--Quando se sabe que se pôde ser uma causa de desgraça para aquelles

que se estima, melhor é desatar o unico laço que nos prende á vida do

que vê-lo despedaçar-se. Não dizieis que tendes medo de amar-me? Pois

bem, agora sou eu que tenho medo de ser amada.

Alvaro não soube o que responder: estava n'uma terrivel agitação:

conhecia Isabel, e sabia que força tinhão aquellas palavras ardentes

que soltavão os labios da moça.

--Isabel! disse elle tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma

affeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repelli esses

pensamentos! Eu vos supplico!

A moça sorrio-se melancolicamente:

--Vós me supplicais?... Me pedis que conserve esta vida que

recusastes!... Não é ella vossa? Aceitai-a; e já não tereis que

supplicar!

O olhar ardente de Isabel fascinava; Alvaro não se pôde mais conter;

ergueu-se; e reclinando-se ao ouvido da moça balbuciou:

--Aceito!...

Emquanto Isabel, pallida de emoção e felicidade, duvidava ainda da voz

que resoava no seu ouvido, o moço tinha sahido da sala.

Durante que Alvaro e Isabel conversavão á meia voz, Pery continuava a

contemplar sua senhora.

O indio estava pensativo: e via-se que uma idéa o preoccupava, e

absorvia toda a sua attenção.

Por fim levantou-se, e lançando um ultimo olhar repassado de tristeza a

Cecilia, encaminhou-se lentamente para a porta da sala.

A menina fez um ligeiro movimento e levantou a cabeça:

--Pery!...

Elle estremeceu, e voltando foi de novo ajoelhar-se junto do sofá.

--Tu me promette não deixar tua senhora! disse Cecilia com uma doce

exprobação.

--Pery quer te salvar.

--Como?

--Tu saberás. Deixa Pery fazer o que tem no pensamento.

--Mas não correrás nem um perigo?

--Porque perguntas isto, senhora? disse o indio timidamente.

--Porque?... exclamou Cecilia levantando-se com vivacidade. Porque se

para nos salvar é preciso que tu morras, eu rejeito o teu sacrificio,

rejeito-o em meu nome e no de meu pai.

--Socega, senhora; Pery não teme o inimigo; sabe o modo de vencê-lo.

A menina abanou a cabeça com ar incredulo.

--Elles são tantos!...

O indio sorrio com orgulho.

--Sejão mil; Pery vencerá a todos; aos indios e aos brancos.

Elle pronunciou estas palavras com a expressão de naturalidade e ao

mesmo tempo de firmeza que dá a consciencia da força e do poder.

Comtudo Cecilia não podia acreditar o que ouvia; parecia-lhe

inconcebivel que um homem só, embora tivesse a dedicação e o heroismo

do indio, podesse vencer não só os aventureiros revoltados, como os

duzentos guerreiros Aymorés que assaltavão a casa.

Mas ella não contava com os recursos immensos de que dispunha essa

intelligencia vigorosa, que tinha ao seu serviço um braço forte, um

corpo agil, e uma destreza admiravel; não sabia que o pensamento é a

arma mais poderosa que Deus deo ao homem, e que com ella se abatem os

inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força

irresistivel e providencial que manda ao espirito dominar a materia.

--Não te illudas; vais fazer um sacrificio inutil. Não é possivel que

um homem só vença tantos inimigos ainda mesmo que este homem seja

Pery.

--Tu verás! respondeu o indio com segurança.

--E quem te dará força para lutar contra um poder tão grande?...

--Quem?... Tu senhora, tu só, respondeu o indio fitando nella o seu

olhar brilhante.

Cecilia sorrio, como devem sorrir os anjos.

--Vai, disse ella, vai salvar-nos. Mas lembra-te que se tu morreres,

Cecilia não aceitará a vida que lhe deres.

Pery ergueu-se.

--O sol que se levantar amanhã será o ultimo para todos os teus

inimigos; Ceci poderá sorrir como dantes, e ficar alegre e contente.

A voz do indio tornou-se tremula; sentindo que não podia vencer a

emoção atravessou rapidamente a sala e sahio.

Chegando á esplanada Pery olhou as estrellas que começavão a

apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a

perder.

Qual era o projecto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e

uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado

tinha ella para contar com a destruição dos inimigos, e salvação de

sua senhora?

