impassibilidade; nem um dos musculos do seu rosto trahia a menor
emoção; seu olhar limpido e sereno ora fitava-se no rosto do cacique,
ora volvia-se pelo campo examinando os preparativos do sacrificio.
Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma
das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havião na ponta
de seu saio de algodão.
Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous
passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda.
Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra
estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva
do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que
ia apresentar-se.
Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e
curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um
movimento que revelasse a menor perturbação.
O velho sorrio.
--Tens medo!
Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma
expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o
extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo,
entrevêm a felicidade suprema.
A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do
seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua
fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar
no seio do Creador.
Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir
sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens
sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda
imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.
--Fere!... disse Pery ao velho cacique.
Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se
confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o
trovão rolando pelas nuvens.
A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol
que ferião as côres brillantes.
No meio desse turbilhão ouvio-se um estrondo, uma ancia de agonisante e
o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro
instante se podesse perceber o que havia passado.
III
SORTIDA
O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as
arvores.
O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força
herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta
cortado pelo raio.
A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia
resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver.
Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava,
Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se
no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com
as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si
cahião sobre elle bramindo de furor.
Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos
tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em
punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de
espada.
Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra
vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima
á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes
terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança
admiravel.
O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de
Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas
de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo
quebrando-se de encontro a esse dique.
No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos
aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o
que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua
senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança
e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante.
Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para
ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a
sua vida inutilmente.
Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel;
voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o
seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse
Pery.
D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já
tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por
elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e
inevitavel que procurava.
Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda
a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não
queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle
só faria de bom grado á amizade que votava a Pery.
Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á
salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se
arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e
que não tinha com elles o menor laço de communidade.
D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu
escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou
consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua
vontade.
Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio
dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou
repentinamente uma resolução.
Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a
sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros
sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto.
Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os
sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e
ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal,
um cunho de adoração.
O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em
face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um
momento se devia manchar a santidade do seu pudor.
Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o
grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha.
--Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai!
A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento;
aquella palavra era ao menos uma esperança.
--Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro.
--Tirar Pery das mãos do inimigo!
--Vós!... exclamou Cecilia.
--Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a
vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma
justa mágoa.
Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando
elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo.
Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as
palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens
espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza.
--Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão;
continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para
defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.
--Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa
tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para
defender a minha filha, basto eu, apezar de velho.
--Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia
a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens
perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal.
--Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por
Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a
um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua
familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.
--Confiais demasiado em vossas forças!...
--Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder
terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos
com a rapidez do raio.
A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de
uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão
de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto
veneravel.
Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto
Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com
anciedade a decisão que ião tomar.
O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz;
--Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos.
O fidalgo apertou-lhe a mão:
--Salvai-o!
--Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro.
--Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não
cumpra a vossa ordem.
A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa;
toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino.
Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e
deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na
sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do
seu projecto, correu a elle pallida e assustada.
--Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula.
Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo!
--De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente!
--Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.
O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir.
Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos
scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de
vivo rubor.
O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada:
--Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á
minha palavra, que recue diante de um perigo?
--Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos
conhecesse, e que não... vos amasse!...
--Mas então dexai-me partir.
--Tenho uma graça a supplicar-vos?
--De mim?... Neste momento?
--Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do
vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel.
A voz de Isabel tornou-se balbuciante:
--Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!
--Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que
se apoderava delle.
--Promettestes fazer-me a graça que vos pedi.
--Qual?
--Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...
A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.
--Fallai!... fallai!...
--Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança
vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!
E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que
o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim.
Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os
seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase.
O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua
fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração
feliz.
--Eu te amo!
Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda
como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus
ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.
Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se
aos seus companheiros promptos a marchar.
Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada,
fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse.
A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que
depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do
fidalgo.
Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de
Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua
poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser
atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de
distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão
favoravel.
D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada
as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio,
afim de que nem um rumor lhe escapasse.
Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto
que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.
Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão
intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca
esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens.
A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição
em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo
não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que
tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas
reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não
estava clara e que devia explicar-se mais tarde.
Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito
uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser
percebido.
Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique
levantava a tagapema sobre a sua cabeça.
O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o
craneo do selvagem.
IV
REVELAÇÃO
Apenas Alvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos
inimigos que o atacavão, voltou a Pery, que assistia immovel a toda
esta scena.
--Vinde! disse o moço com autoridade.
--Não! respondeu o indio friamente.
--Tua senhora te chama!
Pery abaixou a cabeça com uma profunda tristeza.
--Dize á senhora que Pery deve morrer; que vai morrer por ella. E tu
parte, porque senão seria tarde.
Alvaro olhou a physionomia intelligente do indio para ver se descobria
nella algum signal de perturbação de espirito: porque o moço não
comprehendia, nem podia comprehender a causa desta obstinação
insensata.
