começado a empreza quasi impossivel da salvação de sua senhora; havia
tres dias que seus olhos não se cerravão, que seu espirito não
repousava um instante.
Tudo quanto a natureza permittia á intelligencia e ao poder do homem,
elle tinha feito; e comtudo não era a fadiga do corpo que o vencia,
erão sim as emoções violentas por que passára durante esse tempo.
O que elle tinha sentido quando plainava sobre o abysmo, e que a vida de
sua senhora dependia de um passo falso, de uma oscillação da haste
fragil que lhe servia de ponte pensil, ninguem comprehenderia.
O que soffreu quando Cecilia no seu desespero pela morte de seu pai o
accusava por tê-la salvado, e lhe dava ordem de leva-la ao lugar onde
repousavão as cinzas do velho fidalgo, é impossivel de descrever.
Forão horas de martyrio, de soffrimento horrivel, em que sua alma
succumbiria, se não achasse na sua vontade inflexivel e na sua
dedicação sublime um conforto para a dôr, e um estimulo para
triumphar de todos os obstaculos.
Erão essas emoções que o vencião, e ainda depois de vencidas, elle
conheceu que seus musculos de aço, escravos submissos que obedecião ao
seu menor desejo, se destendião como a corda do arco depois do combate.
Lembrou-se que sua senhora precisava delle e que devia aproveitar esses
momentos em que ella repousava para pedir ao somno novo vigor e novas
forças.
Ganhou o meio do rio, e escolhendo um lugar onde não chegava nem um
galho das arvores que crescião nas ribanceiras, amarrou a canôa nos
nenuphares que boiavão á tona d'agua.
Tudo estava quieto; a terra ficava a uma distancia de muitas braças;
portanto podia sua senhora dormir sem perigo sobre esse chão prateado,
debaixo da abobada azul do céo; as ondinhas a embalarião no seu
berço, as estrellas vigiarião o seu somno.
Livre de inquietação, Pery encostou a cabeça na borda da canôa; um
momento depois suas palpebras entorpecidas cerrárão-se a pouco e
pouco; seu ultimo olhar, esse olhar vago e incerto que adeja na pupilla
já meio adormecida, viu desenhar-se na sombra uma forma alva e graciosa
que se reclinava docemente para elle.
Não era um sonho, essa linda visão. Cecilia sentindo a canôa immovel
despertou das suas recordações; sentou-se, e debruçando-se um pouco
viu que seu amigo dormia, e accusou-se por não ter ha mais tempo
exigido delle esse instante de repouso.
O primeiro sentimento que se apoderou da menina, vendo-se só, foi o
terror solemne e respeitoso que infunde a solidão no meio do deserto,
nas horas mortas da noite.
O silencio parece fallar; as sombras se povoão de seres invisiveis; os
objectos, na sua immobilidade, como que oscillão pelo espaço.
E ao mesmo tempo o nada com o seu vacuo profundo, immenso, infinito; e o
chãos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas increadas; a
alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno.
Cecilia recebeu essa impressão com um temor religioso; mas não se
deixou dominar pelo susto; a desgraça a habituára ao perigo; e a
confiança que tinha no seu companheiro era tanta, que mesmo dormindo
parecia-lhe que Pery velava sobre ella.
Contemplando essa cabeça adormecida, a menina admirou-se da belleza
inculta dos traços, da correcção das linhas do perfil altivo, da
expressão de força e intelligencia que animava aquelle busto selvagem
moldado pela natureza.
Como era que até então ella não tinha percebido naquelle aspecto
senão um rosto amigo? Como seus olhos tinhão passado sem ver sobre
essas feições talhadas com tanta energia?
Era que a revelação physica que acabava de illuminar o seu olhar, não
era senão o resultado dessa outra revelação moral que esclarecêra o
seu espirito; dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos
da alma.
Pery, que durante um anno não fôra para ella senão um amigo dedicado,
apparecia-lhe de repente como um heróe; no seio de sua familia
estimava-o, no meio dessa solidão admirava-o.
