IV

Quando isto succedeu já Fernão de Magalhães havia illustrado o seu nome

em Africa, tendo feito parte de tres expedições, que de Lisboa partiram

para aquelles paizes.

A primeira d'essas expedições foi a de 25 de março de 1505, sob o

commando de D. Francisco d'Almeida. N'ella se alistou Fernão de

Magalhães, contando 25 annos de idade, pois, segundo parece, nascera

pelos annos de 1480,[1] deixando os commodos da côrte, onde, segundo diz

Argenzola, na _Historia de las Malucas_ e _Anales de Aragon_, era pagem

da rainha D. Leonor e d'el-rei D. Manuel. Preparou-se Magalhães, tanto

com as coisas espirituaes como materiaes, para a perigosa viagem,

conforme o costume dos tempos. Confessou-se e sacramentou-se e fez

testamento, em Belem, a 19 de dezembro de 1504, em que transparece o

animo com que o testador se achava para as grandes emprezas, pois

recommenda n'aquelle documento--segundo dá fé Diego de Barros Arana, na

_Vida e Viagens de Fernão de Magalhães_,[2]--a sua irmã D. Thereza de

Magalhães, que institue herdeira do seu patrimonio como parente mais

proximo, casada com João da Silva Telles, gentilhomem da côrte e senhor

do castello de Pereira de Sabrosa, que transmitta o seu appellido

juntamente com o seu brazão d'armas a seus herdeiros.

Em 1508 encontrava-se já Fernão de Magalhães em Lisboa de volta

d'aquella viagem. Havia tomado parte com Nuno Vaz Pereira nas guerras da

Costa Oriental da Africa para submetter aquelles povos á soberania de

Portugal, como era necessario para a submissão das possessões da India.

Não nos transmitte a historia os feitos d'armas que elle praticou n'esta

viagem; é comtudo certo que ella lhe serviu, como as subsequentes, para

alargar os seus estudos geographicos, como affirmam todos os escriptores

que de Magalhães se tem occupado.

A segunda viagem encetou-a Fernão de Magalhães em 5 de abril de 1508,

partindo de Lisboa na frota de Diogo Lopes de Sequeira, composta de

quatro naus, com objecto de novas descobertas e conquistas no Oriente.

Malaca era uma das terras mais cubiçadas pelas riquezas que tinha, e

Sequeira ia encarregado de estabelecer relações com aquelle povo.

A viagem foi bem succedida até Madagascar, mas, proseguindo para Ceylão,

um grande temporal obrigou os navios a arribar a Cochim, onde residia o

vice-rei da India D. Francisco d'Almeida. Aqui augmentou Sequeira a sua

frota com mais um navio e a guarnição com mais 60 homens, largando de

Cochim a 18 de agosto de 1509.

Chegou Diogo Lopes de Sequeira a Malaca depois de ter reconhecido a ilha

de Sumatra. Foi, porém, desgraçado o fim d'esta viagem, porque os

malayos, que a principio receberam bem os portuguezes, não tardou muito

que conspirassem contra os nossos, tentando assassinar Sequeira,

tentativa de que Magalhães teve conhecimento e conseguiu frustrar, assim

como com esforçado valor defendeu seus companheiros de morrerem

traiçoeiramente ás mãos d'aquelle povo, salvando quantos poude dos que

se encontravam em terra. Entre estes nomea-se Francisco Serrano, ou

Serrão, seu companheiro e, parece, parente.

Sequeira voltou para a Europa no melhor navio da frota, tendo mandado

queimar dois por falta de gente para os tripular, e ordenando que os

outros officiaes e resto de tripulação fossem para Cochim nos dois

navios restantes, d'onde depois seguiriam para Portugal.

Assim se observou; porém, a má sorte quiz que os navios se perdessem no

archipelago de Laquedivas, desfazendo-se nos recifes de Padua, logrando

salvar-se a tripulação para um ilheu deserto, esperando passar a terra

povoada.

