Seu espirito percorreu em alguns segundos um mundo de pensamentos;

guiado pelo seu instincto maravilhoso e pelo seu nobre coração,

formulou n'um rapido instante um grande e terrivel drama, do qual devia

ser o heróe; drama sublime de heroismo e dedicação, que para elle era

apenas o cumprimento de um dever e a satisfação de um desejo.

As almas grandes têm esse privilegio; suas acções, que nos outros

inspirão a admiração, se anihilão em face dessa nobreza innata do

coração superior, para o qual tudo é natural e possivel.

Quando Pery ergueu a cabeça estava radiante de felicidade e orgulho;

felicidade por salvar sua senhora; orgulho pela consciencia de que elle

só bastava para fazer o que cincoenta homens não farião; o que o

proprio pai, o amante, não conseguirão nunca.

Não duvidava mais do resultado: via nos acontecimentos futuros como no

espaço que se estendia diante delle, e no qual nem um objecto escapava

ao seu olhar limpido; tanto quanto é possível ao homem, elle tinha a

certeza e a convicção de que Cecilia estava salva.

Cobrio o peito e as costas com uma pelle de cobra que ligou

estreitamente ao corpo; vestio por cima o seu saiote de algodão;

experimentou os musculos dos braços e das pernas; e sentindo-se forte,

agil e flexivel, sahio inerme.

XII

DESOBEDIENCIA

Alvaro, recostado da parte de fora a uma das janellas da casa, pensava

em Isabel.

Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e

profundo que o dominava; procurava illudir-se, mas a sua razão não o

permittia.

Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecilia;

a affeição calma e serena de outr'ora fôra substituida pela paixão

abrasadora.

Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era

impotente contra o amor; não podia mais arranca-lo do seu seio; não o

desejava mesmo.

Alvaro soffria; o que dissera na vespera a Isabel era realmente o que

sentia; não se exagerára; no dia em que deixasse de amar Cecilia e

fosse infiel á promessa feita a D. Antonio, se condemnaria como um

homem sem honra e sem lealdade.

Consolava-o a idéa de que a situação em que se achavão não podia

durar muito; pouco tardava que exhaustos, enfraquecidos, succumbissem á

força dos inimigos que os atacavão.

Então nos momentos extremos, á bordado tumulo, quando a morte o

tivesse já desligado da terra, poderia com o ultimo suspiro balbuciar a

primeira palavra do seu amor! poderia confessar a Isabel que a amava.

Até então lutaria.

Nisto Pery chegou-se e tocou-lhe no hombro:

--Pery parte.

--Para onde?

--Para longe.

--Que vais fazer?

O indio hesitou:

--Procurar soccorro.

Alvaro sorrio-se com incredulidade.

--Tu duvidas?

--De ti não; mas do soccorro.

--Escuta; se Pery não voltar, tu farás enterrar as suas armas.

--Podes ir tranquillo? eu te prometto.

--Outra cousa.

--O que é?

O indio hesitou de novo:

--Se tu vires a cabeça de Pery desligada do corpo, enterra-a com as

suas armas.

--Porque este pedido? A que vem semelhante lembrança?

--Pery vai passar pelo meio dos selvagens, e pode morrer. Tu és

guerreiro; e sabes que a vida é como a palmeira: murcha quando tudo

reverdece.

--Tens razão. Farei tudo quanto pedes; mas espero ver-te ainda.

O indio sorrio.

--Ama a senhora, disse elle estendendo a mão ao moço.

O seu adeus era uma ultima prece pela felicidade de Cecilia.

Pery entrou na sala onde se achava reunida a familia.

Todos dormião; só D. Antonio de Mariz velava sempre, apezar da

velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças, e reanimava o corpo

gasto pelos annos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer

rodeado dos entes que amava, cercado de sua familia, como um fidalgo

portuguez devia morrer; com honra e coragem.

O indio atravessou a sala, e collocando-se junto do sofa em que Cecilia

adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de

profunda melancolia.

Dir-se-hia que nesse olhar ardente fazia uma ultima e solemne despedida;

que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma

enleiada naquella imagem, que representava a sua divindade na terra.

Que sublime linguagem não fallavão aquelles olhos intelligentes,

animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéa

de sentimento e de abnegação não havia naquella muda e respeitosa

contemplação?

