prisioneiro recusava o que lhe offerecia; e achegando-se levantou a
cabeça pensativa de Pery.
Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso;
as ondulações morbidas do seu corpo trahião tantos desejos e tanta
voluptuosidade, que o prisioneiro comprehendeu immediatamente qual era a
missão dessa enviada da morte, dessa esposa do tumulo, destinada a
embellezar os ultimos momentos da vida!
O indio voltou o rosto com desdem; recusava as flôres como tinha
recusado os fructos; repellia a embriaguez do prazer como havia
repellido a embriaguez do vinho.
A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de
uma lingua desconhecida, da lingua dos Aymorés, que Pery não entendia;
era talvez uma supplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dôr
do vencido.
Mal sabia que o indio ia morrer feliz e esperava o supplicio como a
realisação de um sonho doce, como a satisfação de um desejo querido
e por muito tempo afagado com amor.
Mas podia ella, pobre selvagem, presentir e mesmo comprehender
semelhante cousa? O que sabia era que Pery ia ser morto; que ella devia
suavisar-lhe a ultima hora; e cumpria esse dever com um certo
contentamento.
Pery sentindo os braços da menina cingirem seu collo, repellio-a
vivamente para longe de si; e voltando procurou ver por entre as folhas
se descobria os preparativos que os Aymorés fazião para o sacrificio.
Tardava-lhe o momento supremo em que devia ser immolado á colera e á
vingança dos inimigos; sua altivez revoltava-se contra essa
humilhação do captiveiro.
A india continuava a olha-lo tristemente, e sem comprehender porque a
repellia; ella era linda e desejada por todos os jovens guerreiros de
sua tribu; seu pai, o velho cacique, tinha-a destinado para o mais
valente prisioneiro, ou para o mais forte dos vencedores.
Depois de conservar-se muito tempo nesta posição, a menina adiantou-se
de novo, tomou um vaso cheio de _cauim_, e apresentou-o a Pery sorrindo
e quasi supplicante.
Ao gesto de recusa que fez o indio, ella deitou o vaso no rio, e
escolhendo sobre as folhas um cardo vermelho e doce como um favo de mel,
estendeu a mão e tocou com o fructo a bocca do prisioneiro.
Pery engeitou o fructo como tinha engeitado o vinho, e a virgem selvagem
atirando-o por sua vez ao rio, aproximou-se e offereceu ao prisioneiro
seus labios encarnados, ligeiramente destendidos como para receberem o
beijo que pedião.
O indio fechou os olhos, e pensou em sua senhora. Elevando-se até
Cecilia, seu pensamento desprendia-se do involucro terrestre, e adejava
n'uma atmosphera pura e isenta da fascinação dos sentidos que
escravisa o homem.
Comtudo Pery sentia o halito ardente da menina que lhe requeimava as
faces: entreabrio os olhos, e viu-a na mesma posição, esperando uma
caricia, um afago daquelle a quem a sua tribu mandára que amasse, e a
quem ella já amava espontaneamente.
Na vida selvagem, tão proxima da natureza, onde a conveniencia e os
costumes não reprimem os movimentos do coração, o sentimento é uma
flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma
gota de orvalho e um raio de sol.
Nos tempos de civilisação, ao contrario, o sentimento torna-se planta
exotica; e só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos corações
onde o sangue é vigoroso, e o fogo da paixão ardente e intenso.
Vendo Pery no meio do combate, só contra toda a sua tribu, a india o
admirara: contemplando-o depois quando prisioneiro, o achára mais bello
do que todos os guerreiros.
Seu pai a destinára para esposa do inimigo que ia ser sacrificado; e
portanto ella que começára por admira-lo acabava por deseja-lo, por
ama-lo algumas horas apenas depois que o tinha visto.
Mas Pery, frio e indifferente, não se commovia, nem aceitava essa
affeição passageira e ephemera que tinha começado com o dia e devia
acabar com elle, sua idéa fixa, a lembrança de seus amigos, o protegia
contra a tentação.