N'esta conjuntura revela-se a grandeza de animo e o coração generoso de

Fernão de Magalhães, porque, embarcando-se os seus companheiros nas

lanchas para procurarem terra hospitaleira, elle se ficou com os

restantes correndo o risco de, embora perecer, mas nunca os abandonar.

Assim esperou que os companheiros lhe enviassem o auxilio necessario, e,

chegado elle, se passou a Cananor, onde encontrou Affonso de

Albuquerque, que ia de viagem para Ormuz com gente de guerra a dilatar

suas conquistas na Persia e seguir até o mar Roxo e Egypto.

Recebeu Affonso de Albuquerque a Fernão de Magalhães e aos companheiros,

que embarcou em sua armada, os quaes o ajudaram a submetter Goa e a

dominar a costa de Malabar, e depois a tentar nova guerra contra Malaca,

que é um dos feitos mais gloriosos das armas portuguezas no Oriente e o

inicio de novos descobrimentos como os das ilhas de Banda e das Molucas,

centro das ricas e procuradas especiarias.

No regresso d'esta viagem (1512), em que tanto se distinguiu Fernão de

Magalhães, teve este em recompensa de seus serviços o cargo de moço

fidalgo do paço, com a pensão de mil réis mensaes com moradia. Esta

pensão lhe foi melhorada pouco tempo depois, o que muito lhe

accrescentou o valor e importancia na côrte, como se deprehende dos

documentos achados por Muñoz no archivo de Lisboa.

A recompensa dada por el-rei D. Manuel a Fernão de Magalhães foi

incentivo bastante para o bravo portuguez voltar á guerra, procurando na

sorte das armas augmentar o lustre do seu nome já então galardoado.

Na Africa feria-se uma guerra contra mouros que se batiam denodadamente

com os portuguezes. Não menos que para a India se dirigiam as vistas do

rei afortunado para aquelle campo das nossas conquistas, e assim mandou

aprestar uma grande armada, composta de quatrocentos navios,--segundo

diz Faria e Sousa, na sua _Africa Portuguesa_,--em que embarcou dezenove

mil homens de guerra, sob as ordens de seu sobrinho D. Jayme de

Bragança.

N'esta armada partiu Fernão de Magalhães, emprehendendo a sua terceira

viagem, em 1513; e não foi esta menos gloriosa para o seu nome que as

duas primeiras; pois que combatendo ao lado de João Soares contra

aquelles povos semi-barbaros, occupou a praça de Azamor e defendeu-a

valorosamente contra as tropas dos reis de Fez e de Mequinez. N'esta

guerra se excedeu tanto em valor que, a par do ferimento que recebeu em

uma perna, de que ficou coxeando, lhe foi dado o posto de

quadrilheiro-mór, ou capitão de uma companhia; e perseguiu de tal modo

os mouros que aprisionou oitocentos e noventa d'estes e duas mil cabeças

de gado.

Segundo diz Barros, esta façanha foi origem de desgostos para Fernão de

Magalhães, porque na repartição da presa levantaram-se tantas

reclamações e intrigas que chegaram aos ouvidos de el-rei D. Manuel,

indispondo este monarcha contra o heroe de Azamor.

Quanto de inveja e de mal soffridas ambições andariam n'isto, é o que

não podemos affirmar; mas, a julgar pelos resultados, mui negras deviam

ser as côres com que apresentaram a el-rei o quadro do procedimento de

Magalhães, para que este, depois de se justificar com documentos,

provando a falsidade das arguições ainda assim não conseguisse

recompensa regia dos seus serviços e ainda menos perdão da supposta

culpa.

Ouçamos o que sobre este ponto diz Gaspar Correia, nas suas _Lendas da

India_, n'aquella linguagem do tempo, e que vamos transcrever quanto

possivel approximada e intelligivel para a maioria dos leitores de

agora. «... Fernão de Magalhães, vindo ao reino, allegando a el-rei seus

serviços, pediu em recompensa lhe accrescentasse cem réis de moradia por

mez, o que el-rei lhe denegou, por não cahir em sua graça, ou porque

estava destinado que assim havia de ser. Fernão de Magalhães, aggravado,

porque muito o pediu a el-rei e elle lh'o não quiz fazer, lhe pediu

licença de ir viver para quem lhe fizesse mercê e alcançasse mais

fortuna que com elle, ao que el-rei lhe disse, fizesse o que quizesse, e

lhe quiz beijar a mão e el-rei lhe a não quiz dar.»