Por fim Pery fez um esforço supremo, e a custo conseguio quebrar o

encanto que o prendia, e o conservava immovel, como uma estatua, diante

da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá, e beijou

respeitosamente a fimbria do vestido de Cecilia; quando ergueu-se, uma

lagrima triste e silenciosa que deslisava pela sua face cahio sobre a

mão da menina.

Cecilia, sentindo aquella gota ardente, entreabrio os olhos; mas Pery

não viu este movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de

D. Antonio de Mariz.

O fidalgo, sentado na sua poltrona, recebeu-o com um sorriso pungente:

--Tu soffres? perguntou o indio.

--Por elles, por ella especialmente, por minha Cecilia.

--Por ti não? disse Pery com intenção.

— Por mim? Daria a minha vida para salva-la: e morreria feliz!

--Ainda que ella te pedisse que vivesse?

--Embora me supplicasse de joelhos.

O indio sentio-se alliviado como de um remorso.

--Pery te pede uma cousa?

--Falla!

--Pery quer beijar a tua mão.

D. Antonio de Mariz tirou o seu guante, e sem comprehender a razão do

pedido do indio, estendeu-lhe a mão.

--Tu dirás a Cecilia que Pery partio; que foi longe; não deves

contar-lhe a verdade: ella soffrerá. Adeus; Pery sente te deixar; mas

é preciso.

Emquanto o indio proferia estas palavras em voz baixa e inclinado ao

ouvido do fidalgo, este surprehendido procurava ligar-lhes um sentido

que lhe parecia vago e confuso:

--Que pretendes tu fazer Pery? perguntou D. Antonio.

--O mesmo que tu querias fazer para salvar a senhora.

--Morrer!... exclamou o fidalgo.

--Pery levou o dedo aos labios recommendando silencio; mas era tarde; um

grito partido do canto da sala fê-lo estremecer.

Voltando-se viu Cecilia, que ao ouvir a ultima palavra de seu pai

quizera correr para elle, e cahira de joelhos, sem forças para dar um

passo. A menina com as mãos estendidas e supplicantes parecia pedir a

seu pai que evitasse aquelle sacrificio heroico, e salvasse a Pery de

uma morte voluntaria.

O fidalgo a comprehendeu:

--Não, Pery; eu, D. Antonio de Mariz, não consentirei nunca em

semelhante cousa. Se a morte de alguem podesse trazer a salvação de

minha Cecilia e de minha familia, era a mim que competia o sacrificio. E

por Deus e pela minha honra o juro, que a ninguem o cederia; quem

quizesse roubar-me esse direito me faria um insulto cruel.

Pery volvia os olhos de sua senhora afflicta e supplicante para o

fidalgo severo erigido no cumprimento de seu dever; temia aquellas duas

opposições differentes, mas que tinhão ambas um grande poder sobre a

sua alma.

Podia o escravo resistir a uma supplica de sua senhora, e causar-lhe uma

mágoa, quando toda a sua vida fôra destinada a fazê-la alegre e

feliz? Podia o amigo offender a D. Antonio de Mariz, a quem respeitava,

praticando uma acção que o fidalgo considerava como uma injuria feita

á sua honra?

Pery teve um momento de hallucinação, em que pareceu-lhe que o

coração lhe estacava no peito, a vida lhe fugia, e a cabeça se

despedaçava com a pressão violenta das idéas que tumultuavão no

cerebro.

No rapido instante que durou a vertigem, elle viu gyrarem rapidamente em

torno de si as figuras sinistras dos Aymorés, que ameaçavão a vida

preciosa daquelles a quem mais amava no mundo. Vio Cecilia supplicando,

não a elle, mas ao inimigo feroz e sanguinario, prestes a mancha-la com

as mãos impuras; viu a bella e nobre cabeça do velho fidalgo rojar

mutilada com os alvos cabellos tintos de sangue.

O indio horrorisado com estas imagens lugubres que lhe desenhava a sua

imaginação em delirio, apertou a cabeça entre as mãos, com para

arranca-la daquella febre.

--Pery balbuciava Cecilia; tua senhora te pede!...

--Morreremos todos juntos, amigo, quando chegar o momento, dizia D.

Antonio de Mariz.

Pery levantou a cabeça, e lançou sobre a menina e o fidalgo um olhar

hallucinado:

--Não!... exclamou elle.

Cecilia ergueu-se com um movimento instantaneo, de pé e pallida,

soberba de cólera e indignação, a gentil e graciosa menina de

outr'ora se tinha de repente transformado n'uma rainha imperiosa.

