cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella
de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo,
suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril.
Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma
agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu
corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas.
Era Pery.
O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou;
com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de
Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e
reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia.
Pery quiz seguir o italiano e mata-lo, como já tinha feito aos seus
dous complices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo
insulto, como o que acabava de soffrer, e tratou antes de velar sobre
sua segurança e socego.
O primeiro cuidado do indio foi apagar a vela, depois fechando os olhos
aproximou-se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de
damasco azul até ao collo da menina.
Parecia-lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os
encantos que o pudor de Cecilia trazia sempre vendados; pensava que o
homem que uma vez tivesse visto tanta belleza, nunca mais devia ver a
luz do dia.
Depois desse primeiro desvelo, o indio restabeleceu a ordem no aposento;
deitou a roupa na commoda, fechou a gelosia e as abas da janella, lavou
as nodoas de sangue que ficárão impressas na parede e no soalho; e
tudo isto com tanta solicitude, tão subtilmente, que não perturbou o
somno da menina.
Quando acabou o seu trabalho, aproximou-se de novo do leito, e á luz
frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de
Cecilia.
Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salva-la
de uma offensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê-la tranquilla
e risonha sem ter soffrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentio
a necessidade de exprimir-lhe por algum modo a sua ventura.
Nisto seus olhos abaixando-se descobrirão sobre o tapete da cama dous
pantufos mimosos forrados de setim e tão pequeninos que parecião
feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou-os com respeito,
como se forão reliquia sagrada.
Erão então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as
estrellas já ião se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder
o silencio profundo da natureza quando dorme.
O indio fechou por fóra a porta do quarto que dava para o jardim, e
mettendo a chave na cintura, sentou-se na soleira como o cão fiel que
guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguem
aproximar-se.
Ahi reflectio sobre o que acabava de passar; e accusava-se a si mesmo de
ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora; Pery, porém
calumniava-se, porque só a Providencia podia ter feito nesta noite mais
do que elle; porque tudo quanto era possivel á intelligencia, á
coragem, á sagacidade e á força do homem, o indio havia realisado.
Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo
de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do
italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão
no ataque dos Aymorés partio immediatamente.
O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do
_Paquequer_ indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany
a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de
Mariz.
O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação
degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas
infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o
menor vestigio do que procurava.
O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora
fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si;
e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe
inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava.
Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o
que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D.
Antonio de Mariz recusára crer na accusação.
De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus
homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas;
entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára
de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o
peso que devia dar a semelhante accusação.
Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu
primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha
expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.
Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua
cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era
a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia
o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e
sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala.
Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada;
esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque
era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda,
porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão.
Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos
differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta
singularidade.
Viu do outro lado da esplanada tres vultos que atravessavão
ligeiramente; isto augmentou a sua desconfiança; os homens de vigia
erão ordinariamente dous e não tres.
Seguio-os de longe; mas quando chegou ao pateo, não viu senão um dos
homens que entrava na alpendrada; os outros tinhão desapparecido.
Pery procurou-os por toda parte e não os viu; estavão occultos pelo
pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possivel
descobri-los.
Suppondo que tivessem tambem entrado no alpendre, o indio agachou-se e
penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que
conheceu immediatamente ser a folha de um punhal.
--És tu, Ruy? perguntou uma voz sumida.
Pery emmudeceu; mas de chofre aquelle nome de Ruy lembrou-lhe Loredano e
o seu projecto; percebeu que se tramava alguma cousa: e tomou um
partido.
--Sim! respondeu com a voz quasi imperceptivel.
--Já é hora?
--Não.
--Todos dormem.
Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela
lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.
O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a
porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão
de palha.
Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia,
e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.
Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal
desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava
aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que
queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro?
Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para
matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo
estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido.
Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou
ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e
inevitavel.
O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se
quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um
pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira
de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que
fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força.
Era uma idéa original.
Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos
enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de
que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão.
Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a
torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á
segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas
ameaçadora.
--Quem vai lá?...
Pery comprehendeu que a sua idéa ia ficar sem effeito, e talvez não
servisse senão de apresar o que elle queria evitar.
Não hesitou pois; e quando o aventureiro que fallava erguia-se, sentio
duas tenazes vivas que cahião sobre o seu pescoço e o estrangulavão
como uma golilha de ferro, antes que podesse soltar um grito.
O indio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e
consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvasiavão-se a pouco
e pouco e inundavão o chão.
Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos,
e os obrigaria a sahir do alpendre; era o que Pery esperava.
Livre do maior perigo, o indio rodeou a casa para ver se tudo estava em
socego; e teve então occasião de notar que por todo o edificio tinhão
Aposto feixes da palha para atear um incendio.
