seu amigo o céo que ella entrevia na sua fé christã; queria dar-lhe
um lugar perto della na mansão dos justos, aos pés do throno celeste
do Creador.
É impossivel descrever o que se passou no espirito do selvagem ouvindo
as palavras de Cecilia: sua intelligencia inculta, mas brilhante, capaz
de elevar-se aos mais altos pensamentos, não podia comprehender aquella
idéa; duvidou do que escutava.
--Cecilia fica no deserto!... balbuciou elle.
--Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos; Cecilia fica comtigo e
não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas
montanhas; tua irmã te acompanhará!
--Sempre?...
--Sempre!.... Viveremos juntos como hontem, como hoje, como amanhã. Tu
cuidas?... Eu tambem sou filha desta terra; tambem me criei no seio
desta natureza. Amo este bello paiz!...
--Mas, senhora, tu não vês que tuas mãos forão feitas para as flores
e não para os espinhos; teus pés para brincar e não para andar; teu
corpo para a sombra e não para o sol e a chuva?
--Oh! Eu sou forte! exclamou a menina erguendo a cabeça com altivez.
Junto de ti não tenho medo. Quando eu estiver cansada, tu me levarás
nos teus braços. A rolinha não se apoia sobre a aza de seu
companheiro?
Era preciso ver a gentileza e a garridice com que ella dizia todas essas
phrases graciosas, que borbulhavão dos seus labios! A irradiação do
seu olhar, a animação do seu rosto e a travessura de seu gesto
fascinavão.
Pery ficou estatico diante da perspectiva dessa felicidade immensa, com
a qual nunca sonhara; mas jurou de novo em sua alma que cumpriria a
promessa feita a D. Antonio.
A tarde descahia; e era preciso tratar de prover aos meios de passar a
noite em terra, o que seria muito mais perigoso; não para elle a quem
bastava o galho de uma arvore; mas para Cecilia.
Seguindo pela margem para escolher o lugar mais favoravel, Pery soltou
uma palavra de surpreza vendo a canôa que se tinha embaraçado numa
dessas ilhas fluctuantes feitas pelas parasitas do rio que boião sobre
as aguas.
Era o melhor leito que podia ter a menina no meio do deserto; puxou a
canôa, alcatifou o fundo com as folhas macias das palmeiras, e, tomando
Cecilia nos braços, deitou-a no seu berço.
A menina não consentio que Pery remasse; e a canôa deslisou docemente
pelo leito do rio, apenas impellida pela correnteza.
Cecilia brincava; debruçava-se sobre as aguas para colher uma flôr de
passavem, para perseguir um peixe que beijava a face lisa das ondas,
para ter o prazer de molhar as mãos nessa agua crystallina, para rever
a sua imagem nesse espelho vacillante.
Quando tinha brincado bastante, voltava-se para seu amigo e fallava-lhe
com o gazeio argentino, mimoso chilrear dos labios travessos de uma
linda menina, onde as cousas mais ligeiras e mais frivolas revestem
encantos e graça suprema.
Pery estava distrahido; seu olhar fitava-se no horizonte com uma
attenção extraordinaria; a inquietação que se desenhava no seu
semblante era indicio de algum perigo, embora ainda remoto.
Sobre a linha azulada da cordilheira dos Orgãos, que se destacava n'um
fundo de purpura e rosicler, amontoavão-se grossas nuvens escuras e
pesadas, que, feridas pelos raios do occaso, lançavão reflexos
acobreados.
Dahi a pouco a serrania desappareceu envolta nesse manto côr de bronze,
que se elevava como as columnas e abobadas de stalactites que se
encontrão nas grutas das nossas montanhas. O azul puro e risonho que
cobria o resto do firmamento contrastava com a cinta escura, que ia
ennegrecendo gradualmente á medida que a noite cahia.
Pery voltou-se.
--Tu queres ir para terra, senhora?
--Não; estou tão bem aqui! Não foste tu que me trouxeste?
--Sim; mas...
--O que?
--Nada; pódes dormir sem receio!
Elle tinha-se lembrado que entre dous perigos o melhor era preferir o
mais remoto; aquelle que ainda estava longe e talvez não viesse.
Por isso resolveu não dizer nada a Cecilia, e conservar-se attento e
vigilante para salva-la, se o que elle temia se realisasse.
Pery havia lutado com o tigre, os homens, com uma tribu de selvagens,
com o veneno; e tinha vencido. Era chegada a occasião de lutar com os
elementos; com a mesma confiança calma e impassivel, esperou prompto a
aceitar o combate.