Fôra difficil adivinhar; Pery guardava no fundo do coração esse

segredo impenetravel, e nem a si mesmo o dizia com receio de trahir-se,

e de annullar o effeito, que esperava com uma confiança inabalavel.

Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudencia

para fulmina-los a todos como a colera celeste, como o fogo de raio.

Pery dirigio-se ao jardim e entrou no quarto de Cecilia, então

abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do

fundo da casa occupado pelos aventureiros revoltados.

O quarto estava ás escuras: mas a tenue claridade que entrava pela

janella bastava ao indio para distinguir os objectos perfeitamente; a

perfeição dos sentidos é um dom que os selvagens possuem no mais alto

gráo.

Elle tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecilia lhe

havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus

ornatos de pennas, sua faxa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar

e lançou-os como um tropheo sobre as suas armas.

Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e

curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que forão

juntar-se ás armas e aos ornatos.

Por algum tempo Pery contemplou com um sentimento de dôr profunda esses

despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime

por Cecilia, e de seu heroismo admiravel.

Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua

lingua algumas destas palavras que a alma manda aos labios nos momentos

supremos:

--Arma de Pery, companheira e amiga, adeus! Teu senhor te abandona e te

deixa: comtigo elle venceria; comtigo ninguem poderia vencê-lo. E elle

quer ser vencido...

O indio levou a mão ao coração:

--Sim!... Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu, forte entre os

fortes, guerreiro goytacaz, nunca vencido, vai succumbir na guerra. A

arma de Pery não pode ver seu senhor pedir a vida ao inimigo; o arco de

Ararê, já quebrado, não salvará o filho.

Sua cabeça altiva e sobranceira emquanto pronunciava estas palavras

cahio-lhe sobre o seio; por fim venceu a sua emoção, e cingindo nos

seus braços esse tropheo de suas armas e de suas insignias de guerra,

estreitou-as ao peito em um ultimo abraço de despedida.

Um aroma agreste das plantas que começavão a se abrir com a

aproximação do dia, avisou-lhe que a noite estava a acabar.

Quebrou a axorca de fructos que trazia na perna sobre a artelho, como

todos os selvagens: este ornato era feito de pequenos cocos ligados por

um fio, e tingidos de amarello.

Pery tomou dous destes fructos, e partio-os com a faca, sem comtudo

separar as cascas; fechando-os então na sua mão, levantou o braço

como fazendo um desafio ou uma ameaça terrivel e lançou-se fora do

aposento.

X

A BRECHA

Quando Pery entrou no quarto de Cecilia, Loredano passeava do outro

lado da esplanada, em frente do alpendre.

O italiano reflectia sobre os acontecimentos que havião passado nos

ultimos dias, sobre as vicissitudes que corrêra a sua vida e a sua

fortuna.

Por differentes vezes tinha posto o pé sobre o tumulo; tinha tocado a

sua ultima hora; e a morte fugira delle, e o respeitára. Tambem por

differentes vezes havia encarado a felicidade, o poder, a fortuna; e

tudo se esvaecêra como um sonho.

Quando á frente dos aventureiros revoltados ia atacar a D. Antonio de

Mariz que não lhe podia resistir, os Aymorés tinhão apparecido de

repente e mudado a face das cousas.

A necessidade da defeza contra o inimigo commum trouxe uma suspensão de

hostilidades; acima da ambição estava o instincto da vida e da

conservação. A luta de interesses e de odios cedeu á grande luta das

raças inimigas.

Por isso no primeiro ataque dos selvagens, todos por um movimento

espontaneo tratárão de repellir o inimigo, e de salvar a casa da

ruina que a ameaçava. Depois separárão-se de novo, e sempre

observando-se, sempre promptos a defenderem-se um do outro, os dous

grupos continuárão a repellir os indios com a maior coragem.

No meio disto porém Loredano, que se constituîra o chefe da revolta,

não abandonava o seu projecto de apoderar-se de Cecilia, e vingar-se de

D. Antonio de Mariz e de Alvaro.

Seu espirito tenaz trabalhava incessantemente procurando o meio de

chegar áquelle resultado; atacar abertamente o fidalgo era uma loucura

que não podia commetter. A menor luta que houvesse entre elles,

entregava-os todos aos selvagens, que excitados pela vingança e pelos

seus instinctos sanguinarios e ferozes, atacavão o edificio sem repouso

e sem descanso.