Pery inutilisando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava
defronte de sua cabana; parecia procurar alguem. Ahi ouvio a
respiração offegante de um homem cosido com a parede junto do jardim
de Cecilia.
O indio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossivel
descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas.
Mas elle conheceu Ruy Soeiro.
Pery tinha o ouvido subtil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa
a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento,
ergueu o braço, e a faca enterrando-se na bocca da victima cortou-lhe
a garganta.
Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e
quedou de encontro ao muro.
Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar
um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu.
Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo
depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella
aberta.
Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a
dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão
delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente.
Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la,
espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a
janella ter sido aberta por Cecilia.
Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava
a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no
quarto da menina.
Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o
ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada
áquella hora.
O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um
calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina
adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se
ao leito.
Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio
mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um
som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o
indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco.
O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço
tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de
Cecilia.
Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da
menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a
mancharem com o seu contacto o corpo de sua senhora, não se lembrou
senão dessa horrivel profanação.
A flecha partio rapida, prompta, e veloz como o seu pensamento; a mão
do italiano estava pregada ao muro.
Foi só então que Pery reflectio que teria sido mais acertado ferir
essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que
pertencia esse braço: a segunda setta partio sobre a primeira, e o
italiano teria deixado de existir se a dôr não o obrigára a
curvar-se.
VI
REVOLTA
Quando Pery acabou de reflectir sobre o que passara ergueu-se, abrio de
novo a porta, fechou-a por dentro, e seguio pelo corredor que ia do
quarto de Cecilia ao interior da casa.
Estava tranquillo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Ruy Soeiro
não o incommodarião mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que
áquella hora todos os aventureiros devião estar acordados; mas julgou
prudente prevenir D. Antonio de Mariz do que occorria.
A este tempo Loredano já tinha chegado á alpendrada, onde o esperava
uma nova e terrivel sorpreza, uma ultima decepção.
Lançando-se do quarto de Cecilia, sua intenção era ganhar o fundo da
casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com
seus complices, raptar a menina, e vingar-se de Pery.
Mal sabia porém que o indio tinha destruido toda a sua machinação;
chegando ao pateo viu o alpendre illuminado por fachos, e todos os
aventureiros de pé cercando um objecto que não pôde distinguir.
Aproximou-se e descobrio o corpo de seu complice Bento Simões, que
jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos
saltados das orbitas, a lingua sahida da bocca, o pescoço cheio de
contusões; todos os signaes emfim de uma estrangulação violenta.
De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a
Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia
sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e
que só a audacia e o desespero o podião salvar.
A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia
tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia
destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança.
Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e
murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu
companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das
talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e
no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos
para ver a causa daquella inundação.
Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda
mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um
começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu
companheiro.
Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros:
--Não sabeis o que significa isto? disse elle.
--Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros.
--Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora,
uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a
todos com o seu dente envenenado.
--Como?... Que quereis dizer?... Fallai!...
--Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão
ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre;
a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro?
--É verdade!... Onde está Ruy? disse Martim Vaz.
--Talvez morto tambem!
--Depois delle virá outro e outro até que sejamos exterminados um por
um; até que todos os christãos tenhão sido sacrificados.
--Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino! É preciso um exemplo!
O nome!...
--E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais quem nesta
casa póde desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa
religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?
--Pery?... exclamarão os aventureiros.
--Sim, esse indio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua
vingança!
--Não ha de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou
Vasco Affonso.
--Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê
cuidado!
--E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.
--E justiça será feita.
--Neste mesmo instante.
--Sim; agora mesmo. Eia! Segui-me.
Loredano ouvia estas exclamações rapidas que denunciavão como a
exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros
quizerão lançar-se em procura do indio, elle os conteve com um gesto.
Não lhe convinha isto; a morte de Pery era cousa accidental para elle;
o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente.
--O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros.
Os aventureiros ficárão pasmados com semelhante pergunta.
--Ides mata-lo?...
--Mas de certo!
--E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que elle é protegido,
amado, estimado por aquelles que pouco se importão se morremos ou
vivemos?
--Seja embora protegido, quando é criminoso...
--Como vos illudis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros o
julgarão innocente e o defenderão; e não tereis remedio senão curvar
a cabeça e calar-vos.
--Oh! isso é de mais!
--Julgais que somos alimarias que se podem matar impunemente! retrucou
Martim Vaz.
--Sois peiores que alimarias; sois escravos!
--Por São Braz, tendes razão, Loredano.
--Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não
podereis vinga-los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas,
porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repita.
--Pois bem; eu vo-lo mostrarei!
