D. Antonio de Mariz ouvio em profundo silencio as palavras do indio; e

quando elle terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento.

--Não, Pery: o que me propões é impossivel. D. Antonio de Mariz não

pode abandonar a sua casa, a sua familia e os seus amigos no momento do

perigo, ainda mesmo para salvar aquillo que elle mais ama n'este mundo.

Um fidalgo portuguez não pode fugir diante do inimigo, qualquer que

elle seja; morre vingando a sua morte.

Pery fez um gesto de desespero.

--Assim tu não queres salvar a senhora?

--Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique, e

partilhe a sorte de meus companheiros.

O indio no seu fanatismo não comprehendia que houvesse uma razão capaz

de sacrificar a vida de Cecilia, que para elle era sagrada.

--Pery pensou que tu amasses a senhora! disse elle fôra de si.

D. Antonio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza.

--Perdôo-te a offensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova

de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me

votasse só ao sacrificio barbaro dos selvagens para salvar minha filha,

eu o faria sorrindo.

--E porque recusas o que Pery te pede?

--Porque?... Porque o que tu pedes não é um sacrificio, é uma

vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus

companheiros, para salvar-te do inimigo, Pery?...

O indio abaixou a cabeça com abatimento.

--Demais, essa empreza demanda forças com que um velho como eu já não

póde contar. Havia duas pessoas que a poderião realisar.

--Quem? perguntou Pery com um raio de esperança.

--Uma era meu filho, que a esta hora esta bem longe d'aqui; a outra

deixou-nos esta manhã e nos espera; era Alvaro.

--Pery fez pela senhora o que podia; tu não queres salva-la; Pery vai

morrer a seus pés.

Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida á tua

disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Pery;

conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na

terra. Adeus. Parte: o tempo urge.

O indio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação.

--Pery arriscou bastantes vezes a sua vida por ti, para ter o direito de

morrer comtigo; tu não pódes abandonar teus companheiros; o escravo

não póde abandonar sua senhora.

--És injusto, amigo; exprimi um desejo, não quiz arrogar-te uma

injuria. Se exiges uma parte do sacrificio, esta te pertence, e tu és

digno d'ella; fica.

Um grito dos selvagens retroou nos ares.

D. Antonio, fazendo um gesto aos aventureiros, encaminhou-se para o

gabinete.

Cecilia, adormecida sobre a cadeira de espaldar, sorria como se algum

sonho alegre a embalasse no seu somno tranquillo; o rosto um pouco

pallido, moldurado pelas tranças louras de seus cabellos, tinha a

expressão suave da innocencia feliz.

O fidalgo, contemplando sua filha, sentio uma dôr pungente e quasi

arrependeu-se de não ter aceitado o offerecimento de Pery, e de não

tentar ao menos esse ultimo esforço para defender aquella vida que

apenas começava a expandir-se.

Mas podia elle mentir ao seu passado e faltar ao dever imperioso que o

obrigava a morrer no seu posto? Podia trahir na sua ultima hora aquelles

que havião partilhado a sua sorte?

Tal era o sentimento de honra naquelles antigos cavalheiros, que D.

Antonio nem um momento admittio a idéa de fugir para salvar sua filha;

se houvesse outro meio, de certo o receberia como um favor do céo; mas

aquelle era impossivel.

Emquanto o espirito do fidalgo se debatia nessa luta cruel, Pery, de pé

junto de Cecilia, parecia querer ainda protegê-la contra a morte

inevitavel que a ameaçava. Dir-se-hia que o indio esperava algum

soccorro imprevisto, algum milagre que salvasse sua senhora; e que

aguardava o momento de fazer por ella tudo quanto fosse possivel ao

homem.

D. Antonio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem,

tornou-se ainda mais pensativo; quando passado esse momento de

reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavão com un raio de

esperança.

Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de

Pery, disse-lhe com uma voz profunda e solemne:

--Se tu fosses christão, Pery!...

O indio voltou-se extremamente admirado daquellas palavras.

--Porque?... perguntou elle.

--Porque?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses christão,

eu te confiaria a salvação de minha Cecilia, estou convencido de que a

levarias ao Rio de Janeiro, á minha irmã.

O rosto do selvagem illuminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus

labios tremulos mal podião articular o turbilhão de palavras que lhe

vinhão do intimo d'alma.