Anoiteceu.
O horizonte, sempre negro e fechado, se illuminava ás vezes com um
lampejo phosphorescente: um tremor surdo parecia correr pelas entranhas
da terra e fazia ondular a superficie das aguas, como o seio de uma
vela enfunada pelo vento.
Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul
do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios
doces da solidão cantavão o hymno da noite.
Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece.
Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba.
De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo,
propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo.
Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira
do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas
prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta.
O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a
claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia;
tudo estava immovel e quêdo.
O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido;
pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao
quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos.
Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a
harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro
tenue da aragem.
Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a
alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que
prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo,
que fendeu a agua rapidamente.
Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era
coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas
lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos
das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e
cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira.
Tocando a margem, Pery saltou em terra, tomou Cecilia meio adormecida
nos seus braços, e ia entranhar-se pela matta virgem que se elevava
diante delle.
Nesse momento, o rio arquejou como um gigante estorcendo-se em
convulsões, e deitou-se de novo no seu leito, soltando um gemido
profundo e cavernoso.
Ao longe o crystal da corrente achamalotou-se; as aguas frisárão-se; e
um lençol de espuma estendeu-se sobre essa face lisa e polida,
semelhante a uma vaga do mar desenrolando-se pela arêa da praia.
Logo todo o leito do rio cobrio-se com esse delgado sendal que se
desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de
seda.
Então no fundo da floresta troou um estampido horrivel, que veio
reboando pelo espaço; dir-se-hia o trovão correndo nas quebradas da
serrania.
Era tarde!
Não havia tempo para fugir; a agua tinha soltado o seu primeiro
bramido, e, erguendo o collo, precipitava-se furiosa, invencivel,
devorando o espaço como algum monstro do deserto.
Pery tomou a resolução prompta que exigia a eminencia do perigo: em
vez de ganhar a matta, suspendeu-se a um dos cipós, e galgando o cimo
da palmeira, ahi abrigou-se com Cecilia.
A menina, despertada violentamente e procurando conhecer o que se
passava, interrogou seu amigo.
--A agua!... respondeu elle, apontando para o horizonte.
Com effeito, uma montanha branca, phosphorescente, assomou entre as
arcarias gigantescas formadas pela floresta, e atirou-se sobre o leito
do rio, mugindo como o oceano quando açouta os rochedos com as suas
vagas.
A torrente passou, rapida, veloz, vencendo na carreira o tapir das
selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava
pelos troncos diluvianos das grandes arvores, que estremecião com o
embate herculeo.
Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevarão no fundo da
floresta; arremessando-se no turbilhão, lutárão corpo a corpo,
esmagando com o peso tudo que se oppunha á sua passagem.
Dir-se-hia que algum monstro enorme, dessas giboias tremendas quo vivem
nas profundezas da agua, mordendo a raiz de uma rocha, fazia gyrar a
cauda immensa, apertando nas suas mil voltas a matta que se estendia
pelas margens.
Ou que o Parahyba, levantando-se qual novo Briareo no meio do deserto,
estendia os cem braços titanicos, e apertava ao peito, estrangulando-a
em uma convulsão horrivel, toda essa floresta secular que nascêra com
o mundo.
As arvores estalavão; arrancadas do seio da terra ou partidas pelo
tronco, prostravão-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao
hombro, precipitava-se para o oceano.
O estrondo dessas montanhas d'agua que se quebravão, o estampido da
torrente, os trôos do embate desses rochedos movediços, que se
pulverisavão enchendo o espaço de neblina espessa, formavão um
concerto horrivel, digno do drama magestoso que se representava no
grande scenario.
As trevas envolvião o quadro, e apenas deixavão ver os reflexos
prateados da espuma e a muralha negra que cingia esse vasto recinto,
onde um dos elementos reinava como soberano.
Cecilia, apoiada ao hombro de seu amigo, assistia horrorisada a esse
espectaculo pavoroso; Pery sentia o seu corpinho estremecer; mas os
labios da menina não soltárão uma só queixa, um só grito de susto.
Em face desses trances solemnes, desses grandes cataclysmas da natureza,
a alma humana sente-se tão pequena, anihila-se tanto, que se esquece da
existencia; o receio é substituido pelo pavor, pelo respeito, pela
emoção que emmudece e paralysa.
O sol, dissipando as trevas da noite, assomou no oriente; seu aspecto
magestoso illuminou o deserto; as ondas de sua luz brilhante
derramárão-se em cascatas sobre um lago immenso, sem horizontes.
Tudo era agua e céo.