Voltando as costas, levantou os olhos ao céo para evitar o rosto da
selvagem que acompanhava a sua vista, como certas flôres acompanhão a
rotação apparente do sol.
Entre a folhagem das arvores passava-se uma das scenas graciosas e
singelas, que a cada momento no campo se offerecem á attenção
daquelles que estudão a natureza nas suas pequenas creaturas.
Um casal de corrixos, que tinha feito o seu ninho n'um ramo, sentindo a
habitação do homem e o fogo em baixo da arvore, mudava a sua pequena
casa de palha e algodão.
Um desfazia com o bico o ninho, e o outro conduzia a palha para longe,
para o lugar onde ião novamente fabrica-lo; quando acabárão este
trabalho, acariciárão-se, e batendo as azas forão esconder o seu amor
n'algum lindo retiro.
Pery se divertia em ver esse innocente idyllio, quando a india
levantando-se de repente soltou um pequeno grito de alegria e de prazer,
e sorrindo mostrou ao prisioneiro os dous passarinhos que voavão um a
par do outre sobre o cupola da floresta.
Emquanto elle procurava comprehender o que queria dizer este aceno, a
virgem desappareceu, e voltou quasi immediatamente trazendo um
instrumento de pedra que cortava como faca e um arco de guerra.
Aproximou-se do indio, soltou-lhe os laços que lhe ligavão os punhos,
e partio a mussurana que o prendia á arvore. Executou isto com uma
extrema rapidez; e entregando a Pery o arco e as flechas, estendeu a
mão na direcção da floresta, mostrando-lhe o espaço que se abria
diante delles.
Seus olhos e o seu gesto fallavão melhor do que a sua linguagem
inculta, e exprimião claramente o seu pensamento:
--Tu és livre. Partamos!
FIM DA TERCEIRA PARTE.
QUARTA PARTE
A CATASTROPHE
I
ARREPENDIMENTO
Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar,
chamou quatro companheiros em quem mais confiava, e retirou-se com elles
para a despensa.
Fechou a porta afim de interceptar a communicação com os aventureiros,
e poder tranquillamente tratar o negocio que tinha em mente.
Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da
vespera; as palavras de ameaça ha pouco proferidas lhe revelárão que
o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem
que recuasse diante de um obstaculo, e deixasse roubarem-lhe a
esperança, que nutria desde tanto tempo.
Resolveu trazer as cousas rapidamente e executar naquelle mesmo dia o
seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavão para levar ao
cabo a empreza que projectára.
Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros á sala que tocava
com o oratorio, e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição,
minando a parede que os separava da familia.
--Amigos, disse o italiano, estamos n'uma posição desesperada; não
temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos
de succumbir.
Os aventureiros abaixarão a cabeça e não respondêrão; sabião que
aquella era a triste verdade.
--A morte que nos espera é horrivel; serviremos de pasto a esses
barbaros que se alimentão de carne humana; nossos corpos sem sepultura
cevarão os instinctos ferozes dessa horda de cannibaes!...
A expressão do horror se pintou na physionomia daquelles homens, que
sentirão um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até á
medulla dos ossos.
Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos
decompostos:
--Tenho porém um meio de salvar-vos.
--Qual? perguntárão todos á uma voz.
--Esperai. Posso salvar-vos; mas isto não quer dizer que esteja
disposto a fazê-lo.
--Por que razão?
--Por que... Porque todo o serviço tem o seu preço.
--Que exigis então? disse Martim Vaz.
--Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, succeda o que
succeder.
--Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos
meus companheiros.
--Sim! exclamarão os outros.
--Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento?
--Não; mas vós nos direis.
--Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atira-la dentro; entrar
nessa sala, matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa.
--E essa pessoa...
--É a filha de D. Antonio de Mariz, Cecilia. Se algum de vós deseja a
outra, póde toma-la; eu vol-a dou.
