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_DIOGO DE MACEDO_
O CHRISTÃO NOVO
ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI
PORTO
IMPRENSA PORTUGUESA
Rua do Bomjardim, 181
1876
O CHRISTÃO NOVO
_DIOGO DE MACEDO_
O CHRISTÃO NOVO
ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI
PORTO
IMPRENSA PORTUGUESA
Rua do Bomjardim, 181
1876
ALGUMAS PALAVRAS
_Historia, segundo Cesar Cantu, é a narração dos factos considerados
verdadeiros. Tem por fim a verdade, porque, no conceito de Alexandre
Herculano, encarrega-se de averiguar qual foi a existencia das gerações
que passaram._
_Não deve porém considerar-se tam seria e limitada a periferia do
romance. O romance póde ser tambem a reproducção e apreciação dos
eventos e phenomenos sociaes subordinados a uma certa ordem chronologica
e a uma classificação methodica; mas, porque tem menos responsabilidade,
concedem-se-lhe mais fóros de liberdade e licença do que a esse grande e
solemne registo publico chamado historia._
_Pennejar-se conseguintemente um romance com todas as prescripções
historicas, é obrigação que a critica nem o bom senso exigem. O romance,
não querendo asphixiar os seus leitores em um ambiente de opio e
monotonia, apenas aproveita da historia o fundo e a base: as datas e os
factos cardinaes. Em quanto aos contornos e ás linhas e ás côres, aos
personagens ainda e ainda ao dialogo e á urdidura, usou sempre, seja
elle engenhado por Walter Scott ou seja devido á imaginativa de
Alexandre Dumas, de facil e plena liberdade. Mais ainda do que louçanias
e filigranas de estilo se reclamam, para repasto da curiosidade, os
meandros e caprichos da phantasia. Só por imposição de estranho
despotismo se deve sugeitar a contextura do romance historico a toda a
fidelidade ethnologica e a todo o rigor dos acontecimentos. A narrativa
e apreciação dos factos considerados verdadeiros--a historia--não podem
associar-se de nenhum modo aos partos da imaginação e aos caprichos da
phantasia--o romance._
_Comprehendendo-se portanto a differença que faz a historia,
propriamente sciencia natural, do romance, simplesmente exercicio
litterario, não se deve estranhar a maneira como pensei e escrevi. Sem o
auxilio da imaginação como se conseguiria entreter a curiosidade e
passar o tempo no decurso de algumas dusias de paginas com as
descripções dos obscuros successos dos dous seccos e aridos annos de
1553 e 1554?_
_É coisa natural que eu bastantemente abusasse das liberdades de
romancista. Por exemplo, do meu livro translusem o caracter e a
phisionomia de Simão Rodrigues com menos vantagens e virtudes do que as
que lhes foram munificamente abonadas pela tradição e pela escriptura.
Disse-se do celebre discipulo de Ignacio de Loyola que morreu (15 de
julho de 1579) com acrisolados sentimentos de religião. Nada o
assombrava nem esmorecia quando se tratava do serviço de Deus, sabendo
sempre em sua vida manifestar os mais austeros principios de abnegação e
dando em todos os seus actos os mais louvaveis exemplos de sabedoria._
_Egualmente a indole e os costumes de Dom João III não se descortinam em
painel que satisfaça as exigencias da critica e o rigor da verdade. Será
Dom João III o monarcha fanatico e frouxo retratado com as tintas
sombrias da palheta de Alexandre Herculano, ou antes o principe virtuoso
e prudentissimo que, segundo os annaes louvaminheiros de Frei Luiz de
Sousa, foi,_ sem a nenhum fasermos aggravo, um dos primeiros entre os
que louvamos de grandes e excellentes virtudes?
_Emfim referem os chronistas que o joven esposo da infanta de Castella,
essa princesa não pouco memorada pela energica protecção com que mais
tarde ensoberbecera o animo pusillanime de Christovam de Moura, falleceu
de enfraquecimento phisico dous meses depois do seu faustoso matrimonio.
Eu faço-o padecer no leito frio da morte os effeitos inclementes do
veneno!_
_Em quanto a ideias religiosas e a ideias politicas principalmente,
reconheço, como com magica eloquencia observa Emilio Castelar na vida de
Lord Byron, que tem este seculo incerto desde o seu começo vacillado
entre a rasão e a fé, entre o direito e a tradição, entre a liberdade e
o cesarismo; porém julgo-me no direito de não simpathisar com esse
esqueleto de corôa de ferro na cabeça e de guela a trovejar vinganças,
com esse systema obsoleto e feudal que felizmente passou ao mundo das
tradições depois de por tantos seculos haver sido o protogonista do
grandioso drama ou da grande tragedia da historia. Esse infeliz regimen,
o das praticas e theorias theocraticas do absolutismo, já não preoccupa
hoje em dia, apesar de ainda conservar alguns alentos de cadaver, o
espirito dos economistas e o genio dos philosophos. Hoje a escolha
decide-se pela monarchia constitucional ou pelo governo democratico.
Simplesmente o que resta averiguar em amigavel concordancia é qual dos
dous systemas offerece maior numero de vantagens sociaes e melhormente
contribue para a emancipação geral dos povos. Eu presumo que todas as
tendencias da mocidade preferem as doutrinas republicanas por serem as
mais desinteressadas e que todos os calculos da idade viril abraçam os
ouropeis da monarchia por serem de todos os systemas politicos o que
mais satisfaz a vaidade e as ambições dos homens. Haverá por isso quem
recrimine os meus devaneios democraticos e deteste as minhas expansões
liberaes? Deve comprehender-se que á consciencia repugnam todas as peias
e que as conquistas do progresso não obrigam o espirito do homem á
filiação ou observancia de uma unica fórma ou theoria de governo._
_Ainda tambem relativamente a formulas e sentimentos religiosos duas
ideias se devem estremar: a ideia de Deus e a dos seus representantes na
terra. As obras e immunidades do gremio catholico não saberei
respeital-as com aquelle mistico fervor e aquellas espirituaes
dedicações que me possam grangear nome e gloria nas lendas hagiolicas;
mas a ideia de Deus, sinthese de todo o bem e espelho de todas as
perfeições, venero-a sem vislumbres de duvida e com o vigor mais intimo
das minhas crenças._
_Não crer na bondade dos padres não é descrer das bondades divinas. Nos
tempos em que mais se invocava o simbolo da cruz e mais se pelejou pela
fé catholica, a christandade que de exemplos nos ministrou de acções e
virtudes menos orthodoxas! Conta H. Taine que Ricardo, o coração de
leão, quiz um dia sob os muros de San João de Acre comer a toda a força
carne de porco. Não havia carne de porco por mais que se procurasse.
