Morreu o grande capitão ás mãos dos selvagens de Mactan, n'uma lucta tão
heroica quanto ingloria, para quem se tinha proposto a tão grande
empresa e a levara a cabo através de todas as difficuldades e perigos.
Fernão de Magalhães, costumado a vencer até os proprios elementos,
levou-se de enthusiasmo e não mediu o perigo de assim se expôr á morte
que lhe traria ruina para elle e para a sua gente, que sem o chefe e
desprestigiada, bem poderia ser victima d'aquelles selvagens, e perder o
fructo de tantos sacrificios, ficando ignorado do velho mundo o
resultado da aventurosa viagem, se nenhum dos ousados mareantes lograsse
voltar á Europa, como quasi ia succedendo.
A morte do heroe teve effeitos desastrosos para toda a expedição, que
desde aquelle momento perdeu o prestigio que a fazia respeitar e temer
no espirito dos habitantes das ilhas.
O rei de Zebú, que tão docil se mostrara, chegando a fazer-se christão e
a alliar-se com estes contra os selvagens de Mactan, depressa mudou de
idéas e concertou com os seus para dar morte aos castelhanos
traiçoeiramente.
Cinco dias depois do triste acontecimento que acabamos de narrar, a 1 de
maio de 1521, nova desgraça viera ferir os castelhanos. Moveu-a a
intriga e o despeito de um escravo de Magalhães, que era o lingua da
expedição, pelo que refere Pigafetta e conforme o que Sebastião de
Elcano declarou no inquerito que, em 1522, se levantou sobre a viagem de
Magalhães e tragico fim do valoroso capitão.
Aquelle escravo tinha seus aggravos de Duarte Barbosa que, com Serrão,
tomara o commando da frota, e para vingar-se persuadiu o rei de Zebú de
que os christãos o queriam trazer captivo para a Europa. Esta falsa
denuncia foi como que o fogo lançado ao rastilho, pois de mais estava já
o rei de Zebú incitado pelos regulos de Mactan, que o ameaçavam de morte
e destruir-lhe os seus dominios se elle não desse cabo dos castelhanos.
Faltando-lhe, porém, a coragem para se defrontar com os europeus em
lucta leal, o rei de Zebú recorreu á traição. Continuou a mostrar-se
muito amigo dos castelhanos e fiel subdito do rei de Castella, ao qual
queria mandar um valioso presente. Para fazer entrega d'esse presente
convidou os commandantes Barbosa e Serrão a jantarem com elle em terra e
que trouxessem os immediatos e mais pessoas da frota que entendessem,
com o que lhe dariam grande honra.
Duarte Barbosa, João Serrão e mais vinte e sete homens, entre os quaes
se encontravam Luiz Affonso de Goes, portuguez arvorado commandante da
caravella _Victoria_, depois da morte de Magalhães, o piloto André de
San Martin, Sancho de Heredia e Leão da Espeleta, escrivães da frota, e
o capellão Pedro da Valderrama.[11]
Foi isto na manhã do citado dia 1.º de maio. O rei de Zebú com alguma
gente de seu sequito aguardava na praia a chegada dos convidados e, logo
que estes desembarcaram, encaminharam-se todos para um palmar, á sombra
do qual estava preparada a refeição.
O logar não podia ser mais ameno para resguardar dos raios ardentes do
sol, que a custo penetravam aqui e acolá por entre as fisgas das largas
folhas das palmeiras que formavam abobada sobre o recinto do festim,
vindo reflectir nos vasos de ouro e nas porcellanas dispostas sobre a
esteira que fazia de mesa, como era uso.
O rei apparentava toda a docilidade e gentileza de que podia dispôr, e
com elle a sua côrte se mostrava em extremo submissa aos christãos, de
modo que nada fazia suspeitar da traição que tinham armado; só João
Serrão desconfiava de alguma cilada, mas pouco valeu a sua desconfiança,
porque Duarte Barbosa, nada receando, instou com elle para que o
acompanhasse, e Serrão accedeu para não ser tido por timorato ou
cobarde.
Em volta da esteira todos se sentaram e principiaram a servir-se do que
havia, comendo e bebendo em boa convivencia; mas cedo reconheceram o
engano, porque um bando de indigenas armados, que surdiu de emboscada,
lançou-se traiçoeiramente sobre os castelhanos e logo se armou alli uma
lucta braço a braço, cada vez mais terrivel, sendo os indigenas em tão
grande numero que impossivel era submettel-os.