--E depois disto feito?
--Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros, e atacamos os
Aymorés.
--Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; ha pouco
dissestes que não temos força para resistir-lhes.
--De certo! acudio Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos.
--Como! disserão os aventureiros desconfiados.
O italiano sorrio.
--Quando disse que atacaremos o inimigo, não fallei claro: queria dizer
que os outros o atacarão.
--Não vos entendo ainda; fallai mais claro.
--Ahi vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais
alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediencia.
--Até aqui vamos bem.
--Isto feito, uma das bandas sahirá da casa para fazer uma sortida
emquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo; é um
estratagema já velho e que deveis conhecer; metter o inimigo entre dous
fogos.
--Adiante; continuai.
--Como a expedição de sahir é a mais perigosa e arriscada, tomo-a
sobre mim; vós me acompanhais e marchamos. Sómente em lugar de marchar
sobre o inimigo, marchamos sobre o mais proximo povoado.
--Oh! exclamarão os aventureiros.
--Sob pretexto de que os selvagens podem cortar-nos a entrada da casa
por alguns dias, levamos provisão de viveres. Caminhamos sem parar, sem
olhar atrás; e prometto-vos que nos salvaremos.
--Uma traição! gritou um dos aventureiros. Entregarmos nossos
companheiros nas mãos dos inimigos!
--Que quereis? A morte de uns é necessaria para a vida dos outros; este
mundo é assim: não seremos nós que o havemos de emendar; andemos com
elle.
--Nunca! Não faremos isto! É uma vilania!
--Bom, respondeu Loredano friamente, fazei o que vos aprouver. Ficai;
quando vos arrependerdes será tarde.
--Mas, ouvi...
--Não; não conteis já comigo. Julgei que fallava a homens a quem
valesse salvar a vida; vejo que me enganei. Adeus.
--Se não fôra uma traição...
--Que fallais em traição!... replicou o italiano com arrogancia.
Dizei-me, credes vós que algum escapará d'aqui na posição em que nos
achamos? Morreremos todos. Pois se assim é, mais vale que se salvem
alguns.
Os aventureiros parecêrão abalados por este argumento.
--Elles mesmos, continuou Loredano, a menos de serem egoistas, não
terão o direito de se queixarem; e morrerão com a satisfação de que
sua morte foi util aos seus companheiros, e não esteril como deve ser
se ficarmos todos de braços cruzados.
--Vá feito; tendes razões a que não se resiste. Contai comnosco,
acudio um aventureiro.
--Comtudo levarei sempre um remorso, disse outro.
--Faremos dizer uma missa por sua alma.
--Bem lembrado! respondeu o italiano.
Os aventureiros forão ajudar o seu companheiro na demolição surda da
parede, e Loredano ficou só retirado a um canto.
Por algum tempo acompanhou com a vista o trabalho dos cinco homens;
depois tirou um largo cinto de escamas de aço que apertava o seu
gibão.
Da parte interior desse cinto havia uma estreita abertura pela qual elle
sacou um pergaminho dobrado ao comprido, era o famoso roteiro das _minas
de prata_.
Revendo esse papel, todo o seu passado debuxou-se na sua memoria, não
para deixar-lhe o remorso, mas para exita-lo a proseguir em busca desse
thesouro que lhe pertencia, e do qual não podia gozar.
Foi tirado da sua distracção por um dos aventureiros, que se achegára
para elle desapercebido, e depois de olhar por muito tempo o papel,
dirigio-lhe a palavra:
--Não podemos derrubar a parede.
--Porque? perguntou Loredano erguendo-se. Está segura?
--Não é isso, basta um empurrão; mas o oratorio?
--Que tem o oratorio?
--Que tem? Os santos, as sagradas imagens bentas não são cousa que se
atire ao chão! Se tão damnada tentação nos tomasse, pediríamos a
Deus que nos livrasse della.