Lembra-se o cosinheiro de matar um sarraceno gordo e tenro; salga-o e
cose-o seguidamente. O rei come-o e encontra-o delicioso. Quiz depois
ver a cabeça do seu porco e o cosinheiro lh'a conduz possuido de grandes
tremuras. O rei põe-se a rir e diz que o seu exercito não póde recear a
fome porque tem á mão fartura de provisões._
_Então, quando os devotos e defensores da cruz fasiam a guerra aos
sarracenos, ouvia-se sempre a voz dos anjos dos ceus que dizia:_ Matae,
matae! Não poupeis ninguem; cortae a todos a cabeça! _Esta voz dos anjos
era ouvida pelos christãos e por isso tomando-se qualquer villa ou
cidade tudo se passava a fio de espada, crianças ou mulheres. Na tomada
de Jerusalem setenta mil pessoas, o que prefasia toda a população, foram
exterminadas cruelmente[1]!_
_Bem mais delongadas observações em abono de creditos litterarios e
sobretudo por descargo de consciencia se tornavam talvez indispensaveis;
mas eu encorporo-me no avultado numero dos que reconhecem a inutilidade
e o desprestigio dos prologos. Não ha juisos nem avisos que salvem das
voragens do esquecimento um ruim livro. Se o livro é mal escrito e
delineado, todos os cordiaes e remedios são falliveis e impotentes da
mesma sorte que, se o livro é de materia agradavel e perfeita, dispensa
facilmente a importancia ou a formalidade dos prologos._
[1] _H. Taine. Hist. de la litt. anglaise, t. I._
O CHRISTÃO NOVO
I
CIUMES DE UM REI
Por uma das mais somnolentas e placidas noites dos fins de outubro de
1553, no desvão de esguia janella do palacio dos nossos reis estava
casual ou intencionalmente encoberto pelas dobras de soberba cortina de
rendas de Flandres um personagem vestido com gibão de veludo preto.
Usava elle de curta cabelladura côr de castanha e não inculcava mais de
cincoenta annos de idade[2]. Em volta do pescoço alvejava-lhe uma das
amplas gorgueiras encanudadas que, na frase picaresca de um novellista
espanhol, davam á cabeça o irrisorio aspecto de um melão collocado em
cima de um prato de porcelana branca. Pronunciava-se-lhe bem um nariz em
demasia grosso, era baixo da corporatura como qualquer burguez e parecia
reforçado dos musculos como um legitimo descendente de Hercules.
Para melhormente sobresairem as tintas: «em mean estatura grande
proporção de membros; olhos entre verdes e asues; boca vermelha; rosto
alvo e de boa côr. Notava-se-lhe o pescoço um pouco curto e a cintura
grossa, mas não que chegasse a desar[3].»
Dominava-o finalmente a prurigem da impaciencia ou da curiosidade.
Translusiam-lhe no rosto arredondado a feição sombria do seu caracter e
no sorriso confrangido a indecisa severidade do seu genio. Algum
acontecimento inesperado lhe impressionara sobremaneira o espirito e
certamente era essa uma das mais criticas situações a que submettera
a sua delicada sensibilidade.
Nada com effeito de mais critica e extraordinaria situação.
Aquella esguia janella gothica pertencia ao quarto de dormir de uma
poderosa mulher e no centro do quarto via-se um dos mais nobres e
esbeltos personagens do segundo quartel do seculo XVI dado a indiscreta
conversação com essa mulher em quem todos «descobriam raras e heroicas
virtudes, grande zelo e piedade christan, grande brandura e affabilidade
em obras e palavras para com grandes e pequenos.[4]»
--Que nunca eu mereça o vosso desdem, exprimia-se elle com accento de
ternura e de respeito. Confio nos sentimentos do vosso coração e da
vossa nobresa, senhora. A não depositar nas vossas mãos a redoma das
minhas esperanças, teria levado o meu corpo á defensão da praça de
Arzilla ou das heroicas muralhas de Dio...
--Socegae, Dom Prior. Nada de perder o animo. Bem sabeis que de pouco
serve o meu valimento; mas ainda assim me decidirei quanto possa em
vosso auxilio.
--É tudo o que vos supplico, porque sei que nada vos recusa el-rei...
--Em pouco mais pensa el-rei do que no zelo da religião e no culto de
Deus. As nossas praças de Africa vão sendo abandonadas pelas lanças dos
portugueses e fracos são os reforços de soldados e munições com que se
acode aos ricos dominios das Indias. Escuta lá el-rei os meus conselhos!
--A quem ha de ouvir senão a vós, senhora?
--Attende em mais e em tudo o reverendo Simão Rodrigues e esse terrivel
prelado João Soares. Elle não conhece outro amor que não seja a puresa
da fé e não respeita outros homens que não sejam os jesuitas... Amor do
povo e da patria como o nutriam em seus heroicos seios seu pai e avô Dom
Manoel e Dom João! Jámais esses bons monarchas offenderam a religião de
Christo e sempre todavia se cumularam de gloria sem tribuanes de
inquisição e sem ordens de jesuitas...
--Não vos tacharei de injusta por não faltar-vos ao respeito, senhora
minha. Certo é que Dom João presta ouvidos a Simão Rodrigues, criou o
venerando collegio de Coimbra, estabeleceu em nossos reinos a mesa do
Santo Officio e toda a sua alma se affervora no zelo da religião
catholica; mas todas essas virtudes são effeito de piedade e não de
falta de civica devoção. Ama tanto a fortuna dos filhos de Loyola e dos
discipulos de Torquemada como o bem dos seus vassallos...
--Não que o não fadaram os céus com a vossa indole, Dom Luiz. Por estas
lagrimas o digo, accrescentou levando o lenço aos olhos. Que differença
tam grande entre irmão e irmão! A vós não vos fallece galantaria nem
juiso. Sois valente e generoso a um tempo. Todos vos apontam como enlevo
das damas, captivaes as affeições do povo e mereceis a estimação dos
mais esforçados cavalleiros da côrte...
