Alvaro e os seus nove companheiros divididos em duas columnas de cinco

homens com as costas apoiadas ás costas uns dos outros, estavão

cercados por mais de cem Aymorés que se precipitavão sobre elles com

um furor selvagem.

Mas as ondas dessa torrente de barbaros que soltavão bramidos

espantosos, ião quebrar-se contra essa pequena columna, que não

parecia de homens, mas de aço; as espadas jogavão com tanta velocidade

que a tornavão impenetravel; no raio de uma braça o inimigo que se

adiantava cahia morto.

Havia uma hora que durava esse combate, começado com armas de fogo; mas

os Aymorés atacarão com tanta furia, que breve tinhão chegado á luta

corpo a corpo e á arma branca.

No momento em que Pery assomava á margem da clareira, um incidente veio

modificar a face do combate.

O aventureiro que dava as costas a Alvaro, levado pelo ardor da peleja,

adiantou-se, alguns passos para ferir um inimigo; os selvagens o

envolvêrão, deixando a columna interrompida e Alvaro sem defeza.

Entretando o valente cavalheiro continuava a fazer prodigios de valor e

de coragem; cada volta que descrevia sua espada era um inimigo de menos,

uma vida que se extinguia a seus pés n'um rio de sangue. Os selvagens

redobravão de furor contra elle, e cada vez o seu braço agil movia-se

com mais segurança e mais certeza, fazendo jogar como um raio a lamina

de aço que mal se via brillar nas suas rapidas evoluções.

Desde porém que os Aymorés virão o moço sem defeza pelas costas, e

exposto aos seus golpes, concentrárão-se nesse ponto; um delles

adiantando-se, ergueu com as duas mãos a pesada tagapema e atirou-a ao

alto da cabeça de Alvaro.

O moço cahio; mas na sua queda a espada descreveu ainda um semi-circulo

e abateu o inimigo que o tinha ferido á traição; a dôr violenta dera

a esse ultimo golpe uma força sobrenatural.

Quando os indios ião precipitar-se sobre o cavalheiro, Pery saltou no

meio delles, e agarrando a espingarda que estava a seus pés fez delia

uma arma terrivel, uma clava formidavel, cujo poder em breve sentirão

os Aymorés. Apenas se viu livre do turbilhão dos inimigos o indio

tomou Alvaro nos seus hombros, e abrindo caminho com a sua arma temivel,

lançou-se pela floresta e desappareceu.

Alguns o seguirão; mas Pery voltou-se e fê-los arrepender-se de sua

ousadia; livrando-se do peso que levava, carregou a espingarda com as

munições que Alvaro trazia e mandou uma bala áquelle que o perseguia

mais de perto; os outros, que o conhecião pelo combate da vespera,

retrocedêrão.

A idéa de Pery era salvar Alvaro, não só pela amizade que lhe tinha,

como por causa de Cecilia, que elle suppunha amar o cavalheiro; vendo

porém que o corpo continuava inanimado, acreditou que Alvaro estava

morto. Apezar disto não desistio do seu proposito; morto ou vivo devia

leva-lo áquelles que o amavão, ou para o restituirem á vida, ou para

derramarem sobre o seu corpo o pranto da despedida.

Quando Pery acabou a sua narração, o fidalgo commovido chegou-se á

beira do sofá, e apertando a mão gelada e fria do cavalheiro, disse:

--Até logo, bravo e valente amigo; até logo! A nossa separação é de

poucos instantes; breve nos reuniremos na mansão dos justos onde

deveis estar, e onde espero que Deus me concederá a graça de entrar.

Cecilia deo á memoria do moço as ultimas lagrimas, e ajoelhando aos

pés do moribundo com sua mãi dirigio ao céo uma prece ardente.

D. Lauriana tinha esgotado todos os recursos dessa medicina domestica

que no interior das casas substituia a falta dos homens professionaes,

muito raros naquella epoca, e sobretudo longe das cidades; o moço não

deo porém o menor signal de vida.

D. Antonio de Mariz, que comprehendêra perfeitamente o que devia

esperar da pretendida retirada dos Aymorés, mandou que os seus homens

se preparassem para a defeza, não que tivesse a menor esperança, mas

porque desejava resistir até o ultimo momento.