A unica barreira que continha os Aymorés era a posição inexpugnavel

da casa, assentada sobre um rochedo, apenas accessivel por um ponto,

pela escada de pedra que descrevêmos no primeiro capitulo desta

historia.

Esta escada era defendida por D. Antonio de Mariz e pelos seus homens; a

ponte de madeira tinha sido destruida; mas apezar disto os selvagens a

substituirião facilmente se não fosse a resistencia desesperada que o

fidalgo oppunha aos seus ataques.

Desde o momento pois que, impellido pelo seu amor, D. Antonio corresse

em defeza de sua familia, e abandonasse a escada, os duzentos guerreiros

Aymorés se precipitarião sobre a casa, e não havia coragem que lhes

podesse resistir.

O italiano, que comprehendia isto, estava bem longe de tentar o menor

ataque a peito descoberto; a prudencia o aconselhava então como o tinha

aconselhado no dia do primeiro assalto.

O que elle procurava era um meio de, sem estrepito, sem luta,

imprevistamente, fazer morrer D. Antonio de Mariz, Pery, Alvaro, e Ayres

Gomes; feito isto os outros se reunirião a elle pela necessidade da

defeza, e pelo instincto da conservação.

Tornar-se-hia então senhor da casa; ou repellia os indios, salvava

Cecilia, se realisava todos os seus sonhos de amor e de felicidade; ou

morria tendo ao menos esgotado até ao meio a taça do prazer que seus

labios nem sequer havião tocado.

Era impossivel que esse espirito satanico, fixando-se em uma idéa

durante tres dias, não tivesse conseguido achar um meio para a

consummação desse novo crime que planejara.

Não só o tinha achado, mas já havia começado a pô-lo em pratica;

tudo o protegia, até mesmo o inimigo que o deixava em repouso, atacando

unicamente o lado da casa protegido por D. Antonio de Mariz.

Passeava pois embalando-se de novo nas suas esperanças, quando Martim

Vaz, sahindo do alpendre, chegou-se a elle.

--Uma com que não contávamos!... disse o aventureiro.

--O que? perguntou o italiano com vivacidade.

--Uma porta fechada.

--Abre-se!

--Não com essa facilidade.

--Veremos.

--Está pregada por dentro.

--Terão presentido?...

--Foi a idéa que já tive.

Loredano fez um gesto de desespero.

--Vem!

Os dous encaminhárão-se para o alpendre, onde dormião os aventureiros

armados, promptos ao menor signal de ataque.

O italiano acordou João Feio, e por precaução mandou-o fazer a guarda

na esplanada, apezar de não haver receio que os selvagens atacassem do

seu lado.

O aventureiro, ainda tonto do somno, ergueu-se e sahio.

Loredano e seu companheiro caminhárão para uma sala interior que

servia de cozinha e despensa a esta parte da casa. Quando ião entrar, a

luz que o aventureiro levava na mão para esclarecer o caminho,

apagou-se de repente.

--Sois um desasado! disse Loredano contrariado.

--E tenho eu culpa! Quexai-vos do vento.

--Bom! não gasteis o tempo em palavras! Tirai fogo!

O aventureiro voltou a procurar o seu fuzil.

Loredano ficou em pé na porta á espera que o seu companheiro voltasse;

e pareceu-lhe ouvir perto delle a respiração de um homem. Applicou o

ouvido para certificar-se; e por segurança tirou o seu punhal e

collocou-se no centro da porta, para impedir a sahida de quem quer que

fosse.

Não ouvio mais nada; porém sentio de repente um corpo frio e gelado

que tocou-lhe a fronte; o italiano recuou, e brandindo a sua faca deu um

golpe ás escuras.

Pareceu-lhe que tinha tocado alguma cousa; entretanto tudo conservou-se

no mais profundo silencio.

O aventureiro voltou trazendo a luz.

--É singular, disse elle; o vento póde apagar uma candeia, mas não

lhe tira o pavio.

--O vento, dizeis. Acaso o vento tem sangue?

--Que quereis dizer?

--Que o vento que apagou a vela é o mesmo que deixou o seu signal neste

ferro.

E Loredano mostrou ao aventureiro a sua faca, cuja ponta estava tinta de

sangue ainda liquido.

