecendo as vingadoras explosões de enthusiasmo e

então o monarcha portuguez, retirando-se bruscamente da mesa, fez

terminar esse festival e ruidoso banquete que, para dar em tudo

semelhanças do festim de Balthasar, só faltou que mão invisivel

escrevesse na parede as mysteriosas palavras _mané_--_thécel_--_pharês_!

[10] Vid. _Hist. polit. e militar de Port._ por L. Coelho, t. I,

pag. 249.

V

ORAÇÕES E JEJUNS REDIMEM TODAS AS CULPAS

Da casa do jantar passou a maioria dos convivas para um faustoso

salão em cujos moveis sobresaiam riquissimos estofos de cores amarella e

carmesim.

Aqui principiaram damas e fidalgos de se entreter com jogos de cartas,

girando a rodo sobre as mesas moedas de prata e ouro como se fossem

alcacer de Astrea os paços de el-rei Dom João III.

Dom João III, esse vamos vel-o no seu gabinete preoccupadamente sentado

em larga poltrona franjada de ouro e prestando a maior attenção ás

fallas veneradoras de dous illustres personagens.

Estes personagens vestem com excessiva desigualdade no feitio e na

fasenda: traja o mais novo rico veludo roxo e o mais velho humilde

roupeta de estamenha.

Será empresa difficil todavia distinguil-os no valimento e no poderio.

Ambos representam duas hierarchias eminentes: a nobresa e o clero.

São o padre mestre provincial Simão Rodrigues e o celebre Conde da

Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que «n'aquelle

tempo ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro

juiso[11]».

--Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As

palavras d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.

--O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a

empresa foi commettida a gente de confiança...

--Mas, interrompe el-rei, não me disseram já que o attentado se

baldou por artes do diabo ou por manhas de quem quer que fosse?

--Verdade é, responderam ambos ao mesmo tempo.

--Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...

--Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os

capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando

chegou o diabo, todos debandaram com prudencia.

--Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito!

desabafa el-rei.

--O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.

--Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria,

mas porventura não peccamos nós contra os mandamentos da santa religião?

Receio, meu padre, o castigo da Providencia!

--Que póde recear vossa altesa real, o mais fervoroso filho de Deus?

replica o poderoso jesuita com extrema brandura.

--O castigo dos meus peccados, o castigo dos meus peccados...

Conheço que ordenei um assassinio. Não terei eu, como Caim, manchado as

minhas mãos em sangue fratricida? Meu padre, a colera do Senhor cairá

sobre a minha cabeça!

--A oração e os jejuns redimem todas as culpas...

Proferia Simão Rodrigues esta mistica sentença quando estalou na sala do

jogo um grande alvoroto de voses e passos.

Sobresaltou-se o monarcha Dom João como se novamente lhe retumbasse nos

ouvidos o tremendo vaticinio do pagem: _Eu venho, como Daniel,

profetisar-vos a sorte de Balthasar._

O Conde da Castanheira dirigio-se com prestesa para a soleira da porta a

colher noticia do alvoroto e, dando volta á chave, eis que frente a

frente se lhe depara a figura travessa do indio.

O badage, sem comprimentos nem venia, collocou-se em poucos passos

defronte do monarcha.

--Não se enfade vossa altesa serenissima, lhe disse respeitosamente. É

natural o ruge-ruge que vos chega aos ouvidos, senhor. Não provém de

rebellia nem de incendio. Toda a côrte se alvorota e desconsola porque o

principe Dom João adoeceu repentinamente ao levantar-se da mesa.

--Asseveras que está doente meu filho, o meu querido filho Dom João?

inquire el-rei ao mesmo tempo que se levanta da poltrona com visivel

preoccupação.

--E doença de morte o accommetteu, prosegue o badage. Mas nada receie

vossa altesa serenissima, que _a oração e os jejuns redimem todas as

culpas_.

--Pardés, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso

conde carregando o sobrolho.

--Fallo a verdade sem rebuço e mais direi ainda se el-rei me permitte a

ousia de fallar.

--Sei que és ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo!

volve o monarcha em profundo estado de abatimento moral.

--Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso

filho o principe Dom João!

Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores

de um raio.

Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial

insensibilidade sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper

o silencio. Por fim ergueu-se tremulamente o monarcha e, não descobrindo

já o destemido badage, perguntou com voz desfallecida:

--Que é feito do pagem?

Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas já não

avistaram ninguem.

Não quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os

seus validos, lhes exprobra com friesa:

--Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz

Deus punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre

todas as coisas eu queria e presava. Mas ai de vós, senhores, ai de vós

e de mim se elle morre!

Os dous validos não aventuraram palavras de defesa ou de conforto com

que salvassem semelhante conjunctura e el-rei, deixando-os impassiveis

no meio do gabinete, saío pela porta a informar-se das clamorosas scenas

que occorriam.

--Trocaram-se os papeis provavelmente, resmoneou o Conde da Castanheira

logo que se viu a sós com o jesuita.

--Por certo, concluiu o antigo companheiro de Francisco Xavier em voz

mais baixa ainda. Vou crendo que o veneno, em vez de o tragar o infante

Dom Luiz, tocou desastradamente ao principe real. Feliz noivado, feliz

noivado!

Por fortuna a causa efficiente do bulicio parecia limitar-se a um leve

achaque estomacal de que o principe se queixara. Explicara o joven

principe que uma vertigem lhe estonteara a cabeça e algumas nauseas lhe

trouxeram incommodos ao estomago, mas que já se sentia completamente

alliviado e fóra de perigo.

De feito o sabio medico Francisco Lopes, tateando-lhe o pulso com o

maior cuidado, depressa declarou que a doença apresentava apenas o

caracter de uns passageiros effeitos gastricos motivados naturalmente

pelos molhos indigestos das iguarias.

Foi o principe recolhido á cama com todos os conchegos e, como

asseverava o discipulo de Hypocrates que os symptomas do accidente

não offereciam gravidade, os bellos e illuminados salões do paço

continuaram até deshoras a servir de entretenimento aos nobres fidalgos

e aos venerandos prelados.

No gabinete reentrou el-rei de espirito mais socegado e rosto mais ledo.

Uma certa dose de satisfação parecia resumbrar dos seus olhos asues e a

pallidez que pouco antes lhe amarellecera as faces fôra substituida por

tintas rubicundas.

--Receei peor coisa, rumorejou elle esfregando as mãos.

Atraz de el-rei saira logo o Conde da Castanheira e foi por isso o

jesuita a unica pessoa que se deixou ficar no gabinete.

Abrira sobre a mesa regia o seu predilecto livro _De imitatione Christi_

e, pelos signaes de concentração que lhe transpareciam no gesto,

inculcava aproveitar-se do momento para erguer a Deus alguma fervorosa

prece.

Não obstante disse pausadamente ao levantar-se da poltrona:

--Estava rogando aos céus que afugentasse desditas dos paços de vossa

altesa...

--Obrigado, meu padre. Jamais olvidarei o interesse que tomaes por minha

pessoa. Mas d'esta vez não succedeo perigo. Do sobresalto que soffremos

foi culpado sómente aquelle estonteado badage.

--A não fallecerem justiças n'este reino, cumpre que seja punido para

lição de rebeldes e escarmento de atrevidos. De que pensar é vossa altesa?

--Elle não tardará no tronco, meu padre. Mas agora outra coisa pretendo

saber em puridade: poderei eu remir ainda com obras e orações as minhas

culpas?

--Está isento de culpas o coração de vossa altesa...

--Sei que sou um grande peccador!

--A alma de vossa altesa está limpa de mancha. É grande o amor que

professaes pela fé catholica. Não esquece Deus os beneficios que tendes

prestado pela igreja de Jesus Christo...

--Consolam-me essas palavras, meu padre. Em recompensa de tantas

consolações haveis de lembrar-me o que vou prometter-vos: se não fôr de

morte o mal de meu filho, contai para as festas do milagroso Santo

Antão com uma custodia de ouro massiço e pedras preciosas...

--A graça de Deus seja comvosco...

--Prometto mais quinhentos crusados para compra de alfaias e paramentos

do culto...

--Não deixarei jamais de rogar aos céus pelo bem do estado e pelas

prosperidades de vossa altesa serenissima...

--Lançai-me agora a vossa benção, meu padre.

--Real senhor, eu vos abençôo em nome do Padre e do Filho e do Espirito

Santo!