Pery, depois de ter respondido a todas as perguntas de Cecilia a

respeito do modo por que se havia salvado do veneno, sahio da sala e

percorreu a esplanada, observando os arredores. O indio infatigavel

sempre que se tratava de sua senhora, apenas acabava de uma empreza

gigantesca, como a que o tinha levado ao campo dos Aymorés, cuidava já

em combinar outro projecto para salvar Cecilia.

Depois do seu exame estrategico, entrou no quarto que havia abandonado

na ante-vespera, e no qual encontrou ainda as suas armas, do mesmo modo

que as tinha deixado.

Lembrou-se do pedido que fizera a Alvaro, da contradicção do destino

que lhe restituía a vida a elle um homem tres vezes morto, e roubava-a

ao cavalheiro a quem elle havia deixado são e salvo.

VIII

NOIVA

Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery,

recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora,

olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a

algumas braças de distancia.

Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a

distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de

uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que

estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão

timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro.

Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado

como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as

feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha

uma calma ou antes uma immobilidade que assustava.

Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para

certificar-se de que não era um sonho o que havia passado.

A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas

ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas,

rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do

aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos

pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões.

Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça

desfallecida, procurando reanima-la.

Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella

ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou

rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito

mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para

embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios

frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte.

Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza

que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de

um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que

Isabel chorasse livremente.

Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se,

percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se

delle o tocou-lhe no hombro.

O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão

visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios

olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por

aquelles em quem reconhece um inimigo.

Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado,

sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia,

como se esperasse delle uma graça.

--Pery!...

O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela

primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel.

--Precisas de Pery? disse elle.

--Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça.

--Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará.

--Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma

expressão de alegria.

--Sim, Pery te promette.

--Vem!

Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se

acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha

deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu

amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços.

O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um

lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a

moça entreabrio, corando como uma noiva.

Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que

habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor;

porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta

e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo.

Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu

trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel.

Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que

seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir

na sua ultima hora os martyres e os desgraçados.

Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e

fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de

expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que

encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do

crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito

rapida, quasi instantanea.

Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a

commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou

as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia

penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que

ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava

a imagem de Christo.

A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima

graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado

tão rapido pela terra.

Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o

cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo.

Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a

menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da

cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito

do gentil cavalheiro um bella estatua.

Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo

á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar

que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada.

Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que

dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do

beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse

sandalo do Brazil.

A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas

bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a

chamma, communicou-a ás outras resinas.

Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão

da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens

transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio.

Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e

com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases

entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a

linguagem verdadeira do coração.

Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a

confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse,

contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas

palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos

do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava

aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso.

--Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua

Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para

que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!...

E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante,

ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima

palavra de seu triste amor.

Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos

perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma

ardente.

O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro

desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa.

Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro

deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem

continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a

sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e

entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso

havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar.

Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua

bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu

amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva.

Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o

gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de

soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia

na alma effluvios celestes.

De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um

tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o

marmore.

Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo,

suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com

um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou

seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel.

--Isabel!...

A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as

idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se

com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por

causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio

erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada

ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro.

No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que

apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus

olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante.

Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico

sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se

unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs,

confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio

do Creador.

As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e

envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de

descrever.

Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um

choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa

aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão.

Erão Cecilia e Pery.

A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que

ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não

disse onde deitára o corpo de Alvaro.

Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim

resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta.

Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um

presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a.

Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde

entrar e ver a scena que descrevêmos.

A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um

gesto a Pery e retirou-se.

O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora.

--Ella morreu feliz! disse Pery.

Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou.

IX

O CASTIGO

O dia declinava rapidamente e as sombras da noite começavão a

estender-se sobre o verde-negro da floresta.

D. Antonio de Mariz, apoiado ao umbral da porta, junto de sua mulher,

passava o braço pela cintura de Cecilia. O sol a esconder-se illuminava

com o seu reflexo esse grupo de familia, digno do quadro magestoso que

lhe servia de baixo-relevo.