--Ha aqui então um inimigo?...

--De certo; os amigos não precisão occultar-se.

Nisto ouvirão um rumor no telhado, e um morcego passou agitando

lentamente as grandes azas: estava ferido.

--Eis o inimigo!... exclamou Martim rindo-se.

--É verdade, respondeu Loredano no mesmo tom; confesso que já tive

medo de um morcego.

Tranquillos a respeito do incidente que os havia demorado, os dous

entrárão na cozinha, e d'ahi por uma brecha estreita praticada na

parede penetrárão no interior da casa ha pouco habitada por D. Antonio

de Mariz e sua familia.

Atravessárão parte do edificio e chegárão a uma varanda que tocava

de um lado com o quarto de Cecilia e do outro com o oratorio e o

gabinete d'armas do fidalgo.

Ahi o aventureiro parou; e mostrando a Loredano a porta adufada de

jacarandá, que dava entrada para o gabinete, disse-lhe:

--Não é com duas razões que a deitaremos dentro!

Loredano aproximou-se e reconheceu que a solidez e fortaleza da porta

não lhe permittia a menor violencia: todo o seu plano estava

destruido.

Contava durante a noite se introduzir furtivamente na sala, e assassinar

a D. Antonio de Mariz, Ayres Gomes e Alvaro antes que elles podessem ser

soccorridos por seus companheiros; consummado o crime, estava senhor da

casa.

Como remover o obstaculo que lhe apparecia? A menor violencia contra a

porta despertaria a attenção de D. Antonio de Mariz, e inutilisaria

todo o seu projecto.

Emquanto reflectia nisto, os seus olhos cahirão sobre uma estreita

fresta que havia no alto da parede do oratorio, e que servia mais para

dar ar do que luz.

Por esta abertura o italiano conheceu que aquella parte da parede era

singela, e feita de um só tijolo; com effeito o oratorio tinha sido

outr'ora um corredor largo que ia da varanda á sala, e que fôra

separado por uma ligeira divisão.

Loredano medio a parede de alto a baixo, e acenou ao seu companheiro.

--É por aqui que havemos de entrar, disse elle apontando para a parede.

--Como? A menos de não ser um mosquito para passar por aquella fresta!

--Esta parede assenta sobre uma viga; tirada ella, está aberto o

caminho!

--Entendo.

--Antes que possão tornar a si do susto, teremos acabado.

O aventureiro quebrou com a ponta da faca o reboco da parede, e

descobrio a viga que lhe servia de alicerce.

--Então?

--Não ha duvida. Daqui a duas horas dou-vos isto prompto.

Martim Vaz, depois da morte de Ruy Soeiro e Bento Simões, tinha-se

tornado o braço direito de Loredano, era o unico a quem o italiano

confiára o seu segredo, occulto para os outros em quem receava ainda a

influencia de D. Antonio de Mariz.

O italiano deixou o aventureiro no seu trabalho, e voltou pelo mesmo

caminho; chegando á cozinha, sentio-se suffocado por uma fumaça

espessa que enchia todo o alpendre. Os aventureiros acordados de repente

blasphemavão contra o autor de semelhante lembrança.

Quando Loredano no meio delles procurava indagar a causa do que

succedia, João Feio appareceu na entrada do alpendre.

Havia na sua physionomia uma expressão terrivel de colera e ao mesmo

tempo de espanto; de um salto aproximou-se do italiano, e chegando-lhe a

bocca ao ouvido, disse:

--Renegado e sacrilego, dou-te uma hora para ires entregar-te a

D. Antonio de Mariz, e obter delle o nosso perdão, e o teu castigo. Se o

não fizeres dentro desse tempo, é comigo que te has de avir.

O italiano fez um movimento de raiva; mas conteve-se:

--Amigo, o sereno transtornou-vos o juizo; ide deitar-vos. Boa noite, ou

antes bom dia.

A alvorada despontava no horizonte.

XI

O FRADE

Sahindo do quarto de Cecilia, Pery tomára pelo corredor que communicava

com o interior do edificio.

O indio, á cuja perspicacia nada escapava do que se passava no interior

da casa, por mais insignificante que fosse, havia percebido o plano de

Loredano desde a primeira pancada dada para a abertura da brecha.