--Não me lisongeeis assim, que podem escutar-vos e de mim curtirem
ciumes.
--Ninguem me culpará perante Deus nem perante os homens. Sabe de sobejo
meu esposo quaes são os meus sentimentos a seu respeito. Amor com amor
se paga e por isso não deve tomar a mal que lhe eu pague com
indifferença as suas frias indifferenças.
--Julgo que nada padecereis, senhora. Mas fallo por mim...
Ainda não eram concluidas taes palavras quando de repente a cortina se
desvenda e o personagem que se conservara achegado ao peitoril da
janella se adianta com passo grave.
Parecia, embora a frase tenha laivos de sediça, a estatua severa do
Commendador. Era agora, ao contrario das côres naturaes, pallido e
altivo do rosto. Dos grossos labios desferia um sorriso de neve. Dos
seus olhos entre verdes e asues dardejava um lampejo de indignação que
devera ferir como o raio.
Talvez se esperasse a tremenda explosão de colera por muitos dias
sopitada. Entretanto o grave personagem declarou com serenidade:
--Nada receeis, meu nobre irmão...
Dom Luiz quedou em silencio. Ou a voz se lhe prendeu nas fauces ou o
respeito o fez calar. Com porte severo e imponente apresentava-se-lhe de
subito o muito alto e poderoso rei de Portugal e dos Algarves, sua
altesa serenissima o senhor Dom João III.
Era para Dom Luiz das mais solemnes e apertadas semelhante situação.
Antes mil veses se quisera em luta encarniçada com os mouros de Asamor
ou com as hordas do samorim de Calicut. Dom Luiz de Beja, Prior do
Crato, digno infante de Portugal e esforçado filho de Dom Manuel foi
havido sempre no consenso publico por cavalleiro valeroso e destemido.
Em provas de coragem não no excederam os Pachecos nem os Albuquerques e
ninguem com mais galhardia soube ainda no officio das armas brandir uma
lança ou empunhar uma espada. D'elle recontam chronistas e historiadores
que principe nenhum soube dar-se ao respeito melhormente ou faser em sua
vida com que o amassem tanto. «O amor que os portugueses lhe tinham
passava a idolatria. Adornavam-no todas as partes que podem fazer-se
credoras da estima dos homens. Era nobre e generoso, compassivo e
valente, affavel e tam ousado que passava a destemido.
«A estas gentis condições andavam annexas muita mansidão na sociedade e
rara prudencia nos negocios. Era guapo e bem feito; sensivel, terno e
deveras affeiçoado ao trato das senhoras.
«A fama das suas boas partes moraes e phisionomicas voára até os paizes
estrangeiros. No serralho do xerife de Marrocos grangeara grande estima
e uma das suas filhas morria de amores por elle. Todas as veses que a
nobre donzella encontrava Dom Diogo das Torres, captivo a quem se
facultava entrada livre no palacio por ser protegido de Muley Abel
Mumen, irmão do xerife, nunca se fartava de fallar-lhe no infante. Um
dia que passeava nos jardins do palacio viu Dom Diogo e chamou-o para
lhe diser: «Colhei de aqui algumas flores e tecei com ellas uma corôa
semelhante ás que trasem os principes christãos». Obedeceu Dom Diogo das
Torres e cuidou de offerecer-lh'a. Tomando-a então e pondo a corôa na
cabeça encantadora, ella lhe disse: «Permittam os ceus que eu algum dia
viva unida com o infante Dom Luiz como suaesposa e que, sendo elle o
rei, eu seja a rainha de Portugal![5]»
Mas agora a conjunctura não demandava feitos de valor nem proesas de
galanteria. Atrevera-se Dom Luiz entrar a sós em aposentos que apenas
não eram vedados á pessoa do monarcha portuguez: a alcova nupcial de
Catharina de Austria, essa virtuosa irman do Cesar das Espanhas, o
victorioso imperador Carlos V!
Mal decorreram alguns instantes quando se voltou el-rei para sua esposa
a diser-lhe pausadamente e com um sorriso glacial:
--Deveis desculpar-me, senhora, o vir interromper-vos nos vossos
galanteios. Por Deus que vos dou uma lição que vos deve servir para de
outra vez terdes em mais recato o pudor e a honra de uma rainha; mas
sempre se desculpam os maus humores de um esposo e por isso espero de
vós que não tomeis a mal a minha presença.
Ás veias da orgulhosa princesa de Castella refluiu todo o sangue celta
da raça de seu pae Filippe I, aprumou o seu bello pescoço de garça
como se nada houvesse que temer, fitou firmemente com um olhar de aguia
o semblante pallido de Dom João III e de prompto impugnou com a austera
dignidade de uma rainha:
--Jamais tive galanteios que não fossem para vós, senhor meu esposo!
Sorriu o monarcha d'esta vez com aquelle sorriso contrafeito que lhe era
peculiar e por ventura se dispunha a retorquir em termos de menos
restricta etiqueta quando o infante se lhe dirige assim:
--Assaz vos hei provado, meu irmão e senhor, a força da minha lealdade e
o quilate da minha honradez. Sabei que junto da camara de vossa altesa
não me trouxeram galanteios. Antes retalhara o coração com o gume da
minha espada do que faltar algum dia á fidelidade e ás homenagens que a
vós e a ella vos devo. Missão de outra naturesa me guiou á presença da
esposa de vossa altesa serenissima. Vim pedir-lhe, senhor, que vos
amolgue o genio á compaixão e vos decida a resgatar a honra de Dona
Violante Gomes...
A este suave nome de Violante Gomes pareceu sobresaltar-se o animo de
el-rei. Os olhos, que até ahi os conservara como pregados na alcatifa
multicor do aposento, erguera-os ao nivel do olhar do irmão e pareciam
em semelhante conjuncção animados de uma estranha vivacidade.
Mostrava-se agora mais varonil a phisionomia e mais aprumada a estatura
do fanatico Dom João III.
--Insensato que sois, meu irmão! Violante Gomes talvez algum dia venha a
ser vossa esposa; mas juro-vos... juro-vos que, em quanto eu viva, nunca
Dom João consentirá que uma barregan se associe á familia dos monarchas
de Portugal!
Inesperadamente assomou um vislumbre de colera ás faces amarellecidas do
infante. Pouco lhe quedaria para se esquecer da obediencia que jurara a
el-rei, quando Catharina de Austria adianta dous passos e se colloca de
permeio como decidida a conjurar a tempestade.
