É d'aqui em diante que se vai passar a tragedia mais horrivel, que
enlutou a temeraria empreza de Magalhães.
A 4 de abril de 1521 largou a frota do archipelago de S. Lazaro, depois
denominado das Filippinas, como já ficou dito, e dirigiu o rumo para a
ilha de Zebú, que o regulo de Masavá lhe indicara como um dos portos
mais importantes e mais proximos, para entrar em commercio.
Effectivamente, decorridos tres dias de viagem, avistaram uma ilha, e
aproximando-se d'ella viram que era muito povoada de casas construidas
sobre arvores collossaes.
Era a ilha de Zebú.
Magalhães entrou em commercio com o rei d'aquella ilha, não sem alguma
difficuldade, pois que o regulo queria que os hespanhoes lhe pagassem
egual tributo ao que era imposto ás embarcações das ilhas visinhas que
vinham áquelle porto.
Custou a convencer o rei de que os hespanhoes não lhe pagariam tal
tributo e, antes pelo contrario o exigiriam para si e lhe fariam guerra,
se o rei presestisse n'essa imposição.
Trocadas explicações de parte a parte, o rei de Zebú reconheceu a
inconveniencia e entrou em boa amizade com Magalhães, annuindo a dar
privilegio aos hespanhoes para estabelecerem commercio na ilha, unica
exigencia que faziam e direito que se reservavam.
Foram, porem, mais longe as boas relações que entabolaram com aquella
gente. O rei de Zebú manifestou desejo de ser christão, depois de ouvir
as façanhas praticadas por portuguezes e hespanhoes, animados da grande
força moral que a religião do crucificado dava aos que observavam a sua
lei.
O baptismo do rei de Zebú celebrou-se com grande aparato, e não só este
rei mas muitos outros regulos ou senhores d'aquella ilha, rainhas e boa
parte da população receberam a agua do baptismo.
Não se poderá affirmar que a convicção ou a fé os movesse a tão
facilmente abraçarem a religião de Jesus Christo, porque de certo o
espirito d'aquella gente não poderia estar preparado para comprehender
toda a sublimidade do christianismo; mas sim os attrahiu a curiosidade e
ainda mais a idéa de que o baptismo lhes daria mais coragem e valor para
vencerem seus inimigos nas guerras que traziam com os povos vizinhos.
Sim, isto sobretudo é que os devia ter attrahido.
Viam alli gente christã que os deslumbrava com o seu poder, que elles
consideravam como sobrenatural, quando a artilharia disparava tiros
retumbantes, e a mosquetaria fuzilava lume pelo ar; e sem poderem ainda
apreciar a grande vantagem das armaduras, contra as quaes se embotariam
as suas agudas settas, pois não haviam entrado em lucta, o fogo das
armas lhes bastava para os maravilhar, apesar dos christãos só terem
dado descargas de polvora secca.
Dominados aquelles indigenas pelo prestigio dos christãos, foi
relativamente facil a Magalhães obter d'elles quanto queria; e assim o
rei de Zebú jurou solemnemente fidelidade a Carlos V, e com elle todos
os senhores da ilha submissão ao imperador das Hespanhas.
Não, obstante o reconhecimento da auctoridade de Carlos V e da submissão
dos habitantes da ilha de Zebú, o senhor ou rei de outra ilha proxima
não approvou o procedimento dos seus vizinhos, e por isso, quando alli
foram os hespanhoes, para entabolar relações, o rei negou-lhes
obediencia.
Isto deu logar a uma demonstração de força dos hespanhoes, que
incendiaram uma aldeia da ilha, retirando-se depois nas chalupas.
O regulo que não quizera reconhecer a auctoridade dos extrangeiros,
chamava-se Silapulapú; mas outro regulo da mesma ilha, chamado Lula,
mostrou-se mais docil, e tanto, que prometteu a Magalhães o mandar-lhe
presentes em troca dos que d'elle recebera.
Este Lula, consciente ou inconscientemente, foi a causa da desgraça do
grande navegador. Elle incitou, por assim dizer, Magalhães a fazer a
guerra a Silapulapú, e se o fez de boa fé, ou de plano concertado, para
dar ruina aos christãos, é o que a historia não diz, mas se poderá
inferir pelo modo como Lula procedeu.
