Não é proprio dos espiritos aventurosos medir as suas acções pelas
regras da prudencia e da boa razão; se assim não fôra deixaria de haver
a aventura para só prevalecer a fria reflexão, o que tanto monta como o
mundo ter avançado metade do caminho precorrido nos progressos da
humanidade: _Audentes fortuna juvat._
Não se esperem aventuras donde só dominar a intelligencia sem participar
o coração. Os productos da primeira serão admirados e respeitados, mas o
que o segundo produzir ha-de espantar e maravilhar.
Raro se reunem estas qualidades e por isso, quando se encontram em um só
homem, esse homem será um heroe, porque encherá de beneficios a
humanidade.
Comtudo não menos raro é, que a esses homens de espirito e coração
privilegiados, a humanidade tenha aberto os braços antes de lhe mover
uma guerra de morte. Porque elles vêem mais longe que o vulgar dos
espritos, advinhando o que outros não comprehendem, são sempre o alvo da
inveja dos maus a espicaçar a aversão dos nescios.
É por isso que em todos os tempos a intriga tem envolvido os grandes
homens, deturpando-lhe as intenções, maculando-lhe o caracter,
desfazendo de seus meritos, pretendendo annular-lhe as suas obras.
Quantas vezes os ferros de el-rei arroxearam os pulsos dos seus melhores
servidores; quantas o desgosto matou homens a quem a posteridade tem
levantado monumentos!
N'este labyrinto da Historia, que os historiadores nem sempre tem podido
espurgar das paixões, quão difficil é apreciar com justiça o caracter
dos homens que n'ella mais preponderam por suas acções e influencia.
É n'esta difficuldade que nos encontrâmos para definir nitidamente o
caracter de Fernão de Magalhães, avaliando as rasões que o levaram a
deixar a patria e o serviço do seu rei, pelo serviço do imperador das
Hespanhas, por um paiz que era o emulo de Portugal, nas conquistas e
descobertas.
É fóra de duvida que Fernão de Magalhães deveria ter um caracter
independente e ousado, porque outro não se compadecia com o seu espirito
aventuroso; que esse caracter não seria facilmente maleavel como não se
amoldaria ás adulações e hypocrisias da côrte, parece seguro; mas viria
só d'isto o desagrado em que cahiu para com el-rei D. Manuel?
Seria Fernão de Magalhães mais ambicioso que outros, o que não é para
admirar, visto que o seu espirito se dilatava tanto pelo que outros não
viam, e essa ambição miraria mais á gloria do que ao interesse material?
Qualquer das duas seria o bastante para o malquistar com os camaradas e
com os cortezãos.
É certo que um dos motivos de desgosto de Magalhães foi el-rei
desattender-lhe o pedido de augmento de pensão, ao voltar de Azamor,
onde combatera valentemente contra os moiros ao lado de João Soares e
onde fôra ferido em uma perna, de que ficou coxeando; mas se o augmento
pouco valia monetariamente, sobrava-lhe em importancia moral porque,
como diz Faria e Sousa, na _Asia Portugueza_: «Subir cinco reaes em
dinheiro, é subir muitos graus em qualidade», e Lafitau na _Europa
Portugueza_: «... crescer aqui um real é crescer muito em opinião».