O fidalgo, Cecilia e sua mãi, com os olhos no horizonte, recebião esse

ultimo raio de despedida, e mandavão o adeus extremo á luz do dia, ás

montanhas que os cercavão, ás arvores, aos campos, ao rio, á toda a

natureza.

Para elles esse sol era a imagem de sua vida; o occaso era a sua hora

derradeira; e as sombras da eternidade se estendião já como as sombras

da noite.

Os Aymorés tinhão voltado, depois do combate em que os aventureiros

vendêrão caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança,

esperavão que anoitecesse para assaltar a casa. Certos desta vez que o

inimigo extenuado não resistiria a um ataque violento, tinhão tratado

de destruir todos os meios que podessem favorecer a fuga de um só dos

brancos.

Isto era facil; além da escada de pedra, o rochedo formava um

despenhadeiro por todos os lados; e só a arvore, que lançava os galhos

sobre a cabana de Pery, offerecia um ponto de communicação praticavel

para quem tivesse a agilidade e a força do indio.

Os selvagens, que não querião que lhes escapasse um só inimigo, e

ainda menos que esse fosse Pery, abaterão a arvore, e cortárão assim

a unica passagem por onde um homem poderia sahir do rochedo, no momento

do ataque.

Ao primeiro golpe do machado de pedra sobre o grosso tronco do oleo,

Pery estremeceu, e, saltando sobre a sua clavina, ia despedaçar a

cabeça do selvagem; mas sorrio-se, e encostou tranquillamente a arma á

parede. Sem inquietar-se com a destruição que fazião os Aymorés,

continuou no seu trabalho interrompido, e acabou de torcer uma corda com

os filamentos de uma das palmeiras que servião de esteio á sua cabana.

Elle tinha o seu plano: e para realisa-lo, começára por cortar as duas

palmeiras e trazê-las para o quarto de Cecilia; depois rachou uma das

arvores, e durante toda a manhã occupou-se em tercer essa longa corda,

a que dava uma extraordinaria importancia.

Quando Pery terminava a sua obra, ouvio o baque da arvore que tombava

sobre o rochedo; chegou-se de novo á janella, e seu rosto exprimio uma

satisfação immensa. O oleo, cortado pela raiz, deitára-se sobre o

precipicio, elevando a uma grande altura os seus galhos seculares, mais

frondosos e mais robustos do que uma arvore nova da floresta.

Os Aymorés, tranquillos por esse lado, continuárão nos seus

preparativos para o combate que conta vão dar durante as horas mortas

da noite.

Quando o sol desappareceu no horizonte e a que luz do crepúsculo cedeu

ás trevas que envolvião a terra, Pery dirigio-se á sala.

Ayres Gomes, sempre infatigavel, guardava a porta do gabinete; D.

Antonio de Mariz estava recostado na sua cadeira de espaldar; e Cecilia,

sentada sobre os seus joelhos, recusava beber uma taça que seu pai lhe

apresentava.

--Bebe, minha Cecilia, dizia o fidalgo; é um cordial que te fará muito

bem.

--De que serve, meu pai? Por uma hora, se tanto nos resta a viver, não

vale a pena! respondia a menina, sorrindo tristemente.

--Tu te enganas! Ainda não estamos de todo perdidos.

--Tendes alguma esperança? perguntou ella incredula.

--Sim, tenho uma esperança, e esta não me illudirá! respondeu D.

Antonio, com um accento profundo.

--Qual? Dizei-me!

--És curiosa? replicou o fidalgo sorrindo. Pois só te direi se fizeres

o que te peço.

--Quereis que beba essa taça?

--Sim.

Cecilia tomou a taça das mãos de seu pai, e depois de beber, volveu

para elle o seu olhar interrogador.

--A esperança que eu tenho, minha filha, é que nenhum inimigo passará

nunca do limiar daquella porta; pódes crer na palavra de teu pai e

dormir tranquilla. Deus vela sobre nós.

Beijando a fronte pura da menina, elle ergueu-se, tomou-a nos seus

braços, e, recostando-a sobre a poltrona em que estivera sentado, sahio

do gabinete e foi examinar o que se passava fóra da casa.

