O baque do corpo no chão echoou no meio de um silencio profundo; todos

os aventureiros, mudos e estaticos, parecião querer sumir-se pelo seio

da terra.

--Abaixai as armas, miseraveis! O ferro que ha de ferir o peito de D.

Antonio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de

vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa áquelles que

vivêrão uma vida honrada!

Os aventureiros aturdidos embainhárão machinalmente os punhaes;

aquella palavra sonora, calma e firme tinha um accento tão imperativo,

uma tal força de vontade, que era impossivel resistir.

--O castigo que vos espera ha de ser rigoroso; não deveis contar com a

clemencia nem com o perdão: quatro d'entre vós á sorte soffrerão a

pena de homizio; os outros farão o officio dos executores da alta

justiça. Bem vêdes que tanto a pena como o officio são dignos de

vós!

O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e encarou

os aventureiros como para ver se d'entre elles partia alguma

reclamação, algum murmurio de desobediencia; mas todos esses homens,

ha pouco furiosos, estavão agora humildes, e cabisbaixos.

--Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de

Loredano, este homem será justiçado á frente da banda; para elle não

ha julgamento; eu o condemno como pai, como chefe, como um homem que

mata o cão ingrato que o morde. É ignobil de mais para que o toque com

as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo.

Com a mesma impassibilidade e o mesmo socego que conservava desde o

momento em que apparecêra imprevistamente, o velho fidalgo atravessou

por entre os aventureiros immoveis e respeitosos, e caminhou para a

sahida.

Ahi voltou-se; e levando a mão ao chapéo descobrio a sua bella cabeça

encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do

clarão avermelhado das tochas com um vigor de colorido admiravel.

--Se algum de vós der o menor signal de desobediencia; se uma das

minhas ordens não fôr cumprida prompta e fielmente; eu, D. Antonio de

Mariz, vos juro por Deus e pela minha honra, que desta casa não sahirá

um homem vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho-a na

minha mão; basta-me um movimento para exterminar-vos, e livrar a terra

de trinta assassinos.

No momento em que o fidalgo ia retirar-se appareceu Alvaro pallido de

emoção, mas brilhante de coragem e indignação.

--Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antonio de Mariz? exclamou

o moço.

O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôz a mão no braço do

cavalheiro.

--Não vos occupeis disto, Alvaro; sois bastante nobre para vingar uma

affronta desta natureza, e eu bastante superior para não ser offendido

por ella.

--Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo!

--O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não ha senão culpados e

executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde!

O moço não resistio, e acompanhou D. Antonio de Mariz, que se dirigio

lentamente á sala, onde achou Ayres Gomes.

Quanto a Pery, voltára ao jardim de Cecilia, decidido a defender sua

senhora contra o mundo inteiro.

O dia vinha rompendo.

O fidalgo chamou Ayres Gomes e entrou com elle no seu gabinete de armas,

onde tiverão uma longa conferencia de meia hora.

O que ahi se passou ficou um segredo entre Deus e estes dous homens;

apenas Alvaro notou, quando a porta do gabinete se abrio, que D. Antonio

estava pensativo, e o escudeiro livido como um morto.

Neste momento ouvio-se um pequeno rumor na entrada da sala; quatro

aventureiros parados, immoveis, esperavão uma ordem do fidalgo para se

aproximarem.

D. Antonio fez-lhes um signal; e elles vierão ajoelhar-se a seus pés;

as lagrimas rolavão por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra

tremia balbuciando nesses labios pallidos que ha instantes vomitavão

ameaças:

--Que significa isto? perguntou o cavalheiro com severidade.

Um dos aventureiros respondeu:

--Vimo-nos entregar em vossas mãos, preferimos appellar para o vosso

coração do que recorrer ás armas para escaparmos á punição de

nossa falta.

--E vossos companheiros? replicou o fidalgo.

--Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão commetter.

Depois que vos retirastes tudo mudou; preparão-se para atacar-vos!

--Que venhão, disse D. Antonio, eu os receberei. Mas vós porque não

os acompanhais? Não sabeis que D. Antonio de Mariz perdoa uma falta,

mas nunca uma desobediencia?