Não se pense d'aqui que a pureza dos costumes do tempo fosse tal que,

admittindo que Magalhães fosse menos escrupuloso no seu procedimento,

não lhe pudessem ser levados em conta os serviços prestados ao reino,

para lhe attenuar a falta; porque é certo que a outros, não mais

prestantes nem menos ambiciosos, a munificencia do rei encheu de honras

e prebendas, apesar das faltas commettidas.

As injustiças são de todos os tempos, sem que por isso se deva sempre

condemnar quem as comette; porque muitas vezes são involuntarias e

apenas resultado de tramas bem urdidos por terceiros.

Foi, provavelmente, o que aconteceu com Fernão de Magalhães, que tanto

se sentiu de ver-se injustamente desattendido, que renegou da sua

nacionalidade de portuguez para offerecer os seus serviços a Castella.

Não se fala da lucta que elle travaria comsigo mesmo para levar a cabo

esta resolução; mas é bem de suppôr seria enorme, se tivermos em vista

quanto devia repugnar a um portuguez o trocar a sua nacionalidade pela

de uma nação, que sempre nos disputou a supremacia, quer nas conquistas

e descobrimentos, quer na absorpção d'esta gloriosa patria portugueza.

Enorme lucta, sem duvida, a que se levantou no espirito de Fernão de

Magalhães; mas como resistir-lhe, se essa resistencia seria a annullação

dos seus planos audaciosos, que não eram a satisfacção de um capricho,

vaidade impertinente, ou ambição injusta.

O escudo das suas armas ia ser picado, o nome da sua familia execrando,

apontado ao desprezo; e elle estimava tanto os pergaminhos de seus

antepassados, o seu nome, a sua patria, que, ao apartar-se d'ella pela

primeira vez, recommendara a seus herdeiros, nas desposições

testamentarias, que lhe guardassem o seu escudo de armas e o

transmitissem aos seus descendentes.

Enorme lucta, sem duvida; mas ainda maior que essa lucta era o ideal de

Fernão de Magalhães, que antesonhava o grande progresso geographico que

realizaria com a sua viagem de circumnavegação do globo, prestando ao

mundo um alto serviço e cobrindo o seu nome de tanta gloria, que

faltando á religião da patria, ella não se deshonraria a final de o ter

por filho.

Deshonra e vergonha seria se Fernão de Magalhães houvesse cruzado os

braços ante a injustiça dos homens, rojando-se submisso aos pés de um

throno que o desprezava. Encontrando-se com animo para a audaz empresa

que planeava, pouco lhe devia importar o ser portuguez ou de outra

qualquer nacionalidade; essa preoccupação seria futil no meio da sua

grandiosa obra. Elle tinha fatalmente que realizar os seus planos. Se a

patria lhe negava os meios de os levar a effeito, elle iria por esse

mundo fóra procural-os até encontrar quem lh'os facultasse; e foi e

encontrou!

Se para a Hespanha Fernão de Magalhães conquistou terras, para Portugal

conquistou a gloria do seu nome. Essas terras poderão um dia deixar de

ser de Hespanha; mas a gloria do nome de Fernão de Magalhães é que nunca

deixará de ser de Portugal!

[1] Não está bem determinada a data do nascimento de Fernão de

Magalhães; é, todavia, certo que elle nasceu na aldeia de Sabrosa,

de Traz-os-Montes e que seu pae se chamava Pedro, sendo da quarta

nobreza de Portugal, ou fidalgo de cotta d'armas e geração que tem

insignias de nobreza, tendo a sua familia escudo d'armas

enxequetado, ou em quadradinhos como taboleiro de xadrez.

