Transposto o estreito a que Magalhães chamou de Todos os Santos, como
ficou dito, mas que um seculo depois era já conhecido por estreito de
Magalhães[6] e entrada a frota no mar do Sul, estava ainda assim bem
longe o termo da penosa viagem, pois que não lhe faltaram perigos e
trabalhos que passar.
Não foram as tempestades que difficultaram a marcha, porque essas
felizmente não assaltaram os navegantes n'aquelle mar, e tanto que estes
lhe chamaram mar Pacifico, que ainda hoje conserva; mas a propria
miseria em que se viam, faltos de saude e de alimentos, sem encontrarem
comestiveis nem poderem fazer aguadas nas ilhas a que iam aportando,
despovoadas e desprovidas das coisas necessarias á vida.
D'esta miseria nos dá boa idéa Pigafetta quando descreve, como
testemunha presencial, as necessidades e apuros em que se viram os
navegantes:
«Comiamos bolacha, diz Pigafetta, que estava feita em pó, cheio de
gorgulhos, que lhe tinham absorvido a substancia alimentar, com um sabor
acre detestavel da urina de ratos de que estava empregnado. A agua para
beber era, por egual pôdre e amarga. Para não morrer de fome vimo-nos
obrigados a roer o coiro que forrava a verga grande e que impedia que a
madeira desgastasse os cabos; era, porém tão duro o coiro, exposto a
agua, ao sol e aos ventos, que precisava estar de molho no mar quatro e
cinco dias, para ficar um pouco mais macio, pondo-o depois ao lume, e
assim o comiamos. Muitas vezes vimo-nos na necessidade de comermos
serradura de madeira; e os ratos, tão repugnantes ao homem, chegavam a
ser o alimento mais apetitoso, pagando-se até por meio ducado cada um.»
«Mas ainda não era tudo. Maior desgraça nos veio atacar, a de uma
enfermidade que consistia em nos inchar as gengivas cobrindo
completamente os dentes de ambas as mandibulas, a ponto de que os
atacados d'aquella doença não podiam tomar nenhum alimento[7]. Além dos
mortos, cahiram doentes vinte e cinco a trinta marinheiros, com dores
nos braços, nas pernas e por outras partes do corpo, mas que emfim se
curaram.
«Pela minha parte não sei dar bastantes graças a Deus, por durante este
tempo e entre tantos doentes não ter tido a menor doença.»
Não bastavam, porém, tantas provações aos ousados navegadores, porque,
quando pensavam encontrar os viveres e refrescos de que tanto careciam,
vendo aproximarem-se de umas ilhas, em volta das quaes navegava grande
quantidade de barquinhos tripulados, depararam com bandos de selvagens,
que assaltando os navios, pretendiam roubar quanto podessem. Foi
necessario repellil-os á viva força e disparar sobre os barcos tiros de
artilheria. Só depois d'esta recepção é que os navegantes poderam entrar
com elles em commercio, trocando bagatellas que levavam por alguns
poucos viveres.
Depressa largou a frota d'aquellas ilhas e Magalhães as denominou ilhas
dos Ladrões, com que ainda são conhecidas, chamando-se-lhe tambem ilhas
Mariannas em razão das missões que n'ellas estabeleceu a rainha D. Maria
Anna de Austria, mãe de Carlos II.
D'estas missões trata largamente o padre Gobien na sua _Histoire des
Mariannes_, impressa em Paris em 1701.
[6] Alguns escriptores tem dito que este nome foi posto pelo proprio
Magalhães e ainda Buzeta e Bravo assim o dizem no _Diccionario
Geographico Historico de las Islas Filipinas_, é, porém, fóra de
duvida, que o estreito foi primeiro denominado de Todos os Santos,
como vem na relação de Pigafetta e no Diario de Albo.
Nas cartas geographicas e livros de geographia da segunda metade do
seculo XVI já o estreito vem indicado com o nome do seu descobridor,
e apenas consta de um aucto lavrado por Pedro Sarmento de Gamboa,
quando atravessou o estreito em perseguição do Corsario inglez
Drack, elle denominou o estreito Mãe de Deus em razão dos grandes
perigos que passou para o atravessar, e de que felizmente sahiu a
salvo, pedindo a Filippe II de Castella que lhe conservasse aquelle
nome em homenagem á Virgem que tão milagrosamente lhe acudira.
Apesar d'isto Filippe II conservou ao estreito o nome do teu
descobridor.
[7] Esta doença é o escorbuto.