Loredano desesperado dessa nova resistencia, cuja força elle conhecia,
passeava pela sala de uma ponta á outra.
--Estupidos! murmurava elle. Basta um fragmento de madeira e um pouco de
argila para fazê-los recuar! E dizem que são homens! Animaes sem
intelligencia, que nem sequer têm o instincto da conservação!...
Alguns momentos decorrêrão: os aventureiros parados esperavão a
resolução do seu chefe.
--Tendes medo de tocar nos santos, disse Loredano avançando para elles;
pois bem, serei eu que deitarei a parede abaixo. Continuai, e avisai-me
quando for tempo.
Emquanto isto se passava, o resto dos aventureiros que ficara no
alpendre ouvia a narração de João Feio, que lhes communicava as
revelações de mestre Nunes.
Quando elles souberão que Loredano era um frade que abjurára dos seus
votos, erguêrão-se furiosos, e quizerão procura-lo e espedaça-lo.
--Que ides fazer? gritou o aventureiro. Não é assim que elle deve
acabar; a sua morte ha de ser uma punição, uma terrivel punição.
Deixai-me arranjar isto.
--Para que mais demora? respondeu Vasco Affonso.
--Prometto-vos que não haverá demora; hoje mesmo será condemnado;
amanhã receberá o castigo de seus crimes.
E porque não hoje?
--Deixemos-lhe o tempo de arrepender-se; é preciso que antes de morrer
sinta remorso do que praticou.
Os aventureiros decidirão por fim seguir esse conselho, e esperárão
que Loredano apparecesse para se apoderarem delle, e o condemnarem
summariamente.
Passou-se um bom espaço de tempo, e nada do italiano sahir; era quasi
meio-dia.
Os aventureiros estavão desesperados de sêde; a sua provisão de agua
e de vinho, já bastante diminuida depois do sitio dos selvagens,
achava-se na despensa, cuja porta Loredano fechara por dentro.
Felizmente descobrirão no quarto do italiano algumas garrafas de vinho,
que bebêrão no meio de risadas e chacotas, fazendo brindes ao frade
que ião dentro em pouco condemnar á pena de morte.
No meio da hilaridade algumas palavras revelavão o arrependimento que
começava a se apoderar delles; fallavão de ir pedir perdão ao
fidalgo, de se reunir de novo a elle, e ajuda-lo a bater o inimigo.
Se não fosse a vergonha da má acção que tinhão praticado,
correrião a lançar-se ao joelhos de D. Antonio de Mariz
immediatamente; mas resolvêrão fazê-lo quando o principal autor da
revolta tivesse recebido o castigo do seu crime.
Seria esse o seu primeiro titulo ao perdão que ião supplicar; seria
mais a prova da sinceridade do seu arrependimento.
II
O SACRIFICIO
Pery comprehendêra o gesto da india; não fez porém o menor movimento
para segui-la.
Fitou nella o seu olhar brilhante e sorrio.
Por sua vez a menina tambem comprehendeu a expressão daquelle sorriso e
a resolução firme e inabalavel que se lia na fronte serena do
prisioneiro.
Insistio por algum tempo, mas debalde. Pery tinha atirado para longe o
arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da arvore, conservava-se
calmo e impassivel.
De repente o indio estremeceu.
Cecilia apparecêra no alto da esplanada, e lhe acenára; sua mãozinha
alva e delicada agitando-se no ar parecia dizer-lhe que esperasse; Pery
julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora, apezar da distancia,
brilhar um raio de felicidade.
Quando com os olhos fitos naquella graciosa visão elle esforçava-se
por adivinhar a causa de tão subita alegria, a india soltou um segundo
grito selvagem, um grito terrivel.
Tinha pela direcção do olhar do prisioneiro visto Cecilia sobre a
esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e comprehendêra vagamente
a razão por que Pery recusára a liberdade e o seu amor. Precipitou-se
sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apezar da rapidez desse
movimento, quando ella estendia a mão, já Pery tinha posto o pé sobre
a arma.