--É de justiça, aventurou-se a interceder, o que vos implora o infante
Dom Luiz. Fará o vosso rigor com que mais se deva tomar-vos por
tiranno que por monarcha. Elle falla em nome da humanidade e da honra,
duas virtudes que o vosso espirito não poderá desconhecer nem póde
repulsar. Por isso não vos merece a resposta do orgulho e do fanatismo...
--Diseis bem, applaudiu Dom João com modos brandos e com uma indefinivel
expressão que só elle e Machiavelo sabiam fingir. Diseis bem; mas esses
negocios ficam para mais tarde. Veremos se elles interessam ao esplendor
da religião e ao bem do estado.
Estendendo depois o braço para a porta do aposento, pareceu indicar a
Dom Luiz que era chegado o desfecho da entrevista.
Dom Luiz de Beja, baixando a cabeça e não arredando os olhos do chão,
dirigiu-se machinalmente para a porta e se retirou em completo silencio.
[2] Nasceu a 2 de janeiro de 1502.
[3] Frei Luiz de Sousa. _Annaes_, liv. I, cap. IV.
[4] Frei Luiz de Sousa. _Annaes_, liv. III, cap. 11.
[5] La Clede. _Hist. ger. de Portug._
II
OS REIS NÃO COSTUMAM PERDOAR AS OFFENSAS RECEBIDAS
Atravessara Dom Luiz a comprida sala chamada ordinariamente dos
_tudescos_ e se dispunha a descer a marmorea escadaria dos reaes paços
da Ribeira quando se lhe aproxima um dos pagens de Catharina de Austria
e, em tom de quem dá conselhos, ousa segredar-lhe assim:
--Tomae cuidado. Os reis não costumam perdoar as offensas que recebem.
Ao misterioso aviso quasi que Dom Luiz não prestara ouvidos.
Embuçando-se cautelosamente na sua fina capa de panno verde e carregando
sobre os olhos o seu amplo chapeu de feltro enfeitado com bella
pluma branca, atravessou a larga escadaria e em dous momentos se
apresenta no meio do espaçoso terreiro.
O Tejo, esse rio de arêas de ouro tam decantado pelos poetas, dormia
placidamente. Soaram onze horas e o ceu mostrava-se empanado de sombrias
nuvens. Raras pessoas transitavam pelas ruas da opulenta capital. Apenas
de longe a longe o bronze dos campanarios vinha alterar a prolongada
monotonia da noite.
O infante, olhando a custo para as aguas ensombradas do Tejo, parecia
meditar. Depois abandonou o terreiro e a passo lento seguiu pela rua da
Palha a direcção da praça do Rocio.
Absorvido em estranhos pensamentos ia elle no seu caminho quando lhe
surdem inesperadamente de cara tres vultos agigantados.
Em seguida sentiu no peito a lamina de dous punhaes e certamente o seu
corpo ficaria sem forças e sem vida se os punhaes não resvalassem no aço
finissimo de uma cota de malhas.
--Covardes! gritou Dom Luiz ao mesmo tempo que desembainhava a
espada e que se poz em guarda.
Immediatamente se crusaram tres espadas contra uma.
Era em extremo fino e destro no jogo das armas brancas Dom Luiz de Beja.
Mas os seus adversarios mostravam-se lestos e ageis tambem. Além d'isso
ajuntavam-se tres contra um. Não podia ser mais melindrosa a posição do
infante.
Por fortuna, quando já o suor lhe escorria pelas barbas e principiava de
debilitar-se-lhe o pulso, eis que um novo personagem se intromette na
peleja.
Depressa cáe por terra o mais alentado dos aggressores e os dous
restantes, naturalmente com receio da morte, poseram-se em immediata e
vergonhosa retirada.
--Obrigado, meu amigo, agradece o infante no momento em que aperta com
fraternal reconhecimento a destra do seu salvador.
Era elle o mesmo pagem que nos paços da Ribeira lhe segredara
misteriosamente: _Cautela, que os reis não perdoam as offensas que
recebem!_
Por causa das sombras da noite não se lhe distinguiam as feições:
poder-se-hia divisar apenas que era fransino do corpo e que lhe relusiam
os olhos como a chamma de um lampadario.
Sorriu-se ouvindo os agradecimentos e, talvez com traça de se esquivar a
novos protestos de gratidão, pretendeu retirar-se. O infante porém
agarrou-lhe meigamente o braço e pediu-lhe que o acompanhasse.
Pouco adiante, a confinar com o adro de San Domingos, elevava-se em um
angulo meridional do Rocio uma elegante e vistosa casaria.
O infante bateu de rijo com os copos da espada tres pancadas no portal e
a porta franqueou-se-lhe minutos depois.
Ambos subiram os degraus de uma escadaria resguardada de tapetes e
depressa alcançaram assim o primeiro andar da casa.
Introduziu-os um domestico em uma sala de paredes vistosamente forradas
de ricos pannos de Arras e toda mobilada com largas cadeiras cobertas de
seda escarlate.
D'esta sala passaram a um gabinete de exiguas dimensões onde a seda,
o brocado, as rendas e os cristaes de Venesa offereciam ás vistas um
aspecto encantador.
Mais adiante abriu-se-lhes um salão da mais requintada opulencia. Tudo
ahi reçumava riquesa e bom gosto. Julgar-se-hia logo a perfumada
recamara de uma princesa.
Os reposteiros foram talhados de uma preciosa fasenda da Persia que Dom
Affonso de Noronha mandara recentemente nos galeões das Indias. Não eram
as tapeçarias que cobriam o soalho de menos valor e variedade. Por toda
a parte macios coxins estofados de seda asul e franjados de ouro. Alguns
quadros que representavam as viagens de Dom Henrique e as descobertas de
Vasco da Gama, pendiam das largas paredes. Varias figuras da melhor
porcelana da China se viam aos recantos do salão sobre dous elegantes
bufetes com esmero trabalhados de madeira de ebano. Mil outros objectos
de porcelana, prata e marfim decoravam finalmente com luxo oriental
aquella mansão de fadas.
Mal o pagem se dispunha a observar os ricos estofos e as admiraveis
pinturas, eis que apparece no salão uma das mais prendadas e gentis
damas do reinado de Dom João III.