--Embora, disse o aventureiro que fallava em nome de seus camaradas;

aceitaremos de bom grado o castigo que nos impozerdes. Mandai, que

obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai-nos essa punição

de morrer defendendo-vos, de reparar pela nossa morte um momento de

hallucinação!... É a graça que vos pedimos!

D. Antonio olhou admirado os homens que estavão ajoelhados a seus pés;

e reconheceu nelles os restos dos seus antigos companheiros de armas no

tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal.

Sentio-se commovido; sua alma grande, inabalavel no meio do perigo,

orgulhosa em face da ameaça, deixava-se facilmente dominar pelos

sentimentos nobres e generosos.

Essa prova de fidelidade que davão aquelles quatro homens na occasião

da revolta geral dos seus companheiros; a acção que acabavão de

praticar, e o sacrificio com que desejavão expiar a sua falta,

elevou-os no espirito do fidalgo.

--Erguei-vos. Reconheço-vos!... Já não seis os traidores que ha pouco

reprehendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que

fazeis agora esquece o que fizestes ha uma hora. Sim!... Mereceis que

morramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antonio

de Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê-la alta!

Os aventureiros erguêrão-se radiantes do perdão que o nobre fidalgo

tinha lançado sobre suas cabeças; todos elles estavão promptos a dar

sua vida para salvarem o seu chefe.

O que tinha occorrido depois da sahida de D. Antonio do alpendre, seria

longo de descrever.

Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamente e a

violencia da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era

preciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse á sua eloquencia

afim de excitar de novo a revolta.

Pintou a posição de todos como desesperada, attribuio o seu castigo e

as desgraças que ião succeder ao fanatismo que havia por Pery; esgotou

emfim os recursos de sua intelligencia.

D. Antonio não estava mais ahi para conter com a sua presença a colera

que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a principio

surdamente, as queixas e os murmurios que a final fizerão côro.

Um incidente veio atear a chamma que lastrava; Pery, apenas começou a

romper o dia, via a alguma distancia do jardim o cadaver do Ruy Soeiro;

e temendo que sua senhora acordando não presenciasse este triste

espectaculo, tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atira-lo no

meio do pateo.

Os aventureiros empallidecêrão, e ficárão estupefactos; depois

rompeu a indignação feroz, raivosa, delirante; estavão como possessos

de furor e vingança. Não houve mais hesitação; a revolta

pronunciou-se; apenas o pequeno grupo de quatro homens que desde a

sabida de D. Antonio se conservava em distancia, não tomou parte na

insubordinação.

Ao contrario quando virão que seus companheiros com Loredano á frente

se preparavão para atacar o fidalgo, forão, como vimos, offerecer-se

voluntariamente ao castigo, e reunir-se ao seu chefe para partilharem a

sua sorte.

Pouco tardou que João Feio não se apresentasse como parlamentario da

parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou fallar.

--Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antonio de Mariz manda e

não discute condições: que elles estão condemnados; e verão se sei

ou não cumprir o meu juramento.

O fidalgo tratou então de dispôr os seus meios de defeza; apenas podia

contar com quatorze combatentes; elle, Alvaro, Pery, Ayres Gomes, mestre

Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se havião

conservado fieis; os inimigos erão em numero de vinte e tantos.

Toda a sua familia já então despertada recebeu a triste sorpreza de

tantos acontecimentos passados durante aquella noite fatal: D. Lauriana,

Cecilia e Isabel recolhêrão-se ao oratorio, e rezavão emquanto se

preparava tudo para uma resistencia desesperada.

Os aventureiros commandados por Loredano arregimentárão-se, e

marchárão para a casa dispostos a dar um assalto terrivel; o seu furor

redobrava tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciencia começava

a mostrar-lhes toda a hediondez de sua acção.

No momento em que dobra vão o canto ouvio-se um som rouco que se

prolongou pelo espaço, como o echo surdo de um trovão em distancia.

Pery estremeceu, e lançando-se para a beira da esplanada estendeu os

olhos pelo campo que costeava a floresta. Quasi ao mesmo tempo um dos

aventureiros que estava ao lado de Loredano cahio traspassado por uma

flecha.