Ajoelhou el-rei para receber a benção do jesuita e em tam humilde

postura de santidade poder-se-hia conhecer que nunca um piedoso monarcha

illustrara mais com suas devoções os fastos da monarchia portuguesa.

[11] Frei Luiz de Sousa. _Annaes._ Parte II, livro II, cap. II.

VI

A CAÇADA

Alguns dias depois do casamento convidou el-rei toda a côrte para

assistir a uma caçada.

Ajaesaram-se logo os mais vistosos palafrens e os mais rapidos ginetes.

Desenas de creados afadigavam-se nos preparos dos nobres paços de

Almeirim e tudo ali se dispoz com o luxo de uma casa de fadas.

Chegou a côrte aos paços de Almeirim por uma tarde enxuta e serena,

posto que bastante fria e nublosa a modo das tardes inglesas.

Era a vespera da campanha venatoria.

Na immediata madrugada foi servido um almoço leve e em seguida ao

almoço montaram a cavallo damas e fidalgos.

O monteiro-mór, a toque de uma ostentosa busina, repenicou o signal da

partida e então el-rei, cavalgando ao lado da princesa Dona Joanna e

precedido por uma centena de ricos fidalgos, adiantou-se com a rapidez

de uma frecha em direcção dos matagaes.

Abundavam as opulentas coutadas de Almeirim em caça grossa e miuda de

toda a especie. Veados e corças, lebres e coelhos e cabras monteses

costumavam fugir e saltar aqui e além por entre as urzes e os giestaes,

por debaixo dos ramos dos sobros e das pernadas dos choupos. Porem a

raça canina via-se decerto em penosa maré de infelicidade. Latiam,

uivavam e remordiam-se os lebreus e os podengos sem conseguirem alcançar

uma lebre ou abocar um coelho.

Debalde se esperava nas clareiras a passagem de alguma peça grauda

quando alguns dos mais affoutos caçadores resolveram entrenhar-se no

cerrado da floresta. Ahi, sim, deixavam de ficar ociosas as balas e a

polvora das clavinas. Os tiros rapidamente se succederam aos tiros.

Entretanto a maioria dos caçadores ainda esperava nas clareiras. Em

posição de pontaria por veses ergueram elles ao hombro o cano polido e

relusente das espingardas, os latidos dos cães ouviram-se por veses a

curta distancia e os cavallos, ao cheiro aspero da polvora, escarvavam

impacientemente com as unhas ferreas na grama do solo; mas ainda não

passara ao alcance das balas uma só lebre ou um só veado.

Resolveram-se por isso desmontar e, aproveitando o exemplo dos primeiros

caçadores, lá se entrenharam egualmente por entre os verdes arbustos e

os robles gigantescos.

A rainha, a princesa Joanna, o cardeal Henrique e o badage foram as

unicas pessoas que permaneceram no mesmo sitio. Mas tambem depressa lhes

falleceu a paciencia de esperarem assim na sella dos cavallos.

Apearam-se pouco a pouco e a passos vagarosos foram passeando ao longo

de um renque de choupos.

--O tempo corre bem, disse a rainha dando principio á conversação. Temos

um ceu claro e magnifico; mas parece-me que não produz resultado a

caçada.

--Também me parece, accrescenta a princesa Dona Joanna.

--Juro pelos Vedas que ainda hoje teremos fartura de caça, replicou o

pagem.

--Fallaste nos Vedas; mas que entendes tu por isso? inquiriu o sabio

cardeal cioso de desenvolver a sua vasta erudição.

--Eu vol-o digo se vos apraz, senhor.

--De bom grado escutarei. Dize lá: que são os Vedas?