A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia
alcançar; as grandes massas d'agua, que o temporal durante uma noite
inteira vertêra sobre as cabeceiras dos confluentes do Parahyba,
descêrão das serranias, e, de torrente em torrente, havião formado
essa tromba gigantesca que se abatêra sobre a varzea.
A tempestade continuava ainda ao longo de toda a cordilheira, que
apparecia coberta por um nevoeiro escuro; mas o céo, azul e limpido,
sorria mirando-se no espelho das aguas.
A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as
arvores pequenas desapparecião; e a folhagem dos soberbos jacarandás
sobrenadava já como grandes moitas de arbustos.
A cupola da palmeira, em que se achavão Pery e Cecilia, parecia uma
ilha de verdura banhando-se nas aguas da corrente; as palmas que se
abrião formavão no centro um berço mimoso, onde os dous amigos,
estreitando-se, pedião ao céo para ambos uma só morte, pois uma só
era a sua vida.
Cecilia esperava o seu ultimo momento com a sublime resignação
evangelica, que só dá a religião de Christo; morria feliz; Pery tinha
confundido as suas almas na derradeira prece que expirára dos seus
labios.
--Podemos morrer, meu amigo! disse ella com uma expressão sublime.
Pery estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espirito revoltava-se
contra aquella idéa, e não podia conceber que a vida de sua senhora
tivesse de perecer como a de um simples mortal.
--Não! exclamou elle. Tu não podes morrer.
A menina sorrio docemente.
--Olha? disse ella com a sua voz maviosa, a agua sobe, sobe...
--Que importa! Pery vencerá a agua, como venceu a todos os teus
inimigos.
--Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Pery. Mas é Deos... É o seu
poder infinito!
--Tu não sabes? disse o indio como inspirado pelo seu amor ardente, o
Senhor do céo manda ás vezes áquelles a quem ama um bom pensamento!
E o indio ergueu os olhos com uma expressão ineffavel de
reconhecimento.
Fallou com um tom solemne:
«Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As aguas cahirão, e
começárão a cobrir toda a terra. Os homens subirão ao alto dos
montes; um só ficou na varzea com sua esposa.
«Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor
fallava-lhe de noite; e de dia elle ensinava aos filhos da tribu o que
aprendia do céo.
«Quando todos subirão aos montes, elle disse:--Ficai comigo; fazei
como eu, e deixai que venha a agua.
«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle
só na varzea com sua companheira, que não o abandonou.
«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da
palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava
fructos que os alimentavão.
«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e
tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha
desappareceu.
«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol
olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que
boiava levando Tamandaré e sua companheira.
«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira;
arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da
arvore, acima da montanha.
«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites;
depois baixou: baixou até que descobrio a terra.
«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no
meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as
azas.
«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.»
Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas;
com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento.
Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se
fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu
amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma
das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria
para recebê-la.
A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma
gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas
de Cecilia.
A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu
amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme
para traga-los, murmurou docemente:
--Meu Deus!... Pery!...
Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena
estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime
loucura.
Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos
ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado
cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás
raizes.
Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste
robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção
violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia
marcado.
Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a
materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a
immobilidade.
Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu
poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e
pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel.
Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste
oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente
pela torrente.
A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela
flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada
pelas vegetações aquaticas.
Pery estava de novo sentado junto de sua senhora quasi inanimada; e,
tomando-a nos braços, disse-lhe com um accento de ventura suprema:
--Tu viverás!
Cecilia abrio os olhos, e vendo seu amigo junto della, ouvindo ainda
suas palavras, sentio o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
--Sim?... murmurou ella; viveremos!... lá no céo, no seio de Deos,
junto daquelles que amamos!...
O anjo espanejava-se para remontarão berço.
--Sobre aquelle azul que tu vês, continuou ella, Deos mora no seu
throno, rodeado dos que o adorão. Nós iremos lá, Pery! Tu viverás
com tua irmã, sempre!..
Ella embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e languida reclinou a
loura fronte.
O halito ardente de Pery bafejou-lhe a face.
Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e limpidos
sorrisos: os labios abrirão como as azas purpureas de um beijo soltando
o vôo.
A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...
E sumio-se no horizonte.
FIM DA QUARTA E ULTIMA PARTE.
NOTAS
DO TOMO SEGUNDO
PAG. 7.--=Crispim Tenreiro=.
Foi um dos fundadores do Rio de Janeiro; era casado com D. Isabel Mariz,
irmã de D. Antonio.
PAG. 153.--=Mussurana=.
