Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, ente

J. DE ALENCAR

O

GUARANY

ROMANCE BRAZILEIRO

QUINTA EDIÇÃO

TOMO SEGUNDO

RIO DE JANEIRO

B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

71, RUA DO OUVIDOR, 71

PARIS.--E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.

Ficão reservados os direitos de propriedade.

1883

INDICE

TERCEIRA PARTE

OS AYMORÉS

I.--A Partida........................................ 3

II.--Preparativos.................................... 15

III.--Verme e flôr................................... 27

IV.--Na treva........................................ 39

V.--Deos dispõe...................................... 51

VI.--Revolta......................................... 65

VII.--Os selvagens................................... 77

VIII.--Desanimo...................................... 89

IX.--Esperança....................................... 99

X.--Na brecha........................................ 111

XI.--O frade......................................... 121

XII.--Desobediencia.................................. 131

XIII.--Combate....................................... 141

XIV.--O prisioneiro.................................. 151

QUARTA PARTE

A CATASTROPHE

I.--Arrependimento................................... 163

II.--O sacrificio.................................... 173

III.--Sortida........................................ 185

IV.--Revelação....................................... 197

V.--O paiol.......................................... 207

VI.--Tregoa.......................................... 217

VII.--Peleja......................................... 227

VIII.--Noiva......................................... 238

IX.--O castigo....................................... 247

X.--Christão......................................... 257

XI.--Epilogo......................................... 269

Notas................................................ 327

TERCEIRA PARTE

OS AYMORÉS

I

A PARTIDA

Na segunda-feira, erão seis horas da manhã, quando D. Antonio de Mariz

chamou seu filho.

O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou

reflectindo sobre os perigos que ameaçavão sua familia.

Pery lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os

Aymorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e espirito vingativo

dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado.

Por isso, de acordo com Alvaro, D. Diogo, com seu escudeiro Ayres Gomes,

tinha tomado todas as medidas de precaução que as circumstancias e sua

longa experiencia lhe aconselhavão.

Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de sellar duas cartas

que escrevêra na vespera.

--Meu filho, disse elle com uma ligeira emoção, reflecti essa noite

sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deves partir hoje mesmo

para S. Sebastião.

--Não é possivel, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando

correis um perigo?

--Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe

da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e

meu herdeiro legitimo, o protector de minha familia orphã.

--Confio em Deos, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se

elle nos quizesse submetter a tal provança, o unico lugar que compete a

vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso

lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ella

seja.

D. Antonio apertou seu filho ao peito.

--Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra

em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios.

Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então

passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da

mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma

familia.

--Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr

e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um

servidor fiel e dedicado.

O fidalgo proseguio já calmo:

--Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella

valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se

medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de

menos não importa ao resultado.

--Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu

posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer,

porém morrerei junto dos meus.

--E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico

meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas

previsões se realisarem?

--Que dizeis, senhor?

--Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor

portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por

algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de

succumbir.

--Então?... exclamou D. Diogo pallido.

--Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma

obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio

que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em

socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então

verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de

um perigo inutil.

D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do

fidalgo:

--Perdão, meu pai, por não vos ter comprehendido. Eu devia adivinhar

que D. Antonio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é

digno do pai.

--Vamos, D. Diogo, não ha tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um

minuto de tardança talvez tenha de ser contado anciosamente por

aquelles que vão esperar-vos.

--Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se á porta.

--Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania;

esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente

fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa

familia. Ide despedir-vos de vossa mãi e vossas irmãs: eu farei tudo

preparar para a partida.

O fidalgo, reprimindo a sua emoção, sahio do gabinete onde se passava

esta scena, e foi ter com Alvaro que o procurava.

--Alvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de

Janeiro.

--D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado.

--Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo

esteja prompto dentro de uma hora.

Alvaro dirigio-se immediatamente ao fundo da casa onde habitavão os

aventureiros.

Havia ahi grande agitação: uns fallavão em tom de queixa, outros

murmuravão apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente rião e

motejavão do descontentamento de seus companheiros.