--Pery quer ser christão! exclamou elle.

D. Antonio lançou-lhe um olhar humido de reconhecimento.

--A nossa religião permitte, disse o fidalgo, que na hora extrema todo

o homem possa dar o baptismo. Nós estamos com o pé sobre o tumulo.

Ajoelha, Pery!

O indio cahio aos pés do velho cavalheiro, que impoz-lhe as mãos sobre

a cabeça.

--Sê christão! Dou-te o meu nome.

Pery beijou a cruz da espada que o fidalgo lhe apresentou, e ergueu-se

altivo e sobranceiro, prompto a affrontar todos os perigos para salvar

sua senhora.

--Escuso exigir de ti a promessa de respeitares e defenderes minha

filha. Conheço a tua alma nobre, conheço o teu heroismo e a tua

sublime dedicação por Cecilia. Mas quero que me faças um outro

juramento.

--Qual? Pery está prompto para tudo.

Jura que, se não poderes salvar minha filha, ella não cahirá nas

mãos do inimigo?

--Pery te jura que elle levará a senhora a tua irmã; e que se o senhor

do céo não deixar que Pery cumpra a sua promessa, nenhum inimigo

tocará em tua filha; ainda que para isso seja preciso queimar uma

floresta inteira.

--Bem; estou tranquillo. Ponho minha Cecilia sob tua guarda: e morro

satisfeito. Podes partir.

--Manda fechar todas as portas.

Os aventureiros obedecêrão á ordem do fidalgo; todas as portas se

fechárão; o indio empregava este meio para ganhar tempo.

Os gritos e bramidos dos selvagens, que continuavão com algumas

interrupções, forão-se aproximando da casa; conhecia-se que

escalavão o rochedo nesse momento.

Alguns minutos se passárão n'uma anciedade cruel. D. Antonio de Mariz

depositou um ultimo beijo na fronte de sua filha; D. Lauriana apertou ao

seio a cabeça adormecida da menina e envolveu-a n'uma manta de seda.

Pery, com o ouvido attento, o olhar fito na porta, esperava.

Ligeiramente apoiado sobre o espaldar da cadeira ás vezes estremecia de

impaciencia e batia com o pé sobre o pavimento da sala.

De repente, um grande clamor soou em tomo da casa; as chammas lambêrão

com as suas linguas de fogo as frestas das portas e janellas: o edificio

tremeu desde os alicerces com o embate da tromba de selvagens que se

lançava furiosa no meio do incendio.

Pery, apenas ouvio o primeiro grito, reclinou sobre a cadeira e tomou

Cecilia nos braços; quando o estrondo soou na porta larga do salão, o

indio já tinha desapparecido.

Apezar da escuridão profunda que reinava em todo o interior da casa,

Pery não hesitou um momento; caminhou direita ao quarto onde habitára

sua senhora e subio á janella.

Uma das palmeiras da cabana estendia-se por cima do precipicio e

apoiava-se a trinta palmos de distancia sobre um dos galhos da arvore

que os Aymorés tinhão abatido durante o dia para tirarem aos

habitantes da casa a menor esperança de fuga.

Pery apertando Cecilia nos braços, firmou o pé sobre essa ponte

fragil, cuja faça convexa tinha quando muito algumas pollegadas de

largura.

Quem lançasse os olhos nesse momento para aquella banda da esplanada

veria ao pallido clarão do incendio deslisar-se lentamente por cima do

precipicio o vulto hirto, como um dos fantasmas que, segundo a crença

popular, atravessavão á meia noite as velhas amêas de algum castello

em ruinas.

A palmeira oscillava, e Pery, embalançando-se sobre o abysmo,

adiantava-se vagarosamente para a encosta opposta. Os gritos dos

selvagens repercutião nos ares de envolta com o estrepito dos _tacapes_

que abalavão as porta da sala e as paredes do edificio.

Sem se inquetar com a scena tumultuosa que deixava após si, o indio

ganhou a encosta opposta, e segurando com uma mão nos galho da arvore,

conseguio tocar a terra sem o menor accidente.

Então, fazendo uma volta para não aproximar-se do campo dos Aymorés,

dirigio-se á margem do rio; ahi estava escondida entre as folhas a

pequena canoa que servia outr'ora para os habitantes da casa

atravessarem o _Paquequer_.