Como os quadros dos grandes pintores que precisão de luz, de um fundo
brilhante, e de uma moldura simples, para mostrarem a perfeição de seu
colorido e a pureza de suas linhas, o selvagem precisava do deserto para
revelar-se em todo o esplendor de sua belleza primitiva.
No meio de homens civilisados, era um indio ignorante, nascido de uma
raça barbara, a quem a civilisação repellia, e marcava o lugar de
captivo. Embora para Cecilia e D. Antonio fosse um amigo, era apenas um
amigo escravo.
Aqui, porém, todas as distincções desapparecião; o filho das mattas,
voltando ao seio de sua mãi, recobrava a liberdade; era o rei do
deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da
coragem.
As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as arvores
seculares, servião de throno, de docel, de manto e sceptro a esse
monarca das selvas cercado de toda a magestade e de todo o esplendor da
natureza.
Que effusão de reconhecimento e de admiração não havia no olhar de
Cecilia! Era nesse momento que ella comprehendia toda a abnegação do
culto santo e respeitoso que o indio lhe votava!
As horas corrêrâo silenciosamente nessa muda contemplação; a aragem
fresca que annuncia o despontar do dia bafejou o rosto da menina; e
pouco depois o primeiro albor da manhã desmaiou o negrume do horizonte.
Sobre o relevo que formava o perfil escuro da floresta, nas sombras da
noite, luzio limpida e brilhante a estrella d'alva; as aguas do rio
arfárão docemente; e os leques das palmeiras se agitárão
rumorejando.
A menina lembrou-se do seu despertar tão placido de outr'ora, de suas
manhãs tão descuidosas, de sua prece alegre e risonha em que agradecia
a Deus a ventura que vertia sobre ella e sua familia.
Uma lagrima pendeu nos cilios dourados, e cahio sobre a face de Pery;
abrindo os olhos, e vendo ainda a mesma doce visão que o adormecêra, o
indio julgou que o sonho continuava.
Cecilia sorrio-lhe; e passou a mãozinha pelas palpebras ainda meio
cerradas de seu amigo:
--Dorme, disse ella, dorme; Cecy vela.
A musica dessas palavras despertou completamente o selvagem.
--Não! balbuciou elle envergonhado de ter cedido á fadiga. Pery
sente-se forte.
--Mas tu deves ter necessidade de repouso! Ha tão pouco tempo que
adormeceste!
--O dia vai raiar; Pery deve velar sobre sua senhora.
--E porque tua senhora não velará tambem sobre ti? Queres tomar tudo;
e não me deixas nem mesmo a gratidão!
O indio lançou um olhar cheio de admiração á menina:
--Pery não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e
sente-se fatigada, descansa sobre a aza de seu companheiro que é mais
forte; é elle que guarda o seu ninho emquanto ella dorme, que vai
buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha,
senhora.
Cecilia córou da comparação ingénua de seu amigo.
--E tu? perguntou ella confusa e tremula de emoção.
--Pery... é teu escravo, respondeu o indio naturalmente.
A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa:
--A rolinha não tem escravo.
Os olhos de Pery brilhárão, uma exclamação partio de seus labios:
--Teu...
Cecilia com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos humidos,
levou a mãozinha aos labios de Pery, e reteve a palavra que ella mesma
na sua innocente faceirice tinha provocado.
--Tu és meu irmão! disse ella com um sorriso divino.
Pery olhou o céo, para fazê-lo confidente de sua felicidade.
A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um
vêo finissimo; a estrella da manhã scintillava em todo o seu fulgor.
Cecilia ajoelhou-se.
--Salve, rainha!...
O indio contemplava-a com uma expressão de ventura ineffavel.
--Tu és christão, Pery! disse ella lançando-lhe um olhar supplicante.
Seu amigo comprehendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ella.
--Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las.
Sim?
--Ellas vêm de teus labios, senhora.
--Senhora, não! irmã!
Dahi a pouco os murmurios das aguas confundião-se com os accentos
maviosos da voz de Cecilia que recitava o hymno christão repassado de
tanta uncção e poesia.
A palavra de Pery repetia como um écho a phrase sagrada.