Na vespera o som do ferro na parede tinha ido despertar a sua attenção

na sala onde elle repousava um momento, deitado aos pés do leito de sua

senhora; seu ouvido fino e delicado auscultára o seio da terra.

Levantou-se de salto, e atravessando todo o edificio chegou, guiado

pelas pancadas, ao lugar onde Loredano e o aventureiro começavão a

abrir uma fenda no muro.

Em vez de atemorisar-se com esta nova audacia do italiano, o indio

sorrio-se; a brecha que praticava seria a sua perdição, porque ia dar

facil passagem a elle Pery.

Contentou-se pois em examinar todas as portas que communicavão com a

sala e prega-las por dentro; seria um novo obstaculo que demoraria os

aventureiros, e lhe daria tempo de sobra para extermina-los.

Foi por isso que do quarto de Cecilia, cuja porta fechou sobre si,

caminhou direito á brecha e por ella penetrou na despensa dos

aventureiros.

Era uma sala bastante espaçosa, onde havia uma mesa, algumas talhas e

uma grande quartola de vinho; o indio mesmo ás escuras chegou-se a cada

um desses vasos; e por alguns instantes ouvio-se o fraco vascolejar do

liquido que elles continhão.

Então Pery viu uma luz que se aproximava; era Loredano e o seu

companheiro.

A vista do italiano lhe gelou o sangue no coração. Tal odio votava a

esse homem abjecto e vil, que teve medo de si, medo de o matar. Isso

fôra agora uma imprudencia; pois inutilisaria todo o seu plano.

Muita vez depois da noite em que Loredano penetrára na alcova de

Cecilia, Pery tivera impetos de ir vingar a injuria feita á sua senhora

no sangue do italiano, para quem pensava que uma morte não era bastante

punição.

Mas lembrava-se que não se pertencia; que precisava da vida para

consummar sua obra salvando Cecilia de tantos inimigos que a cercavão.

E recalcava a vingança no fundo do coração.

Fez o mesmo então: cosido com a parede conseguio apagar a vela. Ia

sahir, quando sentira que o italiano tomava a porta.

Hesitou.

Podia lançar-se sobre Loredano e subjuga-lo; mas isto produziria uma

luta, e denunciaria a sua presença; era preciso que fugisse sem que

restasse um só vestigio de sua passagem: a mais leve suspeita faria

abortar o seu plano.

Teve uma idéa feliz, ergueu a mão molhada e tocou o rosto do italiano;

emquanto este recuava para atirar a punhalada ás escuras, o indio

resvalou entre elle e a porta.

A faca de Loredano tinha-lhe ferido o braço esquerdo; não soltou

porém nem um gemido, não fez um movimento que o trahisse; ganhou o

fundo do alpendre antes que o aventureiro voltasse com a luz.

Mas Pery não estava contente; o seu sangue ia denuncia-lo; não lhe

convinha de modo algum que o italiano suspeitasse que elle ali tinha

estado.

Os morcegos que esvoaçavão espantados pelo tecto do alpendre

lembrárão-lhe um excellente expediente; agarrou o primeiro que lhe

passou ao alçance do braço, e abrindo-lhe uma cesura com a faca,

soltou-o.

Elle sabia que o vampiro procuraria a luz, e iria esvoaçar em torno dos

dous aventureiros; contava que as gotas de sangue que cahião de sua aza

ferida os enganaria; a realidade correspondeu ás suas previsões.

Apenas Loredano desappareceu, Pery continuou a execução do seu plano;

chegou-se a um canto do alpendre onde havia um resto de fogo encoberto

pela cinza, e atirou sobre elle alguma roupa dos aventureiros que ahi

estava a enxugar.

Este incidente, por insignificante que pareça, entrava nos planos de

Pery; a roupa queimando-se devia encher a casa de fumaça, acordar os

aventureiros e excitar-lhes a sêde. Era justamente o que desejava o

indio.

Satisfeito do resultado que obtivera, Pery atravessou a esplanada: ahi

porém foi obrigado a recuar, surprehendido do que via.

Um homem do lado de D. Antonio de Mariz e um aventureiro revoltado

conversavão através da estacada que dividia esses dous campos

inimigos; havia realmente motivo para que o indio se admirasse.

Não só isso era contra a ordem expressa de D. Antonio de Mariz, que

prohibira qualquer relação entre seus homens e os revoltados, como

contrariava o plano de Loredano, que temia ainda o respeito e o habito

de obediencia que os aventureiros tinhão para com o fidalgo.