Ayres Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do

terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode

retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia

dous tons; mas á medida que elle se afastava, cada um dava livre

desabafo ao seu máo humor.

Entre os mais inquietos et turbulentos distinguião-se tres grupos

presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Ruy Soeiro e

Bento Simões.

A causa desse descontentamento quasi geral era a seguinte:

Por volta de seis horas da manhã, Ruy, em virtude do emprazamento da

vespera, dirigio-se o primeiro á escada para ganhar o matto.

Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver ahi Vasco Alphonso e

Martim Vaz de vigia, o que era extraordinario; pois só á noite se

usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia.

Ainda mais admirado porém ficou quando os dous aventureiros, cruzando

as espadas, proferirão quasi ao mesmo tempo estas palavras:

--Não se passa.

--E por que razão?

--É a ordem, respondeu Martim Vaz.

Ruy empallideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéa que lhe

acudio foi que os tinhão denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano.

Ayres Gomes porém embargou-lhe o passo, e dirigio-se com elle para o

terreiro: ahi o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão

á bocca em fórma de busina, gritou:

Olá! Á frente toda a banda!

Os aventureiros chegárão-se formando um circulo ao redor de Ayres

Gomes; Ruy já tinha tido occasião de lançar uma palavra ao ouvido do

italiano; e ambos, um pouco pallidos mas resolutos, esperavão o

desfecho daquella scena.

--O Sr. D. Antonio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermedio vos

faz saber a sua vontade, e manda que ninguem se afaste um passo da casa

sem sua ordem. Quem o contrario fizer pereça morte natural.

Um silencio morno acolheu a enunciação desta ordem; Loredano trocou

uma vista rapida com os seus dous complices.

--Estais entendidos? disse Ayres Gomes.

--O que nem eu, nem meus companheiros entendemos é a razão disto,

retrucou o italiano avançando um passo.

--Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros.

--As ordens cumprem-se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com

uma certa solemnidade.

--Comtudo nós... ia dizendo Loredano.

--Toca a debandar! gritou Ayres Gomes. Aquelle que não estiver

contente, que o diga ao Sr. D. Antonio de Mariz.

E o escudeiro com uma fleugma imperturbavel rompeu o circulo, e começou

a passear pelo terreiro olhando de travez os aventureiros, e rindo á

sorrelfa do seu desapontamento.

Quasi todos estavão contrariados; sem fallar dos conspiradores que se

havião emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros,

cujo divertimento era caçar e bater os mattos, não recebião a ordem

com prazer. Apenas alguns de genio mais bonachão e jovial tinhão

tomado a cousa á boa parte, e zombavão da contrariedade que soffrião

seus companheiros.

Quando Alvaro se aproximou todos os olhos se voltárão para elle,

esperando a explicação do que se passava.

--Sr. cavalheiro, disse Ayres Gomes, acabo de transmittir a ordem para

que ninguem arrede pé da casa.

--Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo-se aos aventureiros:

Assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos

selvagens, e toda a prudencia é pouca nestas occasiões. Não é só a

nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós;

é sim a pessoa daquelle que confia em nosso zelo e coragem, e mais

ainda o socego de uma familia honrada que todos prezamos.

As nobres palavras do cavalheiro, e a affabilidade do gesto que

suavisava a firmeza de sua voz, serenárão completamente os animos;

todos os descontentes mostrárão-se satisfeitos.

Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a

combinação do seu plano; pois era arriscado tenta-lo em casa, onde o

menor gesto o podia trahir.

Alvaro trocou poucas palavras com Ayres Gomes, e voltou-se para os

aventureiros:

--D. Antonio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para

acompanharem seu filho D. Diogo á cidade de S. Sebastião. É uma

missão perigosa; quatro homens nestes desertos marchão de perigo em

perigo. Quem de vós se offerece para desempenha-la?

Vinte homens se adiantárão; o cavalheiro escolheu tres entres elles.

--Vós sereis o quarto, Loredano.