Trajava um vestido de lhama asul guarnecido com alamares de passamanes
de prata e ouro, decotado a modo de revelar todo o seu alvo pescoço e
tam curto das mangas que se lhe viam quasi todas as rosadas carnes do
seu braço.
Poucos pintores estudaram ainda tam bello perfil e mais alegre figura.
Eram, como dous astros de amor, cheios de ternura e limpidez os seus
olhos castanhos. Não havia mãos de mais fina epiderme nem dedos de mais
esmerada estructura. O contorno do nariz não cedia em perfeições aos das
estatuas gregas que representam a deusa das graças e dos amores. Os
labios, feitos das petalas de uma rosa, possuia-os tam frescos e
delicados que pareciam de uma criança.
Quanto não valiam os seus sorrisos e que thesouros de ternura não
encerravam as suas fallas!
Era alta do corpo e franzina da cintura, como devem ser, á semelhança
das primorosas estatuas de Praxitelles e de Phidias, esse ideal das
artes plasticas, os contornos e proporções das rainhas da bellesa. Mais
nutrida que magra assim nos braços como no rosto e, para mais se
accenderem cubiças, da arca do peito avolumava-se-lhe o contorno dos
lacteos pomos de que Tasso e Camões nos fizeram a descripção.
Passava já dos trinta e seis annos de edade e comtudo ninguem lhe
calcularia acima de vinte e cinco primaveras: primaveras superabundantes
de rosas e frescura, porque uma eterna juventude é algumas veses
privilegio das mulheres formosas!
Imprimiu-lhe o infante um doce beijo na mão esquerda e, apontando para o
pagem, lhe disse risonhamente:
--Apresento-vos, minha querida Violante, um bom amigo que ainda ha pouco
me salvou os dias da vida.
O pagem conservou-se em mudez. Possuido de uma agradavel commoção,
ajoelhou aos pés da formosa dama e não pôde elle evitar que dos seus
olhos negros se escoasse uma lagrima de praser.
Violante Gomes estreitara-o nos braços de fada e com palavras
divinamente repassadas de doçura lhe rumorejou:
--Deus vos recompense o bem que fiseste.
Dispôz-se então a contar-lhe o infante o que se passara.
A narração foi simples e curta. Poupou todas as côres da fantasia e do
romantismo. Não se lhe ouviu sequer uma accusação contra os sicarios nem
contra a pessoa que lhes commettera a empresa.
O pagem depois tomou a palavra n'estes rapidos termos:
--Dom Luiz é denodado em demasia. Se lhe presaes a vida, minha senhora,
deveis aconselhar-lhe que não a exponha tanto. Inimigos poderosos lhe
sobejam...
--Talvez que só Deus o possa defender! exclamou Dona Violante.
--Deus, acrescenta o Prior do Crato, Deus e a minha espada e os meus
amigos tambem. Que ha traidores no mundo sei-o eu; mas que se guardem,
que se guardem bem os traidores!
--Guardam, guardam... Não vêdes como apenas mostram elles o braço e o
punhal?
A esta allusão da formosa dama logo vaticinou o pagem:
--Decerto não falta um vilão que a troco de alguns ducados assassine o
principe Dom Luiz!
--Mas que empenho haverá n'isso? Dizei-o, que vôl-o supplica Dom Luiz de
Beja!
--Quereis que vôl-o diga em voz clara? Alguma coisa devera aprender no
meu officio de cortesão e eu vos direi agora o que sei: vosso irmão o
senhor Dom João III não vos estima... antes vos odeia!
--Ousaes assim calumniar el-rei! com animo exaltado replicou o infante.
Bofé que, se vos não devesse a minha vida, diria agora que... ensandeceste.
--Rogo-vos moderação, acudiu a dama. Falla o que sente e o que sabe este
generoso mancebo. Oxalá sejam imaginarios os seus receios; mas não sei
que triste presentimento me leva a crêr que algum infortunio nos ameaça...
Sorriu-se o pagem com essa expressão de interna melancolia que não
se descreve nunca. Em seguida volveu-se para o infante.
--Perdão... mil veses perdão se vos offendi! lhe disse.
Abraçou-o o infante com o espirito sinceramente commovido. Descobrira no
pagem um tal caracter de franquesa e um certo cunho de verdade que desde
logo se lhe afigurou ninguem ser digno de maior estima.
Á primeira vista mostrava-se repugnante a phisionomia do pagem.
Predominava n'elle o sangue das raças selvagens do Oriente. Era negra
como aseviche a pupilla dos seus grandes olhos e essa pupilla parecia
tarjada de um leve circulo de sangue. O nariz era chato alguma coisa e
alguma coisa largo das asas; a côr da pelle bastante acobreada e os
beiços grossos sem desar. De idade não contava mais de vinte e dous
annos, mas na agilidade dos musculos e na vivesa do espirito poucos ou
nenhuns cavalleiros o excediam.
Nascera no paiz dos badages e ali fôra, em companhia de seus velhos
paes, convertido ao christianismo pela palavra e pelo exemplo de
Antonio Criminal. Quando os badages degolaram este malaventurado jesuita
foi tamanho o horror que a pobre criança concebeu pelo seu idolo
Trichandur que nunca mais quiz lembrar-se do seu paiz natalicio. O
vice-rei Jorge Cabral conhecera-o em Gôa, criara-lhe amisade pelas boas
prendas que em todo elle descobrira e embarcou-o para Lisboa no seu
regresso em 1550.
O pagem, embebido nos perfumes de um ambiente de delicias, agora não se
fartava de contemplar a peregrina formosura de Dona Violante. Nunca nos
salões da côrte lhe fascinaram os olhos princesa de fórmas tam
correctas, de maneiras tam delicadas e conversação mais suave. O terno e
melodioso accento com que fallava insinuava-se meigamente nos corações
como se fossem harmonias do ceu. Superabundavam-lhe bellesas assim no
corpo como na alma. Talvez porque o acaso lhe denegara a nobresa do
nascimento, concedera-lhe Deus todas as mil prendas que no mundo servem
de apanagio e de cortejo á graça e á formosura.
Dona Violante fez-lhes servir aos seus dous hospedes, em ricas
bandejas de prata, alguns doces e licores. Depois, a rogo do infante,
passou com agilidade os seus pequeninos dedos pelas cordas de uma harpa
e com ternissimas inflexões começou de cantar o bello soneto em que Luiz
de Camões define o amor:
Amor é um fogo que arde sem se vêr;
É ferida que doe e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dôr que desatina sem doer.