Os castelhanos foram todos assassinados e só João Serrão escapou
n'aquelle momento á furia dos selvagens por um certo prestigio que tinha
sobre elles.
De pouco isso lhe valeu! Dois tripulantes, mais felizes que seus
companheiros, que em terra pereceram na lucta desegual, haviam-se
afastado ao desembarque, suspeitando de alguma cilada, e assim que
conheceram a traição, foram-se para bordo a dar parte ao piloto
portuguez João Carvalho do que occorrera em terra. Carvalho
immediatamente mandou approximar os navios da terra e rompeu fogo de
artilharia contra a ilha.
Os indigenas, sentindo os tiros, apoderam-se de João Serrão depois de
encarniçada lucta, em que este ficou mal ferido, e atando-o de pés e
mãos, conduziram-n'o á praia ás vistas dos seus companheiros que dos
navios continuavam a fazer fogo sobre a ilha.
Serrão vê-se perdido e grita e clama para os seus que cessem fogo e
tragam presentes áquella gente para o resgatar. A confusão, porém, é
enorme; João Carvalho não póde dar ouvidos a taes clamores, e receia
nova traição dos indigenas, para se apoderarem do resto da sua gente e
dos mal defendidos navios.
Para que se não perca tudo ingloriamente, só resta abandonar aquellas
ilhas e fazer-se ao mar, para voltar a Hespanha como pudesse, e,
emquanto João Serrão ficava na praia gritando para que o salvassem,
porque o matariam assim que os navios largassem suas velas, João
Carvalho foi ordenando as manobras e aproando ao mar as caravellas.
Serrão, a quem os indigenas, no primeiro impeto, haviam poupado a vida,
soffreu as torturas de morrer inanime ás mãos d'aquelles selvagens,
vendo fugir-lhe a unica esperança de salvação, que por momentos o
animara, com a partida da frota.[12]
Triste e vergonhosa retirada aquella para gente que a tanto se afoitara;
mas é evidente que já faltava alli o espirito do grande capitão
portuguez que a animara e conduzira, por vontade ou por força, a dar a
volta dos mares, realizando a primeira viagem de circumnavegação.
Em Mactan deixaram Magalhães morto, que nem seu cadaver puderam arrancar
do poder dos indigenas, e assim perderam a alma d'aquella empresa que
assombrou o mundo; em Zebú ficavam Duarte Barbosa e João Serrão com seus
companheiros victimas de uma traição.
De melhor sorte eram dignos aquelles bravos, que nem tiveram quem alli
os vingasse.
[11] Diego Arana, _Vida e viagens de Fernão de Magalhães_.
[12] Pigafetta, liv. II--Herrera, dec. III, liv. I, cap. X.
Sobre este ponto encontro uma discordancia em Gaspar Correia quando
este se refere á morte de Fernão de Magalhães, no tomo II das
_Lendas da India_.
Segundo o phantasioso chronista, Fernão de Magalhães não morreu ás
mãos dos indigenas da ilha de Mactan, mas sim no banquete do rei de
Zebú, tendo ficado vencedor em Mactan, o que discorda completamente
de todos os chronistas que referem esta viagem e das declarações
feitas por Sebastião de Elcano e seus companheiros, no processo
instaurado em Sevilha no anno de 1522.
Gaspar Correia, na sua linguagem barbaresca, que modificaremos para
melhor ser entendida hoje, diz, referindo-se ao combate com os
indigenas de Mactan: «O rei corrido, vendo-se assim destroçado,
concertou traição com o rei christão e fez com elle ajuste de casar
com sua filha e com juras que, morrendo elle, que era velho, tudo
lhe deixava e viveriam sempre amigos, porque os castelhanos se iriam
embora, e se não acceitasse isto e lhe não desse modo de matar os
castelhanos, lhe faria guerra. O que o rei christão, como homem
brutal, consentiu na traição e preparou grande festa e banquete pelo
vencimento, e convidou Magalhães, que foi ao banquete com trinta
homens os mais honrados e bem vestidos, onde estando todos no
banquete folgando, entraram os inimigos armados e mataram a
Magalhães e os castelhanos, não escapando nenhum e o Serrão o
despiram e arrastaram á praia onde o justiçaram e mataram
arrastado.»