Terminada a prece christã, talvez a primeira que tinhão ouvido
aqnellas arvores seculares, a viagem continuou.
Logo que o sol chegou ao zenith, Pery procurou como na vespera um abrigo
para passar as horas de calma.
A canôa pojou n'um pequeno seio do rio, Cecilia saltou em terra; e seu
companheiro escolheu uma sombra onde ella repousasse.
--Espera aqui; Pery já volta.
--Onde vais? perguntou a menina inquieta.
--Ver fructos para ti.
--Não tenho fome.
--Tu os guardarás.
--Pois bem; eu te acompanho.
--Não; Pery não consente.
--E porque? Não me queres junto de ti?
--Olha tuas roupas; olha teus pés, senhora; os espinhos do cardo te
offenderião.
Com effeito Cecilia estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e
seu pézinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de
seda.
--Então me deixas só? disse a menina entristecendo.
O indio ficou um momento indeciso; mas de repente sua physionomia
expandio-se.
Cortou a haste de um iris que se balançava ao sopro da aragem, e
apresentou a flôr á menina.
--Escuta, disse elle. Os velhos da tribu ouvirão de seus pais, que a
alma do homem quando sahe do corpo, se esconde n'uma flôr, e fica alli
até que a _ave do céo_ vem busca-la e leva-la bem longe. É por isso
que tu vês o _guanumby_, saltando de flôr em flôr, beijando uma,
beijando outro; e depois batendo as azas e fugindo.
Cecilia, habituada á linguagem poetica do selvagem esperava a ultima
palavra que devia fazê-la comprehender o seu pensamento.
O indio continuo:
--Pery não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flôr. Tu não ficas
só.
A menina sorrio, e tomando a flôr escondeu-a no seio.
--Ella me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo.
--Pery não se afastará; se tu o chamares, elle ouvirá.
--E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim...
O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se
achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de
canella, uratahy e outras arvores aromaticas.
Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e
do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo
os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até
mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer
offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue
precioso; por isso tomára todas essas precauções.
Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e
de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de
frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as
grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de
espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.
A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua
segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle
desappareceu no mais espesso da matta.
Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e
envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que
Pery lhe tinha dado.
Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente
superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não
estava só e que a alma de Pery a acompanhava.
Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões
encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a
menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma
borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais
bella esperança?
Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem
tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que
as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou
deoses de uma belleza celeste e immortal.
Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si
mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição
fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce
que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão
pronunciar.
Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito,
incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender
mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do
sol fecunda a florescencia.
Em que pensava ella, com os olhos fitos no iris, que o seu habito
bafejava, comas palpebras meio cerradas e o corpo reclinado sobre os
joelhos?
Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se
rapidamente; e no futuro que lhe apparecia vago, incerto e confuso.
Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue,
cujo destino ignorava, e um irmão d'alma, em que tinha concentrado
todas as affeições que perdera.
Um sentimento de tristeza profunda annuviava seu semblante, lembrando-se
de seu pai, de sua mãi, de Isabel, de Alvaro, de todos que amava e que
formavão o universo para ella; então o que a consolava era a
esperança de que os dous unicos corações que lhe restavão não a
abandonarião nunca.
E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deos mais
ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o
futuro com as recordações do passado.
A sombra das arvores já beijava as aguas do rio, e Pery ainda não
tinha voltado; Cecilia assustou-se, e, temendo que não lhe tivesse
succedido alguma cousa, chamou por elle.
O indio respondeu de longe, e pouco depois appareceu entre as arvores; o
seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objectos
que trazia.
--Como tardaste!... disse-lhe Cecilia erguendo-se e indo ao seu
encontro.
--Tu estavas socegado; Pery aproveitou para não te deixar amanhã.
--Amanhã só?
--Sim, porque depois chegaremos.
--Aonde? perguntou a menina com vivacidade.
--Aos campos dos Goytacazes, á cabana de Pery, onde tu mandarás a
todos os guerreiros da tribu.
--E depois, como iremos ao Rio de Janeiro?