Logo que terminou levanta-se o gentil prior com todo o carinho a
apertar-lhe os braços em volta da cintura e com labios de fogo
imprimiu-lhe nas rosas do collo um osculo fremente.
--São estas as unicas venturas da minha alma! revelou elle ao pagem. Não
vês como ella é formosa? Algum dia te contarei como nasceram estes
amores...
III
RECOMPENSA DO CRIME
Acabara de badalejar a meia noite no campanario da cathedral quando
na portaria arqueada do memorando collegio de Santo Antão parou um homem
de gigantea corporatura.
Vinha embuçado em um capote de fartos cabeções e equilibrava na cabeça
um desses negros chapeus com amplas abas e copa sumida em fórma de funil.
Depois de relancear prescrutadoras e desconfiadas vistas, entrou
sorrateiramente no alpendre do edificio e dirigiu-se por uma das
portas lateraes para um modesto gabinete situado ao rez do chão.
Aguardava-o ali com impaciencia um magro personagem de vestes
sacerdotaes e de phisionomia carcomida pela sarna dos annos.
--Então que boas novas me trazes tu? perguntou elle sentado em pobre
tamborete de carvalho e desviando os olhos de um livro escrito na lingua
latina.
--Não me parecem tão alegres como desejava, regougou o recemchegado.
--Bem mau é isso. Mas conta depressa o que aconteceu, meu Jacobo.
--Pois saiba... saiba vossa senhoria illustrissima que tudo se frustrou
por artes do diabo.
--Jacobo, fallas a serio porventura? com preoccupação interrogou o padre.
--Com verdadeira magoa o digo; mas é verdade.
--O que tambem é verdade é que sois todos uns covardes...
--Tudo menos isso, meu senhor. Era elle que vestia a pelle do diabo! A
não ser assim, eu por Deus que soubera responder pelo ferro do meu
punhal!
--Sempre usaes do mesmo ripanso. Todos vos credes uns fanfarrões e uns
Hercules; mas porfim de contas, se é mister que se mostre valentia ou
governe com prudencia, sois deveras mais pecos e villãos do que um asno.
--Deve saber vossa senhoria illustrissima que a culpa não foi nossa.
Juro que não foi. Esperamol-o a sangue frio e logo, peito a peito como
varões honrados, procuramos mandal-o de presente ás megeras do Averno
quando os punhaes, em vez de toparem carne de christão, encontram o aço
de uma saia de malha... Mas, ainda assim, tudo se remediava á maravilha:
como os punhaes eram curtos, puchamos das durindanas em guisa de
valentes campeões e em poucos minutos dariamos com meia duzia de
cutiladas remate á nossa obra se de improviso se não intromette o
demonio em favor d'elle. Um dos nossos cae por terra e os outros... os
outros...
--Escusas de confessar que fugiram... provavelmente com temor de lhes
acaecer a mesma sorte.
--Não foi o temor, meu padre. Tem vossa senhoria em mim um rude servo
que nunca do sitio do perigo arredou pé com medo nem covardia!
--Conheço-te bem, meu Jacobo. Faço justiça á tua valentia e espero que
me toleres algum arrebatamento. O pobre velho não sabe o que diz, não
sabe o que diz muitas veses... Mas dize-me ainda: que fiseste do
companheiro que morreu?
--Á falta de outras virtudes, nunca me arrependi de ser prudente. A
estas horas, meu padre, está elle a servir de repasto aos peixes do Tejo.
--És assisado, és assisado na verdade. Toma em paga dos teus serviços e
retira-te por hoje.
Atirou-lhe o padre com um punhado de moedas de ouro e o gigante,
mirando-as com olhos de cubiça, lançou com prestesa mão d'esse precioso
metal que na frase de Tolentino é o _tiranno do mundo_.
--Sempre a vossa senhoria conheci generosidade, retorquiu elle correndo
a mão esquerda pela desgrenhada cabelladura. Mas d'esta vez, meu
padre, bem sabe que tenho de repartir... Cincoenta escudos[6]
é pouco.
--Nem um morabitino merecias ganhar, meu velhaco.
Jacobo afastou-se sem novas replicas e a meia voz foi tratando de
combinar a melhor maneira de embair a boa fé do seu companheiro.
--Sempre lhe direi que não recebi mais de trinta escudos, rosnou elle
pelo caminho.
Em seguida poz-se a cantarolar aquella sabida canção[7]:
Como no se desespera
quien se vê como me veo
tan lexos de dó desseo,
tan cerca dó no quisiera?
Entretanto o ecclesiastico de Santo Antão esfregava as engelhadas mãos
como prova de quem se não julga de todo descontente.
--Do mal o menos, murmurou levantando-se do tamborete. Escapou-nos
por hoje, mas nada se descobriu... E que tudo se divulgasse e
descobrisse? És muito anão, Dom Luiz de Beja, para ergueres o braço
contra a pessoa que te mandou assassinar!
O ecclesiastico fechou o livro e deixou-se cair novamente no meio da
sola do tamborete.
--Meu Deus, meu Deus! exclama então com gesto de arrependimento. As tuas
doutrinas só respiram humildade e amor; queres que amemos o nosso
proximo como nos amamos a nós mesmos; aconselhas o perdão das offensas e
o abandono das riquesas do mundo... Mas como renegamos a tua lei e os
teus conselhos, Deus meu! Entra uma vez nos seios do homem o veneno das
ambições terrestres e esquecem-se bem depressa os deveres da virtude e a
salvação das nossas almas. Tudo se esquece e... lá vamos nós, vermes
orgulhosos, pelo menos subvertendo nas voragens do crime a
tranquillidade do espirito e a saude do corpo!
Abrio mansamente o livro, entregou-se por alguns momentos á leitura
d'aquelle salutar capitulo que traz por epigraphe _De consideratione
humanæ miseriæ_ e que principia por estas palavras de humildade:
_Miser es, ubicunque fueris et quocumque te verteris, nisi ad Deum te
convertas._
Seguidamente prostou-se o padre de joelhos e com modos de extrema
beatitude fixou os olhos nas taboas do pavimento.