A selvagem, com os olhos ardentes, os labios entreabertos, tremula de
ciume e de vingança, levantou sobre o peito do indio a faca de pedra
com que lhe cortara os laços ha pouco; mas a arma cahio-lhe da mão, e
vacillando apoiou-se no seio que ameaçára.
Pery tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva, e sentou-se de novo
junto ao tronco da arvore, tranquillo a respeito de Cecilia, que
desapparecêra da esplanada e estava fora de perigo.
Era a hora em que a sombra das montanhas sobe ás encostas, e o jacaré
deitado sobre a arêa se aquece aos raios do sol.
O ar estrugio com os sons roucos da inubia e do maracá; ao mesmo tempo
um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aymorés, misturou-se com a
harmonia sinistra daquelles instrumentos ásperos e retumbantes.
A india deitada junto da arvore sobresaltou-se; e erguendo-se
rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e
supplicando-lhe que fugisse. Pery sorrio como da primeira vez; tornando
a mão da menina a fez sentar perto delle, e tirou do pescoço a cruz de
ouro que Cecilia lhe havia dado.
Então começou entre elle e a selvagem uma conversa por acenos de que
seria difficil dar uma idéa.
Pery dizia á menina que lhe dava aquella cruz como uma lembrança, mas
que só depois que elle morresse é que devia tira-la do pescoço. A
selvagem entendeu ou julgou entender o que Pery procurava exprimir
symbolicamente, e beijou-lhe as mãos em signal de reconhecimento.
O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavão, e que
ella no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito.
Nesse momento quatro guerreiros Aymorés dirigirão-se á arvore em que
se achava Pery; e segurando as pontas da corda o conduzirão ao campo,
onde tudo estava já preparado para o sacrificio.
O indio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante
dos quatro inimigos, que não percebêrão o olhar rapido que nessa
occasião elle lançou ás pontas da sua tunica de algodão, torcidas em
dous nós pequenos.
O campo cortado em ellipse no meio das arvores estava cercado por cento
e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de pennas.
No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarellas, de aspecto
horrido, preparavão um grande brasido, lavavão a lage que devia servir
de mesa, e afiavão as suas facas de ossos e lascas de pedra.
As moças grupadas de um lado guardavão os vasos cheios de vinho e
bebidas fermentadas, que offerecião aos guerreiros quando estes
passavão diante dellas entoando o canto de guerra dos Aymorés.
A menina que fôra incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhára
ao lugar do sacrificio, conservava-se a alguma distancia, e olhava
tristemente todo esses preparativos; pela primeira vez seu instincto
natural parecia relevar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de
seus pais, a que ella tantas vezes assistira com prazer.
Agora que ia representar como heroina no drama terrivel, e como esposa
do prisioneiro devia acompanha-lo até o momento supremo, insultando-lhe
a dôr e a desgraça, o seu coração confrangia-se; porque realmente
amava Pery, tanto quanto amar era possivel a uma natureza como a sua.
Chegados ao campo, os selvagens que conduzião o prisioneiro passárão
as pontas da corda ao tronco de duas arvores, e esticando o laço o
ohrigárão a ficar immovel no meio do terreiro. Os guerreiros
desfilárão em roda entoando o canto da vingança; as inubias
retroárão de novo; os gritos confundirão-se com o som dos maracás, e
tudo isto formou um concerto horrivel.
Á medida que se animavão, a cadencia apressava-se, de modo que a
marcha triumphal dos guerreiros se tornava uma dansa macabria, uma
corrida veloz, uma valsa fantastica, em que todos esses vultos
horrendos, cobertos de pennas que brilhavão á luz do sol, passavão
como espiritos satanicos envoltos na chamma eterna.
A cada volta que fazia esse sabbat, um dos guerreiros destacava-se do
circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e
conjurava-o a que désse provas de sua coragem, de sua força e de seu
valor.