Pery, que tinha assistido a esse dialogo entre o pai e a filha, estava

occupado em procurar no gabinete varios objectos de que tinha

necessidade apparentemente.

Logo que achou quanto desejava, o indio encaminhou-se para a porta.

--Onde vais? disse Cecilia, que tinha acompanhado todos os seus

movimentos.

--Pery volta, senhora.

--E porque nos deixas?

--Porque é preciso.

--Ao menos volta logo. Não devemos morrer todos juntos, da mesma morte?

O indio estremeceu.

--Não; Pery morrerá: mas tu has de viver, senhora.

--Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?...

Cecilia, que lia alguns momentos sentia a cabeça vacillar, os olhos

cerrarem-se e um somno invencivel apoderar-se della, deixou-se cahir

sobre o espaldar da cadeira.

--Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida

pelo somno.

Um meigo sorriso veio adejar nos seus labios entreabertos, por onde se

escapava a respiração doce, branda e igual.

Pery a principio assustou-se com esse somno repentino que não lhe

parecia natural e com a pallidez subita de que se cobrirão as feições

de Cecilia.

Seus olhos cahirão sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos

labios algumas gotas do liquido que tinhão ficado no fundo e tomou-lhes

o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não

achar o que receiára.

Repellio a idéa que lhe assaltára o espirito, e lembrou-se que D.

Antonio sorria no momento em que pedia a sua filha para beber, e que a

sua mão não tremêra apresentando-lhe a taça. Tranquillo a este

respeito, o indio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada,

correu para o quarto que occupava, e desappareceu.

A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e

os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinario

viera modificar a posição desesperada em que se achava a familia; a

calma sinistra, que precede as grandes tempestades, plainava sobre a

cabeça d'essas victimas que contavão, não as horas, mas os instantes

de vida que lhes restavão.

D. Antonio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade dos seus

dias tranquillos e placidos de outr'ora; de vez em quando o fidalgo

parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que

orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido.

Os aventureiros grupados junto á porta seguião com os olhos o vulto do

fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de

vigor e de colorido na esphera luminosa a que cingia a lampada de prata

suspensa ao tecto.

Mudos, resignados, nenhum d'esses homens deixava escapar uma queixa, um

suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava nelles essa coragem

heroica do soldado que morre por uma causa santa.

Antes de obedecerem á ordem de D. Antonio de Mariz, elles tinhão

executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse

então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o

frade, uma lingua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos

toros de lenha.

O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que,

ennovelando-se, envolvia-o n'uma nevoa espessa: é impossivel descrever

a raiva, a colera e o furor que se apossárão d'elle n'esses momentos

que precedêrão o supplicio.

Mas voltemos á sala em que se achavão reunidos os principaes

personagens d'essa historia, e onde se vão passar as scenas talvez mais

importantes do drama.

A calma profunda que reinava n'essa solidão não tinha sido perturbada;

tudo estava em silencio; e as trevas espessas da noite não deixavão

perceber os objectos a alguns passos de distancia.

De repente listras de fogo atravessárão o ar, e se abatêrão sobre o

edificio; erão as settas inflammadas dos selvagens que annunciavão o

começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo,

uma cascata de chammas que cahio sobre a casa.

Os aventureiros estremecêrão; D. Antonio sorrio.

--É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida;

preparai-vos para morrer como christãos e portuguezes. Abri as portas

para que possamos ver o céo.

O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo

destruido o resto da escada de pedra, os selvagens não podião subir ao

rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não

era possivel que consumissem n'isso menos tempo.

Quando os aventureiros abrirão as portas, um vulto resvalou na sombra,

e entrou na sala.

Era Pery.

X

CHRISTÃO

O indio dirigio-se rapidamente a D. Antonio de Mariz.

--Pery quer salvar a senhora.

O fidalgo abanou a cabeça em signal de duvida.

--Escuta! replicou o indio.

Aproximando os labios do ouvido de D. Antonio, fallou-lhe por algum

tempo em voz baixa, e n'um tom rapido e decisivo.

--Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu

arco chegarás á tribu dos Goytacazes. A mãi de Pery te conhece: cem

guerreiros te acompanharão á grande taba dos brancos.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) · 第 9 / 12 段