O italiano, que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou

como fulminado por estas palavras; sahir naquella occasião da casa era

perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausencia

tudo podia se descobrir.

--Peza-me ser obrigado a negar-me ao serviço que exigis de mim; mas

sinto-me doente, e sem forças para uma viagem.

O cavalheiro sorrio.

--Não ha enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever;

sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano.

Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros:

--Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a

vossa vida em minha mão, e vos faço esmola mandando-vos sahir desta

casa?

O italiano comprehendeu que não tinha remedio senão partir; bastava

que o moço o accusasse de ter atirado sobre elle, bastava a palavra de

Alvaro para fazê-lo condemnar pelo chefe e pelos seus proprios

companheiros.

--Aviai-vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por

elle; partis em meia hora.

Alvaro retirou-se.

Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre elle;

mas a pouco a pouco foi recobrando a calma, animando-se; por fim sorrio.

Para que sorrisse era necessario que alguma inspiração infernal

tivesse subido do centro da terra a essa intelligencia votada ao crime.

Fez um aceno a Ruy Soeiro, e os dous encaminhárão-se para um cubiculo

que o italiano occupava no fim da esplanada. Ahi conversárão algum

tempo, rapidamente e em voz baixa.

Forão interrompidos por Ayres Gomes, que bateu com a espada na porta:

--Eh! lá! Loredano. A cavallo, homem; e boa viagem.

O italiano abrio a porta, e ia sahir; mas voltou-se para dizer a Ruy

Soeiro:

--Olhai os homens da guarda; é o principal.

--Ide tranquillo.

Alguns minutos depois, D. Diogo, com o coração cerrado e as lagrimas

nos olhos, apertava nos braços sua mãi querida, Cecilia que elle

adorava, e Isabel que já amava tambem como irmã.

Depois desprendendo-se com um esforço, encaminhou-se apressadamente

para a escada e desceu ao valle; ahi recebeu a benção de seu pai e

abraçando a Alvaro saltou na sella do cavallo, que Ayres Gomes tinha

pela redea.

A pequena cavalgata partio; com pouco sumia-se na volta do caminho.

II

PREPARATIVOS

Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete,

Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe

havia dado na vespera, e sahia da cabana.

A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento,

que revelava resolução violenta, talvez desesperada.

O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus

companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião

se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas.

Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua

força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela

promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia

morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro.

Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada

n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha

predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe

fazia com o bico delicado.

A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade

natural de seu semblante.

--Tu estás agastada com Pery, senhora?

--Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não

quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste.

Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera,

quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara

contrariada.

Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a

razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a

fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a

idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a

sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia

suas preces.

Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio

era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o

amigo e torna-lo digno da estima de todos.

Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que

defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir

salvando a sua alma.

Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra

hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar.

É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de

expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a

creatura triste acha no canto um supremo consolo.

A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na

memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia

ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos;

havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não

sabia explicar, mas ia com seus pensamentos.

Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha

atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da

noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua

fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida

naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como

se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios

entreabertos.

O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que

pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora.

--Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na

vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te.

--Como?... Não te entendo!

--Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma

religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus;

será um escravo, e não poderá defender-te.

--Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina

com vivacidade.

O indio sorrio:

--Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não

poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate

outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é

seu inimigo, e morre!

Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da

sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o

indio tivera na vespera com o cavalheiro.

--Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo,

elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não

fique zangada!

--Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que

uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa

religião!...

A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia

encantadora:

--Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais;

espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua

senhora te estimará ainda mais.

--Não ficas triste?

--Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!

--Pery quer pedir-te uma cousa.

--Dize, o que é?

--Pery quer que tu risques um papel para elle.

--Riscar um papel?...

--Como este que teu pai deo hoje a Pery.

--Ah! queres que eu escreva?

--Sim.

--O que?

--Pery vai dizer.

--Espera.

Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de

papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse.

Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás

suas menores fantasias?

--Vamos: falla, que eu escrevo.

--Pery a Alvaro, disse o indio.