--Eu sei, declamou ainda, que só trabalho para o progresso da religião
catholica e em beneficio da santa madre igreja. Mas o meu coração está
cheio de magoa, meu Deus. São grandes os meus erros, são enormes os meus
peccados!
Decorreram dous minutos de tranquilla meditação e tudo ali, como se
fosse o recinto de um cemiterio, permanecia completamente calado. Nem o
cicio dos insectos nem as oscillações da pendula dos relogios
interrompiam o silencio sepulchral do gabinete.
--Deus de misericordia! por fim proferio o padre batendo por duas veses
com os punhos na arca do peito. Meu Jesus de misericordia, guiae-me como
bom christão pelo caminho da virtude e fasei com que me não desampare
nunca a vossa infinita graça. Eis aqui um grande peccador que,
fingindo observar todas as virtudes da religião, encoberta as chagas dos
maiores vicios! Eil-o aqui, humildemente offerecendo a cabeça ao gladio
da vossa punição!... Mas tende vós piedade de mim; tende piedade de mim,
senhor!
Seguidamente lançou mão de um latego de rijos loros e dispôz-se, a
exemplo dos mirificos varões de que nos fallam os livros de theologia, a
flagellar rudemente as espaduas, os peitos e os rins.
Não desprendia da garganta um unico murmurio de dôr e todavia cada vez
com mais força se redobravam os açoutes.
Sempre sereno do rosto e humilde da postura como as figuras de alguns
macillentos retabulos da escola flamenga, disciplinava-se cruelmente á
maneira do mais exemplar e do mais devoto dos filhos do christianismo.
Se deixava de orar é porque as correas lhe açoutavam as carnes do corpo
e, se parava com o castigo do latego, é porque em misticas leituras
pregava os olhos nas paginas do livro.
Esse livro abrangia mediana fórma e fôra publicado em 1492. Todo cheio
de doutrinas religiosas, rescendia das suas bellas paginas os santos
olores das folhas do evangelho. Era verdadeiro balsamo para o espirito
de um christão e ainda hoje tanto consola o christão como o philosopho.
«Admiravel apesar da negligencia do estilo, commove muito mais do que as
argutas reflexões de Seneca e as frias consolações de Boeccio. Foi
traduzido em todas as linguas e lê-se em toda a parte com infinito
gosto. Conta-se até que um poderoso bey de Marrocos o guardava na sua
bibliotheca e de quando em quando o lia com inexcedivel prazer[8].»
Leitura sempre cheia de uncção e piedade, mereceo do sabio
Fontenelle o conceito de «o mais bello livro sahido das mãos dos
homens». Modestamente se intitula _De imitatione Christi_.
O padre todos os dias e todas as noites o folheava com beatifica e
inalteravel devoção. Todos os dias passava algumas horas lendo-o umas
veses silenciosamente e outras em voz alta.
Que mistico e santo apostolo não devia de ser este padre! Quem posesse o
ouvido ao ralo da porta da sua pobre cella, ouvil-o-hia pedir com
profundo arrependimento aos ceus misericordia para os seus peccados e
salvação para a sua alma. Para castigo dos affectos humanos, não se
poupava jejuns nem penitencias. Na boca dos irmãos da sua ordem jámais
no orbe catholico brilhara jesuita de maiores virtudes. Quando em
reverente postura de resa e devoção se collocava defronte do seu
crucifixo, logo se poderia tomar por qualquer anachoreta da Nitria.
Ninguem á primeira vista o julgara desmerecedor de participar dos mais
subidos panegyricos das lendas hagiolicas.
Chegou de Roma em Companhia de Francisco Xavier no anno de 1540. Elle e
Francisco Xavier foram do numero dos jesuitas que o embaixador Pedro
Mascarenhas solicitara de Paulo III para se dedicarem no imperio das
Indias á conversão dos idolatras e ao esplendor da fé catholica. O
piedoso navarro decidio-se com Misser Paulo e Francisco de Mansilhas a
ir, por suas doutrinas e virtudes, ganhar entre o gentio o glorioso
titulo de _Apostolo das Indias_; mas o seu companheiro preferio que
el-rei Dom João o galardoasse com a menos obscura e penosa commissão de
director do collegio de Coimbra.
Era Simão Rodrigues,--o ladino padre mestre provincial que na sua
qualidade de poderoso valido de el-rei julgava prestar mais acrisolados
serviços á causa de Deus e ás venturas da patria. É certo que ao
benemerito Francisco Xavier deveram as Indias uma das mais heroicas e
soberbas paginas da sua epopêa. Eis o que a tal respeito apregoam as
trombetas da fama[9]:
«Uma noite, referem as chronicas, os soldados do rei de Achem entraram
na praça de Malaca, deram sobre as embarcações ancoradas no porto,
queimaram parte d'ellas e ao romper da madrugada retiraram-se em triunfo
como se tivessem alcançado uma grande victoria. Encontrando um barco de
sete pescadores malaquinos, cortaram-lhes as orelhas e o nariz e com o
seu sangue escreveram uma carta prenhe de injurias ao governador
Simão de Mello. Accendeu em colera tam cruel insulto os habitantes de
Malaca e Francisco Xavier, movido de compaixão á vista dos pescadores
mutilados de modo tam barbaro, foi o primeiro a diser que logo convinha
vingar a injuria feita á nação portuguesa.
«--Não se deve, accrescentava elle, supportar semelhante violencia.
Cumpre embarcar, acodir em seu alcance e tirar todo o desejo de vos
insultarem segunda vez. Ainda digo mais: que sois obrigados a isso se
não quereis perder o nome e a reputação.
«--Nós assim o entendemos, respondeu o governador, mas faltam-nos as
forças. As vossas embarcações estão podres e incapases de servir. Para
espalmar as que temos seria necessario mais tempo do que para fabricar
outras de novo. De mais d'isso os inimigos são muitos e os nossos
alliados não podem soccorrer-nos com tanta promptidão.
«--E não ha outras senão essas difficuldades para superar, senhor
governador? lhe replicou Francisco Xavier. Pois bem está: eu tomo a
cargo o diligenciar que se concertem as embarcações.
«Voltando-se depois para os officiaes e soldados, lhes disse em voz grave:
«--Deus está pela vossa parte, amigos e irmãos, cavalleiros e soldados
de Jesus Christo. Em seu nome vos advirto que arredeis do espirito
qualquer temor e medo. Elle vos chama a uma guerra santa. Ou fiqueis
vencedores ou vencidos, a palma sempre será vossa!