--Os Aymorés!...

Apenas soltou Pery esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de

côres vivas e brilhantes, agitou-se ao longe na planicie, irradiando á

luz do sol nascente.

Homens quasi nús, de estatura gigantesca e aspecto feroz, coberto de

pelles de animaes e pennas amarellas e escarlates, armados de grossas

clavas e arcos enormes, avançavão soltando gritos medonhos.

A inubia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com os

brados e alaridos formavão um concerto horrivel, harmonia sinistra que

revelava os instinctos dessa horda selvagem reduzida á brutalidade das

féras.

--Os Aymorés!... repetirão os aventureiros empallidecendo.

VIII

DESANIMO

Dous dias passárão depois da chegada dos Aymorés; a posição de D.

Antonio de Mariz e de sua familia era desesperada.

Os selvagens tinhão atacado a casa com uma força extraordinaria;

diante delles a india terrivel de odio os excitava á vingança.

As settas escurecendo o ar abatião-se como uma nuvem sobre a esplanada,

e crivavão as portas e as paredes do edificio.

Á vista do perigo imminente que corrião todos, os aventureiros

revoltados retirárão-se e tratárão de defender-se do ataque dos

selvagens.

Houve como que um armisticio entre os rebeldes e o fidalgo; sem se

reunirem, os aventureiros conhecerão que devião combater o inimigo

commum, embora depois levassem ao cabo a sua revolta.

D. Antonio de Mariz, encastellado na parte da casa que habitava, rodeado

de sua familia e de seus amigos fieis, resolvêra defender até á

ultima extremidade esses penhores confiados ao seu amor de esposo e de

pai.

Se a Providencia não permittisse que um milagre os viesse salvar,

morrerião todos; mas elle contava ser o ultimo, afim de velar que mesmo

sobre os seus despojos não atirassem um insulto.

Era o seu dever de pai, e o seu dever de chefe, como o capitão que é o

ultimo a abandonar o seu navio, elle seria o ultimo a abandonar a vida,

depois de ter assegurado ás cinzas dos seus o respeito que se deve aos

mortos.

Bem mudada estava essa casa que vimos tão alegre e tão animada! Parte

do edificio que tocava com o fundo onde habitavão os aventureiros tinha

sido abandonada por prudencia; D. Antonio concentrara sua familia no

interior da habitação para evitar algum accidente.

Cecilia deixara o seu quartinho tão lindo e tão mimoso, e nelle

estabelecêra Pery o seu quartel-general e o seu centro de operações;

porque, é preciso dizer, o indio não partilhava o desanimo geral, e

tinha uma confiança inabalavel nos seus recursos.

Serião dez horas da noite: a lampada de prata suspensa no tecto da

grande sala illuminava uma scena triste e silenciosa.

Todas as janellas e portas estavão fechadas; de vez em quando ouvia-se

o estrepito que fazia uma setta cravando-se na madeira, ou enfiando-se

por entre as telhas.

Nas duas extremidades da sala e na frente tinhão-se praticado no alto

da parede algumas setteiras, junta das quaes os aventureiros fazião a

noite uma sentinella constante, afim de prevenir uma sorpreza.

D. Antonio de Mariz, sentado n'uma cadeira de espaldar, sob o docel,

repousava um instante; o dia fôra rude; os indios tinhão investido por

differentes vezes a escada de pedra da esplanada; e o fidalgo com o

pequeno numero de combatentes de que dispunha e com o auxilio da

colubrina conseguira repelli-los.

A sua clavina carregada descansava de encontro ao espaldar da cadeira; e

as suas pistolas estavão collocadas em cima de um bufete ao alcance do

braço.

Sua bella cabeça encanecida pendida ao seio resaltava sobre o velludo

preto de seu gibão, coberto por uma rede finissima de malhas d'aço que

lhe guarnecia o peito.

Parecia adormecido, mas de vez em quando erguia os olhos e corria o

vasto aposento, contemplando com uma melancolia extrema a scena que se

desenhava no fundo meio esclarecido da sala.

Depois voltava á mesma posição, e continuava suas dolorosas

reflexões; o fidalgo conservava toda a firmeza e coragem, mas

interiormente tinha perdido a esperança.