Durante a ausencia de uma hora que Pery tinha feito, quando deixára

Cecilia adormecida, elle havia tudo preparado para essa empreza

arriscada que devia salvar sua senhora.

Graças á sua actividade espantosa, armou com o auxilio da corda a

ponte pensil sobre o precipicio, correu ao rio, amarrou a canôa no

lugar que lhe pareceu mais propicio, e em duas viagens levou a esse

barquinho, que ia servir de morada a Cecilia durante alguns dias, tudo

quanto a menina podia carecer.

Erão roupas, uma colcha de damasco com que se poderia arranjar um

leito, alguns alimentos que restavão na casa; lembrou-se até que D.

Antonio devia ter necessidade de dinheiro logo que chegasse ao Rio de

Janeiro, porque Pery contava que o fidalgo não duvidaria salvar sua

filha.

Chegando á beira do rio, o indio deitou sua senhora no fundo da canôa,

como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para

abrita-la do orvalho da noite, e tomando o remo, fez a canôa saltar

como um peixe sobre as aguas.

A algumas braças de distancia, por entre uma aberta da floresta, Pery

viu sobre o rochedo a casa illuminada pelas chammas do incendio, que

começava a lavrar com alguma intensidade.

De repente uma scena fantastica, terrivel, passou, diante de seus olhos,

como uma dessas visões rapidas que brilhão e se apagão de repente no

delirio da imaginação.

A frente da casa estava ás escuras; o fogo ganhára as outras faces do

edificio e o vento o lançava para o fundo. Pery do primeiro olhar tinha

visto os vultos dos Aymorés a se moverem nas sombras; e a figura

horrivel e medonha de Loredano, erguendo-se como um espectro no meio das

chammas que o devoravão.

De repente a fachada do edificio tombou sobre a esplanada esmagando na

sua queda um grande numero de selvagens.

Foi então que o quadro fantastico se desenhou aos olhos de Pery.

A sala era um mar de fogo; os vultos que se movião nessa esphera

luminosa parecião nadar em vagas de chammas.

No fundo destacava-se o vulto magestoso de D. Antonio de Mariz, de pé

no meio do gabinete, elevando com a mão esquerda uma imagem de Christo

e com a direita abaixando a pistola para a cava escura onde dormia o

volcão.

Sua mulher abraçava os seus joelhos calma e resignada; Ayres Gomes e os

poucos aventureiros que restavão, immoveis e ajoelhados a seus pés,

formavão o baixo-relevo dessa estatua digna de um grande cinzel.

Sobre o montão de ruinas formado pela parede que desmoronára,

desenhavão-se as figuras sinistras dos selvagens, semelhantes a

espiritos diabolicos dansando nas chammas infernaes.

Tudo isso, Pery viu de um só relance d'olhos; como um painel vivo

illuminado um momento pelo clarão instantaneo do relampago.

Um estampido horrivel reboou por toda aquella solidão: aterra tremeu,

as aguas do rio se encapellárão como batidas pelo tufão. As trevas

envolvêrão o rochedo ha pouco esclarecido pelas chammas, e tudo entrou

de novo no silencio profundo da noite.

Um soluço partio o peito de Pery, talvez a unica testemunha dessa

grande catastrophe.

Dominando a sua dôr, o indio vergou sobre o remo, e a canôa voou pela

face lisa e polida do _Paquequer_.

XI

EPILOGO

Quando o sol, erguendo-se no horizonte, illuminou os campos um montão

de ruinas cobria as margens do _Paquequer_.

Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo,

paredão ter saltado do malho gigantesco de Novos Cyclopes.

A eminencia sobre a qual estava situada a casa tinha desapparecido, e no

seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante á cratera de algum

volcão subterraneo.

As arvores arrancadas dos seus alveolos, a terra revolta, a cinza

ennegrecida que cobria a floresta, annunciavão que por ahi tinha

passado algum desses cataclysmas que deixão após si a morte e a

destruição.

Aqui e alli por entre os comoros das ruinas apparecia alguma india,

resto da tribu dos Aymorés, que tinha ficado para chorar a morte dos

seus, e levar ás outras tribus a noticia dessa tremenda vingança.