«Marcha seguidamente para o porto, onde apenas achou sete fustas e um
catur á mingoa de tudo o que era necessario para se meterem ao mar. Além
disso os armazens reaes estavam completamente vasios. Não havia breu nem
resina nem estopa para calafetar as embarcações. Faltavam armas, polvora
e outras munições para poderem combater. Recorreu então a sete pessoas
abastadas e moveo-as a faser as despesas demandadas pela expedição.
Dentro em cinco dias poseram-se as fustas em estado de ir a corso.
«Eram os portugueses ao todo 140 homens e embarcar tambem com elles
desejava Francisco Xavier; mas não o consentiram o governador e os
habitantes de Malaca.
«O almirante portuguez encontrou no rio Parlés a frota achenina e então,
saltando a um esquife, com a espada em punho visita as suas embarcações
e proclama aos seus soldados:
«--Filhos de Jesus Christo, lembrai-vos das promessas de Francisco
Xavier. Das vossas mãos depende a victoria. Os acheninos não nos podem
fugir e agora colherão o castigo devido á sua barbaridade.
«--Todos pelejaremos, responderam os soldados, em defensa da lei de
Jesus Christo para se desaggravar a nossa patria e manter-se a nossa
gloria. Havemos de vencer. Descançae vós na nossa valentia e no despreso
que temos pela morte.»
«O almirante voltou para a sua embarcação e logo se avistou o inimigo
que, soltando estridentes gritos, fasia retinir todo o rio. Achava-se
disposto em dez linhas e cada linha constava de seis embarcações com
excepção da primeira, que era de quatro.
«Deram os inimigos uma descarga com toda a artilharia, mas sem
causarem damno algum aos portugueses. Seguidamente os almirantes
arremeçaram-se um sobre o outro e ambos disputaram largo tempo a
victoria até que a do almirante inimigo foi metida a pique. As outras
mais proximas, atravessando para salvarem a gente que nadava, voltaram
os flancos para as forças portuguesas. De maneira que essas mesmas
embarcações serviam de estorvar as que vinham atraz, porque as da
seguinte linha vinham de encontro ás da primeira, as da terceira contra
as da segunda e assim de tal modo que se dizia combatiam umas contra as
outras. Então os portugueses despediram tres descargas successivas que
meteram a pique nove embarcações grandes. Abordando depois ás
embarcações acheninas, saltaram dentro e degollaram dous mil soldados.
Vendo o resto dos acheninos a sorte dos companheiros, precipitaram-se no
rio em procura de salvamento; mas afogaram-se todos.
«Nunca se proclamou victoria mais completa nem que menos custasse!
«Lavrava todavia a consternação em Malaca. Não chegara ainda noticia
da frota desde que sahira do porto. Debalde Francisco Xavier se esmerava
em socegar os habitantes e podia tanto com elles o medo, que em pouco
tempo se persuadiram de ser perdida. Até alguns sarracenos tiveram a
ousadia de divulgar como noticia certa que os acheninos a desbarataram
completamente. A desconsolação por isso era geral na cidade e todos
tornavam a Francisco Xavier a culpa de se perder a frota. O piedoso
varão assegurava o contrario; mas ninguem se reconhecia no estado de
crer o que elle assegurava. Accusaram-no geralmente de ser a causa de se
perderem tantos homens valentes, zombando das preces que por elles fasia
a Deus e disendo irrisoriamente que só lhes serviam de suffragio para
suas almas.
«Por fim o virtuoso varão declarou ao povo com um profundo convencimento:
«--Deus é victorioso. Nossos soldados triunfam. Estou vendo os de Achem
banhados no proprio sangue. O nosso exercito em marcha triunfante deve
entrar sexta feira pelo porto de Malaca.
«Chega entretanto Manoel Godinho e confirma tudo quanto fôra annunciado.
Torna-se em viva alegria a entranhavel tristesa em que todos estavam. Os
ares retiniram com voses festivaes. Divisa-se o praser em todos os
rostos. Emfim entra o almirante na sexta feira pelo porto, bem cheio de
gloria e carregado com os despojos opimos da batalha!»
[6] Moeda de ouro mandada cunhar por Dom Duarte e depois refundida
por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.
[7] Obr. de Sá de Miranda.
[8] _Nov. diction. hist._ par une société de gens-de-lettres, art.
Kempis.
[9] La Clede. _Hist. ger. de Port._
IV
O FESTIM DE BALTHASAR
Era Francisco Xavier um dos raros exemplos com que os jesuitas
poderiam alardear a santidade da sua universal associação; mas quem é
que em Lisboa se importava das virtudes do apostolo das Indias?
Por outras differentes rasões se recreava Lisboa com folganças e festejos.
Desde o alvorecer da madrugada salvava com festival estrondo a
artilharia do velho castello.
Por todos os angulos do Rocio e do Terreiro do Paço resoavam alegres
musicas de atabales e clarins.
Grande parte das ruas e casarias se decoraram vistosamente com
galhardetes multicores, bambolins de murta e festões de louro e rosas.
Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos
escaleres reaes.
No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular
flammulas e estandartes de todas as nações.
É que a côrte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de
gala.
Ao bispo de Coimbra, Dom João Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom
João de Lencastre, fôra commettido o honroso cargo de irem buscar a
Castella a princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva á
cidade de Lisboa com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e
equipagens que raras veses se vira em terras de Portugal.
Nada pouparam o faustoso Dom João de Lencastre nem o opulento Dom João
Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado
e á sua posição.
Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de
fasenda aos elegantes capirotes dos pagens. Eram sedas recamadas de
bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e dos gentis-homens.
Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de centenares de ginetes
e no aço polido das armaduras dos arautos e reis de armas reflectia-se o
sol com raios coruscantes.
Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta
vista e de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao
som de confusas charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em
infernal confusão de vivas e descantes cada vez mais accendia os seus
enthusiasmos!
Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano, á mesma hora em
que nos reaes paços da Ribeira começou a solemne recepção da princesa
castelhana e do seu apparatoso cortejo.
Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma
especie de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha
adereçadas da mais rica pedraria e do mais esquisito artificio.
Cingia-lhe a fronte um bello diadema cravejado de perolas e diamantes.
Cravejada tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito a cruz
da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de
renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o
fundador da monarchia fasem uso os mantos regios[10].