[2] Este testamento só foi conhecido em 1855, segundo diz Arana, que

d'elle teve conhecimento por uma copla de Ferdinand Diniz, que a

houve de um herdeiro de Magalhães.

V

Mediaram cerca de tres annos entre os successos que levaram Fernão de

Magalhães a renegar a nacionalidade portugueza, e a sua entrada em

Sevilha a 20 de outubro de 1517.

Este tempo consumiu-o em estudos de cosmographia e nautica, escrevendo

tambem a sua obra em castelhano sobre as terras que tinha visitado, á

qual deu o titulo: _Descripcion de los reinos, costas, puertos e islas

que hai en el mar de la India oriental i costumbres de sus naturales: su

gobierno, religion, comercio i navegacion, i de los frutos i efectos que

producen aquellas vastas regiones, con otras noticias mui curiosas;

compuesto por Fernando Magallanes, piloto portuguez que lo vio i anduvo

todo._

Esta obra nunca foi publicada, apesar d'isso extrahiram-se d'ella

algumas copias, que alteraram muitos pontos essenciaes das viagens de

Magalhães, o que bastante deprecia o seu conhecimento, e Diego de Barros

Arana, diz que viu em Madrid uma d'essas copias, de letra do seculo XVI

que possuia o erudito bibliophilo D. Paschoal de Gayangos.

Aos estudos que Fernão de Magalhães fazia, ora em Lisboa ora no Porto,

onde tinha mais persistencia, reuniu o conhecimento de Ruy ou Rodrigo

Faleiro da Covilhã, que segundo diz Oviedo, na sua _Historia jeneral de

las Indias_, era homem de grandes conhecimentos de cosmographia,

astrologia e outras sciencias. Faleiro foi de grande auxilio para

Magalhães porque comprenetrando-se do seu pensamento e dos seus planos

associou-se calorosamente á empreza, juntando-se-lhe Francisco Faleiro,

irmão de Rodrigo e que tambem era homem sabido em coisas de nautica.

Magalhães já não se encontrava sosinho com a sua idéa, e isto mais o

animou a proseguir, nos meios de levar á pratica o audacioso plano.

Sem navios nem meios para os adquirir e aprestar, sem nada poder esperar

do rei que o despresara, tinha fatalmente que recorrer a Castella, tanto

mais, que para realisar a sua viagem, não querendo abeirar-se de terras

portuguezas, precisava tocar em terras sujeitas á Hespanha e onde não

era permittido estabelecer trafico sem auctorisação do rei de Castella.

A Carlos V ia offerecer os seus serviços e descobrir os seus planos,

pedindo que lhe fornecesse os meios de os realisar. Mais tarde havia de

Camões cantar, nos seus immortaes Luziadas, os feitos de Magalhães:

Eis-aqui as novas partes do Oriente,

Que vós outros agora ao mundo daes,

Abrindo a porta ao vasto mar patente,

Que com tão forte peito navegaes.

Mas é tambem razão, que no Ponente

D'um Lusitano um feito ainda vejaes,

Que de seu Rei mostrando-se aggravado,

Caminho ha de fazer nunca cuidado.

Vedes a grande terra, que contina

Vae de Callisto ao seu contrario polo,

Que soberba a fará a luzente mina

Do metal, que a côr tem do louro Apollo;

Castella, vossa amiga, será digna

De lançar-lhe o collar ao rudo collo:

Varias provincias tem de varias gentes,

Em ritos e costumes differentes.

Mas cá onde mais se alarga, ali tereis

Parte tambem c'o pao vermelho nota:

De Sancta Cruz o nome lhe poreis;

Descobril-a-ha a primeira vossa frota.

Ao longo d'esta costa, que tereis,

Irá buscando a parte mais remota

O Magalhães, no feito com verdade

Portuguez, porém não na lealdade.

Descobrimento das Filippinas pelo navegador portuguez Fernão de Magalhães · 第 16 / 41 题