Do lado opposto Cecilia recostada em um sofá parecia desfallecida; seu

rosto perdera a habitual vivacidade: seu corpo ligeiro e gracioso,

alquebrado por tantas emoções, prostrava-se com indolencia sobre uma

colcha de damasco. A mãozinha cahia immovel como uma flôr a que

tivessem quebrado a haste delicada; e os labios descorados agitavão-se

ás vezes murmurando uma prece.

De joelhos á beira do sofá, Pery não tirava os olhos de sua senhora;

dir-se-hia que aquella respiração branda que fazia ondular os seios da

menina, e que se exhalava de sua bocca entreaberta, era o sopro que

alimentava a vida do indio.

Desde o momento da revolta não deixou mais Cecilia; segui-a como uma

sombra; sua dedicação, já tão admiravel, tinha tocado o sublime com

a imminencia do perigo. Durante estes dous dias elle havia feito cousas

incriveis, verdadeiras loucuras de heroismo e abnegação.

Succedia que um selvagem aproximando-se da casa soltava um grito que

vinha causar um ligeiro susto á menina?

Pery lançava-se como um raio, e antes que tivessem tempo de contê-lo,

passava entre uma nuvem de flechas, chegava á beira da esplanada, e com

um tiro de sua clavina abatia o Aymoré que assustára sua senhora,

antes que elle tivesse tempo de soltar um segundo grito.

Cecilia, afflicta e doente, recusava tomar o alimento que sua mãi ou

sua prima lhe trazião?

Pery correndo mil perigos, arriscando-se a despedaçar-se nas pontas dos

rochedos e a ser crivado pelas flechas dos selvagens, ganhava a

floresta, e d'ahi a uma hora voltava trazendo um fructo delicado, um

favo de mel envolto de flôres, uma caça exquisita, que sua senhora

tocava com os labios para assim pagar ao menos tanto amor e tanta

dedicação.

As loucuras do indio chegárão a ponto que Cecilia foi obrigada a

prohibir-lhe que sahisse de junto della, e a guarda-lo á vista com

receio de que não se fizesse matar a todo o momento.

Além da amizade que lhe tinha, um quer que seja, uma esperança vaga

lhe dizia que na posição extrema em que se achavão, se alguma

salvação podia haver para sua familia, seria á coragem, á

intelligencia e á sublime abnegação de Pery que a deverião.

Se elle morresse, quem velaria sobre ella com a solicitude e o ardente

zelo que tinha ao mesmo tempo o carinho de uma mãi, a protecção de um

pai, a meiguice de um irmão? Quem seria seu anjo da guarda para

livra-la de um pezar, e ao mesmo tempo seu escravo para satisfazer o seu

menor desejo?

Não; Cecilia não podia de modo algum admittir nem a possibilidade de

que seu amigo viesse a morrer; por isso mandou, pedio, e até

supplicou-lhe que não sahisse de junto della; queria por sua vez ser

para Pery o bom anjo de Deus, o seu genio protector.

Do mesmo lado em que estava Cecilia, mais n'um outro canto da sala,

via-se Isabel sentada de encontro á hombreira da janella; enfiava um

olhar ardente, cheio de anciedade e de susto por uma pequena fresta, que

ella entreabrira a furto.

O raio de luz que filtrava por esta aberta da janella servia de mira aos

indios, que fazião chover settas sobre settas naquella direcção: mas

Isabel, alheia de si, nem se importava com o perigo que corria.

Ella olhava Alvaro, que no alto da escada com a maior parte dos

aventureiros fieis fazia a guarda nocturna; o moço passeava pela

esplanada ao abrigo de uma ligeira palissada. Cada setta que passava por

sua cabeça, cada movimento que fazia, causavão em Isabel uma

afflicção immensa; sentia não poder estar junto delle para ampara-lo,

e receber a morte que lhe fosse destinada.

D. Lauriana, sentada em um dos degráos do oratorio, rezava: a boa

senhora era uma das pessoas que mais coragem e mais calma mostravão no

transe horrivel em que se achava a familia; animada pela sua fé

religiosa e pelo sangue nobre que gyrava nas suas veias, ella se tinha

conservado digna de seu marido.