--Os Vedas formam uma grossa collecção de slokes ou estrofes escrita em

sanscrito sob a designação de Rig-Veda, Yadjur-Veda, Sama-Veda e

Atharvana. A todos os indios e povos do mundo, menos aos brahmanes, foi

por Vichnu, o verbo de Brahma, prohibida a leitura d'elles. Mais ninguem

sabe o que dizem e contém esses livros santos. Os brahmanes guardam-nos

tão cuidadosamente nos seus pagodes como os usurarios podem guardar um

cofre de ouro. Conta-se que o poderoso Akbar, imperador mahometano, quiz

um dia conhecer as differentes religiões dos paizes que lhe eram

tributarios e, como os brahmanes tenazmente se recusavam a

revelar-lhe os mysterios da sua crença, usou então de um subtil

estratagema. Lembrou-se o imperador mahometano de enviar á santa cidade

de Benares um indiosito chamado Fietzi e, fasendo-o passar por filho de

um brahmane, foi o indio adoptado e instruido na linguagem e nos ritos

sagrados. De tal modo seria satisfeita a curiosidade de Akbar, mas

aconteceu que Fietzi se apaixonou por uma formosa filha do seu preceptor

e, arrependido da fraude, foi lançar-se em lagrimas aos pés d'elle e

tudo ingenuamente lhe confessou. Imagina vossa altesa qual seria o

procedimento do brahmane? Arrancou immediatamente do punhal para matar o

sacrilego! Por fortuna o brahmane cedeu aos rogos da filha, dando-a por

fim em casamento ao indio com a solemne condição de nunca em sua vida

trahir os Vedas[12].

Ainda o pagem se dispunha a proseguir na anecdota de Fietzi quando o

toque arrebatado e successivo das businas lhe fez dirigir a attenção

para outro ponto.

--Caça, temos caça? exclama com alegria Catharina de Austria.

Inesperadamente por baixo das ramagens do arvoredo mais proximo

appareceu e adiantou-se o corpo ameaçador de um lobo.

Mostrava-se nas proporções de um molosso reforçado das patas, com os

olhos horrorosamente injectados de sangue, com a cabeça de uma grossura

enorme e infundindo pela arrogancia do olhar todo o pavor que podem

incutir no espirito de um homem os animaes carnivoros.

Era bem curta a distancia entre elle e os desapercebidos personagens.

Alguns passos mais e logo as garras da fera encontrariam para repasto o

corpo delicado e fragil da rainha. Mas o molosso, por uma impressão de

medo ou qualquer motivo de surpresa, sosteve-se ali.

Com as patas vigorosas escarvando o tojo e os urzes, por momentos

estacou como se o prendesse pela cerviz um cadeado de ferro.

Esta demora de segundos foi, todavia, bastante longa para acodir o

badage. O corajoso rapaz depressa se postou fronteiro ao lobo.

Ia agora travar-se uma luta hortenda. Iam certamente repetir-se as

barbaras scenas do circo romano: o combate do homem contra a fera.

De feito o molosso arremessou-se ao badage. Erguer as patas e aventurar

um salto enorme, tudo foi obra executada com a rapidez de uma frecha.

Mas o badage, que se affisera ás caçadas dos tigres e dos javalis nas

florestas gentilicas da India, esperou-o com a firmesa de um athleta.

Quando o lobo se arremessou ao pescoço do indio na intenção de lhe

verter o sangue e lhe despedaçar as carnes com o vigor das garras, o

indio de repente cravou-lhe na garganta a lamina de uma comprida faca de

mato.

A jorros espirrou o sangue da garganta da fera. Mas a fera não se

estorceu nem baqueou. Abrindo com maior furia as patas dianteiras,

apertou os hombros do indio e pretendeu esmagal-o com um amplexo terrivel.

O indio não conseguio resistir áquelles musculos de bronze. Foi grande a

convulsão que padeceu. Perdendo as forças e o equilibrio, cambaleou,

estorçeu-se e cahio.

Na queda acompanharam-no as garras do lobo. Estava decidido que, em

holocausto da sua dedicação, o pobre mancebo perderia as forças e a

existencia. Quem lhe podera acudir nos apertos e nos trances de tam

medonha conjunctura?

Talvez os companheiros. Porém o susto levara o augusto cardeal a

esconder-se na toca de um carvalho e as duas delicadas senhoras seriam

demasiadamente franzinas de pulso para tam heroica defesa.

O badage, comtudo, não havia abandonado a coragem. Conservava na dextra

a comprida faca e lembrou-se de ainda faser uso d'ella. Por um momento

affrouxou o lobo a compressão das unhas e esse momento foi o melhor

auxilio que o badage podia receber.

Não é mais rapido um relampago: erguer o braço e ferir novamente a fera,

eis os prodigiosos movimentos que elle fez.

O Christão novo Romance Historico do Seculo XVI · 第 2 / 6 段