O que se tinha passado antes explicava esse acontecimento

extraordinario.

O aventureiro a quem Loredano mandára rondar a esplanada, emquanto elle

entrava, tinha começado o seu gyro de uma ponta á outra do pateo.

Sempre que chegava junto da estacada, notava que do outro lado um homem

se aproximava como elle, voltava, e se alongava pela beira da esplanada;

adivinhou facilmente que era tambem uma sentinella.

João Feio era um franco o jovial companheiro, e não podia supportar o

tedio de um passeio alta noite, no meio de um somno interrompido, sem

uma pinga para beber, sem um camarada para conversar, sem uma

distracção emfim.

Para maior desprazer, uma das vezes que se aproximava da estacada,

sentio uma baforada de tabaco, e viu que o seu companheiro de guarda

fumava.

Levou a mão ao bolso das bragas, e achou algumas folhas de fumo, mas

não trazia o seu caximbo; ficou desesperado, e decidio dirigir-se ao

outro.

--Olá, amigo! Tambem fazeis a vossa guarda?

O homem voltou-se, e continuou o seu caminho sem dar resposta.

No segundo gyro o aventureiro atirou segunda isca.

--Felizmente o dia não tarda a raiar; não vos parece?

O mesmo silencio que a primeira vez: o aventureiro comtudo não

desanimou, e na terceira volta retrucou:

--Somos inimigos, camarada; mas isto não impede a um homem cortez de

responder quando outro lhe falla.

Desta vez o silencioso sentinella voltou-se de todo:

--Antes da cortezia está a nossa santa religião, que manda a todo

christão não fallar a um herege, a um reprobo, a um phariseo.

--Que é lá isto? Fallais serio, ou quereis fazer-me enraivar por

nonadas?

--Fallo-vos serio, como se estivesse diante do nosso Santo Redemptor

confessando as minhas culpas.

--Pois então, digo-vos que mentis! Porque tão bom podeis ser, porém

melhor crente que eu não o é outrem.

--Tendes a lingua um pouco longa, amigo. Mas Belzebuth vos fará as

contas, que não eu: perderia minha alma se tocasse o corpo de

endemoniados!

--Por S. João Baptista, meu patrão, não me façais saltar esta

estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a

devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não.

--E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrilego,

maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu habito ás ortigas?

--Um frade! Dissestes vós?

--Sim, um frade. Não o sabeis?

--O que? De que frade fallais vós?

--Do italiano, bofé!

--Elle!...

O homem, que não era outro senão o nosso antigo conhecido mestre

Nunes, contou então, exagerando com o fervor de seus sentimentos

religiosos, aquillo que sabia da historia de Loredano.

O aventureiro horrorisado, tremendo de raiva, não deixou mestre Nunes

acabar a sua historia e lançou-se para o alpendre, onde viu-se a

ameaça que fez ao italiano.

Quando elles se separárão, Pery saltou por cima da estacada, e

dirigio-se para o quarto que ha pouco tinha deixado.

O dia vinha então rompendo; os primeiros raios do sol illuminavão já

o campo dos Aymorés, assentado sobre a varzea á margem do rio. Os

selvagens irritados olhavão de longe a casa, fazendo gestos de raiva

por não poderem vencer a barreira de pedra que defendia o inimigo.

Pery olhou um momento aquelles homens de estatura gigantesca, de aspecto

horrivel, aquelles duzentos guerreiros de força prodigiosa, ferozes

como tigres.

O indio murmurou:

--Hoje cahirão todos como a arvore da floresta, para não se erguerem

mais.

Sentou-se no vão da janella, e encostando a cabeça sobre a curva do

braço, começou a reflectir.

A obra gigantesca que emprehendêra, obra que parecia exceder todo o

poder do homem, estava prestes a realisar-se: já tinha levado ao cabo

metade della, faltava a conclusão, a parte a mais difficil e a mais

delicada.

Antes de lançar-se, Pery queria prever tudo; fixar bem no seu espirito

as menores circumstancias; traçar a sua linha invariavel, afim de

marchar firme, direito, infallivel ao alvo a que visada; afim de que a

menor hesitação não pozesse em risco o effeito do seu plano.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) · 第 4 / 12 段