O rosto de Pery, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma
resolução firme, inabalavel, tanto mais profundo quando se mostrava
sob uma apparencia de socego e tranquillidade.
--Assim, tu não obedece á tua senhora?
Pery custou a arrancar a palavra dos labios.
--A ninguem.
Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado delle;
voltando-se viu a india que lhe havião destinado por esposa cahindo
atravessada por uma flecha.
O tiro fôra destinado a Pery por um dos selvagens, e a menina
lançando-se para cobrir o corpo daquelle que amára uma hora recebêra
a setta no peito.
Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volvêrão a Pery
um ultimo olhar; e cerrando tornárão a abrir-se, já sem vida e sem
brilho. Pery sentio um movimento de piedade e sympathia vendo essa
victima de sua dedicação, que como elle sacrificava sem hesitar a sua
existencia para salvar aquelle a quem amava.
Alvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar
para seus homens que batião-se valentemente com os Aymorés fez um
aceno a Ayres Gomes.
--Escuta, Pery; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra. Jurei a
Cecilia levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste
lugar.
--Faze o que quizeres! Pery não sahira d'aqui.
--Vês estes homens?... são os unicos defensores que restão á tua
senhora; se todos elles morrem, bem sabes que é impossivel que ella se
salve.
Pery estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois, sem dar tempo a que
o seguissem, lançou-se entre as arvores.
D. Antonio de Mariz e sua familia, tendo ouvido os tiros dos arcabuzes,
esperavão com anciedade o resultado da expedição.
Dez minutos havião decorrido na maior impaciencia, quando sentirão
tocar na porta, e ouvirão a voz de Pery; Cecilia correu, e o indio
ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão.
O fidalgo, livre do pezar de perder um amigo, assumira a sua costumada
severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave.
--Commetteste uma grande imprudencia, disse elle ao indio; fizeste
soffrer teus amigos; expozeste a vida daquelles que te amão; não
precisas de outra punição além desta.
--Pery ia salvar-te!
--Entregando-te nas mãos do inimigo?
--Sim!
--Fazendo-te matar por elles?
--Matar e...
--Mas qual era o resultado dessa loucura?
O indio calou-se.
--É preciso explicar-te, para que não julguemos que o amigo
intelligente e dedicado de outr'ora tornou-se um louco e um rebelde.
A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda aggravava mais a
reprehenção severa que ella encerrava.
Pery sentio um lagrima humedecer-lhe as palpebras:
--Obrigas Perry a dizer tudo!
--Deves fazê-lo, se desejas rehabilitar-te na estima que te votava, e
que sinto perder.
--Pery vai fallar.
Alvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus
companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não
erão felizmente muito graves.
Cecilia apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe
n'um olhar toda a sua alma.
As pessoas presentes se grupárão ao redor da poltrona de D. Antonio,
em face do qual Pery de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado
como um criminoso, ia justificar-se.
Dir-se-hia que confessava uma acção indigna e vil: ninguem adivinhava
que sublime heroismo, que concepção gigantesca havia nesse acto, que
todos condemnavão como uma loucura.
Elle começou:
«Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a
erguê-lo, chamou Pery e disse:
«Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra-te que tua carne é a
minha carne; que teu sangue é meu sangue. Teu corpo não deve servir ao
banquete do inimigo.
«Ararê disse, e tirou suas contas de fructos que deo a seu filho;
estavão cheias de veneno; tinhão nellas a morte.
«Quando Pery fosse prisioneiro, bastava quebrar um fructo, e ria do
vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo.
«Pery viu que a senhora soffria e olhou as suas contas; teve uma idéa;
a herança de Ararê podia salvar a todos.
«Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia
um inimigo vivo; os brancos e os indios não te offenderião mais.»
Toda a familia ouvia esta narração com uma surpreza extraordinaria;
comprehendião delia que havia em tudo isto uma arma terrivel,--o
veneno; mas não podião saber os meios de que o indio se servira ou
pretendia servir-se para usar desse agente de destruição.
--Acaba! disse D. Antonio; por que modo contavas então destruir o
inimigo?
--Pery envenenou a agua que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia
servir ao banquete dos Aymorés!
Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo indio em um tom
simples e natural.
O plano que Pery combinára para salvar seus amigos acabava de
revelar-se em toda a sua abnegação sublime, e com o cortejo de scenas
terriveis e monstruosas que devião acompanhar a sua realisação.
Confiado nesse veneno que os indios conhecião com o nome de _curarê_,
e cuja fabricação era um segredo de algumas tribus, Pery com a sua
intelligencia e dedicação descobrira um meio de vencer elle só aos
inimigos, apezar do seu numero e da sua força.
Sabia a violencia e o effeito prompto daquella arma que seu pai lhe
confiára na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcella desse
pó subtil para destruir em algumas horas a organisação a mais forte e
a mais robusta. O indio resolveu pois usar desse poder que na sua mão
heroica ia tornar-se um instrumento de salvação, e o agente de um
sacrificio tremendo feito á amizade.