--Não te inquietes; os Goytacazes tem _igaras_ grandes como aquella
arvore que toca ás nuvens; quando elles atirão o remo, ellas voão
sobre as aguas como a _atyaty_ de azas brancas. Antes que a lua, que vai
nascer, tenha desapparecido, Pery te deixará com a irmã de teu pai.
--Deixará!... exclamou a menina, empallidecendo. Tu queres me
abandonar?
--Pery é um selvagem, disse o indio tristemente; não póde viver na
taba dos brancos.
--Porque? perguntou a menina com anciedade. Não és tu christão como
Cecy?
--Sim; porque era preciso ser christão para te salvar; mas Pery
morrerá selvagem como Ararê.
--Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa
Senhora, as suas virgens e os seus anginhos. Tu viverás comigo e não
me deixarás nunca!
--Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua
planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda
mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar
para elle.
--Pery!... exclamou a menina offendida.
--Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu
coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu
o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos
mais fortes.
Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do
indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um
sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma
grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na
revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do
deserto, livre, grande, magestoso com um rei.
Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais
brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem,
senão um captivo, tratado por todos com desprezo?
No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas
não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a
unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo.
Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes
offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha
colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia,
os cocos de varias especies.
A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua
colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha
perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres.
O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz,
cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia
servir ao banquete frugal.
N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da
corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar
as mãos depois da refeição.
Quando acabou esses preparativos que elle fazia com uma satisfação
inexprimivel, Pery sentou-se junto da menina, e começou a trabalhar
n'um arco de que precisava. O arco era sua arma favorita, e sem elle,
embora possuisse a clavinha e as munições que por precaução deitára
na canôa para servirem a D. Antonio de Mariz, não tinha tranquillidade
de espirito e confiança plena na sua agilidade.
Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a
cabeça e vio o rosto da menina banhado de lagrimas, que cahião em
perolas sobre os fructos, e os rociavão como gotas de orvalho.
Não era preciso adivinhar, para conhecer a causa dessas lagrimas.
--Não chores, senhora, disse o indio afflicto; Pery te fallou o que
sentia; manda, e Pery fará a tua vontade.
Cecilia olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma.
--Queres que Pery fique comtigo? Elle ficará; todos serão seus
inimigos; todos o tratarão mal; desejará defender-te e não poderá;
quererá servir-te e não o deixarão; mas Pery ficará.
--Não, respondeu Cecilia; não exijo de ti esse ultimo sacrificio.
Deves viver onde nasceste, Pery.
--Mas tu vais ainda chorar!
--Vê, disse a menina enxugando as lagrimas; estou contente.
--Agora toma uma fructa.
--Sim; jantaremos juntos, como jantavas outr'ora no meio das mattas com
tua irmã.
--Pery nunca teve irmã.
--Mas tens agora, respondeu ella sorrindo.
E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil
menina fez a sua refeição partilhando-a com seu companheiro, e
acompanhando-a dos gestos innocentes e faceiros que só ella sabia ter.
Pery admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora,
e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ella se
consolára bem depressa com a lembrança da separação.
Mas elle não era egoista, e preferia a alegria de sua senhora a seu
prazer; porque vivia antes da vida della do que da sua propria.
Depois da refeição, Pery voltou ao seu trabalho.
Cecilia, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e languida, tinha
recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias.
O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancolica que lhe deixarão
impressas as scenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a ultima
desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãi.
Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angelica, e tal
mansuetude e suavidade que dava novo encanto á sua belleza ideal.
Deixando seu companheiro distrahido com a sua obra, chegou á beira do
rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, á qual estava amarrada a
canôa.
Pery viu-a afastar-se, e, sempre seguindo-a com os olhos, continuou a
preparar a vergontea que devia servir-lhe de arco, e as cannas
selvagens, ás quaes o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira.
A menina com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do
rio, scimava; ás vezes as palpebras cerravão-se; os labios se
agitavão imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com
algum espirito invisivel.
Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus labios e desfazia-se
logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se
no fundo do coração, donde se tinha escapado.
Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que ás vezes tomava a
sua cabecinha loura, á qual só faltava o diadema; a physionomia
mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caracter de D. Antonio
de Mariz.
Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalavel, que ia
cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdára de seu pai,
e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas occasiões
extremas.
Levantou os olhos ao céo, e pedio a Deos um perdão para uma falta, e
ao mesmo tempo uma esperança para uma boa acção que ia praticar; sua
oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor.
Emquanto isso se passava, Pery, vendo que as sombras da terra já se
deitavão sobre o leito do Parahyba, conheceu que era tempo de partir, e
preparou-se para continuar a viagem.
No momento em que levantava-se, Cecilia, correu para elle, e collocou-se
em face, de modo a lhe occultar a vista do rio.
--Tu sabes? disse ella sorrindo; tenho uma cousa a pedir-te.
Esta só palavra bastava para que Pery não visse mais nada senão os
olhos e os labios de sua senhora, que ião dizer-lhe o que ella
desejava.
--Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pelle
bonita. Sim?
--Para que? perguntou o indio admirado.
--Do algodão fiarei um vestido; da pelle tu cobrirás os meus pés.
Pery, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem comprehendê-la:
--Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os
espinhos não me farão mal.
O espanto do indio tinha-o tornado immovel, mas de repente soltou um
grito, e quiz precipitar-se para o rio.
A mãozinha de Cecilia apoiando-se no seu peito, reteve-o.
--Espera!
--Olha; respondeu o indio inquieto apontando o rio.
A canôa desprendida do tronco a que estava amarrada resvalava á
discrição das aguas, e, gyrando sobre si, desapparecia levada pela
correnteza.
Cecilia depois de olhar se voltou sorrindo:
--Fui eu que soltei!
--Tu senhora! Porque?
--Porque não precisamos mais della.
Fitando então no seu amigo os lindos olhos azues, disse com o tom grave
e lento que revela um pensamento profundamente reflectido e uma
resolução inabalavel.
--Pery não póde viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua
irmã fica com elle no deserto, no meio das florestas.
Era essa a idéa que ella ha pouco acariciava no seu espirito, e para a
qual tinha invoeado a graça divina.
Não foi sem algum esforço que ella conseguio dominar os primeiros
temores que a assaltárão, quando encarou em face essa existencia longe
da sociedade, na solidão, no isolamento.
Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilisado? Não era ella
quasi uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as
suas aguas crystallinas?
A cidade lhe apparecia apenas como uma recordação da primeira
infancia, como um sonho do berço; deixara o Rio de Janeiro aos cinco
annos, e nunca mais alli voltára.
O campo, esse tinha para ella outras recordações ainda vivas e
palpitantes; a flor da sua mocidade tinha sido bafejada por essas auras;
o botão desatára aos raios desse sol esplendido.
Toda a sua vida, todos os seus bellos dias, todos os seus prazeres
infantis vivião alli, fallavão naquelles échos da solidão, naquelles
murmurios confusos, naquelle silencio mesmo.
Ella pertencia, pois, mais ao deserto do que á cidade; era mais uma
virgem brazileira do que uma menina cortezã; seus habitos e seus
gostos prendião-se mais ás pompas singelas da natureza, do que ás
festas e ás galas da arte e da civilisação.
Decidio ficar.
A unica felicidade que ainda podia gozar neste mundo, depois da perda de
sua familia, era viver com os dous entes que a amavão; essa felicidade
não era possivel; devia escolher entre um delles.
Ahi o seu coração foi impellido pela força invencivel que o
arrastava; mas depois, envergonhando-se de ter cedido tão depressa,
procurou desculpar-se a si mesma.
Disse então que entre seus dous irmãos era justo que acompanhasse
antes aquelle que só vivia para ella, que não tinha um pensamento, um
cuidado, um desejo que não fosse inspirado por ella.
D. Diogo era um fidalgo, herdeiro do nome de seu pai; tinha um futuro
diante de si, tinha uma missão a cumprir no mundo; elle escolheria uma
companheira para suavisar-lhe a existencia.
Pery tinha abandonado tudo por ella; seu passado, seu presente, seu
futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ella, e
unicamente ella; não havia pois que hesitar.