Pery, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdem a ameaça e o
insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos
aquelles guerreiros fortes e armados, elle, o prisioneiro, o inimigo que
ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o unico vencedor.
Talvez pareça isto incomprehensivel; mas o facto é que Pery o pensava,
e que só o segredo que elle guardava no fundo de sua alma podia
explicar a razão desse pensamento e a tranquillidade com que esperava o
supplicio.
A dansa continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes
libações, quando de repente tudo emmudeceo, e o mais profundo silencio
reinou no campo dos Aymorés.
Todos os olhos se voltárão para uma cortina de folhas que occultava
uma especie de cabana selvagem, construida a um lado do campo em face do
prisioneiro.
Os guerreiros se afastárão, as folhas se abrirão, e entre aquellas
franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas
pelles de tapir ligadas sobre os hombros cobrião seu corpo como uma
tunica; um grande cocar de pennas escarlates ondeava sobre a sua
cabeça, e realçava-lhe a grande estatura.
Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço
cingido de uma colleira feita com as pennas brilhantes do tucano; no
meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavão como dous fogos
vulcanicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tagapema
coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma
especie de busina formada de um osso enorme da canella de algum inimigo
morto em combate.
Chegando á entrada do campo o velho selvagem levou á bocca o seu
instrumento barbaro, e tirou delle um som estrondoso; os Aymorés
saudárão com gritos de alegria e de enthusiasmo o apparecimento do
vencedor.
Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da victima, o matador do
prisioneiro; seu braço devia consummar a grande obra da vingança, esse
sentimento que constituia para aquelles povos fanaticos a verdadeira
gloria.
Apenas cessárão as acclamações com que foi acolhida a entrada do
vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavão adiantou-se e fincou na
extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo,
logo que ella fosse decepada do corpo.
Ao mesmo tempo a joven india que servia de esposa ao prisioneiro,
tirou o tacape que pendia do hombro de seu pai, e caminhando para Pery
desligou-lhe os braços e offereceu-lhe a arma, fitando nelle um olhar
triste, ardente e cheio de amarga exprobação.
Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe
offerecêra, e com o amor a vida e a liberdade, ella não seria obrigada
pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.
Com effeito esse offerecimento que os selvagens fazião ao prisioneiro
de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço
que o prendia, immovel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar
o _tacape_ no ar, se não podia attingir os inimigos?
Pery aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou
os braços e esperou o cacique, que avançava lentamente, terrivel e
ameaçador.
Chegado em face do prisioneiro, a physionomia do velho esclareceu-se com
um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as
narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.
--Sou teu matador! disse em guarany.
Pery não se admirou ouvindo a sua bella lingua adulterada pelos sons
roucos e guturaes que sahião dos labios do selvagem.
--Pery não te teme!
--És Goytacaz?
--Sou teu inimigo!
--Defende-te!
O indio sorrio:
--Tu não mereces.
Os olhos do velho fuzilárão de raiva: a mão cerrou o punho da
tagapema; mas elle reprimio logo o assomo da colera.
A esposa do prsioneiro atravessou o campo e offereceu ao vencedor um
grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananaz ainda espumante.
O selvagem virou de um trago a bebida aromatica, e endireitando o seu
alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo:
--Guerreiro Goytacaz, tu és forte e valente; tua nação é temida na
guerra. A nação Aymoré é forte entre as mais fortes, valente entre
as mais valentes. Tu vais morrer.
O côro dos selvagens respondeu a essa especie de canto guerreiro, que
preludiava o tremendo sacrificio.
O velho continou:
--Guerreiro Goytacaz, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao
guerreiro Aymoré; teu corpo aos filhos de sua tribu; tuas entranhas
servirão ao banquete da vingança. Tu vais morrer.
Os gritos dos selvagens respondêrão de novo: e o canto se prolongou
por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aymoré, e as
acções de valor de seu chefe.