VI

Abandonando a patria e o rei, que tão mal apreciara os seus serviços,

Fernão de Magalhães se foi a Sevilha, onde, ainda antes, talvez, de

tratar dos negocios da sua empreza, se lhe prendeu o coração a uns olhos

negros e pestanudos de uma gentil sevilhana, D. Beatriz, filha de Diogo

Barboza.

O bravo soldado que combatera na India e na Africa; o arrojado navegador

que dominara a porcella e queria devassar ignotos mares que a espada de

Balboa havia desafiado, como diz Alexandre de Humboldt--«com a espada na

mão mettia-se á agua até aos joelhos, e pensava apossar-se do mar do sul

em nome de Castella»--o heroe de Azamor, o homem forte que só parecia

viver para a audaz empreza da circumnavegação do globo, rendeu-se aos

encantos de uma mulher, que soube conquistar-lhe o coração e a quem

elle, pouco tempo depois de ter chegado a Sevilha, dava a mão de esposo.

Tambem d'este enlace lhe veio auxilio para os seus planos, porque Diogo

Barbosa, sogro de Fernão de Magalhães, era, como diz Gaspar Correia:

«... homem principal, que sabia navegar no mar, porque era muito

entendido na arte de piloto e era _esperico_--o que quer dizer

_spherico_ ou cosmographo, que sabe da _sphera_.

Effectivamente, segundo Faria e Sousa, na _Asia Portugueza_ e Lafitau na

_Histoire des découvertes et conquetes des portugais_, Diogo Barboza

fizera parte de uma grande expedição que el rei D. Manuel mandou aos

mares da India, em 1501, indo capitaniando um dos navios da frota de

João da Nova, a qual derrotou uma esquadra de mouros que traficavam em

Calcuta e descobriu as ilhas da Conceição e de Santa Helena. Este Diogo

Barboza deixou o serviço de Portugal e se foi a Castella, onde encontrou

protecção em D. Alvaro de Portugal, que havia passado aquelle paiz,

quando seu irmão, o duque de Bragança foi decapitado em Evora por ordem

de El-rei D. João II (1483). D. Alvaro foi recebido pelos reis

catholicos como parente, e lhe deram todas as honras inherentes a tão

alto personagem, confiando-lhe os cargos de presidente do conselho dos

reis e de alcaide do alcaçar de Sevilha, segundo diz Lopez de Haro, no

_Nobiliario de España_ e Ortiz de Zuniga, nos _Anales de Sevilla_.

Tão alta protecção teve a sua influencia em Barboza, que foi elevado a

commendador da ordem de S. Thiago e logar tenente do alcaide do alcaçar

de Sevilha, e assim collocado, casou com a filha de uma das principaes

familias de Sevilha, D. Maria Caldeira.

Viveu Fernão de Magalhães com esta familia durante o tempo que esteve

n'aquella terra e d'ahi lhe veio proveito, porque alem da protecção do

sogro travou relações com Duarte Barboza sobrinho de Diogo, que tambem

viajara para a India e explorara aquelles mares, como prova a relação

das suas viagens, publicada, em parte, na, _Navigazione e viaggi_, do

colleccionador italiano J. B. Ramusio, publicado em 1554, e completa, na

_Collecção de noticias para a historia e geographia das nações

ultramarinas_, publicado em Lisboa, em 1813.

Como se vê, Fernão de Magalhães ia juntando elementos de estudo que lhe

aproveitavam, ao mesmo tempo que alcançava boas protecções para levar a

cabo a sua empreza.

Assim se dirigiu em Sevilha, a uma casa chamada da contratação em que se

tratavam os negocios maritimos e a que Gaspar Correia se refere nas suas

_Lendas da India_: «Em Sevilha tinha o imperador a casa da contratação,

com regedores da fazenda que tinham grandes poderes e trafego de

navegação e armadas. Fernão de Magalhães forte de seu saber e com muita

vontade de anojar el-rei de Portugal, tratou com os regedores da casa da

contratação e disse-lhes: que Malaca e Moluco, ilhas que creavam o

cravo, eram do imperador pelas demarcações que entre ambos havia e por

isso el-rei de Portugal não tinha direito de possuir estas terras: e que

isto elle sustentava em presença de quantos doutores que o contestassem,

pelo que obrigaria a sua cabeça. Os regedores lhe responderam que sabiam

bem que elle fallava verdade; mas que o imperador não mandava lá seus

navios, porque não podia navegar em mares da demarcação de el-rei de

Portugal. Ao que, lhes disse Fernão de Magalhães: Se me derdes navios e

gente eu navegarei para lá sem tocar em mar ou terra de el-rei de

Portugal. E se assim o não fizesse lhe cortassem a cabeça. Os regedores

muito satisfeitos assim escreveram ao imperador o qual lhes respondeu

que sentia prazer com o dito e muito mais sentiria com o feito: que tudo

fizessem os regedores, guardando o seu serviço e as coisas de el-rei de

Portugal, em que não tocassem e antes tudo se perdesse. Com esta

resposta do imperador fallaram a Magalhães o qual continuou a affirmar o

que dizia, de que navegaria e ensinaria o caminho por fóra dos mares de

el-rei de Portugal; que lhe déssem os navios que elle pedisse, gente e

artilheria e o necessario, que elle cumpriria o que dizia e descobriria

novas terras na demarcação do imperador e traria oiro e cravo e canella

e outras riquezas; o que ouviram os regedores desejando muito fazer tão

grande serviço ao imperador, qual o de descobrir esta navegação, e para

terem maior certeza, reuniram pilotos e _espericos_ para sobre isto

discutirem com Magalhães, que a todos deu suas razões e todos

concordaram no que elle dizia e confirmaram que era homem mui sabido.»

Os mares e terras da demarcação do imperador, a que se referia Fernão de

Magalhães, eram os comprehendidos na linha divisoria que o Papa

Alexandre VI marcára a pedido dos reis catholicos afim de evitar

conflictos entre os reis de Castella e de Portugal, pela diligencia em

que estas duas nações andavam de descobrir terras desconhecidas.

A linha traçada pelo Papa, ia de um polo ao outro, 100 leguas ao

occidente dos Açores, dando aos hespanhoes a posse das terras que

descobrissem para esta parte e aos portuguezes as que descobrissem e

conquistassem para o oriente.

A bulla de Alexandre VI que isto concedia começa assim: _De nostra mera

liberalitate, et ex certa sciencia ac de Apostolicæ potestates

plenitudine_ etc.

De nossa mera liberalidade, sciencia certa e plenitude do nosso poder

Apostolico etc.

Depois d'esta demarcação os reis de Portugal e os de Castella acordaram

em fixar a linha divisoria mais 270 leguas ao occidente, pelo que diz

Muñoz na _Historia del Nuevo Mundo_.

Descobrimento das Filippinas pelo navegador portuguez Fernão de Magalhães · 第 17 / 41 题