Quem plainasse nesse momento sobre aquella solidão, e lançasse os

olhos pelos vastos horizontes que se abrião em torno, se a vista

podesse devassar a distancia de muitas leguas, veria ao longe, na larga

esteira do Parahyba, passar rapidamente uma forma vaga e indecisa.

Era a canoa de Pery, que impellida pelo remo e pela viração da manhã

corria com uma velocidade espantosa semelhando uma sombra a fugir das

primeiras claridades do dia.

Toda a noite o indio tinha remado sem descansar um momento; não

ignorava que D. Antonio de Mariz na sua terrivel vingança havia

exterminado a tribu dos Aymorés, mas desejava apartar-se do theatro da

catastrophe, e aproximar-se dos seus campos nativos.

Não era o sentimento da patria, sempre tão poderoso no coração do

homem; não era o desejo de ver sua cabana reclinada á beira do rio, e

abraçar sua mãi e seus irmãos, que dominava sua alma nesse momento e

lhe dava esse ardor.

Era sim a idéa de que ia salvar sua senhora e cumprir o juramento que

tinha feita ao velho fidalgo; era o sentimento de orgulho que se

apoderava delle, pensando que bastava a sua coragem e a sua força para

vencer todos os obstaculos, e realisar a missão de que se havia

encarregado.

Quando o sol, no meio de sua carreira, lançava torrentes de luz sobre

esse vasto deserto, Pery sentio que era tempo de abrigar Cecilia dos

raios abrazadores, e fez a canôa abicar á beira do rio na sombra de

uma ramagem de arvores.

A menina envolta na sua manta de seda com a cabeça apoiada sobre a

prôa do barquinho dormia ainda o mesmo somno tranquillo da vespera; as

côres tinhão voltado, e sob a alvura transparente de sua pelle alva

brilhavão esses tons côr de rosa, esse colorido suave, que só a

natureza, artista sublime, sabe crear.

Pery tomou a canôa nos seus braços, como se fôra um berço mimoso, e

deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao

lado, e com os olhos fitos em Cecilia, esperou que ella sahisse desse

somno prolongado que começava a inquieta-lo.

Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a

desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com

forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina

lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto.

Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e

o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o

momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia

com um cuidado e uma solicitude admiravel.

A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse

amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas

folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava

sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle

afastava para não perturbar o seu repouso.

Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era

tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina

gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a

privára de sua familia.

Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se

abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a

mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e

seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um

gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de

surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que

a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo

emmudecia.

Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava

n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra

do enigma que ella não tardaria a comprehender.

Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a

canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que

se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a

cambraia do seu roupão.

Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios

tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as

mãozinhas juntas:

--Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.

O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas

mãos.

--Morto!... Minha mãi tambem morta!... Todos mortos!...

Vencida pela dôr, a menina apertou convulsamente o seio que lhe

estalava com os soluços, e reclinando-se como o calice delicado de uma

flôr que a noite enchêra de orvalho, desfez-se em lagrimas.

--Pery só podia salvar a ti, senhora! murmurou o indio tristemente.

Cecilia ergueu a cabeça altiva.

--Porque não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ella n'uma

exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus

serviços?...

Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinaria.

--Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ahi que

deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti.

Pery estremeceu.

--Escuta, senhora... balbuciou elle em tom submisso.

A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o indio

emmudeceu, e voltando o rosto escondeu as lagrimas que lhe molhavão as

faces.

Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo

horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou

e fez uma oração longa e ardente.

Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do

consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no

coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se

amárão na terra.

Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e

procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de

sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente

até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa

palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma.

--Antes morrer como Isabel!

Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery,

sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de

receio, cuja causa não sabia explicar.

Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira,

porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que

tinha destruido toda a sua familia?

Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra

injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella;

e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de

sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras

duras e crueis.

A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice

de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue

sorriso fugio-lhe pelos labios.

--Pery!...

--O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio

cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como

sempre tinha sido.

--Perdoa a Pery, senhora!

--És tu que me deves perdoar, porque te fiz soffrer; não é verdade?

Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai!

--Foi elle que mandou a Pery que te salvasse! disse o indio.

--Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo.

O indio fez a narração da scena da noite antecedente desde que Cecilia

tinha adormecido até o momento em que a casa saltára com a explosão,

restando delia apenas um montão de ruinas.