«Os contrarios que os Tupinambás captivão na guerra ou de outra
maneira, mettem-nos em prisões, as quaes são cordas de algodão grossas,
que para isso tem muito louçãs, a que chamão mussuranas.»--G.S.
de SOUZA, _Roteiro do Brazil_.
PAG. 155.--=Esposa do tumulo=.
«Dão a cada um prisioneiro por mulher a mais formosa moça que ha na
sua casa; a qual moça tem o cuidado de o servir e dar-lhe o necessario
para comer e beber.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do Brazil_, _cap_.
71.
PAG. 156.--=Cardo=.
Fructo da urumbeba e de outras palmas de espinhos de que ha differentes
especies; é vermelho na casca, de polpa branca e sementes pretas.
PAG. 158.--=Corrixo=.
Corrixo é um passarinho que tem o dom de arremedar a todos os outros.
«Temos o passaro que entôa
Por mil differentes modos,
Porque elle remeda a todos,
Seu proprio nome é corrixo.»
J. J. LISBOA, _Desc. curiosa_.
PAG. 159.--=És livre=.
«Mas tambem ha algumas que tomárão tamanho amor aos captivos que as
tomárão por mulher, que lhes derão muito geito para se acolherem e
fugirem das prisões que elle cortão com alguma ferramenta que ellas
ás escondidas lhes derão, etc.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do
Brazil_, _cap_. 171.
PAG. 173.--=Sacrificio=.
Os costumes dos Aymorés não erão inteiramente conhecidos, por causa
do afastamento em que sempre viverão dos colonos. Em algumas cousas
porém assemelhavão-se á raça tupy; e é por isso que na descripção
do sacrificio aproveitámos o que dizem Simão de Vasconcellos e
Lamartinière a respeito dos Tupinambás e outras tribus mais ferozes.
PAG. 201.--=Veneno=.
Os indigenas fabricavão diversos venenos, e a sua perfeição foi
objecto de admiração para os colonisadores. Humboldt, á vista dos
seus conhecimentos toxicologicos, concluio que devia ter havido na
America antigamente uma grande civilisação, e que delia havião os
selvagens herdado esses usos. Os principaes desses venenos erão o
_bororé_ e o _uirari_.
PAG. 202.--=Curarê=.
«Le bororé, dont le révérend père Grumilha a donné la description
dans son _Orenoco illustrado_, parait être exactement le même dont
l'abbé Gilly parle dans son _Histoire de l'Amérique_, et qu'on
désigne aujourd'hui par le nom de _curarê_. Suivant M. Humboldt, c'est
un strichnos, et il ne faut pas le confondre avec le tucunas, composé
toxique dont parle M. de la Condamine dans la relation de son voyage aux
Amazones.»--Dʳ SIGAUD, _Du climat et des maladies du Brésil_.
PAG. 203.--=Em algumas horas=.
Sobre a violencia do _curarê_ diz ainda o Dʳ Sigaud o seguinte:
«En 1830, le président C. J. de Nyemer apporta du Pará à Rio de
Janeiro une petite portion de _curarê_ qu'on fit prendre à petites
doses à divers animaux, qui tous ont succombé en peu d'heures dans des
convulsions violentes. Le docteur Lacerda, qui a longtemps pratique au
Pará et au Maranhão, a fait, dit-on, d'importantes recherches sur les
poisons indiens encore inédites; le _curarê_ est, de son aveu, un
poison violent, causant d'abord un état tétanique, ensuite une torpeur
générale qui précède la mort.»
PAG. 229.--=Contraveneno=.
Segundo Humboldt, o assucar é um contraveneno do _curarê_. Os indios
porém conhecião naturalmente outros muito mais efficazes, e que hoje
ignorão-se, do mesmo modo que o da cascavel.
PAG. 229.--=Setta hervada=.
O curarê tambem servia aos indios para hervarem as settas, e nesse caso
tinha uma preparação especial. Vid. GUMILHA, _Orenoco illustrado_.
PAG. 292.--=Guanumby=.
Segundo uma tradição dos indios, o colibri, que conhecião pelo nome
de _guanumby_, levava e trazia as almas do outro mundo.
PAG. 296.--=Igara=.
Significa em guarany _canôa_; _atyaty_ é o nome que davão á gaivota.
PAG. 321.--=Tamandaré=.
É o nome do Noé indigena. A tradição rezava que na occasião do
diluvio elle escapara no olho de uma palmeira, e depois povoára a
terra. É a lenda que conta Pery.
FIM DAS NOTAS DO TOMO SEGUNDO.