Passou-se o dia 26 e a noite em aprestos para o ataque.
O grande capitão reuniu todos os homens de guerra, que não excediam a
sessenta, pelo que diz Diego Arana, armados de couraças e de cascos; o
resto eram enfermos, incapazes de entrarem em combate. Mandou arrear
algumas peças de artilharia para as chalupas, escudos sobrecellentes e
mosquetes, munições e alguns comestiveis, não muitos, pois não os havia
para larguezas; mas o que faltava ao corpo, abundava no espirito, porque
a gente de guerra estava desejosa de bater-se, tanto tempo havia
decorrido que não experimentava armas.
Era natural.
Pela meia noite principiou o embarque nas chalupas.
Havia passado um anno e sete mezes que esses valentes tinham embarcado
tambem, em S. Lucar de Barrameda, para a famosa expedição, cheios de
enthusiasmo, a correr aventuras como agora.
Em S. Lucar o sol de agosto aquentava-lhes mais o espirito e inundava de
luz o mar a que se faziam suas caravelas, levadas como que entre nuvens
de fumo dos tiros de artilharia, que diziam o ultimo adeus ás terras de
Hespanha.
Em Zebú, porem, a partida era differente; o véo da noite envolvia a
terra e os mares; o sol não saudava aquelles valentes, que então como
agora iam jogar a vida. Tinham de abafar o seu enthusiasmo no meio do
silencio de uma noite triste e funebre, em que no céo apenas uma ou
outra estrella vagueava sua luz tremente, como olhos marejados de
lagrimas. Não havia corações amigos a saudal-os na despedida, mas gente
barbara e extranha que os olhava temerosa e desconfiada.
Que differença!
E em silencio se fez o embarque, a que assistiu Fernão de Magalhães,
embarcando elle na ultima chalupa.
O rei de Zebú, com um dos principes e outros senhores da ilha, seguiram
os christãos em balangais, com indios armados de piques.
Vento fresco encrespava o mar por onde os barcos iam correndo, ora
orçando da vaga ora arribando para o vento.
Magalhães, de pé, á pôppa da sua chalupa, vigiava todo o governo e
ordenava a manobra.
Ia satisfeito; pelo seu espirito não passava sombra de receio da
aventura em que ia lançar-se. As horas pareciam-lhe mais longas que de
costume; a noite não tinha fim!
Proximo da madrugada chegavam as chalupas á ilha de Mactan, e o primeiro
impulso de Magalhães foi o desembarcar immediatamente com os seus homens
de guerra, mas não era possivel. A maré estava baixa e as ondas
quebravam-se com violencia contra os cachopos da praia, elevando-se
espumantes para o ar.
Qualquer barco que tentasse abordar á terra correria o risco de se
despedaçar entre os recifes.
Comtudo a impaciencia de Magalhães não lhe soffria delongas e, sem
attender ao perigo, ordenou a um mouro, que ia nas chalupas, para que da
sua parte fosse intimar o regulo de Mactan a reconhecer a soberania do
rei de Hespanha e prestar obediencia ao rei christão de Zebú, pagando os
tributos exigidos; de contrario os castigaria pelas armas[9].
Foi-se o mouro com a intimação, e se escapou de mergulhar entre os
recifes, quasi ia ficando preso na ilha, pois os rebeldes não se
intimidaram com as suas palavras e antes responderam que: saberiam
defender-se e resistir aos christãos, pedindo sómente que os não
atacassem de noite.[10]
Assim voltou, a custo, o mouro a participar ao chefe o resultado da sua
missão.
Como se poderá descrever o desespero e impaciencia de Magalhães ao saber
a resposta d'aquelles barbaros, que mais incitava os seus brios de
guerreiro? Queria desembarcar logo com a sua gente e atacar os rebeldes,
ainda que de noite, e teria cedido ao primeiro impulso se não fôra o rei
de Zebú dissuadil-o de tal temeridade, fazendo-lhe conhecer a tactica
d'aquella gente, que, para se defender, se fosse atacada de noite,
abriria fojos em volta da ilha, cheios de estacas aguçadas como lanças,
onde os hespanhoes cahiriam cegamente como em armadilha bem disposta
para os caçar.
Por isto se conhece a dissimulada astucia d'aquelles barbaros, pedindo
para os não atacarem de noite, como se para tal não estivessem
prevenidos, o que certamente incitaria os castelhanos a realizar o
ataque, mais seguros do resultado.
Magalhães, acreditando ou não no que lhe observou o rei de Zebú,
precaveu-se do logro e achou por mais seguro realizar o desembarque de
dia para melhor medir o campo em que tinha de operar.
Mal a aurora despontou, as chalupas approximaram-se da praia tanto
quanto permittia a maré, que ainda estava baixa, e Magalhães desembarcou
com parte da sua gente, dando a agua pela cintura a todos, de modo que
não puderam transportar a artilharia.
Isto obrigou a que nas chalupas ficassem homens a guardar as peças, além
d'aquelles que tinham de tomar conta nos barcos, o que reduziu o numero
dos combatentes que acompanhavam o chefe.