--E eu! gritou toda a banda.
--Qual é vossa tenção? perguntou o italiano.
--A nossa tenção é pedirmos a D. Antonio de Mariz que nos entregue o
assassino de Bento.
--Justo! E se elle recusar, estamos desligados do nosso juramento e
faremos justiça pelas nossas mãos.
--Procedeis como homens de brio e pundonor: liguemo-nos todos e vereis
que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade.
Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentario a
D. Antonio?
Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda offereceu-se:
chamava-se João Feio.
--Serei eu!
--Sabeis o que lhe deveis dizer?
--Oh! ficai descansado. Ouvirá boas!
--Ides já?
--Neste instante.
Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer
todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:
--Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.
D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do
grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos
aventureiros o seu olhar severo.
O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua
physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto
nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que
ameaçavão.
Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle
noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres
Gomes.
O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha
adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que
soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras
em que esta vão deitados.
Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a
vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu
somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.
O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando
Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu
amigo ignorava como elle.
Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á
revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava.
Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e
sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as
telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.
Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e
assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem
cabia tomar as providencias que o caso pedia.
D. Antonio de Mariz sem se pertubar ouvio a narração do escudeiro,
como tinha ouvido a do indio.
--Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não
perturbemos o socego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me
aqui.
--Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Alvaro dando um passo
para segui-lo.
--Ficai; vós e esses dous amigos dedicados velareis sobre minha mulher,
Cecilia e Isabel. Nas circumstancias em que nos achamos, assim é
preciso.
--Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe?
--Não, basta a minha presença; emquanto que aqui todo o vosso valor e
fidelidade não bastão para o thesouro que confio á vossa guarda.
O fidalgo tomou o seu chapéo, e poucos momentos depois apparecia
imprevistamente no meio dos aventureiros, que tremulos, cabisbaixos,
corridos de vergonha, não ousavão proferir uma palavra.
--Aqui me tendes! repetio o cavalheiro. Dizei o que quereis de D.
Antonio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se fôr de justiça, sereis
satisfeitos; se fôr uma falta, tereis a punição que merecerdes.
Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emmudecêrão.
--Calais-vos?... Passa-se então aqui alguma cousa que não vos atreveis
a revelar? Acaso ver-me-hei obrigado a castigar severamente um primeiro
exemplo de revolta e desobediencia? Fallai? Quero saber o nome dos
culpados!
O mesmo silencio respondeu ás palavras firmes e graves do velho
fidalgo.
Loredano hesitava desde o principio desta scena; não tinha a coragem
necessaria para apresentar-se em face de D. Antonio; mas tambem sentia
que se elle deixasse as cousas marcharem pela maneira por que ião,
estava infallivelmente perdido.
Adiantou-se:
--Não ha aqui culpados, Sr. D. Antonio de Mariz, disse o italiano
animando-se progressivamente; ha homens que são tratados como cães;
que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a
reivindicarem os seus fóros de homens e de christãos!
--Sim! gritárão os aventureiros reanimando-se. Queremos que se
respeite a nossa vida!
--Não somos escravos!
--Obedecemos, mas não nos captivamos.
--Valemos mais que um herege!
--Temos arriscado a nossa existência para defender-vos!
D. Antonio ouvio impassivel todas estas exclamações que ião subindo
gradualmente ao tom da ameaça.
--Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem
bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar!
Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa
vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que
vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que
escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e
refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.
Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão
mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto.
--Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis
que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por
que motivo!...
--Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos.
Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio
de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria
por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em
lançar o golpe.
D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas
physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e
sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima
que ia ser immolada, mas o senhor que mandava.
VII
OS SELVAGENS
Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavão; mas não se animavão
a romper o estreito circulo que os separava de D. Antonio de Mariz.
O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma
daquelles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavão
que o primeiro ferisse; e nem um tinha a coragem de ser o primeiro.
Loredano conheceu que era necessario um exemplo; o desespero de sua
posição, as paixões ardentes que tumultuavão em seu coração,
derão-lhe o delirio que suppre o valor nas circumstancias extremas.
O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando os
olhos e dando um passo ás cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.
O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobrio o
peito; nem um tremor imperceptivel agitou os musculos de seu rosto; sua
fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar limpido e
brilhante não se turvou.
Tal era a influencia magnetica que exercia essa coragem nobre e altiva,
que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a vestia do
fidalgo paralysou os dedos hirtos do assassino.
D. Antonio sorrio com desdem; e abaixando a sua mão fechada sobre o
alto da cabeça de Loredano, abateu-o a suas plantas como uma massa
bruta e inerte: então erguendo a ponta do pé á fronte do italiano, o
estendeu de costas sobre o pavimento.