Fazia tudo quanto era possivel; pensava os feridos, encorajava as

meninas, auxiliava os preparativos de defeza, e ainda em cima dirigia

sua casa como se nada se passasse.

Ayres Gomes encostado á porta do gabinete, com os braços cruzados, e

immovel, dormia; o escudeiro guardava o posto que lhe fôra confiado

pelo fidalgo. Desde a conferencia que os dous tinhão tido, Ayres se

postára naquelle lugar, donde não sabia senão quando D. Antonio vinha

sentar-se na cadeira que havia junto da porta.

Dormia de pé; porém mal um passo, por mais subtil que fosse, soava no

pavimento, acordava sobresaltado, com a pistola em punho, e a mão sobre

o fecho da porta.

D. Antonio de Mariz levantou-se, e passando á cinta as suas pistolas e

tomando a sua clavina, dirigio-se ao sofá onde repousava sua filha, e

beijou-a na fronte; fez o mesmo a Isabel, abraçou sua mulher e sahio. O

fidalgo ia render a Alvaro, que fazia o seu quarto desde o anoitecer;

poucos momentos depois de sua sahida, a porta abrio-se de novo, e o

cavalheiro entrou.

Alvaro trajava um gibão de lã forrado de escarlate; quando elle

appareceu no vão da porta, Isabel soltou um grito fraco, e correu para

elle.

--Estais ferido? perguntou a moça com anciedade, e tomando-lhe as

mãos.

--Não; respondeu o moço admirado.

--Ah!... exclamou Isabel respirando.

Tinha-se illudido; o rasgão que uma flecha fizera sobre o hombro

mostrando o forro escarlate do gibão, tinha de repente lhe parecido uma

ferida.

Alvaro procurou desprender suas mãos das mãos de Isabel; mas a moça

supplicando-o com o olhar, e arrastando-o docemente, levou-o até o

lugar onde estava ha pouco, e obrigou o cavalleiro a sentar-se junto

della.

Muitos acontecimentos se tinhão passado entre elles nestes dous dias;

ha circumstancias em que os sentimentos marchão com uma rapidez

extraordinaria, e devorão mezes e annos n'um só minuto.

Reunidos nesta sala pela necessidade extrema do perigo, vendo-se

a cada momento, trocando ora uma palavra, ora um olhar, sentindo-se

emfim perto um do outro, esses dous corações, se não se amavão,

comprehendião-se ao menos.

Alvaro fugia e evitava Isabel; tinha medo desse amor ardente que o

envolvia n'um olhar, dessa paixão profunda e resignada que se curvava a

seus pés sorrindo melancolicamente, sentia-se fraco para resistir, e

entretanto o seu dever mandava que resistisse.

Elle amava, ou cuidava amar ainda a Cecilia; promettêra a seu pai ser

seu marido; e na situação em que se achavão, aquella promessa era

mais do que um juramento, era uma necessidade imperiosa, uma fatalidade

que se devia cumprir.

Como podia elle pois alimentar uma esperança de Isabel? Não seria

infame, indigno, aceitar o amor que ella lhe offerecêra supplicando?

Não era seu dever destruir naquelle coração esse sentimento

impossivel?

Alvaro pensava assim, e evitava todas as occasiões de estar só com a

moça, porque conhecia a impressão vehemente, a attracção poderosa

que exercia essa belleza fascinadora quando a paixão, animando-a,

cercava-a de um brilho deslumbrante.

Dizia a si mesmo que não amava, que nunca amaria Isabel! entretanto

sabia que se elle a visse outra vez como no momento em que lhe

confessara seu amor, cahiria de joelhos a seus pés, e esqueceria o

dever, a honra, tudo por ella.

A luta era terrivel; mas a alma nobre do cavalheiro não cedia, e

combatia heroicamente: podia ser vencida, mas depois de ter feito o que

fosse possivel ao homem para conservar-se fiel á sua promessa.

O que tornava a luta ainda mais violenta era que Isabel não o perseguia

com o seu amor; depois daquella primeira hallucinação concentrava-se,

e resignada amava sem esperança de nunca ser amada.

