Perdida a esperança de reunir á frota a caravella _Santo Antonio_,
continuou Magalhães a viagem pelo estreito descobrindo a sudueste o
cabo, hoje denominado pelos inglezes cabo Froward, mas a que os
hespanhoes chamaram de Santa Agueda. A latitude austral d'este cabo foi
marcada pelos navegantes em 50° 40'. O capitão King marcou depois a
latitude do mesmo cabo em 53° 43', pelo, que, como nota Diego Arana, é
para admirar que, com os instrumentos bastante imperfeitos de que então
dispunham os navegantes, podessem fixar com tão pequenas differenças a
latitude dos logares em que se encontravam, em relação ao equinoxio.
O estreito apresentava, principalmente para o sul, grande quantidade de
canaes e recifes, quasi impossivel de reconhecer, nas precarias
condições em que os navegantes se encontravam, extenuados da longa
viagem que traziam, abatidos pelas doenças e pelos trabalhos,
desanimados, vivendo mais da esperança que animava o seu chefe que da
propria convicção de chegarem a bom fim.
Fernão de Magalhães conhecia perfeitamente este estado, e quanto tinha a
recear de uma sublevação da sua gente se abertamente se negasse a
acompanhal-o. O que acontecera com a caravella _Santo Antonio_ podia
estender-se ás outras e elle ser impotente para manter a disciplina. De
quanta prudencia e tacto precisava para, quasi ao vêr coroados tantos
trabalhos, não se frustrar a empreza!
Quiz ainda mais uma vez consultar os capitães e pilotos da frota sobre o
que se devia fazer, para, sabendo o que pensavam, lhe apresentar as
razões que tinha para seguir ávante. Assim os poderia convencer melhor e
desfazer os receios levantados no espirito da sua gente.
Só é conhecida a resposta que o piloto da _Victoria_, André de S.
Martin, deu a esta consulta, e essa não foi favoravel ao proseguimento
da viagem. Este piloto, que era muito entendido em cosmographia, parece
que tinha seus aggravos de Magalhães, e, ou por este motivo, ou porque
ia doente, e tanto que morreu depois na viagem, opinava pelo immediato
regresso a Hespanha, visto que estava achado o estreito, e o
proseguimento da viagem até encontrar o mar do Sul era muito arriscado,
no estado em que os navios se achavam--e ainda peior a gente que os
tripulava,--para resistir aos temporaes que podessem sobrevir, que
decerto, atrazariam a viagem, correndo o risco de faltarem os
mantimentos e todos morrerem á fome se escapassem das tormentas.
Não obstante esta opinião, porventura muito sensata, Magalhães deu suas
razões para continuar a viagem, e a frota seguiu avante, mau grado da
maior parte da tripulação.
A certa altura Magalhães mandou uma chalupa com gente explorar o
estreito para o occidente. Não tinham ainda navegado muito, quando,
approximando-se da Terra do Fogo, observaram que era cortada por grande
numero de canaes, que separavam a terra formando pequenas ilhas.
Seguindo por um d'esses canaes chegaram ao extremo de uma ponta de terra
para além da qual se descobriu então aos olhos d'aquella gente um mar
vastissimo, que devia ser, sem duvida, o mar do sul que procuravam.
É facil calcular o alvoroto que aquella descoberta produziu nos
tripulantes da chalupa; voltaram presurosos a dar a nova a Magalhães,
tendo gasto tres dias no reconhecimento.
Pigafetta conta que todos choraram de alegria, e em verdade não era para
menos tão feliz descoberta.
Todos cobraram animo e a frota proseguindo na sua viagem chegou á tal
ponta de terra, que os navegantes denominaram acertadamente Cabo
Desejado.
A caravella _Victoria_ ia na frente e, sahido o estreito, que Magalhães
denominou de Todos os Santos, em razão do dia em que o tinha descoberto,
destinguiu uma outra ponta de terra onde a costa se quebrava para norte
e que donominaram Cabo Victoria, em honra do navio que primeiro o
dobrava. Para além d'este cabo é que se estendia o grande mar do sul.