--É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando.

--Sim: é para elle.

--Que vais tu dizer-lhe?

--Escreve.

A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome

de Loredano e dos seus dous complices.

--Agora, disse o indio, fecha.

Cecilia sellou a carta.

--Entrega á tarde; antes não.

--Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender.

--Elle te dirá.

--Não que eu...

A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria

ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha

passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria

Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario.

Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava

nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era

o adeos extremo que o indio lhe dizia.

Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle

havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa.

D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se

della.

Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas

vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro.

--Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas.

O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas

voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a

escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou;

já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata.

Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano

tinha abortado.

Foi ter com Alvaro.

O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio

de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o

indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de

cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle

manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de

Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão

os inimigos.

Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano.

--Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se

ficarem, o outro póde voltar.

--Não se animará! disse o cavalheiro.

--Pery não se engana! Manda sahir os dous.

--Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.

O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado

nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo,

o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um

ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do _Paquequer_.

Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de

defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada

a casa.

Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para

a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela

mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim

apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D.

Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.

Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se

passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.

Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por

uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a

pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu

de vergonha.

Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a

coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão

a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver

Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a

obrigasse a esconder o rosto de pejo.

Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora

é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas

e contrariedades.

As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos,

e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de

hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.

Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava

constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar

todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu

infeliz amor.

Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um

momento com Isabel na esplanada.

Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se.

--Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula.

--Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado.

--Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence.

--É ainda este malfadada bracelete?

--Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia

teima que é elle vosso.

--Se meu é, vos peço que o aceiteis.

--Não, Sr. Alvaro, não tenho direito.

--Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu

irmão?

--Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como

lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia.

O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa.

Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que

causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para

não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher

bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel

impregnadas de perfume e sentimento.

Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do

coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio

de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia.

Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que

estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a

proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o

repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa,

então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo

desengano.

O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis

aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão

offerecer seus serviços a D. Antonio.

Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido

mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei

Angelo di Lucca.

III

VERME E FLOR

Erão onze horas da noite.

O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava

tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros

escassos da viração susurravão na folhagem.

Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o

alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do

rochedo.

O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela

esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda

nocturna, como um general na vespera de uma batalha.

Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da

escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos

seixos deixou-os cahir um depois do outro.

O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea

foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento

nas folhas.

Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos

dous homens que fazião a guarda nocturna:

--Tudo está preparado?

--Só esperamos por vós.

--Vamos! não ha tempo a perder.

Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das

vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a

alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.

Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas

via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade

de uma luz.

Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela

parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.

Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra

e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um

dialogo breve e rapido.

--Quantos são? perguntou o homem que chegára.

--Vinte ao todo.

--Restão-nos?

--Dezenoze.

--Bem. A senha?

--Prata.

--E o fogo?

--Prompto.

--Aonde?

--Nos quatro cantos.

--Quantos sobrão?

--Dous apenas.

--Seremos nós.

--Precisais de mim?

--Sim.

Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir

profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a

cabeça:

--Ruy, vós me sois dedicado?

--Dei-vos a prova.

--Preciso de um amigo fiel.

--Contai comigo.

--Obrigado.

O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.

--Sabeis que amo uma mulher?

--Vós m'o dissestes.

--Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso

que concebi este plano horrivel?

--Não; não o sabia.

--Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo;

servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro.

--Fallai; que quereis que eu faça?

--Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel.

--Qual dizei!

--Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu

vier a morrer, quero que...

O desconhecido hesitou:

--Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a

felicidade suprema que ella pode dar.

--Mas como?

--Matando-a!

Ruy sentio um calafrio.

--Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei

porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve

ser para mim um gozo immenso.

--Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.

--Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe

convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro

aceitará o thesouro que rejetais!

O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a

ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da

consciencia.

--Jurais? perguntou Loredano.

--Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.

--Avante então!

Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois

trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro

como uma especie de ponte suspensa.

--Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e

nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta

prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.

O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada,

algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar

por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.