Para mais, Magalhães não acceitou o auxilio de gente que lhe offereceu o
rei de Zebú, talvez por não lhe merecer grande confiança; e, julgando-se
mais seguro com os seus cincoenta homens, que tantos desembarcariam,
avançou para terra resoluto a bater os barbaros.
Ainda bem não tinha disposto a sua gente em acção, quando, por um dos
flancos, lhe surde d'entre o matto uma manga de indios armados de
flechas e escudos. Trava-se logo a lucta, rompendo os hespanhoes fogo de
mosquetaria, que pouco alcançava o inimigo. Este despedia-lhe suas
flechas, que se embotavam contra os cascos e couraças dos christãos; mas
bem não tinha começado o ataque, quando outra manga apparece pelo flanco
opposto a atacal-os, o que obrigou Magalhães a dividir a sua gente em
duas columnas, para fazer frente ao inimigo.
Cresce a lucta, redobra o esforço.
As flechas são impotentes contra as couraças, mas a mosquetaria vai
derribando os indios, ganhando os christãos terreno.
Não se acobardam os barbaros com as perdas soffridas, e disputam a
posição com inesperado valor. Em alguma cousa se fiam para arrostarem
com os christãos. Contam com a sua superioridade numerica, que não tarda
a ser reforçada, e agora apparece pela frente outra manga, tanto ou mais
numerosa que as primeiras, arrogante e bem armada de varas de madeira
endurecidas ao fogo, que ferem como laminas de aço.
Magalhães e a sua gente vêem-se cercados por todos os lados. Elle, só á
sua conta, tem rechassado um bom numero de indios; braço vigoroso, animo
decidido, não cansa.
Tenta dividir o inimigo; e manda lançar fogo á povoação, para que elle
corra a dominar o incendio.
Mas esta estrategia não dá resultado, porque os indios mais se
exasperam, e alguns, correndo sobre os incendiarios, ainda colhem dois a
quem logo dão a morte.
As numerosas mangas vão crescendo cada vez mais sobre os hespanhoes,
arremessando-lhe um sem numero de flechas, varas e pedras, que lhes
atiram os cascos fóra da cabeça.
Alguns, considerando-se perdidos, já fogem para a praia e entram na
agua, que lhes chega quasi aos hombros, em procura das chalupas, onde se
refugiam.
Magalhães resiste sempre, acompanhado pelos mais fieis e corajosos, que
todos se batem com denodo.
Os indios, vendo que as suas flechas resvalam das couraças e caem na
areia sem causar damno ao inimigo, apontam-n'as mais baixas, procurando
ferir as pernas dos adversarios. Este expediente dá-lhes resultado,
porque os homens de Magalhães debandam em maior numero, sentindo-se
feridos. Entretanto é ao chefe que os indios mais assestam as suas
pontarias até que uma flecha lhe acerta n'uma perna.
Magalhães não perde um momento a sua coragem, sustenta a lucta e anima
os seus a que o egualem.
--Por Santiago matemos estes miseraveis!
E batia-se para a frente e para os lados, levando com a sua lança a
morte aos inimigos, que não o poupavam.
Por duas vezes lhe fazem saltar fóra da cabeça o casco com pedradas que
lhe atiram.
Mas elle não se estonteia nem recua; põe-n'o de novo e continua na
tremenda lucta.
Agora é uma flecha que se lhe crava na face, mas elle cresce sobre o
audacioso, embebendo-lhe a lança no corpo! Outra flecha trespassa-lhe o
braço direito quando elle vai a desembainhar a espada, que fica na
bainha. Solta então um rugido de dôr e de desespero, porque se vê
desarmado.
Grita pelos seus, mas inutilmente, porque uns jazem por terra e outros
teem-se precipitado para as chalupas.
Sente-se abandonado no meio do inimigo. Um esforço supremo para se
desaffrontar. Sobra-lhe na alma coragem para bater-se até a morte, mas
fallece-lhe no corpo força para reagir.
Os indios percebem que o valente capitão já os não póde ferir, e
lançam-se sobre elle como chacaes.
Deitam-n'o por terra, e elle ainda se ergue uma e mais vezes com esforço
heroico, a clamar pela sua gente; mas ninguem o ouve nem lhe póde
acudir.
Nem um d'entre elles, diz Pigafetta, havia que não estivesse ferido e
pudesse soccorrer ou vingar o seu chefe. Precipitaram-se para as
chalupas, que estavam prestes a partir, e deveram a sua salvação á morte
de Magalhães, porque, quando elle succumbiu, os indios correram todos
para o logar onde elle tinha cahido.
Fernão de Magalhães poderia então, como o infante D. Pedro, em
Alfarrobeira, soltar aquella phrase memoravel:
--Vingar ahi villanagem!
Não havia já resistencia possivel.
Os indios cahiram em massa sobre o desventurado capitão; crivaram-n'o de
flechas, lançaram sobre elle pedras para o acabarem de matar, e só
quando estavam bem seguros de que elle já não tinha alento de vida, é
que deixaram a presa!
[9] Diego Arana, _Vida e Viagens de Fernão de Magalhães_.
[10] _Idem._