Na manhã de 26 de abril de 1521, enviou Lula um seu filho a Magalhães
com duas cabras, dizendo-lhe que, se não mandava mais presentes, não era
por sua culpa, mas porque Silapulapú a isso se havia opposto,
persistindo em não reconhecer a auctoridade dos hespanhoes. Dizia mais o
Lula que, se Magalhães lhe mandasse alguns dos seus homens de guerra,
elle promettia, com a sua gente, reduzir á obediencia o Silapulapú.
Esta simples mensagem de Lula foi para Magalhães como que um repto á sua
coragem e valentia.
Não se diria nunca que Fernão de Magalhães hesitava um momento quando
lhe reclamavam o esforço do seu braço, a bravura do seu animo. Elle,
soldado ousado, que havia ferido guerras em Africa, e que ha tanto tempo
conservava a espada na bainha, sem ter ensejo de retemperar o aço da sua
lamina, rechassando o inimigo; elle, a quem a aventura attrahia e
povoava a sua imaginação das mais seductoras façanhas, encontrava alfim
novo ensejo para experimentar se o seu braço ainda era o mesmo e se a
boa estrella, que tinha guiado sempre as suas armas, mais uma vez o
conduziria á victoria.
As circunstancias, porém, não se apresentavam muito favoraveis, e d'isso
o quiz convencer João Serrão, homem experiente, que não se deixava
fascinar pela gloria, mais que duvidosa, da temeridade d'aquelle feito.
Era preciso attender a que a gente de Magalhães estava consideravelmente
reduzida: uns, tinha-os a morte levado; outros, as doenças e trabalhos
da viagem os haviam impossibilitado. Os válidos eram poucos, e esses
mesmos meio depauperados.
Tudo isto ponderou Serrão a Magalhães. O rei de Zebú tambem se mostrou
contrario á resolução do grande capitão, apesar de não poder calcular
toda a força e valentia de que os christãos poderiam dispôr, na conta em
que os tinha de homens extraordinarios, por assim dizer, sobrenaturaes.
Entretanto sabia que o inimigo era assaz numeroso, e pelo sentimento
nato de que, contra a força não ha resistencia, elle pensava, a despeito
de todas as maravilhas creadas no seu espirito, quanto era arriscada e
talvez fatal para os hespanhoes a lucta que ia travar-se.
Magalhães não attendeu as razões nem os conselhos dos seus e do rei de
Zebú. Costumado a mandar e a ser obedecido, tanto mais depois de ter
subjugado os proprios elementos para chegar ao termo da sua empresa,
nenhumas forças seriam capazes de o demover da resolução que tomára, de
submetter pelas armas os habitantes da ilha de Mactan que se negavam a
prestar obediencia.
O numero dos seus soldados pouco lhe importava, como pouco lhe importava
se o inimigo era assás numeroso. Estava elle com o seu braço e com a sua
espada costumada á guerra contra infieis. Vencera em Africa muitas vezes
contra milhares de indigenas, e de que façanhas se poderia orgulhar se
assim não fôra!
A sua espada e a sua fé valiam por um exercito; sob o seu commando e ao
seu lado cada soldado valia por mil. Eram assim as guerras d'aquelle
tempo contra os povos d'alem mar, como o tinham sido na peninsula contra
os mouros; a cruz levava de vencida o crescente por toda a parte; porque
não havia de triumphar tambem alli?!
Para quem com tanta firmeza e sacrificio tinha desvendado os mares
procellosos, para dar a volta ao mundo, luctando tenazmente pela sua
idéa, tantas vezes contrariada pelos elementos e pelos homens, que valia
agora a resistencia de uns selvagens?
Muito maiores obstaculos tinha elle destruido no seu caminho,
sobrando-lhe sempre animo para proseguir avante, e não podia
comprehender que homens como aquelles que o acompanhavam na temeraria
empresa que se propôs, que com elle tinham compartilhado dos perigos
para alli chegarem, se arreceassem agora de entrar em guerra com um
bando de selvagens, e medissem primeiro cautelosamente as forças para se
lançarem na lucta, quando nem sabiam ao certo o numero dos inimigos nem
as armas de que elles dispunham.
O rei de Zebú era suspeito para informar da quantidade e qualidade do
inimigo. Quem podia affirmar o contrario?
O triumpho das armas christãs importaria a submissão completa e
incondicional de todos aquelles povos, e o grande capitão não só teria
coroado a sua empresa de encontrar o mar do sul, mas traria á Hespanha
tributarios os povos d'aquellas regiões, fascinados e submettidos pelo
prestigio das suas armas.
Era de tentar a cartada! Quem lhe poderia resistir?!