Sua bella fronte alva resplandecia com um assomo de orgulho; seus olhos

azues tinhão desses reflexos fulvos que illuminão as nuvens no meio da

tormenta; seus labios tremulos e ligeiramente arqueados parecião reter

a palavra para deixa-la cahir com toda a força.

Atirando a cabecinha loura sobre o hombre esquerdo commum gesto de

energia, ella estendeu a mão para Pery:

--Prohibo-te que saias desta casa

O indio julgou que ia enlouquecer; quiz lançar-se aos pés de sua

senhora, mas recuou anhelante, oppresso e suffocado. Um canto; ou antes

uma celeuma dos selvagens soava ao longe.

Pery deo um passo para a porta; D. Antonio o reteve:

--Tua senhora, disse o fidalgo friamente, acaba de te dar uma ordem; tu

a cumprirás. Tranquillisa-te, minha filha; Pery é meu prisioneiro.

Ouvindo esta palavra que destruia todas as suas esperanças, que o

impossibilitava de salvar sua senhora, o indio retrahindo-se deo um

salto, e cahio no meio da sala.

--Pery é livre!... gritou elle fora de si; Pery não obedece a ninguem

mais; fará o que lhe manda o coração!

Emquanto D. Antonio de Mariz e Cecilia, admirados desse primeiro acto de

desobediencia, olhavão espantados o indio de pé no meio do vasto

aposento, elle lançou-se a um cabide de armas, e empunhando um pesado

montante, como se fôra uma ligeira espada, correu á janella e saltou.

--Perdoa a Pery, senhora!

Cecilia soltou um grito, e precipitou-se para a janella.

Não viu mais Pery.

Alvaro e os aventureiros, de pé sobre a esplanada, tinhão os olhos

fitos sobre a arvore que se elevava a um lado da casa, na encosta

opposta, e cuja folhagem ainda se agitava.

Longe descortinava-se o campo dos Aymorés; a brisa que passava trazia o

rumor confuso das vozes e gritos dos selvagens.

XIII

COMBATE

Erão seis horas da manhã.

O sol elevando-se no horizonte derramava cascatas de ouro sobre o verde

brilhante das vastas florestas.

O tempo estava soberbo; o céo azul, esmaltado de pequenas nuvens

brancas que se achamalotavão como as dobras de uma lençaria.

Os Aymorés, grupados em torno de alguns troncos já meio reduzidos á

cinza, fazião preparativos para dar um ataque decisivo.

O instincto selvagem suppria a industria do homem civilisado; a primeira

das artes foi incontestavelmente a arte da guerra,--a arte da defeza e

da vingança, os dous mais fortes estímulos do coração humano.

Nesse momento os Aymorés preparavão settas inflammaveis para incendiar

a casa de D. Antonio de Mariz; não podendo vencer o inimigo pelas

armas, contavão destrui-lo pelo fogo.

A maneira por que arranjavão esses terriveis projectis que lembravão

os pelouros e bombardas dos povos civilisados era muito simples;

envolvião a ponta da flecha com frocos de algodão embebido na resinada

almecegueira.

Essas settas assim inflammadas, despedidas dos seus arcos voavão pelos

ares e ião cravar-se nas vigas e portas das casas; o fogo que o vento

incitava, lambia a madeira, estendia a sua lingua vermelha, e lastrava

pelo edificio.

Emquanto se occupavão com esse trabalho, um prazer feroz animava todas

essas physionomias sinistras, nas quaes a braveza, a ignorancia e os

instinctos carniceiros tinhão quasi de todo apagado o cunho da raça

humana.

Os cabellos arruivados cahião-lhes sobre a fronte e occultavão

inteiramente a parte mais nobre do rosto, creada por Deos para a séde

da intelligencia, e para o throno d'onde o pensamento deve reinar sobre

a materia.

Os labios decompostos, arregaçados por uma contracção dos musculos

faciaes, tinhão perdido a expressão suave e doce que imprimem o

sorriso e a palavra; de labios de homem se havião transformado em

mandibulas de féra, affeitas ao grito e ao bramido.

Os dentes agudos como as presas do jaguar, já não tinhão o esmalte

que a natureza lhes dera; armas ao mesmo tempo que instrumentos da

alimentação, o sangue os tingira da côr amarellenta que têm os

dentes dos animaes carniceiros.