IX

ESPERANÇA

Sentando-se junto da moça, Alvaro sentio a sua coragem vacillar.

--Que me quereis, Isabel? perguntou elle com a voz um pouco tremula.

A menina não respondeu; estava embebida a contemplar o moço;

saciava-se de olha-lo, de senti-lo junto de si, depois de ter soffrido a

angustia de ver a morte roçando a sua cabeça, e ameaçando a sua vida.

É preciso amar para comprehender essa voluptuosidade do olhar que se

repousa sobre o objecto amado, que não se cansa de ver aquillo que

está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto.

--Deixai-me olhar-vos! respondeu Isabel supplicando. Quem sabe! Talvez

seja pela ultima vez!

--Porque essas idéas tristes? disse Alvaro com brandura. A esperança

ainda não está de todo perdida.

--Que importa?... exclamou a moça. Ainda ha pouco vos vi de longe que

passeáveis sobre a esplanada, e a cada momento me parecia que uma setta

vos tocava, vos feria e...

--Como!... Tivestes a imprudencia de abrir a janella?...

O moço voltou-se, e estremeceu vendo a janella entreaberta, crivada da

parte exterior pelas settas dos selvagens.

--Meu Deus!... exclamou elle, porque expondes assim a vossa vida,

Isabel?...

--Que vale a minha vida, para que a conserve? disse a moça animando-se.

Tem ella algum prazer, alguma ventura, que me prenda? De que serviria a

existencia se não fosse para satisfazer um impulso de nossa alma? A

minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e com o pensamento. Se

esta felicidade me deve custar a vida, embora!...

--Não falleis assim, Isabel, que me partis a alma.

--E como quereis que falle? Mentir-vos é impossivel; depois daquelle

dia, em que trahi o meu segredo, de escravo que elle era, tornou-se

senhor, senhor despotico e absoluto. Sei que vos faço soffrer...

--Nunca disse semelhante cousa!

--Sois bastante generoso para dizê-lo, mas sentis. Eu conheço, eu leio

nos vossos menores movimentos. Vós me estimais talvez como irmão, mas

fugis de mim, e tendes receio que Cecilia pense que me amais; não é

verdade?

--Não, exclamou Alvaro insensivelmente; tenho receio, tendo medo... mas

é de amar-vos!

Isabel sentio uma commoção tão violenta, ouvindo as palavras rapidas

do moço, que ficou como extatica sem fazer um movimento; as

palpitações fortes do seu coração a suffocavão.

Alvaro não estava menos commovido; subjugado por aquelle amor ardente,

impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para

acompanha-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude,

tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma.

Mas apenas pronunciara aquellas palavras imprudentes, conseguio

dominar-se, e tornando-se frio e reservado, fallou a Isabel em um tom

grave.

--Sabeis que amo Cecilia; mas ignorais que prometti a seu pai ser seu

marido. Emquanto elle por sua livre vontade não me desligar de minha

promessa, estou obrigado a cumpri-la. Quanto ao meu amor, este me

pertence, e só a morte me pode desligar delle. No dia em que eu amasse

outra mulher, que não ella, me condemnaria a mim mesmo como um homem

desleal.

O moço voltou-se para Isabel com um triste sorriso:

--E comprehendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a

consciencia precisa para se julgar a si?

Os olhos da moça brilhárão com um fogo sinistro:

--Oh! comprehendo!... É o mesmo que faz a mulher que ama sem

esperança, e cujo amor é um insulto ou um soffrimento para aquelle a

quem ama!

--Isabel!... exclamou Alvaro estremecendo.

--Tendes razão! Só a morte póde desligar de um primeiro e santo amor

aos corações como os nossos!

--Deixai-vos dessas idéas, Isabel! Crede-me; uma unica razão póde

justificar semelhante loucura.

--Qual? perguntou Isabel.

--A deshonra.

--Ha ainda outra, respondeu a moça com exaltação; outra menos

egoista, mas tão nobre como esta; a felicidade daquelles que se ama.

--Não vos comprehendo.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) · 第 3 / 12 段