A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe

bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do

livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa,

e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o

precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.

Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve,

descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre

a prancha.

--Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.

--Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.

A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que

começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão

Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do

outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.

Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o

crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na

depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices

tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse

momento esquivar-se a elles.

Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou

precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle

impunha respeito ao aventureiro.

Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel;

mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.

No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e

luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de

coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo

era o italiano depositario.

Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro

teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no

abysmo; não passou de um desejo.

Venceu a final a tentação.

Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu

uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha

podido suster.

Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e

frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a

ousadia, como a vista do sangue excita a féra.

Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do

rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais

que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a

prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do

italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite.

--Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della.

O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito

infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente

superiora quem a morte não podia tocar.

Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando

entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar

por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa

corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da

janella de Cecilia.

Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano

mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que

logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no

ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento.

Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não

tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano

adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a

perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto

para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de

precipita-lo.

A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se

estivera solidamente pregada ao rochedo.

Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca

conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as

cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia.

Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha

loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se

desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce

amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso,

como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo;

seu sorriso era apenas enlevo.

O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas

puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a

respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a

lençaria diaphana os seios mimosos.

Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de

damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura

transparente do linho os contornos harmoniosos e puros.

Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um

quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu

somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano.

Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao

pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens

brancas que protegião a innocencia.

Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de

sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel,

estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que

sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer,

é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura

e horrivel supplicio.

A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo

saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha

para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava.

Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão

sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o

corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas

dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada

a sua atmosphera.

E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum

sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de

rosas sobre o leito das virgens.

Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a

virtude em face do vicio.

O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como

para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu

uma vela de cera côr de rosa.

O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada

sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia

appareceu cercada de uma aureola.

Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento,

e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que

nem fôra interrompido.

Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em

toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e

seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.

A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se

e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que

já era tarde e que não tinha tempo a perder.

IV

NA TREVA

Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos

que acabavão de passar.

Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o

Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um

sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.

Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a

flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites

de grande calma.

O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em

viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria

naquella mesma noite.

Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas

instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se

dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza.

Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem

para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis

a D. Antonio de Mariz.

Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros

tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e

assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um

companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi

toda essa parte do edificio.

Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as

cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros

dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia

adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada

para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro.

Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca

collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que

só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio.

Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe,

dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da

noite em que tudo estava recolhido.

Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se

voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos

seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro,

que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e

aceitou o offerecimento.

Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus

preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do

escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo.

Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma

botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a

trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado

a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores.

Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão,

tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no

céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando

as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste.

--Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma cousa, amigo Ayres;

e sempre a passar-me.--Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me

tendes para responder-vos.

--Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais

um diabo de nome que não é portuguez?

--Ah! Quereis fallar de Loredano? Um tunante?

--Conheceis este homem, Ayres?

--Por Deus! se elle é dos nossos!

--Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem

era e o que fazia?

--Á fé que não! Appareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e

depois como sahisse um homem, ficou em lugar delle.

--E quando isto, se vos lembra?

--Esperai! Estou com os meus cincoenta e nove...

O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendario, que era a

sua idade.

--Foi por este tempo, ha um anno; principios de março.

--Estais bem certo? exclamou mestre Nunes.

--Certissimo: é conta que não engana. Mas que tendes?

Com effeito mestre Nunes se erguêra espantado.

--Nada! Não é possivel!

--Não acreditais?

--É outra cousa, Ayres! É um sacrilegio! uma obra de Satan! uma

simonia horrenda!

--Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez.

Mestre Nunes conseguio restabelecer-se da sua perturbação, e contou ao

escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Angelo di Lucca e da

sua morte, que nunca fôra possivel explicar: notou-lhe a coincidencia

do desapparecimento do carmelita com o apparecimento do aventureiro, e o

facto de serem da mesma nação.

--Depois, concluio Nunes, aquella voz, aquelle olhar!... Quando o vi

hoje estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha sahido

debaixo da terra.

Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o

espadão que tinha á cabeceira.

--Que ides fazer? gritou mestre Nunes.

--Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai

longe?

--É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva.

Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao

vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão

em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de

Nunes.

Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do

digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy

dera á chave, fechando a porta.

O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou

animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo

do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente

idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu

companheiro que estava de vigia junto da escada.

Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir

toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior.

O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o

ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho

por motivo algum.

A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a

cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e

seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado

sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se

adiantasse.

Quando percebeu que tudo estava em silencio aproximou-se; trocou o

signal convencionado, que era o canto da coruja; e introduzio-se

furtivamente na habitação.

O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e prompto ao

primeiro signal, Loredano deo começo á execução de seu projecto, e

conseguio penetrar no quarto de Cecilia.

Tomar a menina nos braços, rapta-la, atravessar a esplanada, chegar á

porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era cousa que

elle contava realisar n'um momento.

Quando Cecilia, arrancada de seu leito, lançasse um grito que elle não

podesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguem despertasse

teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro

virião em seu soccorro.

Ruy lançaria a chamma á palha preparada para este fim; e a faca de

cada um dos seus complices se enterraria na gorja dos homens

adormecidos.

Depois no meio desse horror e confusão, os vinte demonios acabarião a

sua obra, e fugirião como os máos espiritos das lendas antigas, quando

a primeira luz da alvorada terminava o _sabbat_ infernal.

Ião ao Rio de Janeiro; ahi, ligados todos por um mesmo laço do crime,

por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter nelles

agentes fieis e dedicados para levar ao cabo a sua empreza.

Emquanto a traição solapava assim o socego, a felicidade, a vida e a

honra desta familia, todos dormião tranquillos e descuidados; nem um

presentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava.

Loredano, graças á sua agilidade e á sua força, tinha conseguido

chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor trahisse a sua

presença, sem que na habitação alguem tivesse podido perceber o que

se passava.

Certo pois do bom resultado, o italiano advertido pela innocente

avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consummar a sua obra.

Abrio a commoda de Cecilia, tirou roupas de sedas e linho e fez de tudo

isto um embrulho tão pequeno quanto era possivel; depois envolveu-o em

uma das pelles que servião de tapete, e collocou n'uma cadeira, a geito

de o poder apanhar com facilidade.

Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um

crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da

menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de

fazer.

Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e

estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas

tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida

direita, rapida e cega.

A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre

o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um

movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento.

Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um

suspiro, abafado e cheio de angustia.

Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor

frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas.

A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo

lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados.

Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em

que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo

genio das crenças de nossos pais.

Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice

das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de

amante.

O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um

passo, e inclinou-se sobre o leito.

Cecilia sonhava neste momento.

Seu rosto esclareceu-se com uma expressão de alegria angelica; sua

mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu-se com a

indolencia e a molteza do somno, e recahio sobre a face.

A pequena cruz de esmalte que tinha ao collo e que estava agora presa

entre os dedos da mão roçou-lhe os labios; e uma musica celeste

escapou-se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa

àolis.

Foi a principio um sorriso que adejou-lhe nos labios; depois o sorriso

colheu as azas e formou um beijo por fim o beijo entreabrio-se como uma

flôr e exhalou um suspiro perfumado.

--Pery!

O collo arfou docemente, e a mão descahindo foi de novo aninhar-se

entre o talho da sua anagoa de cambraia.

O italiano ergueu-se pallido.

Não se animava a tocar naquelle corpo tão casto, tão puro; não podia

fitar aquella physionomia radiante de innocencia e de candura.

Mas o tempo urgia.

Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho na bordado

leito, fechou os olhos, estendeu as mãos.

V

DEOS DISPÕE

O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se

adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e

subitamente impellida foi bater de encontro á parede.

Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço

com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo

pregára a mão do italiano no muro do aposento.

O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo,

porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma

rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua

cabeça.

Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de

sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa.

Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que

succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e

sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de

colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora.

Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou

convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e

precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) · 第 1 / 12 段