As grandes unhas negras e retorcidas que crescião nos dedos, a pelle

aspera e callosa fazião de suas mãos antes garras temiveis, do que a

parte destinada a servir ao homem e dar ao aspecto a nobreza do gesto.

Grandes pelles de animaes cobrião o corpo agigantado desses filhos das

brenhas, que a não ser o porte erecto se julgaria alguma raça de

quadrumanos indigena no novo mundo.

Alguns se ornavão de pennas, e collares de ossos; outros completamente

nús tinhão o corpo untado de oleo por causa dos insectos.

Entre todos distinguia-se um velho que parecia ser o chefe da tribu. Sua

alta estatura, direita apezar da idade avançada, dominava a cabeça dos

seus companheiros sentados ou grupados em torno do fogo.

Não trabalhava; presidia apenas aos trabalhos dos selvagens, e de vez

em quando lançava um olhar de ameaça para a casa que se elevava ao

longe sobre o rochedo inexpugnavel.

Ao lado delle, uma bella india na flôr da idade, queimava sobre uma

pedra côva algumas folhas de tabaco cuja fumaça se elevava em grossas

espiraes e cingia a cabeça do velho de uma especie de bruma ou nevoa.

Elle aspirava esse aroma embriagador que fazia dilatar o seu vasto

peito, e dava á sua physionomia terrivel um quer que seja de sensual,

que se poderia chamar a voluptuosidade dos seus instinctos de cannibal.

Envolta pelo fumo espesso que se ennovelava em torno delia, aquella

figura fantastica parecia algum idolo selvagem, divindade creada pelo

fanatismo desses povos ignorantes e barbaros.

De repente a pequena india que soprava o brasido queimando as folhas de

_pityma_ estremeceu levantou a cabeça e fitou os olhos no velho, como

para interrogar a sua physionomia.

Vendo-o calmo e impassivel, a menina debruçou-se sobre o hombro do

selvagem, e tocando-lhe de leve na cabeça, disse-lhe uma palavra ao

ouvido. Elle voltou-se tranquillamente, e um riso sardonico mostrou os

seus dentes; sem responder obrigou a india a sentar-se de novo, e a

voltar á sua occupação.

Pouco tempo havia passado depois deste pequeno incidente, quando a

menina tornou a estremecer, tinha ouvido perto o mesmo rumor que já

ouvira ao longe. Ao passo que ella espantada procurava confirmar-se, um

dos selvagens sentados em roda do fogo a trabalhar fez o mesmo movimento

que a india, e levantou a cabeça.

Como se um fio electrico se communicasse entre esses homens e imprimisse

a todos successivamente o mesmo movimento, um após outro interrompeu o

seu trabalho de chofre, e inclinando o ouvido poz-se á escuta.

A menina não escutava só; collocando-se longe do fumo e de encontro á

brisa que soprava, de vez em quando aspirava o ar com a finura de

olfacto com que os cães farejão a caça.

Tudo isto passou rapidamente, sem que os actores desta scena tivessem

nem sequer o tempo de trocar uma observação e dizer o seu pensamento.

De repente a india soltou um grito; todos voltárão-se para ella e a

virão tremula, offegante, apoiando-se com uma mão sobre o hombro do

velho cacique, e a outra estendida na direcção da floresta que passava

a duas braças servindo de fundo a esse quadro.

O velho ergueu-se então sempre com a mesma calma feroz e sinistra; e

empunhando a sua pesada tagapema, que parecia uma clava de cyclope,

fê-la gyrar sobre a sua cabeça como um junco; depois fincando-a no

chão e apoiando-se sobre ella, esperou.

Os outros selvagens armados de arcos e tacapes, especie de longas

espadas de páo que cortavão como ferro, collocárão-se a par do

velho, e promptos para o ataque, esperavão como elle. As mulheres

misturárão-se com os guerreiros: as crianças e meninos, defendidos

pela barreira que oppunhão os combatentes conservárão-se no centro do

campo.

Todos com os olhos fitos, os sentidos applicados, contavão ver o

inimigo apparecer a cada momento e se prepara vão para cahir sobre elle

com a audacia e o impeto de ataque que distinguia a raça dos Aymorés.

Um segundo se passou nesta expectativa inquieta.

O estalido que a principio tinhão ouvido cessou completamente; e os

selvagens cobrando-se do susto, voltárão aos seus trabalhos,

convencidos de que tinhão sido illudidos por algum vago rumor da

floresta.