Contou que elle tinha preparado tudo para que D. Antonio de Mariz

fugissse, salvando Cecilia; mas que o fidalgo recusára, dizendo que a

sua lealdade e a sua honra mandavão que morresse no seu posto.

--Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lagrimas.

Houve um instante de silencio, depois do qual Pery concluio a sua

narração, e referio como D. Antonio de Mariz o tinha baptisado, e lhe

havia confiado a salvação de sua filha.

--Tu és christão, Pery?... exclamou a menina, cujos olhos brilhárão

com uma alegria ineffavel.

--Sim; teu pai disse: «Pery; tu és christão; dou-te o meu nome!»

--Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os

olhos ao céo.

Depois, envergonhada desse movimento espontaneo, escondeu o rosto: o

rubor que cobrio as suas faces tingio de longes côr de rosa as linhas

puras do collo assetinado.

Pery ergueu-se e foi colher alguns fructos delicados que servirão de

refeição á sua senhora.

O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e

aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava

do campo dos Goytacazes.

O indio chegou-se tremulo para a menina:

--Que queres tu que Pery faça, senhora?

--Não sei; respondeu Cecilia indecisa.

--Não queres que Pery te leve á taba dos brancos?

--É a vontade de meu pai?... Deves cumpri-la.

--Pery prometteu a D. Antonio levar-te a sua irmã.

O indio fez a canôa boiar sobre as aguas do rio, e quando tomou a

menina nos seus braços para deita-la no barquinho, ella sentio pela

primeira vez na sua vida que o coração de Pery palpitava sobre o seu

seio.

A tarde estava soberba; os raios do sol no occaso, filtrando por entre

as folhas das arvores, douravão as flôres alvas que crescião pela

beira do rio.

As rolas começavão a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a

brisa, que passava ainda tepida das exhalações da terra, vinha

impregnada de aromas silvestres.

A canôa resvalou pela flôr d'agua, como uma garça ligeira levada pela

correnteza do rio.

Pery remava sentado na prôa.

Cecilia, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que

Pery tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as

emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das

aguas.

Quando seus olhos encontravão os de Pery, os longos cilios descião

occultando um momento o seu olhar doce e triste.

A noite estava serena.

A canôa, vogando sobre as aguas do rio, abria essas flôres de espuma,

que brilhão um momento á luz das estrellas, e se desfazem como o

sorriso da mulher.

A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma

tepida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e

encanto.

A viagem fora silenciosa; essas duas creaturas abandonadas no meio do

deserto, sós em face da natureza, emmudecião, como se temessem

despertar o echo profundo da solidão.

Cecilia repassava na memoria toda a sua vida innocente e tranquilla,

cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era

sobretudo o ultimo anno dessa existencia, desde o dia do apparecimento

imprevisto de Pery, que se desenhava na sua imaginação.

Porque interrogava ella assim os dias que tinha vivido no remanso da

felicidade? Porque o seu espirito voltava ao passado, e procurava ligar

todos esses factos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros annos

dera tão pouco apreço?

Ella mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma

innocente e ignorante tinha-se illuminado com uma subita revelação:

novos horizontes se abrião aos sonhos castos de seu pensamento.

Volvendo ao passado admirava-se de sua existencia, como os olhos se

deslumbrão com a claridadade depois de um somno profundo; não se

reconhecia na imagem do que fôra outr'ora, na menina isenta e travessa.

Toda a sua vida estava mudada; a desgraça tinha operado essa

revolução repentina, e um outro sentimento ainda confuso ia talvez

completar a transformação mysteriosa da mulher.

Em torno della tudo se resentia dessa mudança; as côres tinhão tons

harmoniosos, o ar perfumes inebriantes, a luz reflexos avelludados, que

seus sentidos não conhecião.

Uma flôr que antes era para ella apenas uma bella fórma, parecia-lhe

agora uma creatura que sentia e palpitava; a brisa que outr'ora passava

como um simples bafejo das auras, murmurava ao seu ouvido nesse momento

melodias ineffaveis, notas mysticas que resoavão no seu coração.

Pery, julgando sua senhora adormecida, remava docemente para não

perturbar o seu repouso; a fadiga começava a vencê-lo; apezar de sua

coragem indomavel e de sua vontade poderosa, as forças estavão

exhaustas.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) · 第 10 / 12 段