Dous fructos bastárão; um servio para envenenar a agua e as bebidas
dos aventureiros revoltados; o outro acompanhou-o até o momento do
supplicio, em que passou de suas mãos aos seus labios.
Quando o cacique vendo-o cobrir o rosto perguntou-lhe se tinha medo,
Pery acabava de envenenar o seu corpo, que devia d'ahi a algumas horas
ser um germen de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes.
O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração,
não era sómente o heroismo do sacrificio; era a belleza horrivel da
concepção, era o pensamento superior que ligára tantos acontecimentos,
que os submettêra á sua vontade, fazendo-os succeder-se naturalmente
e caminhar para um desfecho necessario e infallivel.
Porque, é preciso notar, a menos de um facto extraordinario, desses que
a previdencia humana não pode prevenir, Pery quando sahio da casa
tinha a certeza de que as cousas se passarião como de facto se
passárão.
Atacando os Aymorés a sua intenção era excita-los á vingança;
precisava mostrar-se forte, valente, destemido, para merecer que os
selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu odio. Com a sua
destreza e com a precaução que tomára tornando o seu corpo
impenetravel, contava evitara morte antes de poder realisar o seu
projecto; quando mesmo cahisse ferido, tinha tempo de passar o veneno
aos labios.
A sua previsão porém não o illudio; tendo conseguido o que desejava,
tendo excitado a raiva dos Aymorés, quebrou a sua arma, e supplicou a
vida ao inimigo; foi de todo o sacrificio o que mais lhe custou.
Mas assim era preciso; a vida de Cecilia o exigia; a morte que o havia
respeitado até então podia surprendê-lo; e Pery queria ser feito
prisioneiro, como foi, e contava ser.
O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de
captiva-lo para servir ao festim da vingança, era para Pery uma
garantia e uma condição favoravel á execução do seu projecto.
Quanto á peripecia final, que a intervenção de Alvaro obstára; não
fôra esse incidente imprevisto, que seria igualmente infallivel.
Segundo as leis tradicionaes do povo barbaro, toda a tribu devia tomar
parte no festim, as mulheres moças tocavão apenas na carne do
prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavão como um manjar delicado,
adubado pelo prazer da vingança: e as velhas com a gula feroz das
harpias que se cevão no sangue de suas victimas.
Pery contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o
corpo envenenado da victima levaria a morte ás entranhas do seus
algozes, e que elle só destruiria toda uma tribu, grande, forte,
poderosa, apenas com auxilio dessa arma silenciosa.
Póde-se agora comprehender qual tinha sido o seu desespero vendo esse
plano inutilisado; depois de ter desobedecido á sua senhora, depois de
haver tudo realisado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que
ia salvar a todos cahia, mudar-se de repente a face das cousas, e ver
destruida a sua obra, filha de tanta meditação!
Ainda assim quiz resistir, quiz ficar, esperando que os Aymorés
continuarião o sacrificio; mas conheceu que a resolução de Alvaro era
inabalavel como a sua; que ia ser causa da morte de todos os defensores
fieis de D. Antonio, sem ter já a certeza de sua salvação.
No primeiro momento que succedeu á confissão de Pery, todos os actores
dessa scena, pallidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos
cravados no indio, duvidavão ainda do que tinhão ouvido; o espirito
horrorisado não formulava uma idéa; os labios tremulos não achavão
uma palavra.
D. Antonio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração
que lhe causava aquella acção heroica, e das emoções produzidas por
essa idéa ao mesmo tempo sublime e horrivel, uma circumstancia o tinha
sobretudo impressionado.
Os aventureiros ião ser victimas do envenenamento; e por maior que
fosse o gráo de baixeza e aviltamento a que tinhão descido esses
homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia soffrer
semelhante homicidio.
Elle os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte
moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte á altura de um
exemplo; emquanto que a vingança a fazia descer ao nivel do
assassinato.
--Vai, Ayres Gomes, gritou D. Antonio ao seu escudeiro; corre e previne
a esses desgraçados, se ainda é tempo!
V
O PAIOL
Cecilia ouvindo a voz de seu pai estremeceu como se acordasse de um
sonho.
Atravessou o aposento com passo vacillante, e chegando-se a Pery, fitou
nelle os seus lindos olhos azues com uma expressão indefinivel.
Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração immensa que lhe causava a
acção heroica do indio; a dôr profunda que sentia pela sua perda; e
uma exprobação por não ter elle ouvido as suas supplicas.
O indio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo
realisado o sen desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma
loucura.
Sentia-se criminoso, e de toda a sua acção heroica e sublime para os
outros, só lhe restava o pezar de ter offendido Cecilia, e de lhe haver
causado inutilmente um degosto.
--Pery, disse a menina com desespero, porque não fizeste o que tua
senhora te pedia?...