Mas o inimigo cahio no meio delles, subitamente, sem que podessem saber

se tinha surgido do seia da terra, ou se tinha descido das nuvens.

Era Pery.

Altivo, nobre, radiante da coragem invencivel e do sublime heroismo de

que já dera tantos exemplos, o indio se apresentava só em face de

duzentos inimigos fortes e sequiosos de vingança.

Cahindo do alto dc uma arvore sobre elles, tinha abatido dous; e

volvendo o seu montante como um raio em torno de sua cabeça, abrio um

circulo no meio dos selvagens.

Então encostou-se a uma lasca de pedra que descansava sobre uma

ondulação do terreno, e preparou-se para o combate monstruoso de um

só homem contra duzentos.

A posição em que se achava o favorecia, se isto é possivel á vista

de uma tal disparidade de numero; apenas dous inimigos podião ataca-lo

de frente.

Passado o primeiro espanto, os selvagens bramindo atirárão-se todos

como uma só mola, como uma tromba do oceano, contra o indio que ousava

ataca-los a peito descoberto.

Houve uma confusão, um turbilhão horrivel de homens que se repellião,

tombavão e se estorcião; de cabeças que se levantavão e outras que

desapparecião; de braços e dorsos que se agitavão e se contrahião,

como se tudo isto fosse partes de um só corpo, membros de algum monstro

desconhecido debatendo-se em convulsões.

No meio desse cahos via-se brilhar aos raios do sol com reflexos rapidos

e luzentes a lamina do montante de Pery, que passava e repassava com a

velocidade do relampago quando percorre as nuvens e atravessa o espaço.

Um côro de gritos, imprecações e gemidos roucos e abafados,

confundindo-se com o choque das armas, se elevava desse pandemonio, e ia

perder-se ao longe nos rumores da cascata.

Houve uma calma aterradora; os selvagens immoveis de espanto e de raiva

suspendêrão o ataque; os corpos dos mortos fazião uma barreira entre

elles e o inimigo.

Pery abaixou o seu montante e esperou; seu braço direito fatigado desse

enorme esforço não podia mais servir-lhe, e cahia inerte; passou a

arma para a mão esquerda.

Era tempo.

O velho cacique dos Aymorés se avançava para elle, sopesando a sua

immensa clava crivada de escamas de peixe e dentes de féra; alavanca

terrivel que o seu braço possante fazia jogar com a ligeireza da

flecha.

Os olhos de Pery brilhárão; endireitando o seu talhe, fitou no selvagem

esse olhar seguro e certeiro, que não o enganava nunca.

O velho aproximando-se levantou a sua clava e imprimindo-lhe o movimento

de rotação, ia descarrega-la sobre Pery e abatê-lo; não havia espada

nem montante que podesse resistir áquelle choque.

O que passou-se então foi tão rapido, que não é possivel

descrevê-lo; quando o braço do velho volvendo a clava ia atira-la, o

montante de Pery lampejou no ar e decepou o punho do selvagem; mão e

clava forão rojar pelo chão.

O velho selvagem soltou um bramido, que repercutio ao longe pelos échos

da floresta, e levantando ao céo o seu punho decepado atirou as gotas

de sangue que vertião sobre os Aymorés, como conjurando-os á

vingança.

Os guerreiros lançárão-se para vingar o seu chefe; mas um novo

espectaculo se apresentava aos seus olhos.

Pery vencedor do cacique, volveu um olhar em torno delle, e vendo o

estrago que tinha feito, os cadaveres dos Aymorés amontoados uns sobre

os outros, fincou a ponta do montante no chão e quebrou a lamina. Tomou

depois os dous fragmentos, e atirou-os ao rio.

Então passou-se nelle uma luta silenciosa, mas terrivel para quem

podesse comprehendê-la. Tinha quebrado a sua espada, porque não queria

mais combater; e decidira que era tempo de supplicar a vida ao inimigo.

Mas quando chegou o momento de realisar essa supplica conheceu que

exigia de si mesmo uma cousa sobrehumana, uma cousa superior ás suas

forças.

Elle, Pery, o guerreiro invencivel, elle o selvagem livre, o senhor das

florestas, o rei dessa terra virgem, o chefe da mais valente nação dos

Guaranys, supplicar a vida ao inimigo! Era impossivel.

Tres vezes quiz ajoelhar, e tres vezes as curvas de suas pernas

distendendo-se como duas molas de aço o obrigárão a erguer-se.

Finalmente a lembrança de Cecilia foi mais forte do que a sua vontade.

Ajoelhou.

XIV

O PRISIONEIRO

Quando os selvagens se precipitavão sobre o inimigo, que já não se

defendia e se confessava vencido, o velho cacique adiantou-se; e

deixando cahir a mão sobre o hombro de Pery, fez um movimento energico

com o braço direito decepado.

Este movimento exprimia que Pery era seu prisioneiro, que lhe pertencia

como o primeiro que tinha posto a mão sobre elle, como o seu vencedor;

e que todos devião respeitar o seu direito de propriedade, o seu

direito da guerra.

Os selvagens abaixárão as armas, e não derão um passo; esse povo

barbaro tinha seus costumes e suas leis; e uma dellas era esse direito

exclusivo do vencedor sobre o seu prisioneiro de guerra, essa conquista

do fraco pelo forte.

Tinhão em tanta conta a gloria de trazerem um captivo de combate e

sacrifica-lo no meio das festas e ceremonias que costumavão celebrar,

que nenhum selvagem matava o inimigo que se rendia; fazia-o prisioneiro.

Quanto a Pery, vendo o gesto do cacique e o effeito que produzia, a sua

physionomia expandio-se; a humildade tingida, a posição supplicante

que por um esforço supremo conseguira tomar, desappareceu

immediatamente.

Ergueu-se; e com um soberbo desdem estendeu os punhos aos selvagens que

por mandado do velho se dispunhão a ligar-lhe os braços; parecia antes

um rei que dava uma ordem aos seus vassallos, do que um captivo que se

sujeitava aos vencedores; tal era a altivez do seu porte, e o desprezo

com que encarava o inimigo.

Os Aymorés, depois de ligarem os punhos do prisioneiro, o conduzirão a

alguma distancia a sombra de uma arvore, e ahi o prendêrão com uma

corda de algodão matizada de varias côres, a que os Guaranys chamavão

_mussurana_.

Depois, ao passo que as mulheres enterravão os mortos, reunirão-se em

conselho, presididos pelo velho cacique, a quem todos ouvião com

respeito, e respondião cada um por sua vez.

Durante o tempo que os guerreiros fallavão, a pequena india escolhia os

melhores fructos, as bebidas mais bem preparadas, e offerecia ao

prisioneiro, a quem estava encarregada de servir.

Pery, sentado sobre a raiz da arvore e apoiado contra o tronco, não

percebia o que se passava em torno delle; tinha os olhos fitos na

esplanada da casa que se elevava a alguma distancia.

Via o vulto de D. Antonio de Mariz que assomava por cima da palissada; e

suspensa ao seu braço, reclinada sobre o abysmo, Cecilia, sua linda

senhora, que lhe fazia de longe um gesto de desespero; ao lado Alvaro e

a familia.

Tudo que elle havia amado neste mundo ali estava diante de seus olhos;

sentia um prazer intenso por ver ainda uma vez esses objectos de sua

dedicação extrema, de seu amor profundo.

Adivinhava e comprehendia o que sentia então o coração de seus bons

amigos; sabia que soffrião vendo-o prisioneiro, proximo a morrer, sem

terem o poder e a força para salva-lo das mãos do inimigo.

Consolava-o porém essa esperança que estava prestes a realisar-se;

esse gozo ineffavel de salvar sua senhora, e de deixa-la feliz no seio

de sua familia, protegida pelo amor de Alvaro.

Emquanto Pery, preoccupado por essas idéas, enlevava-se ainda uma vez

em contemplar mesmo de longe a figura de Cecilia, a india de pé de

fronte delle olhava-o com um sentimento de prazer misturado de surpreza

e curiosidade.

Comparava suas fórmas esbeltas e delicadas com o corpo selvagem de seus

companheiros; a expressão intelligente de sua physionomia com o aspecto

embrutecido dos Aymorés; para ella Pery era um homem superior e

excitava-lhe profunda admiração.

Foi só quando Cecilia e D. Antonio de Mariz desapparecêrão da

esplanada, que Pery, lançando ao redor um olhar para ver se a sua morte

ainda se demoraria muito, descobrio a india perto delle.

Voltou o rosto e continuou a pensar em sua senhora, e a rever a sua

imagem; debalde a menina selvagem, lhe apresentava um lindo fructo, um

alimento, um vinho saboroso; elle não lhe dava attenção.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) · 第 5 / 12 段